«A nossa casa é onde nós os dois estamos»

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António e Maria Linhares, casal protestante, emigrou pela segunda vez da Ilha Terceira, nos Açores, para San José, na Califórnia. Da primeira, estiveram 21 anos longe do arquipélago e, quando decidiram voltar a casa, Portugal entrou em crise e deixou de haver trabalho no ramo que os alimentava: o da construção. Ao fim de 13 anos, já à porta dos sessenta, viram-se obrigados a regressar aos EUA, o país para onde já tinham emigrado na juventude. Na ilha, deixaram uma parte da família, assim como os amigos mais chegados e a vivenda que tinham comprado a pronto.

Entramos na residência de António e Maria Linhares, uma mobile home nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e cedo percebemos que esta casa, em teoria desmontável, é uma metáfora para a vida do casal e para o seu entendimento do mundo. António explica-nos que uma mobile home «é uma casa que pode ser mudada. Os alicerces não são fixos. Pode-se pôr rodas de carros e transportar para outro parque. […] A casa é nossa, o terreno não.» O lugar onde vivem é uma construção «móvel», e o carro é um lease. Que nada seja perene não parece atormentá-los.

Queremos explorar o romantismo e perguntamos: «Porquê uma mobile home? A aventura não termina aqui?» A resposta de António não nos deixa perder de vista a realidade:

O preço das casas actualmente, em San José, é muito caro e nós nunca nos iríamos qualificar para comprar uma. As casas estão acima das nossas posses, embora nós os dois ganhemos relativamente bem. Para nos qualificarmos para uma casa, hoje aqui em San José, é muito difícil. Teríamos de ter uma grande quantidade de dinheiro para pôr como down payment, como sinal, e não tínhamos. Quando voltámos para cá viemos sem dinheiro, praticamente – eu trouxe 100 dólares e a Maria trouxe 200. Começámos uma vida de novo outra vez.

Entre a primeira e a segunda emigração dos Linhares, deu-se a bolha imobiliária. Se antes se tinham endividado, porque «havia essa facilidade […] de jogar com os cartões de crédito», agora, guiou-os a preocupação de não viverem acima das suas posses:

Os bancos emprestavam mais facilmente do que emprestam agora, por isso é que em 2008 houve aquela grande quebra na economia que levou muita gente à bancarrota aqui na América. Desta vez não entrámos nesse sistema, entrámos num sistema de não irmos acima das nossas posses: durante dois anos vivemos com a minha cunhada, não temos filhos agora, estamos só nós os dois, podemos controlar melhor as nossas dívidas. Depois de estarmos dois anos com a minha cunhada arrendámos uma casa, sempre de maneira a que tivéssemos hipótese de guardar algum dinheiro para casos de emergência; não comprámos carros novos, comprámos sempre carros usados e acabámos por entrar no sistema do leasing […] Já o disse várias vezes: agora é que estou na América. Sinto-me bem, vivemos à vontade, fazemos as nossas despesas, mas podemos fazê-las porque temos dinheiro para isso.

 

O regresso provisório aos Açores começou por ser uma viagem de sonho, um recomeço limpo, sem dívidas, num lugar «onde sempre foi um sonho voltar», mas cedo se tornou claro que seria apenas a segunda de três etapas:

A minha ideia era não voltar mais aos Estados Unidos, não por não ter gostado de estar cá, mas por causa do traffic, do trabalho, da pressão que tivemos de agarrar dinheiro suficiente para poder pagar dívidas. Quando fomos para [os Açores] comprámos a nossa casa, pagámos na totalidade para não termos dívidas; comprámos o carro, pagámos na totalidade para não termos dívidas… Mas chegámos a um ponto, nos Açores, em que começámos a entrar em dívida. Só eu é que trabalhava e só dava o suficiente para a vida normal, só para comida, gás, roupa, o básico.

No entanto, quando perguntamos se, de alguma forma, sentem que a ilha os rejeitou, Maria é peremptória:

Não foi rejeitar, foi por causa da inflação. Na minha opinião, quando entrou o euro descontrolou tudo: um café custava 50 escudos e foi logo para um euro e um euro não é 50 escudos, são 200. Foi tudo para o dobro, mesmo no supermercado e os ordenados nunca acompanharam.

