As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

Autópsia sentimental

IMG_8878

Crónica

Na última noite, eu pedi um gin tónico com casca de laranja caramelizada, pau de canela e estrela de anis – e ele uniu as mãos em cima da mesa, fez-me um sorriso e mandou vir uma água das pedras. Não tinha despido o fato de trabalho, ou sequer aliviado o nó da gravata, e ainda ficou uns segundos a olhar para mim, como se eu fosse a última reunião desse dia – e a mais delicada.

Lancei-me num balanço incoerente do tempo que passáramos juntos, na esperança de que, ao fazê-lo, parte do feitiço se dissipasse, e revisitei os momentos de epifania, os insultos requintados, as promessas inspiradas. Falei-lhe do desperdício. Da ironia. Dos infernos que tínhamos visitado, de mãos dadas.

E ele, visivelmente feliz por ter pedido uma água das pedras, arqueou ao de leve as sobrancelhas, descruzou as pernas e inclinou-se para a frente: «Isto é o quê? Um balanço de contas?» Levantei a cabeça e respondi-lhe: «Não. É uma autópsia.» O fantasma de um recomeço brilhou-lhe nos olhos, mas já sabia, tão bem como eu, que o nosso jogo tinha acabado.

Nessa noite, saí do bar, entrei na chuva (se chovesse, teria entrado), e dei um passo na direcção do futuro. Há certos fins que nos aproximam do princípio. Há certos passos que têm um som diferente dos outros, como se, por momentos, nos tivéssemos esquecido de tropeçar. De sermos coxos.

E há paredes nesta casa vivida a dois onde o taxidermista que também somos pendura animais embalsamados. Por vezes, eles espreitam-nos de manhã cedo (quando vamos a caminho do duche), com os seus chifres cor de marfim e os seus olhos incisivos e vazios. E sussurram-nos culpas, humilhações, calamidades. São pequenos demónios, cristalizados, que servem o grande propósito de nos lembrar que a nossa cabeça, por alguma razão, não está ali. Por sorte, alguém nos salvou. Fomos resgatados.

Da parte acidental da vida, e da sua inevitabilidade. Dessa grande floresta de acasos onde não existe o princípio de um caminho. Porque não se quer verdadeiramente partir – e muito menos chegar. Dos lugares onde nos dizem que somos livres, e onde a liberdade não nos responde – porque, afinal, tem outro nome.

Hoje de manhã, o Outono atravessou a nossa casa. Trazia um cheiro a raízes apodrecidas, folhas secas e erva molhada. Abri a porta de rede do jardim – e respirei. Não há nada que hoje em dia me faça desejar a Primavera. Todos nós somos estilhaços, que se recompuseram. Fragmentos de outros tempos, fantasmas de outras estações. Camadas sobre camadas de deslumbramentos e desilusões.

Nos seus silêncios cada vez mais densos, a linguagem conjugal é como um velho vinil que gostamos de ouvir e que inadvertidamente se foi riscando ao longo dos anos – até se tornar inaudível. Guardamos a canção que se esconde sob a superfície arranhada como o Outono a sua folha mais verde.

Porque a cada dia que passa, seja por milagre ou por teimosia, a Primavera acontece.

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

Uma fogueira na escuridão

IMG_8774

Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.

O alcatrão derretido sob o olival

Crónica

Joel Neto

“Felicidade diferente de alegria?!”, estranhou ele. Riu-se, como se tudo pudesse ser ainda uma piada cúmplice entre nós: “Não ‘tou te entendendo. O que é que você quer dizer com isso, felicidade é uma coisa e alegria é outra?” – e eu fiquei ali, a pensar na possibilidade de também isso ter a ver com o desastre Bolsonaro, talvez como efeito, talvez como causa.

Contei-lhe a minha história também. Muitos dos meus amigos brasileiros iam votar Bolsonaro. Todos os meus amigos brasileiros protestantes, tanto os do protestantismo bom como os do protestantismo mau, iam votar Bolsonaro. E eu não queria fazer juízos morais sobre isso, apesar da tentação. Mas não deixava de me sentir inquieto perante a evidência de que, ao contrário do que sempre quisera acreditar, o humanismo que me esforçava por cultivar, aquele que talvez tivesse persistido em mim mesmo quando eu me empenhara tão determinada e estupidamente em resistir-lhe, não vinha afinal da minha formação protestante.

