«A nossa casa é onde nós os dois estamos»

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António e Maria Linhares, casal protestante, emigrou pela segunda vez da Ilha Terceira, nos Açores, para San José, na Califórnia. Da primeira, estiveram 21 anos longe do arquipélago e, quando decidiram voltar a casa, Portugal entrou em crise e deixou de haver trabalho no ramo que os alimentava: o da construção. Ao fim de 13 anos, já à porta dos sessenta, viram-se obrigados a regressar aos EUA, o país para onde já tinham emigrado na juventude. Na ilha, deixaram uma parte da família, assim como os amigos mais chegados e a vivenda que tinham comprado a pronto.

Entramos na residência de António e Maria Linhares, uma mobile home nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e cedo percebemos que esta casa, em teoria desmontável, é uma metáfora para a vida do casal e para o seu entendimento do mundo. António explica-nos que uma mobile home «é uma casa que pode ser mudada. Os alicerces não são fixos. Pode-se pôr rodas de carros e transportar para outro parque. […] A casa é nossa, o terreno não.» O lugar onde vivem é uma construção «móvel», e o carro é um lease. Que nada seja perene não parece atormentá-los.

Queremos explorar o romantismo e perguntamos: «Porquê uma mobile home? A aventura não termina aqui?» A resposta de António não nos deixa perder de vista a realidade:

O preço das casas actualmente, em San José, é muito caro e nós nunca nos iríamos qualificar para comprar uma. As casas estão acima das nossas posses, embora nós os dois ganhemos relativamente bem. Para nos qualificarmos para uma casa, hoje aqui em San José, é muito difícil. Teríamos de ter uma grande quantidade de dinheiro para pôr como down payment, como sinal, e não tínhamos. Quando voltámos para cá viemos sem dinheiro, praticamente – eu trouxe 100 dólares e a Maria trouxe 200. Começámos uma vida de novo outra vez.

Entre a primeira e a segunda emigração dos Linhares, deu-se a bolha imobiliária. Se antes se tinham endividado, porque «havia essa facilidade […] de jogar com os cartões de crédito», agora, guiou-os a preocupação de não viverem acima das suas posses:

Os bancos emprestavam mais facilmente do que emprestam agora, por isso é que em 2008 houve aquela grande quebra na economia que levou muita gente à bancarrota aqui na América. Desta vez não entrámos nesse sistema, entrámos num sistema de não irmos acima das nossas posses: durante dois anos vivemos com a minha cunhada, não temos filhos agora, estamos só nós os dois, podemos controlar melhor as nossas dívidas. Depois de estarmos dois anos com a minha cunhada arrendámos uma casa, sempre de maneira a que tivéssemos hipótese de guardar algum dinheiro para casos de emergência; não comprámos carros novos, comprámos sempre carros usados e acabámos por entrar no sistema do leasing […] Já o disse várias vezes: agora é que estou na América. Sinto-me bem, vivemos à vontade, fazemos as nossas despesas, mas podemos fazê-las porque temos dinheiro para isso.

 

O regresso provisório aos Açores começou por ser uma viagem de sonho, um recomeço limpo, sem dívidas, num lugar «onde sempre foi um sonho voltar», mas cedo se tornou claro que seria apenas a segunda de três etapas:

A minha ideia era não voltar mais aos Estados Unidos, não por não ter gostado de estar cá, mas por causa do traffic, do trabalho, da pressão que tivemos de agarrar dinheiro suficiente para poder pagar dívidas. Quando fomos para [os Açores] comprámos a nossa casa, pagámos na totalidade para não termos dívidas; comprámos o carro, pagámos na totalidade para não termos dívidas… Mas chegámos a um ponto, nos Açores, em que começámos a entrar em dívida. Só eu é que trabalhava e só dava o suficiente para a vida normal, só para comida, gás, roupa, o básico.

