«Era o único som na noite de todo o mundo»

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Crónica

Mudámos tantas vezes de casa em Lisboa que existia sempre um caixote por abrir no fundo do corredor. Esse caixote (sem rótulo) viajou selado da Rua dos Mouros para a Travessa de São Pedro, da Travessa de São Pedro para a Rua da Costa do Castelo e da Rua da Costa do Castelo para os Dois Caminhos da Terra Chã. Em cima dele, jantámos à luz das velas. Amigos usaram-no como cadeira. Vários sacaram de um canivete, numa fúria de curiosidade, porque queriam ver o que continha, de uma vez por todas. Não deixámos. Ainda hoje continua fechado, num canto da cave, esse caixote sem rótulo, um mistério nascido da nossa preguiça, ou da nossa superstição.

Pode ser que lá estejam as cassetes de vídeo da colecção Atalanta (mas já nem temos leitor de vídeo), o jogo de panelas de alumínio que uma tia nos ofereceu no dia do nosso casamento (e que nunca chegámos a usar), os sapatos de salto alto que comprei em Paris (e que não consigo calçar), soporíferos e analgésicos poderosíssimos (e fora de prazo). Nenhum de nós, nestes últimos anos, se lembrou do que está guardado no interior desse caixote indecifrável, que não é leve nem é pesado, nem se deteriorou especialmente com o passar do tempo.

Mais cedo ou mais tarde, num sábado de chuva pela manhã, uma saudade indefinida vai levar-me a descer até à cave, em busca desse não sei o quê que fazia parte do nosso passado. Só espero que aquilo que ainda lá está dentro, de facto, nos pertença, e que não tenha havido, perdida nesse momento longínquo, alguma troca indevida de caixotes. Que ao som da chuva eu não descubra, ironia do acaso, os fragmentos amarelecidos de uma velha correspondência, escrita numa letra que não é a nossa. E que não seja esse o castigo desta preguiça: o de termos sido os fiéis raptores da história manuscrita de uma outra intimidade. Como se, inesperada, nos assaltasse a estranheza de tudo o que nos é familiar?

Havia na nossa casa do Bairro Alto uma velha cómoda de família, de madeira escura, de onde se libertava um odor. Um cheiro que um homem sabe que traz na memória, mas não consegue identificar o que é. Talvez fosse o odor das coisas antigas, mas bem conservadas, uma mistura do aroma do papel envelhecido que forrava as gavetas com o perfume da casquinha, e ainda algum vestígio da alfazema que noutros tempos se usara para aromatizar a roupa.

Esse odor rico, espesso e impossível de decompor — uma vez que a cómoda já existia na minha família há várias gerações e que cada um dos seus donos lhe dera um uso diferente — entrava dentro de nós como a resposta a um desejo antigo. Um desejo de memória ou de passado. E ali guardava eu grande parte do meu guarda-roupa, sem saber que a cada dia este odor me acompanhava.

A certa altura, no sufoco da falta de espaço que sucede nos pequenos apartamentos do centro de Lisboa, livrei-me daquela cómoda. E, com a cómoda, foram todos esses cheiros e suas origens remotas e o catalisador insuspeito de um momento de paixão. O casamento sobreviveu ao desaparecimento da cómoda. Mas nunca, em mais nenhuma peça de roupa que eu usei, ele tornou a sentir aquele odor, ainda que, por vezes, o tenha procurado.

Quanto do que procuramos uma vida inteira afinal já nos foi dado? Quanto do que nos une é efémero como um cheiro e granítico como a memória que dele temos e que, por vezes, nunca nos deixa? Dentro do caixote sem rótulo onde guardamos, sem o saber, as provas da nossa felicidade, algo nos espera, algo ainda nos pertence, uma música a tocar ao contrário da vida, o segredo do tempo que dura, ausente.

Um poeta definiu a duração. Diz ele que é «o mais fugidio de todos os sentimentos», um arrepio, uma intuição. O reencontro súbito com aquilo que somos e de que nos esquecemos. A celebração do que é irrepetível e, porém, permanece.

«Digo o nome da cidade»

kate - a vida num contentor

Crónica

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que já não sou. De muito mais do que saudade se faz este regresso ao lugar de onde partimos (que é só um).