“De repente”, suspirei, “é como se tivesse estado mais certo na adolescência rebelde e contestatária do que na maturidade serena e conciliadora. Talvez deva mesmo ser assim. Mas, de qualquer maneira, esta eleição, para mim, não é só sobre a fragilidade original da democracia face ao imperativo da segurança, a experiência da corrupção ou o impulso do ódio: é também sobre a verdade e a mentira no modo como, para nosso próprio apaziguamento, forjamos a memória da juventude.”

Ele meneou a cabeça, numa anuência branda. Levou a mão às frontes, mais uma vez. Andava com enxaquecas há semanas, coisa que logo no princípio do jantar anunciara como uma reacção antecipada à vitória do fascismo. Afinal, estávamos a menos de 24 horas da abertura das urnas da primeira volta – o mais natural era que a dor estivesse ao rubro. Mas, inesperadamente, aquilo em que se deteve foi na felicidade e na alegria, como se eu devesse ter mais cuidado com a minha ideia: “Diferentes. Não percebo…”

Isto foi em Óbidos, no fim-de-semana. Quase todos os anos vou ao Fólio, e este não foi diferente. Durante dois dias, percorri o empedrado, revi amigos, discuti literatura. O Luís levou-me uma garrafa de vinho e o pai da Pipa – nunca se esquece – uma ginjinha das dele. Entretanto, revi a Gisele, conheci a Patrícia, acertei pendentes com o João e a Ana Margarida, pedi ao Afonso que me explicasse tudo sobre o Scrivener, agradeci a generosidade indefectível da Maria João, conversei longa e cumplicemente com a Ana Cristina. Mas em nenhum momento voltou a sair-me da cabeça aquele homem que as sortes do jantar tinham colocado à minha frente: aquele brasileiro grande e elegante, intelectual, bem de vida – e, apesar disso, confuso com a hipótese de a infelicidade conviver com a mais retumbante alegria (e vice-versa).

Fez-me lembrar um daqueles nova-iorquinos do Woody Allen, sobretudo os dos anos 80 e 90, tão desejosos de encontrar um problema que acabavam por encontrá-lo realmente. Com a diferença de que a confusão dele não parecia apenas uma auspiciosa perspectiva de depressão, mas uma verdadeira perplexidade, como se se tratasse antes de um filme de ficção científica e houvessem espetado um garfo nas costas do robô, petrificando-o num curto-circuito cheio de luzinhas verdes.

Agora estou em Torres Novas, e é com a alegria de um regresso a casa que aqui volto. Já não passava um dia inteiro nesta cidade há quase 40 anos, mas houve um tempo em que, inclusive, vivi aqui. O meu pai cresceu aqui. Apesar de nascido nas ilhas, algumas das minhas primeiras memórias são deste rio e deste castelo ensolarado e deste cheiro a alcatrão derretido sob o olival. E, embora acabe sempre por ir a onde me convidam, mentiria se dissesse que vou a todo o lado com o mesmo entusiasmo com que venho hoje aqui, visitar os leitores e passear pelos lugares da infância sobre que julgo ainda guardar alguma recordação.

De maneira que o Abílio me leva por eles: a tarambola do Almonda, a rua onde o tio Manuel Jorge tinha a retrosaria, o bairro de Valverde onde vivia o tio Alfredo, a fábrica de álcool onde agora está um centro comercial sobredimensionado, com metade das lojas por alugar. E o Nicho, claro. A casa onde vivemos. A Santa da Ladeira, ali mesmo ao lado. O Ritonicho. O pinhal que já não existe, a curva onde o cabeleireiro se dobrava sobre a carrinha do leite para pedir um iogurte Longa Vida, o campo de argila para onde o vento levou o meu pára-quedista de brincar (e que, aparentemente, também já desapareceu).