 António concorda:

Também não achei que tínhamos sido rejeitados – pelo menos pelos nossos familiares e amigos fomos bem recebidos. A gente gostava da ilha, a gente gosta da ilha e gostava de estar lá. Se não tivesse acontecido aquela quebra com Portugal e com a Grécia, que estiveram mal financeiramente, talvez ainda estivéssemos lá – a Maria tinha o seu trabalho, eu tinha o meu e dava para nos mantermos. Quando houve a quebra, quando houve falta de emprego, as construções praticamente pararam e tudo mudou.

 

No parque onde agora vivem, rodeados de outras mobile homes, a população é 99% asiática. A relação que mantêm com os vizinhos é sobretudo cordial, mas «o sistema de vida é cada um para si». Como diz Maria, «é aquele sistema de “olá, bom dia, como é que estão, adeus” e cada um vai para os seus trabalhos». A principal dificuldade é a língua: «muitos deles aqui no bairro não falam inglês».

Longe da família, num bairro de imigrantes asiáticos onde são «estrangeiros», os Linhares poder-se-iam sentir um pouco sós. Mas têm a companhia da irmã viúva de Maria, que visitam com frequência e com quem vão muitas vezes jantar fora, e a comunidade da Igreja Evangélica Baptista, a East Valley Church, onde já tinham sido baptizados da primeira vez que estiveram nos EUA e para onde voltaram.

A igreja acaba por ser, também ela, uma casa «móvel», que tem acompanhado o casal nas suas várias errâncias. Depois do baptismo na Califórnia, continuaram a frequentar a Igreja Baptista em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, quando regressaram aos Açores, e agora voltaram ao ponto de partida. Diz-nos António:

A comunidade da igreja protestante, ou como queiram chamar, é unida. Geralmente, temos vários programas que são feitos durante a semana e que nos juntam uns com os outros. Nós já não frequentávamos muito as festas portuguesas, mas uma vez que nos tornámos protestantes – é a melhor maneira de o dizer, porque todos nós somos cristãos, católicos ou baptistas – afastámo-nos completamente porque não acreditamos naquelas festas. Para além disso, como veio uma nova etapa, como nos afastámos das festas, criámos outros amigos e outros convívios. É completamente diferente. […] É a nossa segunda família.

Conhecendo um pouco dos ideais da Igreja Baptista, ocorre-nos perguntar aos Linhares se esta nova América de Donald Trump é um lugar onde se sentem mais em casa, com as suas crenças e convicções, do que se sentiam na Europa ou no tempo de Barack Obama. António responde sem hesitações.

Felizmente, tivemos o Donald Trump. A Hillary já estava a perseguir os cristãos e a ideia dela era tentar abafar, fazer com que os cristãos tivessem menos e menos poder, menos voz activa no país. Não que Donald Trump seja um santo ou um pastor – ele tem os seus defeitos, tem as suas virtudes, mas veio como uma lufada de ar fresco para os cristãos, porque tirou uma data de pressão. Estávamos a ver-nos ser cada dia mais abafados quando estava o Obama e se tivesse sido a Hillary as coisas, para os cristãos deste país, iam estar mal e mal.

Maria acrescenta: «As crianças não podiam falar de Jesus numa escola, podiam ser expulsas.» E António elabora:

Isto começou a ficar terrível. Não se podia dizer “merry Christmas”, tinha de ser “happy holidays”… Começaram a apertar e a apertar e com a entrada do Donald Trump ele cortou isso tudo, temos a liberdade de expressão cristã que estava a ser muito oprimida. No entanto, nós sabemos que mais tarde ou mais cedo Donald Trump vai sair do governo – o máximo que ele pode estar são oito anos. Se viermos a ter um governo democrata vai voltar a opressão sobre os cristãos. Nós esperamos isso. A bíblia diz-nos isso sobre os últimos tempos, que os cristãos vão ser oprimidos, perseguidos. São profecias que vão ter de se cumprir e nós compreendemos isso.

