A delicadeza de um furacão

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Crónica

Ontem, a ilha adormeceu sob alerta de tempestade. Antes de ir deitar-me, corri os estores de todas as janelas, olhei para os meus cães, ligeiramente sobressaltados, e repeti-lhes várias vezes a palavra «vento», que lhes ensinei quando tinham meses, porque um nome pode ser o melhor antídoto para o medo.

Dormi a ouvir a força do ar a passar pelos Dois Caminhos e a decidir, como um louco que não sabe para onde vai, dividir-se ao meio, metade pelo Caminho de Além e a outra pela Fonte da Faneca. E dali acenderam-se no meu espírito as artérias da Terra Chã, que percorri de olhos fechados, pela noite dentro, até a luz do sol a bater nas vidraças se tornar mais ensurdecedora do que o ruído do vento.

Saio de casa cedo, de olhos semicerrados, e paro a saudar um vizinho sentado nos degraus da entrada. Ele responde-me com um sorriso complacente. Sinto as pernas pesadas, mas desço a rua a correr. Quero chegar ao cruzamento, porque sei que lá ao fundo, no princípio da Canada dos Folhadais, o mar aparece recortado no relevo da ilha – e puxa-me para dentro.

Uma corrida é uma espécie de abandono. Parte de nós não está ali. Corremos para chegar a esse lugar onde somos e não somos ao mesmo tempo. É um desaparecimento feliz, que se traduz em gramas, mas os gramas que perdemos não são água apenas: são desejos irresolúveis, taras que nos perseguem, metas que não cumprimos – porque continuámos sem dar por elas. A verdade é que nunca parámos de correr.

Na Silveira, explode a luz. Há banhistas no mar tempestuoso, vejo o delírio dos seus corpos brancos a esbracejar. Deixo-me envolver pelo cheiro quente da praia, sigo pelo canto do olho essa onda grande que entrou agora – e continuo. Da Aberta até ao Negrito, o vento bate-me de frente e estendem-se quilómetros de estrada e mar. Mas nunca, em nenhum ponto da ilha, ele nos ameaça, o que não deixa de ser avassalador. Que a delicadeza da geografia torne tudo mais angustiante.

Queríamos que o oceano espelhasse o que nos vai por dentro – os mastros partidos, as velas rasgadas, as cordas de salvação. Queríamos a fúria de Emily Watson em Breaking the Waves e a paixão de Ingrid Bergman à beira do vulcão. Mas há fogos extintos que nos acompanham a vida inteira e são eles que nos ensinam a disciplinar as nossas emoções.

Muitas vezes, quando corro, sinto um segundo coração. Ouço, em São Mateus, o tumulto dos barcos atracados no cais, as asas dos pássaros a lutarem contra o vento, o riso dos pescadores que não se fizeram ao mar e, lá no meio, um coração a bater ao meu lado que já nem é o meu. Foi Julian Barnes quem o disse – the past beats inside me like a second heart.

Então, desvio os olhos para o porto e percebo. É Peniche ao pôr do sol. É o frio na praia do Baleal quando o nevoeiro ainda não se levantou. São os meus pés na água gelada a dizerem-me que o Verão começou. É a criança que eu fui nesse areal onde a maré recuava até desaparecer. É a minha prancha de esferovite a subir uma onda de cada vez. A capela de pedra, isolada, e os saltos da falésia para o mar. São as travessias a nado e as primeiras noites passadas em branco, a filosofar.

É o sorriso dos meus amigos de infância a dizerem-me que a aventura ainda não acabou.

«Voltei para fazer o que não tinha feito»

maria fraga e amigas

Maria de Jesus Fraga (segunda a contar da esquerda) emigrou com os dois filhos de colo para o Canadá: sobreviveu à neve de Toronto e trocou-a pelo sol da Califórnia, onde permaneceu 22 anos

Há dezasseis anos, deixou-os de vida feita na Califórnia e voltou com o marido para a ilha onde nasceu. Agora, vende filhoses nas festas de São João, integrada num grupo de devotas que contribui para o restauro de uma igreja mutilada pelo terramoto de 1980. Fez novas amigas, recuperou as antigas, e veio reclamar à terra a infância que esta lhe roubou.

«Sabe quando é que eu brinquei?», pergunta, num intervalo da venda de filhoses, enquanto se ouve ao longe a fanfarra das marchas de São João. «O que eu não fiz antes, fui fazer depois. Vim saltar à corda aqui para a Terceira».