Foi um tempo importante para mim, aquele. As pessoas – lembro-me – diziam: “A ‘inha casa é branca”, ou: “O peixe está todo a desaparecer do’ rios.” Creio que foi a primeira vez que pensei nas palavras. Entretanto, o terramoto da Terceira interrompeu a estada, acrescentando-lhe dramatismo a ela e redenção a ele – sabe-me bem lembrar tudo isso, salvo que não me sai da cabeça a estupefacção do meu novo amigo, que tem dores de cabeça porque Bolsonaro vai ser eleito presidente do Brasil, mas nunca tinha pensado na possibilidade de alegria e felicidade serem palavras diferentes, que significam coisas diferentes e até, às vezes, opostas.

Pergunto-me qual das duas ele nunca terá experimentado, e esforço-me por recapitular o nosso jantar, na esperança de não encontrar uma gargalhada.

Foto: © António Araújo

No fundo do copo, amanhece

eu e melville

Crónica

São inesperados os lugares onde nos sentimos em casa. Duzentos metros mais abaixo, do lado esquerdo da rua, o café da freguesia, onde se vende aguardente às sete da manhã e onde ambos os venenos – o álcool que eles bebem, o café que eu peço – se respeitam.

Estamos de acordo quanto a isto: o café, tal como o bagaço, bebe-se de pé. São verticais. E se alguém de fora me puxa para uma mesa e eu, por cortesia, me sento, é como se o dia me entrasse pelo canal errado – e amanhecesse ao contrário. Não me levanto da mesa vencida, não desisti ainda, mas custa-me voltar a subir a rua na direcção da minha secretária e começo a imaginar como seriam as próximas horas – ou o tempo que me resta – se não o fizesse.

Talvez virando à esquerda, em vez de entrar pelo portão, eu fosse dar a uma estrada que ainda não conheço. Um caminho de terra batida que me conduzisse a uma outra casa, a uma outra vida. E talvez essa casa não existisse sequer nesta ilha, e não houvesse mar nenhum à volta. E a vista das janelas mais altas, ao subir uma longa escadaria, fosse a de uma cidade em tons de prata e sépia que se estendesse, como um réptil pré-histórico, até à linha do horizonte.

Talvez eu não fosse uma mulher de quarenta anos, nessa varanda sobre o deserto, mas uma anciã de oitenta. E o meu corpo já nem precisasse da força dos músculos para vencer a geografia. Talvez eu já tivesse feito as pazes com a ideia do meu desaparecimento e a fronteira entre o ser e o não ser se evaporasse no ar que respiro como a idade num copo de aguardente.

Antes das nove, na venda, não discuto outro tema se não a meteorologia. Quero saber se estava calor lá em cima, de madrugada, nos campos cerrados. Se corria alguma aragem na montanha, vinda do mar. Quero ouvir os homens ébrios que lá estiveram, decifrar metade, intuir o resto, procurar nas suas vozes roucas o que não os inquieta. O que os fez voltar.

No meio de uma conversa de circunstância, há alguém que me responde: «tentamos respirar». É cedo para tanto. Pago o meu café, espreito o céu que se adensa. Penso: nestes velhos lavradores que se despedem, há uma chama, um desalento. Há um destino que não cumpriram, um falso tormento. Escondem-me, como fantasmas, que eu, sem o saber, já sou um deles.

«Rádio»

IMG_0464

A PALAVRA DO DIA

rá·di·o 3
(redução de radiofonia)

substantivo masculino

1. Aparelho de radiofonia receptor das ondas hertzianas (ex.: comprou um rádio portátil). = RADIOFONETELEFONIATRANSÍSTOR

2. Aparelho transmissor-receptor usado para comunicações em empresas de táxisaeronavesembarcaçõesetc.

3. Mensagem transmitida por radiotelegrafia. = RADIOGRAMARADIOTELEGRAMA

substantivo feminino

4. Transmissão da voz e de outros sons utilizando as propriedades das ondas radioeléctricas. = RADIODIFUSÃORADIOFONIARADIOTELEFONIA

5. Estação de transmissão dos sons por meio de ondas electromagnéticas. = RADIODIFUSORARADIOEMISSORA

substantivo de dois géneros

6. Radiotelefonista ou radiotelegrafista.

 

rádio livre
• Organismo de radiodifusão privada cujas emissões apenas podem ser captadas num raio de alguns quilómetros.

rádio local privada
• O mesmo que rádio livre.

rádio pirata
• Rádio que difunde ilegalmente as suas emissões.