Assaltam-me primeiro as areias da Caparica, nós em Maio, prematuros, a inventar tardes de sol, depois o Tejo, que aos olhos dos outros apenas brilha, e o namoro relutante das duas margens que o rio desune, cheio do bocejo daqueles que o atravessam dia após dia, antes de amanhecer. Avisto com um fascínio que me antecede as lajes brancas do Terreiro do Paço que um lodo antigo humedece, e é como se a cidade tivesse sido, noutros tempos, uma ruína (que, de vez em quando, reemerge). Seguem-se as ruas da Baixa, ilusória esquadria, e a estátua do Marquês, a pergunta que fiz ao meu pai, no Renault 4, daquela vez: quem é o senhor dos cabelos compridos, porque é que tem um leão? Os cabelos são uma peruca e o leão é um símbolo de poder. O que é um símbolo? Ao fim de tantos anos, como me pude esquecer? Não tardamos a chegar ao Campo Grande, e o avião já vai tão baixo, quase a pousar, que o seu voo rasante me angustia. Porque eu já vi Lisboa, perdida no meio das nuvens, mas Lisboa não me viu ainda.

Assim que dou o primeiro passo do lado de fora do avião, envolve-me o ar seco da minha terra como um abraço de sal. Venho cheia do verde húmido das ilhas, das noites dormidas no fundo do mar, e às portas da cidade chego a medo, como um anfíbio transitando entre dois mundos, devagar. No aeroporto, as multidões cosmopolitas desconhecem-me, mas os Lisboetas sabem que sou um deles. Vêem a minha cauda de limos, a escorrer água, e tudo em mim lhes é familiar. Também eles partiram, também eles mergulharam e, chegados do sonho de outras ilhas, é como se só ali acordassem. Respiro fundo, sinto o sangue nas veias a aquecer, esperam-me sorrisos à chegada e o olhar doce dos meus pais, que eu sei que nunca vai envelhecer. Avançando a passos leves, numa versão de mim mesma destilada, finjo que não é nada, mas preparo-me.

Preparo-me para o peso impossível da cidade que me viu nascer. Para as ruas da Baixa apinhadas, que eram melancólicas e desertas (ao fim da tarde), para os cafés filosóficos do Chiado (antes das lojas de grande marca), para os botequins da Graça e as tascas de Alfama (quando o fado era vadio), para as mesas dos bares do Bairro Alto, onde metade do que sonhámos, de facto, não aconteceu. Preparo-me para o mistério de tudo o que escapou à nossa decisão. À nossa vontade. Ao nosso querer. Para o mistério de tudo o que inadvertidamente deixámos de ser.

E, nesse momento, já estamos lá em cima, no largo de São Tomé, onde a ruína convive com os turistas e quase não se sente. E ali mesmo, ao virar da esquina, abre-se o abismo de Santa Luzia, onde, tantas vezes, a imensidão azul nos asfixia. Porque queríamos ir e não podíamos. Porque éramos ricos e ingénuos, e inquietos ao mesmo tempo. Porque sonhávamos com viagens de barco e com a vida dos piratas, e com tudo o que era longe, pueril e incerto.

Numa rua do Castelo, à frente de um quartel desabitado com a melhor vista fantasma da cidade, mora ainda a minha infância. Levo comigo, para toda a parte, as portadas brancas dessa casa onde o sol não entra, mas avança. Adoro o som dos meus passos no soalho de madeira, a voz clara dos poetas brasileiros que os meus pais ouviam de manhã, e a casa dos avós, ali tão perto, que se atravessava a passos largos, nas tardes de luz e de ópera. Por vezes, ouço o grito solitário dos pavões, cativos nos jardins de São Jorge, e lá por dentro estremeço: o que é voltar a casa? De que fios se urde a sensação, haverá algum segredo, alguma fórmula para descrever o lugar onde nos esperam, intactas, as nossas ilusões?

