O jogo dos homens devastados

Crónica

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E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia – cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Que saudades tenho da Aroeira. E das nossas expedições pelos campos da Grande Lisboa – dos tugúrios desoladores de Benavente às berrarias exibicionistas do Estoril e Cascais. E daquelas venetas que nos davam para jogar os grandes campeonatos, em pares e até sozinhos, e onde quase nunca algum de nós chegou sequer à mediania. Que saudades tenho daquilo, um grupo de homens com tanto que fazer em casa, todos razoavelmente devastados, todos preferindo estar ali – perseguindo de ferros em riste o seu (como dizia Churchill) comprimido de quinino através da pastagem. Como é irrepetível esse tempo, agora, ao fim de tão longo afastamento. E como eu o senti esta tarde, em instantes intermitentes, ao atravessar o fairway ao lado do João, ambos tão destreinados já daquilo que sabíamos fazer e talvez já nem saibamos.

Ah, o que eu gostava de jogar golfe, cirandando entre a flora e a fauna em busca do inefável. E como eu odiava jogar golfe, ao mesmo tempo, porque toda a minha vida era apenas isso, jogar golfe, e tudo o mais apenas os aborrecimentos infinitos do homem que faz contas ao tempo que falta para jogar golfe outra vez. Quantos livros escrevi, afinal, nesses dez anos em que o joguei com a avidez de um menino? Quantos livros em condições, pelo menos? E, no entanto, quantas vezes voltei a ser menino depois de pendurar os tacos na garagem?

Nunca mais fui menino como naquele dia em que, jogando sozinho no encantador tormento a que em Ponte de Lima chamam campo de golfe, fechei o back nine duas abaixo do Par e depois não havia ninguém para servir de testemunha. Nunca mais fui menino como naquele dia aqui na Terceira em que levei o Jorge da Agualva ao sétimo buraco do playoff, celebrando com tal alegria o segundo lugar no torneio que só depois me lembrei que até tivera um putt para ficar em primeiro e não me concentrara como deve ser. E também nunca mais fui menino como naquele dia em que, chegado às imediações do green do 17 do Aroeira 2 no Par do campo, que nunca tinha igualado, fiquei não nervoso que fiz triplo-bogey com duplo hit e tudo. Nem como naquele em que, no 6 da Penha Longa, o buraco lindo atrás do qual passa o aqueduto que os fotógrafos estrangeiros adoram, nos afundámos ambos um ao outro, eu e o António, porque não havia decisão razoável que o nosso impulso de autodestruição não sabotasse.

Como eu gostava de ser menino a dois também. E como éramos tão bons meninos a dois, eu e o António, conversando sobre literatura, brandindo o driver e rindo da nossa própria trapalhice. Quantos torneios jogámos a dois e quantas vezes, na hora de concluir, pura e simplesmente nos dinamitávamos, como se tivéssemos medo de erguer fasquias que depois não pudéssemos sonhar vencer.

Também ele veio comigo hoje, o António. E o Luís, o outro irmão Barreira – e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui. Caminhávamos pelo fairway, ao lado do João, e às vezes nem abríamos a boca: era o nosso silêncio que contava das nossas solidões, afinal tão parecidas umas com as outras. Então, um de nós metia um tee shot comprido e direitinho, para lá dos lagos e dos bunkers, e celebrávamo-lo todos juntos: “Bom shot.” Depois outro fazia um daqueles slices paralisantes, a bola no meio do cerrado, perdida entre a erva, e baixávamos os olhos, lamentando ter saído de casa.

Porque o golfe se fez em primeiro lugar para atestar da impossibilidade do Absoluto, mas afinal trata-se da lição mais difícil de todas – não é assim?

Portanto aqui estou, a pensar nisso tudo, com as pernas cansadas de uma rotina de que se tinham esquecido e os tacos pendurados de novo na garagem porque, agora, já não preciso ir amanhã outra vez. Deixei de ser um homem devastado, devolvido ao espaço e aos cheiros de vida, e tão-pouco me inquieta hoje a impossibilidade do Absoluto, da Perfeição ou da Eternidade. Um homem ganha uma força enorme quando deixa de acreditar em palavras com letra grande. Mas, apesar disso, comprometemo-nos a jogar uma vez por mês, eu e o João. Ensinaremos o Matthew. O Matthew, sim, o Matthew carregará o que restar da nossa obsessão, durante uns anos – até que chegue o momento de também para ele seja suficiente brincar como um menino uma vez ao mês.

Foto: © António Araújo

Os animais à minha volta

Crónica

Joel Neto

Talvez a cabra nem tenha sido o primeiro bicho para que ela me chamou a atenção. Desde muito pequena que eu a via acarinhar todos os tipos de animais: gatos, cães, pássaros, até galinhas. Dizia que queria ser veterinária ou pet sitter, bióloga marinha ou dog groomer. “Cabeleireira de cães”, acho que foi a sua expressão (e estava mais certa).

Eu sorria-lhe. Sempre gostei daqueles olhos tristes. E depois, não sei como, alguém deu uma cabra ao pai.

Creio que nem cheguei a ver essa cabra, agora que penso nisso. Andava sempre a viajar, de Lisboa para a ilha e de novo para Lisboa. Mas, por outro lado, vi-a muita vezes nas palavras daquela menina. Encontrávamo-nos e a primeira coisa de que me falava era a cabra: “Sabes que eu tenho uma cabrinha?” Então, eu imaginava uma cabrinha branca e rabina, como a da Heidi – e ficava ali, a ouvir as histórias que a menina me contava sobre ela.

Acontecia alguma coisa onde se podia esconder uma metáfora caprina? “É como a minha cabrinha, no outro dia também começou a…” Eu queria saber o que ela planeava ser quando fosse grande? “Se calhar já não quero ser bióloga marinha, quero ser pet sitter para passear a minha cabrinha.” Não tínhamos mais sobre o que conversar? “Ainda não te contei o que a minha cabrinha fez ontem…”

Tinha sentido de humor. Fazia um riso escarninho, ao imaginar-se a passear uma cabra, um animal tudo menos passeável, e fazia outros gestos cúmplices e inteligentes. Às vezes lembrava-me a minha avó, outras não. A minha avó era má.