No entanto, quando perguntamos se, de alguma forma, sentem que a ilha os rejeitou, Maria é peremptória:

Não foi rejeitar, foi por causa da inflação. Na minha opinião, quando entrou o euro descontrolou tudo: um café custava 50 escudos e foi logo para um euro e um euro não é 50 escudos, são 200. Foi tudo para o dobro, mesmo no supermercado e os ordenados nunca acompanharam.

 António concorda:

Também não achei que tínhamos sido rejeitados – pelo menos pelos nossos familiares e amigos fomos bem recebidos. A gente gostava da ilha, a gente gosta da ilha e gostava de estar lá. Se não tivesse acontecido aquela quebra com Portugal e com a Grécia, que estiveram mal financeiramente, talvez ainda estivéssemos lá – a Maria tinha o seu trabalho, eu tinha o meu e dava para nos mantermos. Quando houve a quebra, quando houve falta de emprego, as construções praticamente pararam e tudo mudou.

 

No parque onde agora vivem, rodeados de outras mobile homes, a população é 99% asiática. A relação que mantêm com os vizinhos é sobretudo cordial, mas «o sistema de vida é cada um para si». Como diz Maria, «é aquele sistema de “olá, bom dia, como é que estão, adeus” e cada um vai para os seus trabalhos». A principal dificuldade é a língua: «muitos deles aqui no bairro não falam inglês».

Longe da família, num bairro de imigrantes asiáticos onde são «estrangeiros», os Linhares poder-se-iam sentir um pouco sós. Mas têm a companhia da irmã viúva de Maria, que visitam com frequência e com quem vão muitas vezes jantar fora, e a comunidade da Igreja Evangélica Baptista, a East Valley Church, onde já tinham sido baptizados da primeira vez que estiveram nos EUA e para onde voltaram.

A igreja acaba por ser, também ela, uma casa «móvel», que tem acompanhado o casal nas suas várias errâncias. Depois do baptismo na Califórnia, continuaram a frequentar a Igreja Baptista em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, quando regressaram aos Açores, e agora voltaram ao ponto de partida. Diz-nos António:

A comunidade da igreja protestante, ou como queiram chamar, é unida. Geralmente, temos vários programas que são feitos durante a semana e que nos juntam uns com os outros. Nós já não frequentávamos muito as festas portuguesas, mas uma vez que nos tornámos protestantes – é a melhor maneira de o dizer, porque todos nós somos cristãos, católicos ou baptistas – afastámo-nos completamente porque não acreditamos naquelas festas. Para além disso, como veio uma nova etapa, como nos afastámos das festas, criámos outros amigos e outros convívios. É completamente diferente. […] É a nossa segunda família.

Conhecendo um pouco dos ideais da Igreja Baptista, ocorre-nos perguntar aos Linhares se esta nova América de Donald Trump é um lugar onde se sentem mais em casa, com as suas crenças e convicções, do que se sentiam na Europa ou no tempo de Barack Obama. António responde sem hesitações.

Felizmente, tivemos o Donald Trump. A Hillary já estava a perseguir os cristãos e a ideia dela era tentar abafar, fazer com que os cristãos tivessem menos e menos poder, menos voz activa no país. Não que Donald Trump seja um santo ou um pastor – ele tem os seus defeitos, tem as suas virtudes, mas veio como uma lufada de ar fresco para os cristãos, porque tirou uma data de pressão. Estávamos a ver-nos ser cada dia mais abafados quando estava o Obama e se tivesse sido a Hillary as coisas, para os cristãos deste país, iam estar mal e mal.

Maria acrescenta: «As crianças não podiam falar de Jesus numa escola, podiam ser expulsas.» E António elabora:

Isto começou a ficar terrível. Não se podia dizer “merry Christmas”, tinha de ser “happy holidays”… Começaram a apertar e a apertar e com a entrada do Donald Trump ele cortou isso tudo, temos a liberdade de expressão cristã que estava a ser muito oprimida. No entanto, nós sabemos que mais tarde ou mais cedo Donald Trump vai sair do governo – o máximo que ele pode estar são oito anos. Se viermos a ter um governo democrata vai voltar a opressão sobre os cristãos. Nós esperamos isso. A bíblia diz-nos isso sobre os últimos tempos, que os cristãos vão ser oprimidos, perseguidos. São profecias que vão ter de se cumprir e nós compreendemos isso.

