«Era o único som na noite de todo o mundo»

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Crónica

Mudámos tantas vezes de casa em Lisboa que existia sempre um caixote por abrir no fundo do corredor. Esse caixote (sem rótulo) viajou selado da Rua dos Mouros para a Travessa de São Pedro, da Travessa de São Pedro para a Rua da Costa do Castelo e da Rua da Costa do Castelo para os Dois Caminhos da Terra Chã. Em cima dele, jantámos à luz das velas. Amigos usaram-no como cadeira. Vários sacaram de um canivete, numa fúria de curiosidade, porque queriam ver o que continha, de uma vez por todas. Não deixámos. Ainda hoje continua fechado, num canto da cave, esse caixote sem rótulo, um mistério nascido da nossa preguiça, ou da nossa superstição.

Pode ser que lá estejam as cassetes de vídeo da colecção Atalanta (mas já nem temos leitor de vídeo), o jogo de panelas de alumínio que uma tia nos ofereceu no dia do nosso casamento (e que nunca chegámos a usar), os sapatos de salto alto que comprei em Paris (e que não consigo calçar), soporíferos e analgésicos poderosíssimos (e fora de prazo). Nenhum de nós, nestes últimos anos, se lembrou do que está guardado no interior desse caixote indecifrável, que não é leve nem é pesado, nem se deteriorou especialmente com o passar do tempo.

Mais cedo ou mais tarde, num sábado de chuva pela manhã, uma saudade indefinida vai levar-me a descer até à cave, em busca desse não sei o quê que fazia parte do nosso passado. Só espero que aquilo que ainda lá está dentro, de facto, nos pertença, e que não tenha havido, perdida nesse momento longínquo, alguma troca indevida de caixotes. Que ao som da chuva eu não descubra, ironia do acaso, os fragmentos amarelecidos de uma velha correspondência, escrita numa letra que não é a nossa. E que não seja esse o castigo desta preguiça: o de termos sido os fiéis raptores da história manuscrita de uma outra intimidade. Como se, inesperada, nos assaltasse a estranheza de tudo o que nos é familiar?

Havia na nossa casa do Bairro Alto uma velha cómoda de família, de madeira escura, de onde se libertava um odor. Um cheiro que um homem sabe que traz na memória, mas não consegue identificar o que é. Talvez fosse o odor das coisas antigas, mas bem conservadas, uma mistura do aroma do papel envelhecido que forrava as gavetas com o perfume da casquinha, e ainda algum vestígio da alfazema que noutros tempos se usara para aromatizar a roupa.

Esse odor rico, espesso e impossível de decompor — uma vez que a cómoda já existia na minha família há várias gerações e que cada um dos seus donos lhe dera um uso diferente — entrava dentro de nós como a resposta a um desejo antigo. Um desejo de memória ou de passado. E ali guardava eu grande parte do meu guarda-roupa, sem saber que a cada dia este odor me acompanhava.

A certa altura, no sufoco da falta de espaço que sucede nos pequenos apartamentos do centro de Lisboa, livrei-me daquela cómoda. E, com a cómoda, foram todos esses cheiros e suas origens remotas e o catalisador insuspeito de um momento de paixão. O casamento sobreviveu ao desaparecimento da cómoda. Mas nunca, em mais nenhuma peça de roupa que eu usei, ele tornou a sentir aquele odor, ainda que, por vezes, o tenha procurado.

Quanto do que procuramos uma vida inteira afinal já nos foi dado? Quanto do que nos une é efémero como um cheiro e granítico como a memória que dele temos e que, por vezes, nunca nos deixa? Dentro do caixote sem rótulo onde guardamos, sem o saber, as provas da nossa felicidade, algo nos espera, algo ainda nos pertence, uma música a tocar ao contrário da vida, o segredo do tempo que dura, ausente.

Um poeta definiu a duração. Diz ele que é «o mais fugidio de todos os sentimentos», um arrepio, uma intuição. O reencontro súbito com aquilo que somos e de que nos esquecemos. A celebração do que é irrepetível e, porém, permanece.