“rádio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/r%C3%A1dio [consultado em 01-10-2018].

«Há 43 anos, 24 horas por dia, em português»

IMG_6057
Paulina Arruda nasceu na Ilha terceira em 1962 e emigrou para os EUA com 17 anos, em 1980. Formada em Psicologia, casou-se com Henrique Arruda, advogado, de quem tem um filho, e juntos, em 2010, adquiriram a WJFD, a maior rádio portuguesa da América. Sediada em New Bedford, mítica cidade baleeira, a WJFD chega a meio milhão de luso-americanos. É um pilar da comunidade portuguesa nos EUA e tem vindo a afirmar-se como uma ponte entre as suas várias gerações.

Com uma licença de emissão de 50 mil watts, o máximo autorizado na Costa Leste, a WJFD cobre seis Estados da Nova Inglaterra, chegando a Long Island, em Nova Iorque, e ao Maine, no extremo nordeste. Com um protocolo com a RTP e a Antena 1, divulga em português notícias de um Portugal distante e procura ser uma embaixadora da cultura lusa nos EUA.

Na sede da rádio – um escritório arrendado num antigo edifício fabril -, Paulina explica-nos que, apesar da sua dimensão, a WJFD nunca deixou de ser uma rádio comunitária, com uma forte aposta nas notícias locais e nos conteúdos de interesse para a comunidade, especificidade essa que despertou recentemente a atenção da FCC (Federal Communications Commission):

Nós somos um caso muito, muito único. Na semana passada, eu e o Henrique viajámos para Washington DC durante dois dias. A FCC está numa fase transitória. Basicamente, o que eles querem é mais rádios comunitárias, em vez das grandes companhias que compraram os 50 mil watts e que transmitem de Nova Iorque para São Francisco: fazem uma programação em Nova Iorque ou em qualquer lado e transmitem nas rádios todas. (…) A FCC está a ponderar o que vai fazer e quer ouvir as rádios, as comunidades, e nós fomos lá apresentar o nosso caso. Eles nunca tinham pensado que poderia existir uma situação como a nossa: uma rádio de 50 mil watts FM há 43 anos, 24 horas por dia numa língua que não é o inglês, que atinge esta comunidade toda. Eles disseram-nos mesmo: “pode ser que agora apareça mais alguém, mas até este momento não nos apareceu caso nenhum como o vosso”. Portanto, somos uma estação muito, muito, muito única, mesmo em termos das rádios americanas, em grande parte por causa dos 50 mil watts – as rádios de 50 mil watts foram todas compradas, são rádios americanas e talvez dez companhias sejam proprietárias de todas. Uma coisa que eles perguntavam era quantas rádios tínhamos – “mas é só essa?”, “é, é só essa”.

Os 50 mil watts FM trazem encargos. Há uma torre a manter, uma antena de 152 metros, uma série de contratações externas em serviços de manutenção e de limpeza, despesas de electricidade, comunicação, etc., e ainda os 12 funcionários que constituem a equipa permanente da rádio. Não havendo apoios significativos, a WJFD sobrevive da publicidade e essa é uma das principais funções de Paulina – a de garantir o pecúlio publicitário.

Muitos americanos ainda se surpreendem por ainda existirmos. Mesmo quando estou a falar com alguns clientes eles perguntam se na comunidade, num lugar assim grande, a publicidade vai ter algum sucesso e eu digo-lhes “estamos aqui há 43 anos, 24 horas por dia e sobrevivemos cem por cento de publicidade”. Portanto, deve haver alguém que frequenta as casas comerciais, os negócios que negoceiam connosco, senão já não existíamos.

A preocupação de Paulina é evidente e, quando lhe perguntamos como é que se consegue angariar publicidade para sustentar uma rádio em português nos EUA, a resposta não ignora o rumo natural da «americanização» das novas gerações:

Acho que é o poder da comunidade que ainda temos: ainda temos uma comunidade suficientemente grande, com poder de compra suficientemente bom, que é capaz de manter uma rádio destas. (…) [No entanto], quando uma geração começa a morrer e as outras gerações se vão integrando na comunidade americana, não sabemos o que vai acontecer, mas às vezes pensamos no que vai acontecer, como é que vai acontecer e como é que vai ser.