Quanto à posição do actual Presidente dos EUA relativamente às minorias étnicas e aos imigrantes, António apressa-se a esclarecer:

Não houve presidente nenhum até agora que tivesse mais minorias a trabalhar do que aquelas que ele tem, tanto faz a comunidade preta, como a comunidade hispânica. Há emprego agora como nunca houve antes, o desemprego nos Estados Unidos é de 3.99% e dizem os entendidos que o desemprego nunca esteve tão baixo como agora; a comunidade negra e a comunidade hispânica têm agora mais pessoas empregadas do que nunca. Os gays ele talvez não apoie porque vai mais pela moralidade. O embaixador da Alemanha é gay e ele tem-no como embaixador da Alemanha. Ele não é contra gays, ele não é contra pretos – a media é que tira do contexto. O que ele não faz é o que o Obama fez. O Obama, quando foi o dia da comunidade gay, enfeitou a White House com luzes gay – ele não é para isso.

Nessa América onde agora se sentem mais em casa, António levanta-se muitas vezes às 3 da manhã para ir trabalhar e Maria só tem uma fim-de-semana de folga em dois. Mas fazem as compras no Costco, onde «compram aquilo de que [necessitam] em grandes quantidades», ou no Grocery Outlet, «que é muito mais barato, às vezes metade do preço em muitas coisas» e não dispensam, durante a semana, o papo-seco português, que compram numa padaria popular portuguesa em Allen Road. Quando a saudade aperta, recorrem ao Abel’s Liquor Store, «que vende tudo o que é português – o bacalhau, a morcela, a linguiça, os vinhos…».

Com a família que ficou na Ilha Terceira (o filho Daniel, a nora e um neto) e com a que emigrou para Vancouver, no Canadá (a filha Stacey, o genro e duas crianças), comunicam por video conference, mas também lhes proporcionam algumas visitas à Califórnia. Agora, podem dar-se ao luxo de ajudá-los, mas também não querem «mimá-los» demasiado.

Não. Eles têm de trabalhar pelo que é seu, como nós também trabalhámos por tudo o que temos – ninguém nos deu nada. A nossa família não podia, era muito pobre. Viemos sem nada e voltámos sem nada, começámos a trabalhar para podermos ter. Com muito suor, trabalho e persistência é que a gente tem o que tem. Com muito sacrifício…

Da Ilha Terceira, António guarda a memória de infância dos serões passados com o avô, nos Biscoitos, a vindimar. «Não havia luz, não havia nada, mas vivíamos naquele sistema, com candeeiro ou com velas, e eu adorava aquilo. […] Sim, essa é uma que fica sempre na memória: estar naquela parte da ilha, onde não havia luz, e passar tempos com o meu avô a jogar às cartas, ao burro. Ele ria-se e eu ria-me. Éramos só nós os dois, ele até é que cozinhava para mim. Eu adorei aquela época da infância, do vindimar, ir buscar e acartar uvas, ir para o lagar.»

Já Maria, da infância na Ilha Terceira, recorda a fome:

A memória que tenho é de uma coisa que a minha mãe fazia: todas as vezes que ela cozia o pão – a gente era pobrezinhos, havia dias em que íamos para a cama sem comer, com fome – ela punha um pãozinho na rua, embrulhadinho, para a primeira pessoa que passasse levar.

Na mobile home do casal Linhares, em Pepper Tree Estates, respira-se uma felicidade a que não é alheio um certo desapego das coisas materiais. Queremos saber de onde vem esse desapego, se a sua origem é a adversidade que tão evidentemente marcou a vida de ambos, ou se é algo mais.