Até que um dia cheguei de Lisboa, vim pôr as malas a casa e fui vê-los. Na altura a minha chegada já não era uma novidade: tornara-se uma rotina. A cozinha estava quente e aconchegante, e foi com uma sensação de regresso que girei o trinco à porta. Cumprimentámo-nos todos, na alegria do costume. Finalmente, ao canto da mesa, ela fez o seu ar maroto, um cubinho de carne erguido na ponta do garfo: “Não queres provar a minha cabrinha?”

Toda a gente me diz que esta história não foi bem assim, que fui eu que a inventei. Terá havido uma refeição de cabrito, talvez, mas nunca com aquela cabra. O que acontece é que as crianças chamam “cabrinha” a tudo o que é carneiro, macho ou fêmea, adulto ou cria… E é possível, realmente. À força de tanto contar histórias, um homem deixa de saber o que aconteceu e o que inventou. E, mesmo que ache que de facto aconteceu, ainda há a possibilidade de o seu cérebro o ter enganado.

É o bê-á-bá da neurologia: o nosso cérebro conta-nos histórias para preencher os espaços em branco, ajudando-nos a assimilar o mundo. Eu sempre tive dificuldade em assimilar o mundo. Mas não seria surpreendente se aquela menina tivesse comido a sua cabrinha. Faz parte do ADN das gentes do campo, uma certa promiscuidade entre as funções dos animais domésticos (e as emoções à volta deles). Eu próprio matei galinhas. E todos nós comemos da ‘Rita’, a porca que bebia água pela mangueira.

Como pude eu comer da ‘Rita’, pergunto-me hoje? Como pude ajudar a ir buscá-la ao curral, a erguê-la para cima do banco de abate, a segurá-la com todas as minhas forças de adolescente, sentindo-me a transformar-me num homem enquanto, debaixo de mim, um animal inteligente, talvez até afectuoso, guinchava desesperado? Como pude eu, durante tantos anos, arrancar as penas do pescoço às galinhas e cravar-lhe o gume frio e nem sempre regular de uma faca?

Parece-me tão longe, hoje, esse rapaz que eu era. E, no entanto, estaria ele menos certo, quanto à relação com os animais domésticos, do que este adulto confuso que ainda há dias viu uma vizinha matar um bicho-pau, com o desembaraço e a crueldade que só o hábito permite, e passou dois dias a rever a cena na sua cabeça? Está mais certo do que esse rapaz do campo este homem que nem é bem do campo nem é bem da cidade e que, cuidando dos cães como se fossem pessoas, é capaz de andar a semana toda a contar as horas para ir aos Altares comer um fillet mignon das mesmas vacas sobre que escreve?

Pensei nisso esta tarde, mais uma vez. Vínhamos a descer o Escampadouro, com os cães no porta-bagagens, e à nossa frente uma senhora algo desengonçada caminhava, com uma vara de vime fininha na mão, atrás de uma vaca solitária. Era gorda e parecia estar a reaprender a andar, como se criar aquele animal lhe tivesse devolvido a actividade física exigida pelos médicos, mas agora fosse hora de deixar o bicho no pasto, no meio da manada de algum criador extensivo que dentro de dias tivesse de ir entregar novo lote ao matadouro.

Que pensaria aquela senhora, ao encaminhar a sua vaca para a morte – a vaca que lhe devolvera a vida? E o que terá pensado a minha mãe, quando andou a criar aquela outra bezerra nos Regatos, indo para lá e para cá no Fiat Uno, duas vezes ao dia, nesses anos de solidão em que, seguidos, saímos ambos de casa, primeiro eu e depois a minha irmã? Que dor a povoaria quando, ao telefone para Lisboa, me comunicou: “Morreu a minha vaquinha”? E como pudemos nós todos continuar, apesar disso, a comer carne de vaca?

O facto é que pudemos, e esse é o mistério. Eu pude, apesar de tudo isso sobre que pensei e li. Portanto, não vai ser a filosofia a resolver a minha confusão, e espero que não seja o moralismo também. Mas pergunto-me se não será a sensibilidade. Talvez um dia destes eu saia de casa, rumo aos Altares, e, ao debruçar-me sobre aquele fillet mignon, simplesmente já não consiga comê-lo. Também isso ficarei a dever aos dois cães que se deitam debaixo desta mesa no preciso momento em que escrevo este texto. E o mais provável é que lhes perdoe.

Foto: © António Araújo

O elogio do Inverno

Crónica

Joel Neto

Esta semana chegou o Inverno. Há mais de um mês que nós já vínhamos acendendo a salamandra, mas isso nunca é sinal de nada a não ser de que passamos dois terços do ano com saudades do Inverno. Entretanto, tinha havido dias de frio, dias de chuva e dias de vento. Por várias vezes a Catarina voltara do café matinal, esforçando-se por escorrer os sapatos à entrada, e cantarolara: “Acho que chegou o Inverno!” Mas só agora tivemos aquela chuva gélida e ventosa que nos desce pelo pescoço ao abrigarmo-nos sob um beirado e nos greta as mãos ao baixarmo-nos para disputar a bola de ténis com os cães. E o sol, evidentemente: aqueles rasgões de luz brilhantes e líquidos que podiam valer, sozinhos, um ano inteiro.

Já estive em muitos lugares, e já experimentei muitas meteorologias, e agora vivo novamente numa ilha que tem muitas meteorologias e, por via disso, se traveste de muitos lugares: nunca conheci um lugar tão perfeito e uma meteorologia tão ideal como os Açores sob o sol de Inverno, esperneando contra a distância e o esquecimento.

Vejo os meus amigos de Lisboa lamuriando o fim do Verão e não posso fazer mais do que solidarizar-me com o seu desânimo. Vejo os meus vizinhos dos Açores suspirando contra a humidade e a noite e não me ocorre melhor do que assoar-lhes o nariz vermelho e gordo da neurose.

A verdade é que não se ensina, o gosto do Inverno. Mas pode-se aprender. Nas longas horas de contemplação, ao sábado à tarde, olhando pela janela a ver languescer a Terra. Num passeio pelas ruas solitárias da cidade, noite dentro, com o frio invectivando-nos o rosto. Na espuma que, das ondas que se atiram contra o pontão, o vento faz levantar sobre a estrada – eu aprendi.