Quanto à posição do actual Presidente dos EUA relativamente às minorias étnicas e aos imigrantes, António apressa-se a esclarecer:

Não houve presidente nenhum até agora que tivesse mais minorias a trabalhar do que aquelas que ele tem, tanto faz a comunidade preta, como a comunidade hispânica. Há emprego agora como nunca houve antes, o desemprego nos Estados Unidos é de 3.99% e dizem os entendidos que o desemprego nunca esteve tão baixo como agora; a comunidade negra e a comunidade hispânica têm agora mais pessoas empregadas do que nunca. Os gays ele talvez não apoie porque vai mais pela moralidade. O embaixador da Alemanha é gay e ele tem-no como embaixador da Alemanha. Ele não é contra gays, ele não é contra pretos – a media é que tira do contexto. O que ele não faz é o que o Obama fez. O Obama, quando foi o dia da comunidade gay, enfeitou a White House com luzes gay – ele não é para isso.

Nessa América onde agora se sentem mais em casa, António levanta-se muitas vezes às 3 da manhã para ir trabalhar e Maria só tem uma fim-de-semana de folga em dois. Mas fazem as compras no Costco, onde «compram aquilo de que [necessitam] em grandes quantidades», ou no Grocery Outlet, «que é muito mais barato, às vezes metade do preço em muitas coisas» e não dispensam, durante a semana, o papo-seco português, que compram numa padaria popular portuguesa em Allen Road. Quando a saudade aperta, recorrem ao Abel’s Liquor Store, «que vende tudo o que é português – o bacalhau, a morcela, a linguiça, os vinhos…».

Com a família que ficou na Ilha Terceira (o filho Daniel, a nora e um neto) e com a que emigrou para Vancouver, no Canadá (a filha Stacey, o genro e duas crianças), comunicam por video conference, mas também lhes proporcionam algumas visitas à Califórnia. Agora, podem dar-se ao luxo de ajudá-los, mas também não querem «mimá-los» demasiado.

Não. Eles têm de trabalhar pelo que é seu, como nós também trabalhámos por tudo o que temos – ninguém nos deu nada. A nossa família não podia, era muito pobre. Viemos sem nada e voltámos sem nada, começámos a trabalhar para podermos ter. Com muito suor, trabalho e persistência é que a gente tem o que tem. Com muito sacrifício…

Da Ilha Terceira, António guarda a memória de infância dos serões passados com o avô, nos Biscoitos, a vindimar. «Não havia luz, não havia nada, mas vivíamos naquele sistema, com candeeiro ou com velas, e eu adorava aquilo. […] Sim, essa é uma que fica sempre na memória: estar naquela parte da ilha, onde não havia luz, e passar tempos com o meu avô a jogar às cartas, ao burro. Ele ria-se e eu ria-me. Éramos só nós os dois, ele até é que cozinhava para mim. Eu adorei aquela época da infância, do vindimar, ir buscar e acartar uvas, ir para o lagar.»

Já Maria, da infância na Ilha Terceira, recorda a fome:

A memória que tenho é de uma coisa que a minha mãe fazia: todas as vezes que ela cozia o pão – a gente era pobrezinhos, havia dias em que íamos para a cama sem comer, com fome – ela punha um pãozinho na rua, embrulhadinho, para a primeira pessoa que passasse levar.

Na mobile home do casal Linhares, em Pepper Tree Estates, respira-se uma felicidade a que não é alheio um certo desapego das coisas materiais. Queremos saber de onde vem esse desapego, se a sua origem é a adversidade que tão evidentemente marcou a vida de ambos, ou se é algo mais.

Nós não estamos agarrados a nada, isto é tudo temporário. É a maneira de ver do crente: nada disto é nosso, é temporário, Deus dá-nos para usar enquanto estivermos aqui, porque esta vida é curta e a outra é que é eterna. Devemos usá-lo com respeito, no melhor sentido, mas não estamos agarrados a nada. Estou preparado para morrer quando Deus me chamar, a qualquer altura. Gosto muito das minhas coisas, mas se me disserem “tens de te livrar disso, vais para trás, começar de novo noutro lugar” estou pronto para isso.

 Em última instância, o lugar onde vivem deixa de ser relevante.