Interessa-nos ponderar esse desaparecimento e tentar perceber a dimensão da perda: o fim da WJFD não seria apenas o fim de uma rádio, de uma empresa, de um sonho. Seria, antes de mais, o fim de uma missão que começou há 43 anos – a de garantir, por um lado, a longevidade da língua e cultura portuguesas nesta região da América e, por outro, a união e identidade da mais antiga comunidade de emigrantes portugueses nos EUA.

Nós sentimos muito isso. Se fôssemos uma rádio que existisse há 10 ou 15 anos, que só tivesse umas horas em português… Mas quando são 43 anos, 24 horas por dia, quando se atinge pelo menos meio milhão de portugueses e de luso-descendentes, o peso é maior, sentimos mais essa responsabilidade. Nós sentimos que levamos Portugal à comunidade, mas também sentimos que representamos a comunidade. É por isso que a nossa prioridade é a qualidade e a boa imagem. Quando olham para a comunicação social, quando olham para a rádio, nós estamos a representar essa comunidade – por um lado, somos a voz dessa comunidade. Na rádio, uma das nossas grandes funções é essa: networking. Nós sentimos que estamos a representar essa comunidade e sentimos a obrigação da boa imagem.

A nossa pergunta não podia ser mais directa: o que é que deixaria de existir com o desaparecimento da WJFD? Paulina responde sem hesitações:

A ligação da comunidade a Portugal, a presença de Portugal na comunidade através não só do protocolo que temos com a Antena 1, mas também dos convidados, das pessoas de Portugal, políticos ou não, todos os que são relacionados com Portugal e que por aqui aparecem, de tudo o que achamos que é importante para a comunidade. Mesmo o relacionamento entre as comunidades. Por exemplo, Lowell e Pawtucket sabem o que se passa nas outras comunidades: Lowell fica no Norte de Boston e sabe o que se passa em New Bedford e em Fall River através da WJFD.

A ideia de que a WJFD se encontra «no coração de uma grande comunidade» suscita novas perguntas. Será que o papel da rádio também é o de unir as várias comunidades de emigrantes lusófonos na Nova Inglaterra? Decidimos ir mais longe: é legítimo dizer que, se hoje ainda existe essa comunidade, ela existe, sobretudo, através da rádio? Paulina não estranha a ideia e apressa-se a concordar:

Sim. Nós nunca falamos em madeirenses, em açorianos, em continentais do Norte ou do Sul de Lisboa. Os cabo-verdianos também são uma comunidade muito importante para a WJFD desde o princípio. No ano passado reformou-se o Djosinha, que é uma figura muito conhecida em Cabo-Verde – se perguntar a qualquer cabo-verdiano se conhece o Djosinha ele diz “eu conheço, como é que você conhece?!” – e ele reformou-se com 86 ou 87 anos, fazia programação na WJFD desde o início. Como estava a dizer, para nós não há distinção de onde são, de onde vivem agora – é a comunidade portuguesa, nós transmitimos para todos.

 

A WJFD é um trabalho de união da comunidade no espaço, mas também no tempo. Alguns dos seus ouvintes ainda lhe chamam «A Hora Portuguesa», o nome que tinha a frequência 97.3 antes de 1973, quando era apenas um programa e não uma rádio. Essas pessoas, que hoje têm 80 e 90 anos, já ouviam «A Hora Portuguesa» nos anos 50, a altura em que chegaram aos EUA. Hoje, muitos dos jovens que ouvem a WJFD confessam ter aprendido o vício de ouvir a rádio com os avós e bisavós. Este público-alvo, multi-geracional, não deixa de representar um desafio para os programadores da WJFD:

Um dos desafios da nossa programação é transmitir para várias gerações, vários grupos etários – tem de haver sempre um balanço na música ou nos programas para agradar a todos. Quando vem música mais recente de Portugal, aquele rock mais pesado, temos de perceber onde é que encaixamos, como é que encaixamos. (…) Estamos sempre muito conscientes dessa programação, quem é que está no ar, o tipo de música, as notícias, os jogos da bola ou outra programação que se encaixa nessas horas. (…)