Da primeira vez que decidi falar a um amigo sobre a ideia de voltar à Terceira, tão vaga ainda, fui logo alertado para o Inverno. “Isto agora parece-te muito bonito”, disse-me ele, “mas só depois de voltares a passar aqui um Inverno é que te vais lembrar.” E eu assustei-me, porque, na ânsia de escolher um forasteiro residente, ademais com experiência consolidada, e além disso educado – tudo o que, no fundo, pudesse pôr-me a salvo dos mitos da falta de mundividência e das paixões imberbes do moralismo –, tinha acabado por ir dar a um serrano. Se um serrano se assustava com este Inverno, então era porque este Inverno metia respeito, e foi ainda com esse receio sobre todos os outros que, anos depois, nos instalámos na ilha.

Lembro-me de, no início de Fevereiro, ao ver florir a primeira erva azeda, me ter dado para celebrar a chegada da Primavera, quando ela ainda estava a três meses de chuva, de vento e de frio. Foram meses penosos, devo reconhecê-lo, e todos os anos, ao ver os cerrados pontilhados de florzinhas amarelo-vivo, sou forçado a lembrar-me deles, como se, apesar de tudo, fosse importante ir mantendo o inimigo à vista.

Mas o inimigo nunca foi o Inverno: é o tédio. A expectativa de uma coisa que não vem e a incapacidade de nos povoarmos com outra – esse, sim, foi o adversário para que nos armámos desde o início, para que nos armámos desde sempre. E o Inverno é tudo menos tédio. O Inverno é silêncio, supremo antónimo do tédio – talvez se possa mesmo dizer que na confusão entre os dois reside um dos mais frequentes e irremediáveis labirintos do viver.

No Inverno ninguém me toca à campainha. Não há foguetes no horizonte, nem touradas ao fundo da estrada, nem cortejos apitando aí em baixo no caminho. Ouço um zumbido ao fundo, uma roçadora mecânica aparando uma sebe, e sei que é sábado de manhã, porque a ninguém ocorreria, no Inverno, aparar uma sebe senão a um sábado de manhã. Cruzo-me com um par de vozes alteadas, ao passar frente à porta de um café, e sei que as vozes vêm da televisão, porque ninguém precisa de altear a voz no Inverno.

No Inverno, tudo à nossa volta se aquieta: os animais acalmam-se, as plantas hibernam, as pessoas aguentam. E é então que, dentro de nós, o mundo entra em ebulição. Como se, se repente, fôssemos nós a própria fonte da vida. Trabalhando. Lendo. Conversando.

Ouvindo jazz, e dirimindo os programas da BBC Radio, e afagando a testa aos cães. E ateando de novo a salamandra para ouvir jazz e dirimir os programas da BBC Radio e afagar a testa aos cães e trabalhar e ler e conversar e escrever.

É rotina, o Inverno – sobretudo isso. E é magnífico. Tudo o que temos feito de bom na vida, temo-lo feito no Inverno. É no Inverno que se plantam as árvores e se escrevem os livros. É no Inverno que se dão os melhores passeios e se cozinham os pratos mais saborosos.

No Inverno não se vai à praia, mas usam-se os casacos. Ainda não encontrei razão mais irrefutável para uma pessoa dar atenção à roupa que veste antes de sair de casa. Um casaco elegante e confortável, um passeio na noite, o vento invectivando-nos o rosto, uma casa à nossa espera com cheiro a lenha, livros nas estantes e cães dormitando sobre os tapetes – chega o Inverno e tudo o mais me parece apenas uma sucessão de instrumentos para termos saudades dele.

Foto: © António Araújo

«A nossa casa é onde nós os dois estamos»

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António e Maria Linhares, casal protestante, emigrou pela segunda vez da Ilha Terceira, nos Açores, para San José, na Califórnia. Da primeira, estiveram 21 anos longe do arquipélago e, quando decidiram voltar a casa, Portugal entrou em crise e deixou de haver trabalho no ramo que os alimentava: o da construção. Ao fim de 13 anos, já à porta dos sessenta, viram-se obrigados a regressar aos EUA, o país para onde já tinham emigrado na juventude. Na ilha, deixaram uma parte da família, assim como os amigos mais chegados e a vivenda que tinham comprado a pronto.

Entramos na residência de António e Maria Linhares, uma mobile home nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e cedo percebemos que esta casa, em teoria desmontável, é uma metáfora para a vida do casal e para o seu entendimento do mundo. António explica-nos que uma mobile home «é uma casa que pode ser mudada. Os alicerces não são fixos. Pode-se pôr rodas de carros e transportar para outro parque. […] A casa é nossa, o terreno não.» O lugar onde vivem é uma construção «móvel», e o carro é um lease. Que nada seja perene não parece atormentá-los.

Queremos explorar o romantismo e perguntamos: «Porquê uma mobile home? A aventura não termina aqui?» A resposta de António não nos deixa perder de vista a realidade:

O preço das casas actualmente, em San José, é muito caro e nós nunca nos iríamos qualificar para comprar uma. As casas estão acima das nossas posses, embora nós os dois ganhemos relativamente bem. Para nos qualificarmos para uma casa, hoje aqui em San José, é muito difícil. Teríamos de ter uma grande quantidade de dinheiro para pôr como down payment, como sinal, e não tínhamos. Quando voltámos para cá viemos sem dinheiro, praticamente – eu trouxe 100 dólares e a Maria trouxe 200. Começámos uma vida de novo outra vez.

Entre a primeira e a segunda emigração dos Linhares, deu-se a bolha imobiliária. Se antes se tinham endividado, porque «havia essa facilidade […] de jogar com os cartões de crédito», agora, guiou-os a preocupação de não viverem acima das suas posses:

Os bancos emprestavam mais facilmente do que emprestam agora, por isso é que em 2008 houve aquela grande quebra na economia que levou muita gente à bancarrota aqui na América. Desta vez não entrámos nesse sistema, entrámos num sistema de não irmos acima das nossas posses: durante dois anos vivemos com a minha cunhada, não temos filhos agora, estamos só nós os dois, podemos controlar melhor as nossas dívidas. Depois de estarmos dois anos com a minha cunhada arrendámos uma casa, sempre de maneira a que tivéssemos hipótese de guardar algum dinheiro para casos de emergência; não comprámos carros novos, comprámos sempre carros usados e acabámos por entrar no sistema do leasing […] Já o disse várias vezes: agora é que estou na América. Sinto-me bem, vivemos à vontade, fazemos as nossas despesas, mas podemos fazê-las porque temos dinheiro para isso.