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que ainda sou. Nas suas ruas, ao entardecer, conspiro a minha próxima errância. Naquela esquina de que me esqueço, e onde alguém tentou escrever um verso, volto a encher-me de esperança. De todos os lugares do mundo, só Lisboa me vê partir. Há nela uma passagem para o eterno que não chega a ser secreta, porque o lugar de onde somos nunca o tempo o desfez.

A mulher réptil e o homem leopardo

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Jurei que a tinha visto no dia anterior, com um anoraque vibrante, num tecido inexplicável, em tom de escamas de réptil, uns ténis último grito, que cintilavam, os lábios pintados com um rosa discreto, mas incandescente, cigarro no canto da boca, óculos de massa que deixavam entrever dois olhos claros, estrangeiros, irremediavelmente.

Era tão superior, na sua aparência, a tudo o que a rodeava, que as cores sem nome que a vestiam se diluíam nas paredes da cidade, tingindo as fachadas brancas e o mar azul ao fundo como um traço de aguarela. Ou de lava.

Havia vento. Mas ela estava sentada numa mesa lá fora. Camaleónica. Deslocada. O simples facto de estar ali suscitava comparações impossíveis entre planos que não se tocavam: não era uma mulher entre outras. Era o humano a superar a paisagem. Mineral. Sem idade. Desejável, ainda que de uma forma abstracta.

Hoje, vi-a de novo, sentada no mesmo café, mas do lado de dentro. Não estava sozinha. E não era a mesma mulher. Em vez de escamas, trazia umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Algo nela, desfocado, estremecia. O corpo, hirto, mantinha-se recuado mesmo enquanto ela comia. Sentado à sua frente, um homem olhava-a como se olha alguém que adoeceu há muito tempo. Sem culpa. Sem pena. Sem condescendência. E ela, de olhos baixos, alimentava-se. Empenhada naquela relutância.

Perguntei-me: tê-la-ei sonhado ontem? Ou será que ela lhe mente? Talvez lhe esconda que é jovem. Talvez se finja doente. Olho para o homem e reparo. Há um brilho que o torna cúmplice, uma inércia que não sente. Também ele é ilusão, também ele é fingimento. Um pacto houve entre os dois. Que ela seja a enferma, e ele o sobrevivente. O guardião da doença. O porteiro daquela dor. E num teatro sem palco, o casal emudeceu.

No casal que não se toca, que não diz uma palavra, não há antes nem depois. Talvez descubram que ela, misteriosa iguana, vai armazenando o calor. Talvez ignorem que ele, leopardo solitário, já não é um predador. Que o mundo o tornou vulnerável, que a natureza o expulsou, que essa espécie sem destino já está a desaparecer. Talvez não saibam ainda o que quase chegaram a ser.

Nesse quase onde cabemos, fomos felizes a dois. Percorremos os desertos, partilhámos as miragens, juntos aceitámos exilar-nos de tudo o que era selvagem, e nas selvas sufocantes que criámos, entretanto, já nevou.

Crónica de um desaparecimento

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Crónica

Numa manhã ventosa de novembro, eu vi-os. Eram quatro: três rapazes novos, atléticos, e uma octogenária, paralítica, a descerem a rampa na direcção do cais. Ela, gritando, gesticulava com frenesim, numa espécie de furor endiabrado. Eles, metódicos, içavam-na em peso da cadeira de rodas e mergulhavam-na na água plúmbea, sem piedade.

Em redor, alguns madrugadores observavam a cena com pacatez, de mãos nos bolsos. Os três rapazes inclinaram, então, a cabeça ao mesmo tempo, à beira do cais, e viram a sombra a descer, ondulante, naquele canto de mar sem fundo.

Ao meu lado, um turista assistia, num horror mudo. Devia julgar-se testemunha de um crime inconcebível, num país onde se afogavam octogenárias com um descaramento impune. Não fora um crime, porém, que ele testemunhara – mas um milagre.

Chamava-se Idalina e tinha 83 anos. Há cinquenta que todas as manhãs o seu dia começava ali, na praia da Silveira, com um mergulho indiferente às convenções do calendário ou aos caprichos da meteorologia. Para Idalina, só uma coisa era verdade: o mar gelado, de madrugada. E essa verdade guardou-a ela a vida inteira, escondida no meio das mentiras: que era doente, que não podia, que estava velha, que a gripe (estendiam-lhe o dedo, quando o diziam) ia acabar por apanhá-la um dia. Com uma militância que metia medo (só os bisnetos aguentavam o peso daquela ditadura), mergulhava sem pernas todos os dias.