Na residência dos Arruda, uma inspiradora casa New England, com soalho de madeira, papel de parede vintage e janelas de guilhotina, encontramos muitos livros em português, bustos de escritores portugueses, álbuns de jardins de Portugal… A família regressa todos os anos à Ilha Terceira, onde «se sente perfeitamente à vontade», para passar férias, ir à praia, relaxar, mas esse regresso às origens é uma constante: na rádio, em casa, na ilha, os Arruda nunca se esquecem de cultivar o seu «lado português», ainda que sejam um casal pragmático, pouco dado a nostalgias inúteis, e apreciem a centralidade do lugar onde vivem. Como diz Paulina:

Basicamente, o que eu gosto é – e agora já se faz, antes era mais difícil, mas já há mais voos e mais companhias – de dizer “vamos a Nova Iorque” e pronto, metemo-nos no carro e facilmente vamos a Nova Iorque passar o fim-de-semana. Nos Açores, numa ilha, é mais difícil e há uns anos era mais difícil ainda – e agora, em certas alturas do ano, como no Verão, é difícil apanhar o voo. Eu gosto dessa liberdade de decidir vamos aqui ou vamos ali, vamos a Boston jantar fora ou vamos ao teatro. Numa ilha pequena não há.

Para esta Terceirense, nascida perto da Base das Lajes, a emigração não parece ter sido uma experiência traumática, como foi para os seus avós maternos, por exemplo, que chegaram a Nova Iorque em 1880, ainda antes de se conhecerem, e fizeram uma árdua viagem de comboio até à Califórnia. Paulina não subestima, contudo, a distância geográfica:

A emigração, para mim, não é uma pessoa meter-se dentro de um carro e fazer alguns quilómetros. Eu digo isso quando se fala na emigração portuguesa na Europa: é fácil chegar a Portugal, é fácil visitar Portugal, é fácil regressar a Portugal. Quando se tem de atravessar o Atlântico é mais difícil, é mais caro, tem de se trabalhar, tem de se marcar férias, tem de se acumular dinheiro para voltar e nem sempre pode ser todos os anos. A distância e o tempo – não só a distância da Europa para cá, mas o tempo que, muitas vezes, se demora a poder voltar.

É esta distância que torna o papel da WJFD ainda mais determinante, não só porque a rádio se empenha em corrigir a percepção que a comunidade portuguesa nos EUA tem de Portugal – «fazer a ligação ao novo Portugal» -, mas também porque quer modificar essa imagem obsoleta que o Portugal moderno ainda tem «do emigrantezinho que veio com a malinha. A comunidade já não é essa.»

A missão dos Arruda talvez seja maior e mais pesada do que qualquer um de nós está disposto a conceber nesse fim de tarde pluvioso e agradável em que nos recebem na sua casa, para dois dedos de conversa e um copo de rosé. Não memorizámos a marca, mas era americano, e soube-nos ainda melhor do que o nosso rosé português.

 

SEMANA 9

Protagonista: Paulina Arruda

Actividade: dona (juntamente com Henrique Arruda) da WJFD, em New Bedford, Nova Inglaterra.

Regresso: New Bedford, Nova Inglaterra – Ilha Terceira, Açores 

Anos de ausência: 38 anos

Como chamais a isto a que eu chamo viver?

Crónica

Joel Neto

“Mas também é preciso viver…”, insiste ele. Censura-me, a verdade é essa, e não está sozinho. Sentou-se à minha frente com queixas de outros elementos da família – que não apareço, que nem sequer falo ao telefone, que sou (isto não o diz, e talvez também não o pense) um sacana egoísta obcecado com o trabalho –, e eu chego a perguntar-me se devo de facto defender-me.

Devo-lhe muito, mas nem é por isso que o prefiro aos restantes tios. Por um lado, foi o primeiro da família (e o único até à sua geração), a estudar – à noite, de permeio com uma profissão exigente e competitiva, à custa de sacrifícios que nenhum de nós considerou. Por outro, a vida guardou-lhe os mais difíceis testes de força e de carácter, e ele respondeu-lhes com uma integridade quase sobre-humana.