 

O regresso provisório aos Açores começou por ser uma viagem de sonho, um recomeço limpo, sem dívidas, num lugar «onde sempre foi um sonho voltar», mas cedo se tornou claro que seria apenas a segunda de três etapas:

A minha ideia era não voltar mais aos Estados Unidos, não por não ter gostado de estar cá, mas por causa do traffic, do trabalho, da pressão que tivemos de agarrar dinheiro suficiente para poder pagar dívidas. Quando fomos para [os Açores] comprámos a nossa casa, pagámos na totalidade para não termos dívidas; comprámos o carro, pagámos na totalidade para não termos dívidas… Mas chegámos a um ponto, nos Açores, em que começámos a entrar em dívida. Só eu é que trabalhava e só dava o suficiente para a vida normal, só para comida, gás, roupa, o básico.

No entanto, quando perguntamos se, de alguma forma, sentem que a ilha os rejeitou, Maria é peremptória:

Não foi rejeitar, foi por causa da inflação. Na minha opinião, quando entrou o euro descontrolou tudo: um café custava 50 escudos e foi logo para um euro e um euro não é 50 escudos, são 200. Foi tudo para o dobro, mesmo no supermercado e os ordenados nunca acompanharam.

 António concorda:

Também não achei que tínhamos sido rejeitados – pelo menos pelos nossos familiares e amigos fomos bem recebidos. A gente gostava da ilha, a gente gosta da ilha e gostava de estar lá. Se não tivesse acontecido aquela quebra com Portugal e com a Grécia, que estiveram mal financeiramente, talvez ainda estivéssemos lá – a Maria tinha o seu trabalho, eu tinha o meu e dava para nos mantermos. Quando houve a quebra, quando houve falta de emprego, as construções praticamente pararam e tudo mudou.

 

No parque onde agora vivem, rodeados de outras mobile homes, a população é 99% asiática. A relação que mantêm com os vizinhos é sobretudo cordial, mas «o sistema de vida é cada um para si». Como diz Maria, «é aquele sistema de “olá, bom dia, como é que estão, adeus” e cada um vai para os seus trabalhos». A principal dificuldade é a língua: «muitos deles aqui no bairro não falam inglês».

Longe da família, num bairro de imigrantes asiáticos onde são «estrangeiros», os Linhares poder-se-iam sentir um pouco sós. Mas têm a companhia da irmã viúva de Maria, que visitam com frequência e com quem vão muitas vezes jantar fora, e a comunidade da Igreja Evangélica Baptista, a East Valley Church, onde já tinham sido baptizados da primeira vez que estiveram nos EUA e para onde voltaram.

A igreja acaba por ser, também ela, uma casa «móvel», que tem acompanhado o casal nas suas várias errâncias. Depois do baptismo na Califórnia, continuaram a frequentar a Igreja Baptista em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, quando regressaram aos Açores, e agora voltaram ao ponto de partida. Diz-nos António:

A comunidade da igreja protestante, ou como queiram chamar, é unida. Geralmente, temos vários programas que são feitos durante a semana e que nos juntam uns com os outros. Nós já não frequentávamos muito as festas portuguesas, mas uma vez que nos tornámos protestantes – é a melhor maneira de o dizer, porque todos nós somos cristãos, católicos ou baptistas – afastámo-nos completamente porque não acreditamos naquelas festas. Para além disso, como veio uma nova etapa, como nos afastámos das festas, criámos outros amigos e outros convívios. É completamente diferente. […] É a nossa segunda família.

Conhecendo um pouco dos ideais da Igreja Baptista, ocorre-nos perguntar aos Linhares se esta nova América de Donald Trump é um lugar onde se sentem mais em casa, com as suas crenças e convicções, do que se sentiam na Europa ou no tempo de Barack Obama. António responde sem hesitações.

Felizmente, tivemos o Donald Trump. A Hillary já estava a perseguir os cristãos e a ideia dela era tentar abafar, fazer com que os cristãos tivessem menos e menos poder, menos voz activa no país. Não que Donald Trump seja um santo ou um pastor – ele tem os seus defeitos, tem as suas virtudes, mas veio como uma lufada de ar fresco para os cristãos, porque tirou uma data de pressão. Estávamos a ver-nos ser cada dia mais abafados quando estava o Obama e se tivesse sido a Hillary as coisas, para os cristãos deste país, iam estar mal e mal.

Maria acrescenta: «As crianças não podiam falar de Jesus numa escola, podiam ser expulsas.» E António elabora:

Isto começou a ficar terrível. Não se podia dizer “merry Christmas”, tinha de ser “happy holidays”… Começaram a apertar e a apertar e com a entrada do Donald Trump ele cortou isso tudo, temos a liberdade de expressão cristã que estava a ser muito oprimida. No entanto, nós sabemos que mais tarde ou mais cedo Donald Trump vai sair do governo – o máximo que ele pode estar são oito anos. Se viermos a ter um governo democrata vai voltar a opressão sobre os cristãos. Nós esperamos isso. A bíblia diz-nos isso sobre os últimos tempos, que os cristãos vão ser oprimidos, perseguidos. São profecias que vão ter de se cumprir e nós compreendemos isso.

Quanto à posição do actual Presidente dos EUA relativamente às minorias étnicas e aos imigrantes, António apressa-se a esclarecer:

Não houve presidente nenhum até agora que tivesse mais minorias a trabalhar do que aquelas que ele tem, tanto faz a comunidade preta, como a comunidade hispânica. Há emprego agora como nunca houve antes, o desemprego nos Estados Unidos é de 3.99% e dizem os entendidos que o desemprego nunca esteve tão baixo como agora; a comunidade negra e a comunidade hispânica têm agora mais pessoas empregadas do que nunca. Os gays ele talvez não apoie porque vai mais pela moralidade. O embaixador da Alemanha é gay e ele tem-no como embaixador da Alemanha. Ele não é contra gays, ele não é contra pretos – a media é que tira do contexto. O que ele não faz é o que o Obama fez. O Obama, quando foi o dia da comunidade gay, enfeitou a White House com luzes gay – ele não é para isso.