Nós não estamos agarrados a nada, isto é tudo temporário. É a maneira de ver do crente: nada disto é nosso, é temporário, Deus dá-nos para usar enquanto estivermos aqui, porque esta vida é curta e a outra é que é eterna. Devemos usá-lo com respeito, no melhor sentido, mas não estamos agarrados a nada. Estou preparado para morrer quando Deus me chamar, a qualquer altura. Gosto muito das minhas coisas, mas se me disserem “tens de te livrar disso, vais para trás, começar de novo noutro lugar” estou pronto para isso.

 Em última instância, o lugar onde vivem deixa de ser relevante.

A nossa nação não é esta, é a nação de Deus. Nada disto nos importa. Somos naturalizados americanos, somos naturalizados portugueses, mas, para nós, isto é temporário.

O que será, então, a casa para António e Maria Linhares? A casa que tanto lhes custou encontrar e pela qual ainda lutam, quase sexagenários, como se a vida de trabalho tivesse mesmo agora começado? É Maria quem nos responde, e a sua resposta não deixa de ser redentora:

A casa é onde nós estamos os dois – se estamos aqui, se estamos em casa da minha irmã, se estamos noutro lugar, se estamos na Terceira. Qualquer lugar onde estamos é a nossa casa.

SEMANA 10

Protagonistas: António e Maria Linhares

Actividade: Indústria da Construção Civil (António); limpezas hospitalares (Maria).

Regresso: San José, Califórnia – Ilha Terceira, Açores.

Anos de ausência: Da primeira vez que emigraram, 21. Da segunda, 5.

«Estou a dar de comer à minha alma»

Jessica Carreira e David Costa
Os chefs Jessica Carreira e David Costa conheceram-se nos bastidores do restaurante Assinatura, de Henrique Mouro, em Lisboa, e apaixonaram-se. Em Dezembro de 2015, abriram o Adega no bairro Little Portugal, em San José, na Califórnia. Dez meses depois, o restaurante era premiado com uma estrela Michelin (entretanto renovada), a primeira de San José. A acompanhar a cozinha de alma lusa, a garrafeira, exclusivamente portuguesa, composta por mais de quinhentos vinhos, foi considerada uma das 100 melhores dos EUA pela prestigiada revista Wine Enthusiast e recebeu este ano o prémio de excelência da Wine Spectator.

No ambiente sóbrio e elegante do Adega, onde andorinhas Bordalo Pinheiro atravessam uma das paredes brancas, perguntamos ao casal se o Adega é o seu sonho americano, ou algo mais – uma missão? Estamos a pensar no que aconteceu ao bairro Little Portugal, perto da Igreja das Cinco Chagas, onde decidiram comprar o Sousa’s, um restaurante de cozinha tradicional portuguesa que, ao fim de 33 anos, fechou as suas portas. David, um português de Santarém que só há três anos pensou em emigrar, é o primeiro a responder-nos: «Eu vejo isto como dar vida ao Little Portugal, que está a morrer, que está a perder-se […] as pessoas mais velhas estão a fechar as suas lojas e os mais novos não estão a dar continuidade, porque também já não funciona uma sapataria, há coisas que estão a perder-se e a mudar. Esse foi o nosso objectivo: que o último restaurante português que existia no Little Portugal continuasse a ser português.»

Jessica, filha de emigrantes portugueses, nascida e criada em San José, reforça esse sentido de missão: «Toda a gente me perguntava o que é Portugal ou onde é Portugal – “é na América Latina?” – “não, Portugal é um país e lá come-se isto. Temos praias magníficas. Vinhos maravilhosos”. Eu queria ter um sítio onde pudesse mostrar Portugal às pessoas americanas: o que é Portugal, o que é a cultura portuguesa, o que é a comida portuguesa, o que é o vinho português.» E acrescenta: «Também pensei nos portugueses, como os meus pais ou os meus avós, que tinham saudades de comer bacalhau, que tinham saudades de comer polvo à lagareiro, queria dar-lhes um sítio onde pudessem vir comer e passar tempo com a família. Para nós, a comida sempre foi família, sempre foi tempo para estarmos juntos, e eu queria criar um espaço para as famílias portuguesas estarem à volta de uma mesa e terem os sabores lá de casa.»