A nossa nação não é esta, é a nação de Deus. Nada disto nos importa. Somos naturalizados americanos, somos naturalizados portugueses, mas, para nós, isto é temporário.

O que será, então, a casa para António e Maria Linhares? A casa que tanto lhes custou encontrar e pela qual ainda lutam, quase sexagenários, como se a vida de trabalho tivesse mesmo agora começado? É Maria quem nos responde, e a sua resposta não deixa de ser redentora:

A casa é onde nós estamos os dois – se estamos aqui, se estamos em casa da minha irmã, se estamos noutro lugar, se estamos na Terceira. Qualquer lugar onde estamos é a nossa casa.

SEMANA 10

Protagonistas: António e Maria Linhares

Actividade: Indústria da Construção Civil (António); limpezas hospitalares (Maria).

Regresso: San José, Califórnia – Ilha Terceira, Açores.

Anos de ausência: Da primeira vez que emigraram, 21. Da segunda, 5.

«No Pico, ainda sou o rapaz que emigrou»

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Ângelo Garcia, natural do Pico, emigrou em 1971, com quinze anos, para os EUA. Formado em Engenharia Civil na San José State University, trabalhou para a Oracle nos anos oitenta, para a Adobe nos anos noventa e, em 2004, foi contratado por George Lucas. É hoje presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties. Pelo caminho, recusou por duas vezes trabalhar com Steve Jobs. Na Lucasfilm, liderou a construção do edifício SandCrawler, em Singapura, e cabe-lhe agora concretizar o sonho mais recente do ex-realizador de cinema: o Lucas Museum of Narrative Art, que abrirá portas em Los Angeles no fim de 2021.

Quando lhe perguntamos, admirativos, o que trouxe do Pico, nos anos 70, para conseguir chegar tão longe em tão pouco tempo, Ângelo Garcia responde-nos com uma frase apenas: «a habilidade de não ter medo.» Ficamos à espera que elabore, mas não o faz. O laconismo amável combina bem com o sorriso cândido que lhe muda o rosto sempre que nos fala da sua ilha, e com o olhar distante, de homem de negócios, que não cessa de avaliar o seu interlocutor.

Em 2004, exigiu a Georges Lucas o impossível: um mês completo de férias, todos os anos, para poder voltar a casa. Encontramo-lo no seu escritório, no Presidio, na véspera da partida para os Açores. «O que é que faz de si um homem do Pico?», queremos saber, conscientes de que vive alheado do mundo imigrante português, ou não lhe exigisse a profissão que resida «a cem por cento num mundo americano». De novo, a resposta é concisa: «ser um homem corajoso.»

Tentamos romancear, acrescentar palavras à sua economia narrativa, e falamos-lhe do pai, que foi baleeiro. Essa coragem, herda-se? Conta-nos, então, que o progenitor, os primos e os amigos lhe falavam do fascínio pela baleação, da coragem que era preciso ter, e à pergunta «alguma vez na vida teve de ser baleeiro?», responde-nos com um ar sério: «quase todos os anos.» E acrescenta: «Nós temos de estar sempre a lutar e é preciso ter coragem para lutar – às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, mas é preciso estar sempre a lutar.»

Numa altura em que a maior parte dos pais de família emigrados punha os filhos a trabalhar, o pai de Ângelo permitiu-lhe que fosse estudar. Hoje, admite que nunca foi um bom aluno e aceita que lhe falemos da escola da vida. Nunca se sentiu inferior por não ser um produto da Ivy League e, quanto a isso, é definitivo: «Via outros colegas que podiam ter vindo de outras universidades, mais famosas, e nunca tive receio de combater com eles. Nunca.»

«Carisma» é a palavra que se segue. Escolheu-a como algo que o define nesse mundo exigente onde conseguiu vencer. E talvez faça parte do carisma de Ângelo Garcia tratar George Lucas por «George» ainda que não tenha um grande amor pelo cinema. «Fui criado no Pico, havia um filme da FNAT que ia lá de seis em seis semanas. Não cresci com o cinema e, por isso, nunca tive assim um grande amor.» Quando interpretamos essa posição como «um mecanismo de defesa, de separação das águas», concorda: «quando cá cheguei e iniciei o meu contacto do dia-a-dia com actores e outras pessoas, também tive essa reacção – é o trabalho deles, o meu trabalho é este, eles fazem o seu trabalho, eu faço o meu muito bem. Somos amigos, mas é só.»