E ali, no fundo do mar, elas renasciam-lhe.

Idalina morreu muito velha, sentada na sua cadeira de balouço, à lareira, mas estava nesse preciso momento a sonhar com o mar de chumbo no cais da Silveira (não o azul, que era coisa de meninos, mas aquele, mais proceloso, com revérberos de prata). E a morte foi apenas mais um mergulho.

Procuro esse músculo que se chama resiliência. E entro no quarto pouco mobilado de uma residência para estudantes nos subúrbios de outra cidade. Lá fora, a temperatura desce, e não conheço ninguém. O quarto não é aquecido, o que é bom (dizem-me), porque posso usar o parapeito da janela como frigorífico. Nos duches, a água é descontínua (tenho de carregar num botão de vinte em vinte segundos). Acima de tudo, não há um só café à vista, com bolas de Berlim, meias de leite e folhados de salsicha.

Mas há uma estante que me corta o quarto ao meio e que eu, para ganhar espaço, arranco do chão. Há um pano florido, com que cubro a parede, e um candeeiro de mesa que trouxe comigo e que sempre foi o meu. Dali a horas, na cantina, constato que o jantar é um engano. Dali a anos, descubro que o mais difícil foi o recomeço. Voltei diferente, já não cabia no meu quarto de criança.

Hoje, chamo-me Idalina e tenho 83 anos. Entro noutro quarto pouco mobilado, no segundo piso de um lar (também lhe chamam residência sénior, última morada, não lugar). Pouso no chão a minha pequena mala, olho em redor para a mobília que só atrapalha e reprimo um suspiro. Será que a memória me trai, ou já passei por aqui? A tinta amarela das paredes lembra-me outras manhãs, do mesmo tom desmaiado. E da janela, o que se vê? Ponho os óculos. Um mar prateado.

Menina? Bom dia. Pode fazer-me um favor? Traga-me uma pequena lata de tinta branca, uma trincha e um tabuleiro. E já que está aí, com um ar ocioso, traga-me também parafusos e uma chave inglesa. Não sabe o que é uma chave inglesa? Que pecado…

Na minha última morada, há uma cadeira onde me sento descalça, a apanhar sol. Será que aos oitenta as ondas do mar já não rebentam? Já não nos sussurram as nossas paixões? É o corpo que o decide, é a mente que não sente? Aos oitenta, ainda temos ilusões? Procuro, ignorante, o que vai fazer-nos falta. É a ternura. Ou a ficção? Será o toque imaginado de outras mãos?

Neste mundo de beleza inadiável, onde o nada se decide, somos doces e a noite é de veludo. Mas ninguém lá entra brandamente.

Autópsia sentimental

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Crónica

Na última noite, eu pedi um gin tónico com casca de laranja caramelizada, pau de canela e estrela de anis – e ele uniu as mãos em cima da mesa, fez-me um sorriso e mandou vir uma água das pedras. Não tinha despido o fato de trabalho, ou sequer aliviado o nó da gravata, e ainda ficou uns segundos a olhar para mim, como se eu fosse a última reunião desse dia – e a mais delicada.

Lancei-me num balanço incoerente do tempo que passáramos juntos, na esperança de que, ao fazê-lo, parte do feitiço se dissipasse, e revisitei os momentos de epifania, os insultos requintados, as promessas inspiradas. Falei-lhe do desperdício. Da ironia. Dos infernos que tínhamos visitado, de mãos dadas.

E ele, visivelmente feliz por ter pedido uma água das pedras, arqueou ao de leve as sobrancelhas, descruzou as pernas e inclinou-se para a frente: «Isto é o quê? Um balanço de contas?» Levantei a cabeça e respondi-lhe: «Não. É uma autópsia.» O fantasma de um recomeço brilhou-lhe nos olhos, mas já sabia, tão bem como eu, que o nosso jogo tinha acabado.