Nessa América onde agora se sentem mais em casa, António levanta-se muitas vezes às 3 da manhã para ir trabalhar e Maria só tem uma fim-de-semana de folga em dois. Mas fazem as compras no Costco, onde «compram aquilo de que [necessitam] em grandes quantidades», ou no Grocery Outlet, «que é muito mais barato, às vezes metade do preço em muitas coisas» e não dispensam, durante a semana, o papo-seco português, que compram numa padaria popular portuguesa em Allen Road. Quando a saudade aperta, recorrem ao Abel’s Liquor Store, «que vende tudo o que é português – o bacalhau, a morcela, a linguiça, os vinhos…».

Com a família que ficou na Ilha Terceira (o filho Daniel, a nora e um neto) e com a que emigrou para Vancouver, no Canadá (a filha Stacey, o genro e duas crianças), comunicam por video conference, mas também lhes proporcionam algumas visitas à Califórnia. Agora, podem dar-se ao luxo de ajudá-los, mas também não querem «mimá-los» demasiado.

Não. Eles têm de trabalhar pelo que é seu, como nós também trabalhámos por tudo o que temos – ninguém nos deu nada. A nossa família não podia, era muito pobre. Viemos sem nada e voltámos sem nada, começámos a trabalhar para podermos ter. Com muito suor, trabalho e persistência é que a gente tem o que tem. Com muito sacrifício…

Da Ilha Terceira, António guarda a memória de infância dos serões passados com o avô, nos Biscoitos, a vindimar. «Não havia luz, não havia nada, mas vivíamos naquele sistema, com candeeiro ou com velas, e eu adorava aquilo. […] Sim, essa é uma que fica sempre na memória: estar naquela parte da ilha, onde não havia luz, e passar tempos com o meu avô a jogar às cartas, ao burro. Ele ria-se e eu ria-me. Éramos só nós os dois, ele até é que cozinhava para mim. Eu adorei aquela época da infância, do vindimar, ir buscar e acartar uvas, ir para o lagar.»

Já Maria, da infância na Ilha Terceira, recorda a fome:

A memória que tenho é de uma coisa que a minha mãe fazia: todas as vezes que ela cozia o pão – a gente era pobrezinhos, havia dias em que íamos para a cama sem comer, com fome – ela punha um pãozinho na rua, embrulhadinho, para a primeira pessoa que passasse levar.

Na mobile home do casal Linhares, em Pepper Tree Estates, respira-se uma felicidade a que não é alheio um certo desapego das coisas materiais. Queremos saber de onde vem esse desapego, se a sua origem é a adversidade que tão evidentemente marcou a vida de ambos, ou se é algo mais.

Nós não estamos agarrados a nada, isto é tudo temporário. É a maneira de ver do crente: nada disto é nosso, é temporário, Deus dá-nos para usar enquanto estivermos aqui, porque esta vida é curta e a outra é que é eterna. Devemos usá-lo com respeito, no melhor sentido, mas não estamos agarrados a nada. Estou preparado para morrer quando Deus me chamar, a qualquer altura. Gosto muito das minhas coisas, mas se me disserem “tens de te livrar disso, vais para trás, começar de novo noutro lugar” estou pronto para isso.

 Em última instância, o lugar onde vivem deixa de ser relevante.

A nossa nação não é esta, é a nação de Deus. Nada disto nos importa. Somos naturalizados americanos, somos naturalizados portugueses, mas, para nós, isto é temporário.

O que será, então, a casa para António e Maria Linhares? A casa que tanto lhes custou encontrar e pela qual ainda lutam, quase sexagenários, como se a vida de trabalho tivesse mesmo agora começado? É Maria quem nos responde, e a sua resposta não deixa de ser redentora:

A casa é onde nós estamos os dois – se estamos aqui, se estamos em casa da minha irmã, se estamos noutro lugar, se estamos na Terceira. Qualquer lugar onde estamos é a nossa casa.

SEMANA 10

Protagonistas: António e Maria Linhares

Actividade: Indústria da Construção Civil (António); limpezas hospitalares (Maria).

Regresso: San José, Califórnia – Ilha Terceira, Açores.

Anos de ausência: Da primeira vez que emigraram, 21. Da segunda, 5.

O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

Crónica de Joel Neto

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Nunca escrevi foi sobre o Roberto, e a razão é a mais simples: conheço-o mal o suficiente para temer não estar à altura. Apesar disso, não há semana em que não me entre em casa uma história do Roberto. Algumas vêm da Catarina, que dia sim dia não anda com ele na urbana, a caminho da biblioteca ou de regresso do ginásio. Mas tenho a impressão de que não há um só lugar nesta ilha onde seja garantido que não me vão falar no Roberto: nem as mesas das pastelarias nem os consultórios dos dentistas – nem os corredores das escolas secundárias, nem os guichés das repartições públicas, nem sequer as cadeiras frias das casas mortuárias durante a madrugada.

Há que tempos que estou para escrever sobre o Roberto. Talvez deva arriscar.

O Roberto, que partilha o nome com o dono do café onde vou mas na verdade conduz a urbana da Terra Chã, deve ser o homem mais popular da ilha. “Urbana” é como na Terceira se chama a um autocarro, uma camioneta da carreira: carreira urbana, por extenso – para sintetizar, “urbana”. E é dali, daquele assento altivo, que o Roberto gere os seus domínios. Cumprimenta cada pessoa com que se cruza, mas isso ainda é dizer muito pouco. Sabe o nome de cada um dos seus passageiros, das velhinhas que vão para o Centro de Saúde aos miúdos que vão para a escola e aos próprios pais de família que, apanhados com o carro na revisão, não andam de urbana mais do que uma vez ao ano. E, sobretudo, quando fala com eles é como se se preocupasse.

Entra uma garota numa daquelas urbanas das oito e meia e, ao dar-se conta de que a manhã está mais fresca do que esperava, faz um arrepio: “Bom dia, Roberto. Ai, que frio…” Então o Roberto leva o pé ao travão hidráulico. “Mas tens frio, Andreia? Queres ir buscar um casaco?” Acto contínuo, carrega no botão luminoso, a abrir a porta de novo: “Vá, vai lá buscar um casaquinho, que eu espero.” E quando, ainda antes do fim dessa viagem, verifica que a greve dos professores vai realmente deixar os miúdos sem aulas, como já temia, tira os óculos escuros e olha o miúdo mais rufia através do espelho retrovisor: “João, a escola está fechada. Como é que queres fazer? Sais aqui e eu vou dar a volta e apanho-te no regresso? Ou vens já comigo até lá acima e voltas?”

