Rosa Violante

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Crónica

Chamava-se Rosa Violante e era cigana. Quando se falava dela, pelo Natal, ou noutras reuniões familiares, alguém chorava. Quisera o destino que um amor irreprimível a unisse, na viragem do século, a um nosso antepassado, e ainda hoje é matéria polémica se essa união deu frutos que nunca chegaram propriamente a cair da copa ilustre da nossa árvore genealógica.

Que todos nós, à distância de cinco ou seis gerações, possamos carregar o fardo desse sangue nómada é um assunto quase tabu. Entre os mais velhos, alguns deploram a ideia. Envergonha-os a possível miscigenação. No entanto, a tez morena e os olhos fundos de uma certa tetravó singularmente bela não deixam grande margem para dúvidas, e o mesmo se poderia dizer da veia dramática, quase artística, que em tantas ocasiões da história desta família tem vindo a manifestar-se. Por vezes, no calor de uma festa, na folia de um casamento, destaca-se o pezinho demoníaco de um dançarino exemplar, o talento musical de uma garganta de onde se escapa um fado mais do que vadio, as saias compridas de algumas tias, que gostam de usar tecidos de várias cores e texturas. Não discuto o bom gosto, mas identifico na tendência uma vaga nostalgia (cromática) que irremediavelmente nos diferencia.

Tão forte era a história de Rosa Violante, tão palpável a dor que ainda causava em gerações que nunca tinham chegado a conhecê-la, que guardei para mim o segredo desse sangue impuro como se ele fosse o meu mais requintado património genético. À distância de cinco ou seis gerações, eu era fruto de um amor proibido, de um acto de quase literário heroísmo romântico, de uma paixão subversiva, enfim, de um erro colossal. Porque a Rosa, conspurcada, acabara por ser expulsa do seu clã. E o homem por quem se apaixonara também se vira obrigado a renegá-la, para poder dar o seu nome ao filho de ambos – e esconder o resto.

Não sei a que limbo ou ruela de má vida foi parar Rosa Violante, mas aqui há vinte anos, andava eu própria a debater-me com as complicações de um amor proibido (desta feita, francês), e decidi fazer uma viagem de camioneta até Barcelona (onde ele me aguardava). Quis o destino que uma família de ciganos me acompanhasse nesse trajecto monótono de mais de vinte horas que desce ao Alentejo, atravessa a Extremadura espanhola e continua por esse deserto até quase à fronteira com a França. E, de imediato, as crianças, muito vivas e morenas, cobiçaram o meu colo. As mães, olhando-me de soslaio, confiaram, e ali começou a nossa inesperada comunhão, pela estrada fora.

Quando parámos numa estação de serviço, à hora do jantar, eu arregacei a minha saia comprida e desci os três degraus da camioneta, no meio das outras mulheres. Os homens iam na frente, vestidos de preto. E assim que o meu pé de menina esclarecida se adiantou ao passo comedido das minhas companheiras, elas puxaram-me para trás. Os homens, sussurraram-me, vão uns metros mais adiante. Sorri de volta, cheia de um estranho orgulho por ir na cauda, por ser uma delas. E ainda hoje guardo desse cortejo colorido, dos nossos passos silenciosos e orquestrados a caminho daquela estação de serviço, uma memória feliz.

No fim da viagem, as ciganas olharam para o francês alto e louro que me aguardava no cais e perguntaram-me: vais fugir? Abanei a cabeça. Mas ele, disseram-me, não é um de nós. Lembra-te, insistiu a mais velha, não sei quando foi que a tua família te perdeu, mas, para onde quer que vás, nós lá estaremos. Nós estamos em todo o lado. Procura-nos.

Fiquei a olhar para elas, para os olhos castanhos-escuros, como os meus, para os cabelos macios das crianças, a tez morena dos homens, que me viam sem olhar, e disse-lhes adeus. É a nossa derradeira família, pensei, espiando-nos desde a noite dos tempos. O clã a que sempre pertencemos.

Na segunda-feira de manhã, a minha mãe telefonou-me, horrorizada. Ao fim destes anos todos, uma tia-avó decidiu confessar: a Rosa, afinal, foi inventada. E insiste, com o furor dos seus oitenta anos, que nada da sua história aconteceu de verdade. Que nenhum de nós, mouros, tem sangue cigano. Que nunca houve um amor proibido, um gesto de heroísmo, um acto de coragem. E o nome, Violante, nunca o estranharam? Vocês, de facto, lêem pouco.

E agora sim, também eu chorava. Chorava por termos comprado a mentira. Ou por termos precisado dela. Chorava o fim de um mito. E a crueldade de se desmentir uma história como aquela.