Também não deixa de ser carismática a relação que teve com Steve Jobs, seu colega na San José State University, a quem por duas vezes disse que não. Uma em 1988/9, altura em que Jobs queria «construir uma casa nova e fazê-la de um certo modo, mas estava a ter problemas». «Tentei dizer-lhe que era impossível fazer o que ele queria, mas, teimoso como era, manteve a ideia. Disse-lhe que não podia ajudá-lo, porque ele não ouvia.» Quinze anos depois, sem saber que Jobs estava a morrer, negou-lhe uma segunda proposta de trabalho.

Arrependeu-se?, perguntamos. Responde-nos que não, porque adora o que faz, mas lança a ressalva: «estive à frente da construção do Adobe e, depois, estive à frente da construção do Oracle e, naquele tempo, talvez tivesse mais experiência do que qualquer outra pessoa no Silicon Valley a construir o que nós chamamos de headquarters. Eu sabia que aquela arquitectura que ele queria fazer, que é uma das grandes coisas a acontecer no Silicon Valley, era uma visão como qualquer outra que ele teve e gostava de lhe ter dado a saber que iria ser uma realidade, como é.»

«Visão», «aventura», «coragem» são palavras que se repetem no léxico de Ângelo Garcia. O modo como encara o trabalho já vem de trás, dos dias em que contribuiu para o arranque de dois monstros da tecnologia, nessa Califórnia dos anos 80 onde «o céu era o limite»: «A história nos dirá, mas foi a altura em que a ciência avançou mais do que tinha avançado nos últimos dois séculos. Não havia ideia nenhuma que não fosse analisada, que não fosse trabalhada para se saber se seria uma realidade ou não.»

Quando lhe perguntamos o que mudou no Silicon Valley dos anos oitenta para cá, não hesita: «o dinheiro – há muito mais. As pessoas agora trabalham mais para o dinheiro. Lembro-me de trabalharmos, às vezes, 14 horas por dia para um fim que não era o de trazer para casa mais um quarto de milhão, meio milhão de dólares – era para vencer o que estávamos a querer fazer. A mentalidade era um pouco diferente, era uma mentalidade um pouco mais aventureira.»

Nessas quatro semanas em que regressa ao Pico e «vive no mundo português», Ângelo consegue, por fim, descansar. As pessoas perguntam-lhe por que razão não escolhe outros destinos de férias, mas ir a outros lugares «é um descansar muito diferente do descansar no Pico. Aqui, é o descanso na minha casa, é o descanso de dar um passeio de manhã, de reconhecer tudo.» Tentamos aprofundar este descanso: «no Pico, ainda sou simplesmente o rapaz que emigrou.» A diferença reside, então, no olhar dos outros. Nas expectativas dos outros. Vamos mais longe: «na América, estão sempre à espera de alguma coisa da sua parte, de uma orientação, de um reconhecimento…» Ele corrige: «de uma decisão.»

«Pois, tenho de tomar decisões todos os dias, desde as sete, oito horas da manhã até, às vezes, às dez horas da noite – chamam-me e perguntam “olha, o que é que pensas que se deve fazer?”.»

No Pico, Ângelo Garcia reencontra os amigos da escola, com quem jogava à bola na rua. Às vezes, a bola era de pano. Também havia arcos e piões. Agora, ficam a conversar na praça, até à meia-noite. A «casinha» onde passa férias, hoje tão pequena para duas pessoas, era a casa dos avós, onde moravam dez. Percebe-se que tem uma grande admiração pela história da sua família e talvez seja esse o segredo, a narrativa que usou para reclamar o seu lugar no mundo.

No Lucas Museum of Narrative Arte, que abrirá portas em Los Angeles em 2021, privilegia-se «a arte que conta uma história», que é «narrativa». Pretende-se que o museu seja um lugar onde as pessoas «se sintam bem, se sintam em casa, reconheçam algumas coisas e digam “penso que sei o que eles queriam dizer quando fizeram aquela pintura”».