Nessa noite, saí do bar, entrei na chuva (se chovesse, teria entrado), e dei um passo na direcção do futuro. Há certos fins que nos aproximam do princípio. Há certos passos que têm um som diferente dos outros, como se, por momentos, nos tivéssemos esquecido de tropeçar. De sermos coxos.

E há paredes nesta casa vivida a dois onde o taxidermista que também somos pendura animais embalsamados. Por vezes, eles espreitam-nos de manhã cedo (quando vamos a caminho do duche), com os seus chifres cor de marfim e os seus olhos incisivos e vazios. E sussurram-nos culpas, humilhações, calamidades. São pequenos demónios, cristalizados, que servem o grande propósito de nos lembrar que a nossa cabeça, por alguma razão, não está ali. Por sorte, alguém nos salvou. Fomos resgatados.

Da parte acidental da vida, e da sua inevitabilidade. Dessa grande floresta de acasos onde não existe o princípio de um caminho. Porque não se quer verdadeiramente partir – e muito menos chegar. Dos lugares onde nos dizem que somos livres, e onde a liberdade não nos responde – porque, afinal, tem outro nome.

Hoje de manhã, o Outono atravessou a nossa casa. Trazia um cheiro a raízes apodrecidas, folhas secas e erva molhada. Abri a porta de rede do jardim – e respirei. Não há nada que hoje em dia me faça desejar a Primavera. Todos nós somos estilhaços, que se recompuseram. Fragmentos de outros tempos, fantasmas de outras estações. Camadas sobre camadas de deslumbramentos e desilusões.

Nos seus silêncios cada vez mais densos, a linguagem conjugal é como um velho vinil que gostamos de ouvir e que inadvertidamente se foi riscando ao longo dos anos – até se tornar inaudível. Guardamos a canção que se esconde sob a superfície arranhada como o Outono a sua folha mais verde.

Porque a cada dia que passa, seja por milagre ou por teimosia, a Primavera acontece.

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

Uma fogueira na escuridão

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Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.

O alcatrão derretido sob o olival

Crónica

Joel Neto

“Felicidade diferente de alegria?!”, estranhou ele. Riu-se, como se tudo pudesse ser ainda uma piada cúmplice entre nós: “Não ‘tou te entendendo. O que é que você quer dizer com isso, felicidade é uma coisa e alegria é outra?” – e eu fiquei ali, a pensar na possibilidade de também isso ter a ver com o desastre Bolsonaro, talvez como efeito, talvez como causa.

Contei-lhe a minha história também. Muitos dos meus amigos brasileiros iam votar Bolsonaro. Todos os meus amigos brasileiros protestantes, tanto os do protestantismo bom como os do protestantismo mau, iam votar Bolsonaro. E eu não queria fazer juízos morais sobre isso, apesar da tentação. Mas não deixava de me sentir inquieto perante a evidência de que, ao contrário do que sempre quisera acreditar, o humanismo que me esforçava por cultivar, aquele que talvez tivesse persistido em mim mesmo quando eu me empenhara tão determinada e estupidamente em resistir-lhe, não vinha afinal da minha formação protestante.

“De repente”, suspirei, “é como se tivesse estado mais certo na adolescência rebelde e contestatária do que na maturidade serena e conciliadora. Talvez deva mesmo ser assim. Mas, de qualquer maneira, esta eleição, para mim, não é só sobre a fragilidade original da democracia face ao imperativo da segurança, a experiência da corrupção ou o impulso do ódio: é também sobre a verdade e a mentira no modo como, para nosso próprio apaziguamento, forjamos a memória da juventude.”