Ardendo na luz de Setembro

kate e jasmim serreta

Crónica

Sempre invejei aquelas pessoas que tomam o pequeno-almoço de robe. No velho apartamento do Bairro Alto, quando descia as escadas para ir trabalhar, sentia o cheiro de torradas acabadas de fazer e imaginava-os de robe, ao casal que vivia por baixo, a tomarem o seu pequeno-almoço devagar, às sete da manhã.

Para mim, era um manifesto contra a voragem do tempo. Que, independentemente dos copos de vinho que tinham bebido ao jantar na noite anterior (e eu bem ouvira o saca-rolhas, garrafa atrás de garrafa), se levantassem tão cedo só para poderem vestir os seus robes e saborear as suas torradas.

Em Lisboa, a vida era uma corrida, era um cansaço. Sucumbíamos à porta de um bar que se encadeara com a saída a desoras do trabalho só porque, naquele momento, seria impensável pousar a cabeça a ferver em cima da almofada. Dormíamos de pé, dormíamos por dentro do fumo dos cigarros e dos copos de balão, dormíamos a dois metros de casa, sentados nos degraus da calçada, até um vizinho nos perguntar: «Posso entrar?» E nós medíamos as nossas reservas de tabaco (e de outras coisas) e dizíamos, a arrastar a voz: «Há sempre lugar para mais um.» O vizinho ria-se, cheio de paciência, e corrigia: «Em casa. Eu só quero entrar em casa.»

Nessa noite, entreolhámo-nos, com vergonha. Este homem só quer entrar em casa, e nós aqui a impedir-lhe o caminho, em fuga não se sabe bem do quê. Da manhã? Do tempo? Do trabalho que inventámos? Do amor que nos escapou?

Os vinte são uma idade maravilhosamente estúpida. Cheia de surtos de tenacidade e de teimosa desilusão. Choramos como velhos a recordar um passado que ainda não vivemos. Rimos como crianças da infância que já não temos. E quando, um dia, sentimos o cheiro de torradas pela manhã, e os trinta nos tomam de mansinho, a vida de repente já não nos parece tão assustadora – não porque enfrentámos os nossos maiores medos, mas porque aprendemos a dar o braço a todos esses fantasmas e passámos a noite com eles, a fumar.

Hoje em dia, ainda não visto robe nem como torradas de manhã. Às vezes, sento-me nos degraus das traseiras a olhar para o jardim, mas, se não tiver a minha chávena de café na mão, pergunto-me logo o que estou ali a fazer. A contemplação é um tributo que prestamos à profunda indiferença da natureza. São pequenas as nossas dores nos vários cambiantes de verde que se acendem com a passagem da luz, são ínfimas as nossas inquietudes na gloriosa explosão de roxo que é uma buganvília em flor, são ridículos os nossos fracassos quando corremos pela calçada com vista para o mar e uma chuva com sabor a mel nos molha devagarinho.

A Terceira, descobri-a aos quarenta. Voo quilómetros pelas canadas da ilha, perco-me nos matos e nos trilhos pedestres, ando de canoa, de pedal e de prancha, encho-me de sangria nas festas populares, danço o que não é dançável e ainda quero mais. Há uma vontade quase canibalesca escondida nas inércias da idade. Uma espécie de «selva polar», como canta Arthur H., um «vamos comer Caetano», como diz Adriana Calcanhoto, evocando o espírito do Carnaval. Talvez por isso eu tenha, da natureza inebriante destas ilhas, uma visão peculiar: a mesma de Pieter Bruegel, um mestre flamengo da Renascença, quando pintou Paisagem com a Queda de Ícaro. Ícaro, cujas asas de cera foram derretidas pelo Sol (porque ousou subir demasiado alto…), acabou de cair no mar. Mas o mundo idílico ali retratado cumpre serenamente as suas rotinas, em tudo alheio ao quase invisível par de pernas que se agita nas águas.

A paisagem é um deus risonho a brincar connosco: se lhe morrermos aos pés, ninguém repara. Ninguém repara porque está sol. Ninguém repara porque está calor. Ninguém repara porque alguém se riu. Ninguém repara porque a nossa morte se dilui na luz.