O museu é apenas mais uma «visão» na vida de um homem cuja profissão tem sido tornar possíveis todos os sonhos. E se George Lucas é «muito mais do que A Guerra das Estrelas», Ângelo Garcia é muito mais do que o simples braço direito do ex-realizador. Les beaux-esprits se rencontrent.

SEMANA 6

Protagonista: Ângelo Garcia

Idade: 62 anos

Actividade: Presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties

Regresso: São Francisco, Califórnia – Ilha do Pico, Açores

Anos de ausência: 47 anos

«Voltei para fazer o que não tinha feito»

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Maria de Jesus Fraga (segunda a contar da esquerda) emigrou com os dois filhos de colo para o Canadá: sobreviveu à neve de Toronto e trocou-a pelo sol da Califórnia, onde permaneceu 22 anos

Há dezasseis anos, deixou-os de vida feita na Califórnia e voltou com o marido para a ilha onde nasceu. Agora, vende filhoses nas festas de São João, integrada num grupo de devotas que contribui para o restauro de uma igreja mutilada pelo terramoto de 1980. Fez novas amigas, recuperou as antigas, e veio reclamar à terra a infância que esta lhe roubou.

«Sabe quando é que eu brinquei?», pergunta, num intervalo da venda de filhoses, enquanto se ouve ao longe a fanfarra das marchas de São João. «O que eu não fiz antes, fui fazer depois. Vim saltar à corda aqui para a Terceira».

Tinha 60 anos quando saltou à corda pela primeira vez, no Centro de Convívio para a Terceira Idade da Freguesia da Ribeirinha. Tinham-se mascarado todos de crianças, explica, por alturas do Carnaval, e levado à cena brincadeiras várias, no cenário de uma escola fictícia, vagamente inspirada naquelas onde tinham andado.

«Foi mais uma coisa que a minha mãe me tirou», reflecte, tendo o cuidado de acrescentar, «porque ela não podia». Maria de Jesus era a mais velha de oito irmãos e a mãe tirou-a da escola antes de ela chegar à quarta classe. Tinha de ajudar a família nessa Terceira dos anos 1950 onde, na maioria das casas, «não havia nada. Nem rádio, nem televisão, nem magazines, nada». Recorda com uma certa nostalgia a pia de pedra onde lavava a roupa suja da lavoura, com água fria. Aprendeu a bordar, a fazer croché e a costurar (saberes que ainda hoje pratica) e, quando a família vendeu um boi para comprar uma máquina de costura, quis ir fazer um curso à cidade. Os pais não a deixaram. Recearam que fosse um pretexto para ir namorar.

O pretendente, com quem celebrou o ano passado as Bodas de Ouro, veio pedi-la em namoro no seu regresso de Angola. Tinham trocado correspondência e, durante dois anos, ele fez-lhe a corte à janela, às quintas e aos domingos, até se proporcionar o casamento. De Angola, trouxera uma ideia na cabeça – «a ideia de embarcar» – e, já depois de casado, de visita ao Canadá, em 1969, decidiu ficar por lá a trabalhar. Maria de Jesus juntou-se ao marido dezanove meses mais tarde, com o filho de um ano e a filha de 3 meses. Ficaram dez anos em Toronto. Seguiram-se mais trinta e três na Califórnia, primeiro em Tulare, depois em Modesto.

De dois em dois anos, enquanto os pais dela ainda eram vivos, vinham visitar a Terceira. Maria de Jesus notava: «a filarmónica está mais fraca; a igreja diferente, mais vazia». Trabalhou muitos anos, em fábricas e, em Modesto, na casa de uma família rica (a do patrão do seu marido), onde ficou 13 anos. Assistiu ao crescimento dos filhos deles, enquanto os seus próprios filhos cresciam, ganhando raízes na Califórnia.

«Sempre falámos português em casa», afirma, dizendo-nos que o marido não queria que os filhos perdessem a sua língua de origem. Mas a velha correspondência do casal quando ele estava em Angola foi toda parar à lareira. «Eles não iam perceber aquelas cartas porque não lêem bem o português.» E, não podendo deixar o legado aos filhos, também não o deixariam à mercê de curiosos. Das cartas que documentavam aqueles anos, só ficaram «umas quadras, que ele me escreveu».