Trata toda a gente por tu, o Roberto, e ninguém lho leva a mal. Toda a gente trata toda a gente por tu, aqui na ilha. Mas, principalmente, o Roberto elevou a condução de um autocarro a uma arte pop e a figura do condutor a uma estrela. Melhor: fê-lo por generosidade. As crianças, os adultos, os velhos – ninguém, para ele, merece menos cuidados. Na sua história conjura-se tudo o que ainda reste de rural nesta ilha e de decente na ideia de transporte público. O meu único medo é que um dia venha um partido qualquer e o convide para se candidatar a uma junta de freguesia, ou assim. Homens como o Roberto são atraentes de mais para a política pelintra destas ilhas. Nunca me esqueço daquele carteiro do Corvo de quem deram cabo.

Até lá, porém, há um adolescente muito hormonoso que não se senta quieto na cadeira, sempre aos saltos a importunar as raparigas? O Roberto chega ali à subida do Alto das Covas e, quando o trânsito pára, deixa descair a camioneta dez centímetros e carrega no travão, fazendo-o sentar-se. Vem aí a Páscoa e há duas senhoras sentadas no banco da frente a lamentar-se pela falta de tempo para cozer a massa sovada, contrariamente à tradição familiar? O Roberto promete trazer no dia seguinte um bolo para cada uma, daqueles que o irmão coze na Agualva (acho que é na Agualva). A urbana esvaziou e já só resta a Catarina para transportar até ao ginásio? O Roberto leva o resto da viagem a fazer conversa sobre exercício físico e a contar do pequeno ginásio que se esforçou por instalar em casa, aqui há uns anos, mas nem sempre tem tempo de usar como pensava.

“Estás a ver aquela casinha?”, apontou-lhe há dias. Falava de um casebre poético que há ali em baixo, em frente à Cadeia, brilhando na orla de uma mata elevada ao fundo de uma quinta muito bonita. “Tu és uma pessoa que ali é que estavas bem, não és?” Perguntou-lhe a Catarina: “Porque é que dizes isso, Roberto?” E ele: “Não sei. Podias traduzir os teus livros sem barulho.”

O Roberto é assim: olha realmente para as pessoas, interessa-se realmente por elas. Penso nele e lembro-me dos motoristas de autocarro da minha infância: o Dutra, que fazia o caminho todo em segunda, numa lentidão que nos entediava de morte; o José Pereira, que era do Sporting e andava o tempo todo nos limites do que o autocarro dava, como talvez só fosse possível naqueles anos tontos; o António, que era filho da D. Albertina e não havia nada sobre que não soubesse tudo – ao pé do Roberto, temo bem, eram todos figuras bidimensionais, desprovidas de dimensão literária.

A única vantagem é que, nos casos deles, a urbana andava sempre a horas – mesmo quando era o Dutra a conduzir. Já com o Roberto, tantos são os afazeres, acontece estar atrasada, o que é sempre uma chatice. Quando alguém protesta, porém, ele meneia a cabeça: “Eu sei… Mas eu esforço-me…” Um dia ainda o transformo no herói de um conto infantil. Talvez aí consiga fazer-lhe justiça – aqui, não fiz.

Foto: © António Araújo

As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

«Há 43 anos, 24 horas por dia, em português»

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Paulina Arruda nasceu na Ilha terceira em 1962 e emigrou para os EUA com 17 anos, em 1980. Formada em Psicologia, casou-se com Henrique Arruda, advogado, de quem tem um filho, e juntos, em 2010, adquiriram a WJFD, a maior rádio portuguesa da América. Sediada em New Bedford, mítica cidade baleeira, a WJFD chega a meio milhão de luso-americanos. É um pilar da comunidade portuguesa nos EUA e tem vindo a afirmar-se como uma ponte entre as suas várias gerações.

Com uma licença de emissão de 50 mil watts, o máximo autorizado na Costa Leste, a WJFD cobre seis Estados da Nova Inglaterra, chegando a Long Island, em Nova Iorque, e ao Maine, no extremo nordeste. Com um protocolo com a RTP e a Antena 1, divulga em português notícias de um Portugal distante e procura ser uma embaixadora da cultura lusa nos EUA.

Na sede da rádio – um escritório arrendado num antigo edifício fabril -, Paulina explica-nos que, apesar da sua dimensão, a WJFD nunca deixou de ser uma rádio comunitária, com uma forte aposta nas notícias locais e nos conteúdos de interesse para a comunidade, especificidade essa que despertou recentemente a atenção da FCC (Federal Communications Commission):

Nós somos um caso muito, muito único. Na semana passada, eu e o Henrique viajámos para Washington DC durante dois dias. A FCC está numa fase transitória. Basicamente, o que eles querem é mais rádios comunitárias, em vez das grandes companhias que compraram os 50 mil watts e que transmitem de Nova Iorque para São Francisco: fazem uma programação em Nova Iorque ou em qualquer lado e transmitem nas rádios todas. (…) A FCC está a ponderar o que vai fazer e quer ouvir as rádios, as comunidades, e nós fomos lá apresentar o nosso caso. Eles nunca tinham pensado que poderia existir uma situação como a nossa: uma rádio de 50 mil watts FM há 43 anos, 24 horas por dia numa língua que não é o inglês, que atinge esta comunidade toda. Eles disseram-nos mesmo: “pode ser que agora apareça mais alguém, mas até este momento não nos apareceu caso nenhum como o vosso”. Portanto, somos uma estação muito, muito, muito única, mesmo em termos das rádios americanas, em grande parte por causa dos 50 mil watts – as rádios de 50 mil watts foram todas compradas, são rádios americanas e talvez dez companhias sejam proprietárias de todas. Uma coisa que eles perguntavam era quantas rádios tínhamos – “mas é só essa?”, “é, é só essa”.

Os 50 mil watts FM trazem encargos. Há uma torre a manter, uma antena de 152 metros, uma série de contratações externas em serviços de manutenção e de limpeza, despesas de electricidade, comunicação, etc., e ainda os 12 funcionários que constituem a equipa permanente da rádio. Não havendo apoios significativos, a WJFD sobrevive da publicidade e essa é uma das principais funções de Paulina – a de garantir o pecúlio publicitário.