As respostas vão muito depressa ao lugar que procuramos, o da memória, o do regresso. Jessica conta-nos que grande parte das receitas que figuram na ementa do Adega é inspirada nos pratos que se cozinhavam na casa da sua família, e na casa da família de David. E esse receituário já pôs alguns clientes a chorar. Mais do que a estrela Michelin, mais do que todos os outros prémios e distinções que o Adega já recebeu, Jessica prefere ouvir as palavras: «a tua comida parece a da minha avó.» E acrescenta, emocionada: «A comida cria memórias. Se te queres sentir feliz, comes uma coisa, se queres voltar a uma dada altura no tempo, comes outra coisa.»

Sem o saberem, os dois chefs já não estão apenas a falar-nos da experiência que proporcionam, mas do seu próprio método – aquilo que os motiva, o segredo da sua cozinha. Diz-nos Jessica: «Eu quero que o cliente tenha aquele clique que eu tenho quando estou a fazer a comida, quando estou a provar – come o caracol, come o polvo e diz: “parece que estou em casa da minha avó, parece que estou naquela tasca, parece que estou à beira-mar”. Eu quero levar aquela pessoa ali. […] Por exemplo, quando como caracóis, lembro-me de estar à beira-mar a comer caracóis e a beber uma cerveja. So, tento voltar e pensar: aqueles caracóis tinham que sabor? Tinham alho, mas o que era aquela especiaria? Orégãos. É assim que eu faço combinações. E aquele polvo à lagareiro que comi naquela tasca do Porto? Louro, temos de meter louro. São coisas assim: tenho de voltar no tempo, lembrar-me de sabores, não tanto de cheiros, mas de sabores que fazem aquele clique, ok, é isto que está a faltar.»

Para David, comida e emoção são indissociáveis, como se, na cabeça do jovem chef, uma emoção tivesse sempre um paladar e um determinado prato uma existência que é espiritual antes de ser física: «A comida mexe contigo emocionalmente, porque te liga a outras coisas – liga-te à tua família, liga-te à tua avó, liga-te a um determinado espaço, a uma determinada cidade, a um determinado local, a um determinado ambiente… Faz-te regressar a muitos sítios. Às vezes, nem comes. Por exemplo, se te falar do cozido à portuguesa que a minha avó fazia nos tachos de ferro na lareira – isso faz-me reviver tanta coisa, tanta memória, tanto momento, tanta emoção, coisas que nunca mais vou poder viver, nem sei se vou poder fazer.» Tenta dar-nos um exemplo concreto, mas percebêmo-lo ainda melhor quando é vago: «Há coisas que a minha avó fazia que eu adoro e que, às vezes, tenho medo de fazer, porque não vou conseguir chegar lá. Quero experimentar, tenho esse desejo, só que faz-me viver tanta coisa ao mesmo tempo que me ponho a pensar: não, acho que não devo experimentar isto. Se calhar ainda não é o momento certo para mim, acho que posso desiludir-me a mim próprio. Não é no mau sentido, mas fazer uma coisa, perder três, quatro, cinco horas e chegar ao fim e dizer: “ainda não consegui chegar lá”…»

Ficamos com a sensação de que esta procura, a da memória pura, a do sabor autêntico que lhe está associada, pode ser, no limite, uma forma de loucura – e de arte também. Jessica confirma as nossas suspeitas, sem ter receio de estabelecer a ponte: «É interessante. Os artistas conseguem desenhar coisas que vêem na sua cabeça e eu sempre admirei isso: os pintores pintam, os escritores escrevem… Eu cozinho. Quando quero voltar a um sítio, quando quero ver de novo uma coisa que está na minha cabeça , eu cozinho, crio sabores. É a minha maneira de me expressar e de voltar.»