Em 2002, o casal decidiu que estava na hora de regressar. Num contentor de 40 pés, trouxeram os seus haveres dos EUA e mudaram-se para a casa que haviam comprado na Terceira. Os filhos, criados na Califórnia, tinham ficado para trás. Ao ver a casa, o pai de Maria Fraga admirara-se: «Eh, mulher, p’ra quê uma casa tanto grande só p’ra duas pessoas?». Era pequenina a casa dos pais, e lá tinham morado dez. «As casas cresceram», dissera ele, «e as famílias mingaram».

Na sua casa na Ribeirinha, com vista para os ilhéus, onde cada peça de decoração é uma conquista e a coroa do Espírito Santo ocupa um lugar central na mesa de madeira envernizada da sala de jantar, Maria de Jesus recorda sem medo das lágrimas e com uma precisão desconcertante uma longa viagem que, no fim, a separou dos filhos e dos netos. Ao contrário de muitos que foram e nunca chegaram a voltar, ela e o marido deixaram a família na Califórnia e fizeram questão de regressar. «Vim fazer aquilo que não fiz», repete. «Eu tinha de ter doze braços para fazer tudo aquilo que quero fazer.» Critica a letargia das vizinhas, que nunca querem participar em nada e, no entanto, lamenta: «Mas os melhores anos já andaram».

Maria de Jesus Fraga trouxe consigo para a Terceira uma sede de viver intacta, quase infantil, como se o recreio onde não brincou na infância, ao fim de tantos anos, ainda estivesse à sua espera. O tempo, porém, atraiçoou-a.

Maria de Jesus faz parte do grupo de senhoras que passam as festas populares da ilha Terceira a cozinhar filhoses para angariar fundos no sentido de reconstruir a talha dourada da igreja da Ribeirinha

SEMANA 4

Protagonista: Maria de Jesus Fraga

Idade: 73 anos

Actividade: aposentada

Regresso: Toronto -> Tulare -> Ribeirinha, Ilha Terceira

Anos de ausência: 22 anos

«Se for preciso, aspiro a casa todos os dias»

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“Keeping up with the Linos”: Ana, Roberto, Madalena e Lucas Lino já na ilha do Pico, três semanas passadas sobre a partida dos EUA

AO FIM DE QUASE três semanas de regresso, Roberto Lino ainda não assentou. Não podia ser de outra maneira: o contentor em que acomodou os pertences, os seus e os da família, nem chegou ao Pico. Mas não é só isso. Primeiro, viajaram todos para Lisboa, em cujos escritórios da gigantesca Cisco a mulher, Ana, passa agora a operar alguns dias por mês, vinda da ilha. Foi preciso adquirir um pequeno apartamento e, entretanto, valia a pena mostrar a capital portuguesa aos filhos. De volta todos à ilha, chegou a hora das férias na Madeira com que sonharam celebrar o início da nova vida. E nas próximas semanas ainda vai ser preciso Roberto dar um salto às Canárias, onde há um Land Rover clássico – já tem dois – que lhe interessa.

“De repente, dou por mim cheio de saudades do Pico. Como se, tendo acabado de chegar, já ma estivessem a tirar de novo”, suspira. “Vou acabar por assentar. Eu daqui, agora, não saio mais. Mas ainda preciso daquele momento de silêncio. Até de um momento de tédio. Se calhar só nessa altura me sentirei definitivamente de volta. Às vezes ainda me parece que é mentira.”

Nascido e criado no Pico, embora na primeira infância tenha passado alguns anos em Sacramento, na Califórnia – onde os pais chegaram a ser imigrantes –, Roberto apenas se mudou para os Estados Unidos aos 26 anos. Gostava de tecnologia e de marketing, viajava pelas ilhas do chamado Triângulo (Pico, Faial e São Jorge) a tocar música, mas levantava os olhos e não via as oportunidades que procurava – nem nos Açores, nem em Portugal.