Muitos americanos ainda se surpreendem por ainda existirmos. Mesmo quando estou a falar com alguns clientes eles perguntam se na comunidade, num lugar assim grande, a publicidade vai ter algum sucesso e eu digo-lhes “estamos aqui há 43 anos, 24 horas por dia e sobrevivemos cem por cento de publicidade”. Portanto, deve haver alguém que frequenta as casas comerciais, os negócios que negoceiam connosco, senão já não existíamos.

A preocupação de Paulina é evidente e, quando lhe perguntamos como é que se consegue angariar publicidade para sustentar uma rádio em português nos EUA, a resposta não ignora o rumo natural da «americanização» das novas gerações:

Acho que é o poder da comunidade que ainda temos: ainda temos uma comunidade suficientemente grande, com poder de compra suficientemente bom, que é capaz de manter uma rádio destas. (…) [No entanto], quando uma geração começa a morrer e as outras gerações se vão integrando na comunidade americana, não sabemos o que vai acontecer, mas às vezes pensamos no que vai acontecer, como é que vai acontecer e como é que vai ser.

Interessa-nos ponderar esse desaparecimento e tentar perceber a dimensão da perda: o fim da WJFD não seria apenas o fim de uma rádio, de uma empresa, de um sonho. Seria, antes de mais, o fim de uma missão que começou há 43 anos – a de garantir, por um lado, a longevidade da língua e cultura portuguesas nesta região da América e, por outro, a união e identidade da mais antiga comunidade de emigrantes portugueses nos EUA.

Nós sentimos muito isso. Se fôssemos uma rádio que existisse há 10 ou 15 anos, que só tivesse umas horas em português… Mas quando são 43 anos, 24 horas por dia, quando se atinge pelo menos meio milhão de portugueses e de luso-descendentes, o peso é maior, sentimos mais essa responsabilidade. Nós sentimos que levamos Portugal à comunidade, mas também sentimos que representamos a comunidade. É por isso que a nossa prioridade é a qualidade e a boa imagem. Quando olham para a comunicação social, quando olham para a rádio, nós estamos a representar essa comunidade – por um lado, somos a voz dessa comunidade. Na rádio, uma das nossas grandes funções é essa: networking. Nós sentimos que estamos a representar essa comunidade e sentimos a obrigação da boa imagem.

A nossa pergunta não podia ser mais directa: o que é que deixaria de existir com o desaparecimento da WJFD? Paulina responde sem hesitações:

A ligação da comunidade a Portugal, a presença de Portugal na comunidade através não só do protocolo que temos com a Antena 1, mas também dos convidados, das pessoas de Portugal, políticos ou não, todos os que são relacionados com Portugal e que por aqui aparecem, de tudo o que achamos que é importante para a comunidade. Mesmo o relacionamento entre as comunidades. Por exemplo, Lowell e Pawtucket sabem o que se passa nas outras comunidades: Lowell fica no Norte de Boston e sabe o que se passa em New Bedford e em Fall River através da WJFD.

A ideia de que a WJFD se encontra «no coração de uma grande comunidade» suscita novas perguntas. Será que o papel da rádio também é o de unir as várias comunidades de emigrantes lusófonos na Nova Inglaterra? Decidimos ir mais longe: é legítimo dizer que, se hoje ainda existe essa comunidade, ela existe, sobretudo, através da rádio? Paulina não estranha a ideia e apressa-se a concordar:

Sim. Nós nunca falamos em madeirenses, em açorianos, em continentais do Norte ou do Sul de Lisboa. Os cabo-verdianos também são uma comunidade muito importante para a WJFD desde o princípio. No ano passado reformou-se o Djosinha, que é uma figura muito conhecida em Cabo-Verde – se perguntar a qualquer cabo-verdiano se conhece o Djosinha ele diz “eu conheço, como é que você conhece?!” – e ele reformou-se com 86 ou 87 anos, fazia programação na WJFD desde o início. Como estava a dizer, para nós não há distinção de onde são, de onde vivem agora – é a comunidade portuguesa, nós transmitimos para todos.

 

A WJFD é um trabalho de união da comunidade no espaço, mas também no tempo. Alguns dos seus ouvintes ainda lhe chamam «A Hora Portuguesa», o nome que tinha a frequência 97.3 antes de 1973, quando era apenas um programa e não uma rádio. Essas pessoas, que hoje têm 80 e 90 anos, já ouviam «A Hora Portuguesa» nos anos 50, a altura em que chegaram aos EUA. Hoje, muitos dos jovens que ouvem a WJFD confessam ter aprendido o vício de ouvir a rádio com os avós e bisavós. Este público-alvo, multi-geracional, não deixa de representar um desafio para os programadores da WJFD:

Um dos desafios da nossa programação é transmitir para várias gerações, vários grupos etários – tem de haver sempre um balanço na música ou nos programas para agradar a todos. Quando vem música mais recente de Portugal, aquele rock mais pesado, temos de perceber onde é que encaixamos, como é que encaixamos. (…) Estamos sempre muito conscientes dessa programação, quem é que está no ar, o tipo de música, as notícias, os jogos da bola ou outra programação que se encaixa nessas horas. (…)

Na residência dos Arruda, uma inspiradora casa New England, com soalho de madeira, papel de parede vintage e janelas de guilhotina, encontramos muitos livros em português, bustos de escritores portugueses, álbuns de jardins de Portugal… A família regressa todos os anos à Ilha Terceira, onde «se sente perfeitamente à vontade», para passar férias, ir à praia, relaxar, mas esse regresso às origens é uma constante: na rádio, em casa, na ilha, os Arruda nunca se esquecem de cultivar o seu «lado português», ainda que sejam um casal pragmático, pouco dado a nostalgias inúteis, e apreciem a centralidade do lugar onde vivem. Como diz Paulina:

Basicamente, o que eu gosto é – e agora já se faz, antes era mais difícil, mas já há mais voos e mais companhias – de dizer “vamos a Nova Iorque” e pronto, metemo-nos no carro e facilmente vamos a Nova Iorque passar o fim-de-semana. Nos Açores, numa ilha, é mais difícil e há uns anos era mais difícil ainda – e agora, em certas alturas do ano, como no Verão, é difícil apanhar o voo. Eu gosto dessa liberdade de decidir vamos aqui ou vamos ali, vamos a Boston jantar fora ou vamos ao teatro. Numa ilha pequena não há.