Neste nosso tempo em que a comida é rodeada de tantas obsessões, de tantos fundamentalismos, a voz de Jessica recupera uma verdade que já julgávamos esquecida: «Tu podes comer para dar nutrientes ao teu corpo – conheço muita gente que come assim. Eu não estou só a dar de comer ao meu corpo, estou a dar de comer à minha alma. É assim que eu como, e é assim que quero servir os meus clientes, dando-lhes algo para a alma.»

Para os americanos que visitam o Adega, a experiência não é tanto a do regresso, mas a da descoberta. Na visão de David, a demanda do Adega é evidente: «transmitir a nossa cultura. […] Ainda ontem fiz uns carapauzinhos de escabeche, que são uns peixinhos que se comem inteiros – isso é a minha cultura. A minha cultura é comer mão de vaca, a minha cultura é comer tripas, isso para mim é cultural. As pessoas vêm e querem essa experiência. Acho que isso é uma coisa que o cliente americano tem que é muito boa – os americanos e todas as comunidades aqui de uma maneira geral: quando vêm, querem ter a experiência.»

As raízes de Jessica estão no Faial, é a terra da avó, é a terra da mãe, mas só visitou os Açores pela primeira vez em 2018, com David, no âmbito do festival «Dez Dias, Dez Chefes», em São Miguel. Quando lhe perguntamos se os Açores corresponderam às suas expectativas, diz-nos que nunca pensou que as ilhas fossem tão bonitas e que até lhe custa imaginar que a família tenha conseguido sair de lá. «Eu não saía!» Nas Furnas, David cozinhou um Rabo de Boi, um prato que também faz parte da ementa do Adega, e uma sopa de milho com o milho cozido no local, que lhe deu um travo azedo, eliminando parte da sua doçura . No caso do Rabo de Boi, fez questão de percorrer todos os passos: «Deixei a carne a marinar e, no dia seguir, o chef disse-me: “se quiseres eu vou lá às 7 da manhã, ponho e, depois, vou lá buscar”. E eu disse que não: “quero ter essa experiência, quero ser eu a pôr, quero viver esse momento – esse momento que muitos açorianos viveram e muitas pessoas vivem.” É um ritual, é cultural.»

Chegamos à parte final da entrevista, aquela em que convidamos Jessica e David a contemplarem o futuro do Adega . Para Jessica, dez anos é muito tempo, acha que vai sentir-se «muito mais velha, não com tanta energia», mas vê o Adega a multiplicar-se, sem nunca perder a identidade original. Para David, só há uma certeza: «o Adega vai continuar a ser português, vai continuar a transmitir muitas sensações portuguesas, vai continuar a fazer-me sonhar, fazer ver a minha casa, a minha família, os meus amigos. Isso ninguém vai tirar-me desta casa.»

Queremos acreditar no prodígio, na procura desinteressada da perfeição, aquela que faz com que Jessica nos diga que «não acorda de manhã para ser uma estrela chef, mas para ser cozinheira» e com que David afirme, peremptório, que «continua a ser cozinheiro e que há-de morrer cozinheiro [porque] chef é [apenas] o posto». Mas já no início deste ano foram convidados para fazer dois programas de televisão. No limite, sonho e sucesso, serão conciliáveis?

SEMANA 7

Protagonistas: Jessica Carreira e David Costa

Actividade: chefs do restaurante Adega, em San José, na Califórnia.

Regresso: San José, Califórnia – Ilha do Faial, Açores (Jessica); San José, Califórnia – Santarém (David)

Anos de ausência: 3 anos (David); nenhum (Jessica nasceu em San José, embora a família seja do Faial)