Ficou “vinte anos e um mês” na América, sempre a crescer. Começou com um trabalho braçal, passou para o processamento de dados e, ao fim de algum tempo, foi desafiado a integrar uma equipa de vendas. Não tardou a começar a coleccionar no currículo nomes cada vez mais incontornáveis de Silicon Valley: Loretech, Asante, Netgear, Webex, Cisco. Foi director de marketing mundial da Skype, trabalhou na integração desta na Microsoft, ocupou a vice-presidência de marketing da Jive e depois a vice-presidência mundial da UserZoom. Mas nunca deixou de pensar no Pico.

“Era o meu lugar. É o meu lugar. Aqui, o mundo é muito maior. Não tem o espaço que a Califórnia tem, mas usufruímos realmente dele”, diz. “No fundo, o que eu fiz foi dar a volta grande. Saí das ilhas com o 11º ano incompleto, pelo que tive de formar-me. Ao longo dos anos, trabalhei com gente boa, fiz coisas divertidas, tentei sempre investir na minha ética de trabalho. Mas era aqui que eu queria chegar.”

Repete “volta grande”, satisfeito com o efeito da expressão, e ri-se: “Esta foi para a entrevista.” Marketeer de vocação, sabe identificar uma boa frase – catalogando, celebrando, persuadindo.A decisão de voltar para os Açores estava tomada desde o primeiro dia. Educada nos EUA, a própria Ana se comprometera com ela logo nos anos 90, de modo que muito na vida dos dois – e depois dos quatro, contando os filhos Lucas e Madalena – foi sendo decidido em função do dia almejado. Simplesmente, o que eram para ser dois anos de vida californiana acabou por tornar-se cinco, e depois dez, e depois quinze. E só quando Roberto concluiu a missão na Jive, já depois de se ter ocupado de “impedir que a malta da Microsoft lixasse a Skype” – como lhe pediu o presidente desta –, começou a trabalhar na mudança.

“Deixei-me ficar aqui no Pico durante três meses, com os miúdos, a perceber como faríamos. O plano estava em marcha”, recorda. “Oficialmente, a decisão foi colegial. Mas não ignoro a minha influência. E confesso que, nesta fase, se sinto algum desconforto na Ana ou nas crianças, acorro de imediato. Se for preciso, aspiro a casa todos os dias”, ri-se.

Os projectos são muitos. Longe da ideia de reforma – tem 46 anos –, Roberto não vai viver em exclusivo da economia local, pois mantém actividade como consultor e freelancer nos EUA, mas espera ter “uma presença” e dar “um contributo positivo” à causa das ilhas. Fez planos para várias áreas, turismo incluído, mas o primeiro é desfrutar da vida. “Lembro-me de uma conversa que tive, nos últimos dias, com um amigo mais velho, um homem já mítico no Silicon Valley, cheio de dinheiro e apaixonado pelo trabalho. Ao despedir-se de mim, sorriu: ‘Não sabia que estávamos autorizados a ser felizes…’ Portanto, eu sei que estou a cumprir o sonho de muita gente no Vale.”Só não sabe ainda como chamar àquele desejo de regressar que nunca o largou. Foi Roberto, na verdade, quem lançou a semente deste projecto. A meio de uma noite circunstancial de copos nas festas do Cais de Agosto, em 2016, virou-se para mim e desafiou-me: “Tu é que tens de inventar a palavra. Tu é que és escritor. Como é que se chama a isto de uma pessoa estar no centro do mundo, mas sempre agarrada a estes nove torrõezinhos no meio do mar? Qual é a palavra?” Talvez não seja precisa uma palavra açoriana, proponho agora. Porque não a velhinha “saudade”, a suprema palavra portuguesa? E ele: “Não. É muito mais do que saudade.”

Prima (afastada) de Bo, o ex-Primeiro Cão: Roberto Lino com o quinto elemento da família, a cadela Bella, cão d’água português nascido nos EUA

SEMANA 1

Protagonista: Roberto Lino

Idade: 46 anos

Actividade: marketeer (ex-director mundial da Skype e ex-vice-presidente da UserZoom, entre outros cargos em Sillicon Valley)

Regresso: Santa Clara, Califórnia, EUA -> São Roque, ilha do Pico, Açores

Anos de ausência: 20 anos