Para esta Terceirense, nascida perto da Base das Lajes, a emigração não parece ter sido uma experiência traumática, como foi para os seus avós maternos, por exemplo, que chegaram a Nova Iorque em 1880, ainda antes de se conhecerem, e fizeram uma árdua viagem de comboio até à Califórnia. Paulina não subestima, contudo, a distância geográfica:

A emigração, para mim, não é uma pessoa meter-se dentro de um carro e fazer alguns quilómetros. Eu digo isso quando se fala na emigração portuguesa na Europa: é fácil chegar a Portugal, é fácil visitar Portugal, é fácil regressar a Portugal. Quando se tem de atravessar o Atlântico é mais difícil, é mais caro, tem de se trabalhar, tem de se marcar férias, tem de se acumular dinheiro para voltar e nem sempre pode ser todos os anos. A distância e o tempo – não só a distância da Europa para cá, mas o tempo que, muitas vezes, se demora a poder voltar.

É esta distância que torna o papel da WJFD ainda mais determinante, não só porque a rádio se empenha em corrigir a percepção que a comunidade portuguesa nos EUA tem de Portugal – «fazer a ligação ao novo Portugal» -, mas também porque quer modificar essa imagem obsoleta que o Portugal moderno ainda tem «do emigrantezinho que veio com a malinha. A comunidade já não é essa.»

A missão dos Arruda talvez seja maior e mais pesada do que qualquer um de nós está disposto a conceber nesse fim de tarde pluvioso e agradável em que nos recebem na sua casa, para dois dedos de conversa e um copo de rosé. Não memorizámos a marca, mas era americano, e soube-nos ainda melhor do que o nosso rosé português.

 

SEMANA 9

Protagonista: Paulina Arruda

Actividade: dona (juntamente com Henrique Arruda) da WJFD, em New Bedford, Nova Inglaterra.

Regresso: New Bedford, Nova Inglaterra – Ilha Terceira, Açores 

Anos de ausência: 38 anos

Como chamais a isto a que eu chamo viver?

Crónica

Joel Neto

“Mas também é preciso viver…”, insiste ele. Censura-me, a verdade é essa, e não está sozinho. Sentou-se à minha frente com queixas de outros elementos da família – que não apareço, que nem sequer falo ao telefone, que sou (isto não o diz, e talvez também não o pense) um sacana egoísta obcecado com o trabalho –, e eu chego a perguntar-me se devo de facto defender-me.

Devo-lhe muito, mas nem é por isso que o prefiro aos restantes tios. Por um lado, foi o primeiro da família (e o único até à sua geração), a estudar – à noite, de permeio com uma profissão exigente e competitiva, à custa de sacrifícios que nenhum de nós considerou. Por outro, a vida guardou-lhe os mais difíceis testes de força e de carácter, e ele respondeu-lhes com uma integridade quase sobre-humana.

Admiro-o, e, quando fui para Lisboa, nos alvores dos anos 90, enganava-me e chamava-lhe pai. Era natural, porque os dois são gémeos idênticos, aliás com larguras de gestos e tons de voz parecidos. Mas, principalmente, senti-me sob os cuidados de um pai, naquelas semanas em que me acolheu. Não poderei esquecer-me. De maneira que me defendo, realmente, mas com factores circunstanciais: inoportunidades, coincidências infelizes, mal-entendidos.

Estamos no Rocha, a comer uma telha de polvo, e ao nosso lado a Catarina e a Odete esforçam-se por se concentrar uma na outra. Suspiro: quem sabe não consigo ser melhor sobrinho, agora que chego à segunda metade da vida – melhor sobrinho e melhor primo e melhor tio e melhor irmão e melhor filho. E, no entanto, aquelas palavras continuam a reverberar em volta: “Também é preciso viver…”

Porque, aparentemente, não é viver, isto que faço: é trabalhar apenas – de dia e de noite, de semana e ao fim-de-semana, no computador e até na hora da mesa. E a Catarina (isto o meu tio também não diz, é demasiado cavalheiro para isso) não ajuda. Enfia a cabeça nos livros de manhã e só a tira à noite. Às vezes vai ao ginásio e, mesmo assim, volta para o trabalho.

Ocorre-me brincar: não se preocupe, tio, que a reforma já não vem longe – não tarda teremos tempo para tudo. Mas, entretanto, lembro-me de ainda ontem ter visto o A., que foi colega do meu pai, a atravessar a Rua da Sé. Vi-o na passadeira à minha frente e parei diligentemente o automóvel. Ele meneou a cabeça e, olhando para o interior do carro, a perscrutar a identidade do motorista, chegou-se para trás e mandou-me passar a mim.

Nem me reconheceu: fez simplesmente um gesto com o braço, a mandar-me passar, porque tinha toda a prioridade mas nenhum compromisso. Entristeceu-me imenso, e imaginei-me a mim próprio a mandar passar os carros, já velho – sem horas para estar em lado nenhum, sem uma frase para escrever ou um parafuso para apertar ou um apêndice para extrair.

Creio que foi por isso que deixei de fumar: porque gostaria de não ter de viver assim, um dia. E que passei a pôr-me aos saltos ao final da tarde, e que comecei a comer alface: para, se de facto chegar à reforma, haver ao menos uma possibilidade de não ter de atravessá-la a mandar passar os carros – como aquele homem também não tem de fazer, mas faz porque quer, ou porque está deprimido.

Quero uma reforma saudável ou reforma nenhuma. Para que me serviria ela, no fundo, se não para trabalhar melhor?

De maneira que, quanto ao meu tio, me fiquei pelas inoportunidades. Ademais, tenho as pazes feitas com o inevitável. Primeiro, já não vou ser melhor pessoa. Depois, li o suficiente sobre a vida dos escritores, e mesmo que não tivesse lido sobre a vida deles tinha lido os seus livros: nunca um escritor deu um grande homem de família.

O resto não é fácil explicar a alguém que traz tão boas intenções, mas a verdade é que a família está quase sempre na origem das melhores e das piores coisas da vida – de todas as vidas. No fundo, aliás, é aí que o escritor estará sempre: às voltas na família. Ela julgá-lo distante, até alheado, não só faz parte do processo, mas chega a ser necessário. E, entretanto, trabalhemos, que ainda não vi melhor maneira de viver.

Foto: © António Araújo