Tinha 60 anos quando saltou à corda pela primeira vez, no Centro de Convívio para a Terceira Idade da Freguesia da Ribeirinha. Tinham-se mascarado todos de crianças, explica, por alturas do Carnaval, e levado à cena brincadeiras várias, no cenário de uma escola fictícia, vagamente inspirada naquelas onde tinham andado.

«Foi mais uma coisa que a minha mãe me tirou», reflecte, tendo o cuidado de acrescentar, «porque ela não podia». Maria de Jesus era a mais velha de oito irmãos e a mãe tirou-a da escola antes de ela chegar à quarta classe. Tinha de ajudar a família nessa Terceira dos anos 1950 onde, na maioria das casas, «não havia nada. Nem rádio, nem televisão, nem magazines, nada». Recorda com uma certa nostalgia a pia de pedra onde lavava a roupa suja da lavoura, com água fria. Aprendeu a bordar, a fazer croché e a costurar (saberes que ainda hoje pratica) e, quando a família vendeu um boi para comprar uma máquina de costura, quis ir fazer um curso à cidade. Os pais não a deixaram. Recearam que fosse um pretexto para ir namorar.

O pretendente, com quem celebrou o ano passado as Bodas de Ouro, veio pedi-la em namoro no seu regresso de Angola. Tinham trocado correspondência e, durante dois anos, ele fez-lhe a corte à janela, às quintas e aos domingos, até se proporcionar o casamento. De Angola, trouxera uma ideia na cabeça – «a ideia de embarcar» – e, já depois de casado, de visita ao Canadá, em 1969, decidiu ficar por lá a trabalhar. Maria de Jesus juntou-se ao marido dezanove meses mais tarde, com o filho de um ano e a filha de 3 meses. Ficaram dez anos em Toronto. Seguiram-se mais trinta e três na Califórnia, primeiro em Tulare, depois em Modesto.

De dois em dois anos, enquanto os pais dela ainda eram vivos, vinham visitar a Terceira. Maria de Jesus notava: «a filarmónica está mais fraca; a igreja diferente, mais vazia». Trabalhou muitos anos, em fábricas e, em Modesto, na casa de uma família rica (a do patrão do seu marido), onde ficou 13 anos. Assistiu ao crescimento dos filhos deles, enquanto os seus próprios filhos cresciam, ganhando raízes na Califórnia.

«Sempre falámos português em casa», afirma, dizendo-nos que o marido não queria que os filhos perdessem a sua língua de origem. Mas a velha correspondência do casal quando ele estava em Angola foi toda parar à lareira. «Eles não iam perceber aquelas cartas porque não lêem bem o português.» E, não podendo deixar o legado aos filhos, também não o deixariam à mercê de curiosos. Das cartas que documentavam aqueles anos, só ficaram «umas quadras, que ele me escreveu».

Em 2002, o casal decidiu que estava na hora de regressar. Num contentor de 40 pés, trouxeram os seus haveres dos EUA e mudaram-se para a casa que haviam comprado na Terceira. Os filhos, criados na Califórnia, tinham ficado para trás. Ao ver a casa, o pai de Maria Fraga admirara-se: «Eh, mulher, p’ra quê uma casa tanto grande só p’ra duas pessoas?». Era pequenina a casa dos pais, e lá tinham morado dez. «As casas cresceram», dissera ele, «e as famílias mingaram».

Na sua casa na Ribeirinha, com vista para os ilhéus, onde cada peça de decoração é uma conquista e a coroa do Espírito Santo ocupa um lugar central na mesa de madeira envernizada da sala de jantar, Maria de Jesus recorda sem medo das lágrimas e com uma precisão desconcertante uma longa viagem que, no fim, a separou dos filhos e dos netos. Ao contrário de muitos que foram e nunca chegaram a voltar, ela e o marido deixaram a família na Califórnia e fizeram questão de regressar. «Vim fazer aquilo que não fiz», repete. «Eu tinha de ter doze braços para fazer tudo aquilo que quero fazer.» Critica a letargia das vizinhas, que nunca querem participar em nada e, no entanto, lamenta: «Mas os melhores anos já andaram».