Admiro-o, e, quando fui para Lisboa, nos alvores dos anos 90, enganava-me e chamava-lhe pai. Era natural, porque os dois são gémeos idênticos, aliás com larguras de gestos e tons de voz parecidos. Mas, principalmente, senti-me sob os cuidados de um pai, naquelas semanas em que me acolheu. Não poderei esquecer-me. De maneira que me defendo, realmente, mas com factores circunstanciais: inoportunidades, coincidências infelizes, mal-entendidos.

Estamos no Rocha, a comer uma telha de polvo, e ao nosso lado a Catarina e a Odete esforçam-se por se concentrar uma na outra. Suspiro: quem sabe não consigo ser melhor sobrinho, agora que chego à segunda metade da vida – melhor sobrinho e melhor primo e melhor tio e melhor irmão e melhor filho. E, no entanto, aquelas palavras continuam a reverberar em volta: “Também é preciso viver…”

Porque, aparentemente, não é viver, isto que faço: é trabalhar apenas – de dia e de noite, de semana e ao fim-de-semana, no computador e até na hora da mesa. E a Catarina (isto o meu tio também não diz, é demasiado cavalheiro para isso) não ajuda. Enfia a cabeça nos livros de manhã e só a tira à noite. Às vezes vai ao ginásio e, mesmo assim, volta para o trabalho.

Ocorre-me brincar: não se preocupe, tio, que a reforma já não vem longe – não tarda teremos tempo para tudo. Mas, entretanto, lembro-me de ainda ontem ter visto o A., que foi colega do meu pai, a atravessar a Rua da Sé. Vi-o na passadeira à minha frente e parei diligentemente o automóvel. Ele meneou a cabeça e, olhando para o interior do carro, a perscrutar a identidade do motorista, chegou-se para trás e mandou-me passar a mim.

Nem me reconheceu: fez simplesmente um gesto com o braço, a mandar-me passar, porque tinha toda a prioridade mas nenhum compromisso. Entristeceu-me imenso, e imaginei-me a mim próprio a mandar passar os carros, já velho – sem horas para estar em lado nenhum, sem uma frase para escrever ou um parafuso para apertar ou um apêndice para extrair.

Creio que foi por isso que deixei de fumar: porque gostaria de não ter de viver assim, um dia. E que passei a pôr-me aos saltos ao final da tarde, e que comecei a comer alface: para, se de facto chegar à reforma, haver ao menos uma possibilidade de não ter de atravessá-la a mandar passar os carros – como aquele homem também não tem de fazer, mas faz porque quer, ou porque está deprimido.

Quero uma reforma saudável ou reforma nenhuma. Para que me serviria ela, no fundo, se não para trabalhar melhor?

De maneira que, quanto ao meu tio, me fiquei pelas inoportunidades. Ademais, tenho as pazes feitas com o inevitável. Primeiro, já não vou ser melhor pessoa. Depois, li o suficiente sobre a vida dos escritores, e mesmo que não tivesse lido sobre a vida deles tinha lido os seus livros: nunca um escritor deu um grande homem de família.

O resto não é fácil explicar a alguém que traz tão boas intenções, mas a verdade é que a família está quase sempre na origem das melhores e das piores coisas da vida – de todas as vidas. No fundo, aliás, é aí que o escritor estará sempre: às voltas na família. Ela julgá-lo distante, até alheado, não só faz parte do processo, mas chega a ser necessário. E, entretanto, trabalhemos, que ainda não vi melhor maneira de viver.

Foto: © António Araújo

«Pátria»

IMG_1292

A PALAVRA DO DIA

pá·tri·a 
(latim patria-ae)

substantivo feminino

1. Terra onde alguém nasce.

2. Nação a que pertence uma pessoa ou de que uma pessoa é cidadã.

3. Lugar a que pertence algo ou alguémlugar de onde algo ou alguém provém.

 

pátria celeste
• O Céu ou a glória.

pátria celestial
• O mesmo que pátria celeste.

“pátria”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/p%C3%A1tria [consultado em 27-09-2018].