Maria de Jesus Fraga trouxe consigo para a Terceira uma sede de viver intacta, quase infantil, como se o recreio onde não brincou na infância, ao fim de tantos anos, ainda estivesse à sua espera. O tempo, porém, atraiçoou-a.

Maria de Jesus faz parte do grupo de senhoras que passam as festas populares da ilha Terceira a cozinhar filhoses para angariar fundos no sentido de reconstruir a talha dourada da igreja da Ribeirinha

SEMANA 4

Protagonista: Maria de Jesus Fraga

Idade: 73 anos

Actividade: aposentada

Regresso: Toronto -> Tulare -> Ribeirinha, Ilha Terceira

Anos de ausência: 22 anos

«Fazer»

fa·zer |ê|
(latim facio-ere)

verbo transitivo

1. Dar existênciaser autor de (ex.: fez uma obra notável). = CRIAROBRARPRODUZIR

2. Dar ou tomar determinada forma (ex.: façam uma fila). = FORMAR

3. Realizarexecutar (ex.: fazer a limpezafez um gesto de atenção).

4. Agir com determinados resultados (ex.: fazer um errofazer um favor).

5. Fabricar (ex.: fizera um produto inovador).

6. Compor (ex.: fazer versos).

7. Construir (ex.: a construtora está a fazer uma urbanização).

8. Praticar (ex.: ele faz judo).

9. Ser causa de (ex.: esta imagem faz impressão). = CAUSARORIGINARMOTIVARPRODUZIRPROVOCAR

10. Obrigar a (ex.: fizeste-me voltar atrás).

11. Desempenhar um papel (ex.: fiz uma personagem de épocavai fazer de mau na novela). = REPRESENTAR

12. Ultimarconcluir.

13. Completar determinado tempo (ex.: a empresa  fez 20 anos).

14. Arranjar ou cuidar de (ex.: fazer a barbafazer as unhas).

15. Tentar (ex.: faço por resolver os problemas que aparecem).

16. Tentar passar por verdadeiro ou real (ex.: não faças de parvo). = APARENTARFINGIRSIMULAR

17. Atribuir uma imagem ou qualidade a (ex.: ele fazia da irmã uma santa).

18. Mudar para (ex.: as dificuldades fizeram-nos mais criativos ). = TORNAR

19. Trabalhar em determinada actividade (ex.: fazia traduções).

20. Conseguiralcançar (ex.: fez a pontuação máxima).

21. Cobrir determinada distância (ex.: fazia 50 km por dia). = PERCORRER

22. Ter como lucro (ex.: nunca fizemos mais de 15000 por ano). = GANHAR

23. Ser igual a (ex.: cem litros fazem um hectolitro). = EQUIVALER

24. Exercer as funções de (ex.: a cabeleireira faz também de manicure). = SERVIR

25. Dar um uso ou destino (ex.: fez da camisola um pano do chão).

26. Haver determinada condição atmosférica (ex.: a partir de amanhãvai fazer frio). [Verbo impessoal]

27. Seguido de certos substantivos ou adjectivoscorresponde ao verbo correlativo (ex.: fazer abalo [abalar], fazer violência [violentar]; fazer fraco [enfraquecer]).

verbo pronominal

28. Passar a ser (ex.: este rapaz fez-se um homem). = TORNAR-SETRANSFORMAR-SE

29. Seguir a carreira de (ex.: fez-se advogada).

30. Desenvolver qualidades (ex.: ele fez-se e estamos orgulhosos).

31. Pretender passar por (ex.: fazer-se difícilfazer-se de vítima). = FINGIR-SEINCULCAR-SE

32. Julgar-se (ex.: eles são medíocresmas fazem-se importantes).

33. Adaptar-se a (ex.: fizemo-nos aos novos hábitos). = ACOSTUMAR-SEAFAZER-SEHABITUAR-SE

34. Tentar conseguir (ex.: estou a fazer-me a um almoço grátis).

35. Cortejar (ex.: anda a fazer-se ao colega).

36. Iniciar um percurso em (ex.: vou fazer-me à estrada).

37. Levar alguém a perceber ou sentir algo (ex.: fazer-se compreenderfazer-se ouvir).

38. Haver determinada circunstância (ex.:  se fez noite).

39. Ter lugar (ex.: a entrega faz-se das 9h às 21h). = ACONTECEROCORRER

substantivo masculino

40. Obratrabalhoacção.

“fazer”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/fazer [consultado em 25-07-2018].