Ele meneou a cabeça, numa anuência branda. Levou a mão às frontes, mais uma vez. Andava com enxaquecas há semanas, coisa que logo no princípio do jantar anunciara como uma reacção antecipada à vitória do fascismo. Afinal, estávamos a menos de 24 horas da abertura das urnas da primeira volta – o mais natural era que a dor estivesse ao rubro. Mas, inesperadamente, aquilo em que se deteve foi na felicidade e na alegria, como se eu devesse ter mais cuidado com a minha ideia: “Diferentes. Não percebo…”

Isto foi em Óbidos, no fim-de-semana. Quase todos os anos vou ao Fólio, e este não foi diferente. Durante dois dias, percorri o empedrado, revi amigos, discuti literatura. O Luís levou-me uma garrafa de vinho e o pai da Pipa – nunca se esquece – uma ginjinha das dele. Entretanto, revi a Gisele, conheci a Patrícia, acertei pendentes com o João e a Ana Margarida, pedi ao Afonso que me explicasse tudo sobre o Scrivener, agradeci a generosidade indefectível da Maria João, conversei longa e cumplicemente com a Ana Cristina. Mas em nenhum momento voltou a sair-me da cabeça aquele homem que as sortes do jantar tinham colocado à minha frente: aquele brasileiro grande e elegante, intelectual, bem de vida – e, apesar disso, confuso com a hipótese de a infelicidade conviver com a mais retumbante alegria (e vice-versa).

Fez-me lembrar um daqueles nova-iorquinos do Woody Allen, sobretudo os dos anos 80 e 90, tão desejosos de encontrar um problema que acabavam por encontrá-lo realmente. Com a diferença de que a confusão dele não parecia apenas uma auspiciosa perspectiva de depressão, mas uma verdadeira perplexidade, como se se tratasse antes de um filme de ficção científica e houvessem espetado um garfo nas costas do robô, petrificando-o num curto-circuito cheio de luzinhas verdes.

Agora estou em Torres Novas, e é com a alegria de um regresso a casa que aqui volto. Já não passava um dia inteiro nesta cidade há quase 40 anos, mas houve um tempo em que, inclusive, vivi aqui. O meu pai cresceu aqui. Apesar de nascido nas ilhas, algumas das minhas primeiras memórias são deste rio e deste castelo ensolarado e deste cheiro a alcatrão derretido sob o olival. E, embora acabe sempre por ir a onde me convidam, mentiria se dissesse que vou a todo o lado com o mesmo entusiasmo com que venho hoje aqui, visitar os leitores e passear pelos lugares da infância sobre que julgo ainda guardar alguma recordação.

De maneira que o Abílio me leva por eles: a tarambola do Almonda, a rua onde o tio Manuel Jorge tinha a retrosaria, o bairro de Valverde onde vivia o tio Alfredo, a fábrica de álcool onde agora está um centro comercial sobredimensionado, com metade das lojas por alugar. E o Nicho, claro. A casa onde vivemos. A Santa da Ladeira, ali mesmo ao lado. O Ritonicho. O pinhal que já não existe, a curva onde o cabeleireiro se dobrava sobre a carrinha do leite para pedir um iogurte Longa Vida, o campo de argila para onde o vento levou o meu pára-quedista de brincar (e que, aparentemente, também já desapareceu).

Foi um tempo importante para mim, aquele. As pessoas – lembro-me – diziam: “A ‘inha casa é branca”, ou: “O peixe está todo a desaparecer do’ rios.” Creio que foi a primeira vez que pensei nas palavras. Entretanto, o terramoto da Terceira interrompeu a estada, acrescentando-lhe dramatismo a ela e redenção a ele – sabe-me bem lembrar tudo isso, salvo que não me sai da cabeça a estupefacção do meu novo amigo, que tem dores de cabeça porque Bolsonaro vai ser eleito presidente do Brasil, mas nunca tinha pensado na possibilidade de alegria e felicidade serem palavras diferentes, que significam coisas diferentes e até, às vezes, opostas.

Pergunto-me qual das duas ele nunca terá experimentado, e esforço-me por recapitular o nosso jantar, na esperança de não encontrar uma gargalhada.

Foto: © António Araújo

No fundo do copo, amanhece

eu e melville

Crónica

São inesperados os lugares onde nos sentimos em casa. Duzentos metros mais abaixo, do lado esquerdo da rua, o café da freguesia, onde se vende aguardente às sete da manhã e onde ambos os venenos – o álcool que eles bebem, o café que eu peço – se respeitam.

Estamos de acordo quanto a isto: o café, tal como o bagaço, bebe-se de pé. São verticais. E se alguém de fora me puxa para uma mesa e eu, por cortesia, me sento, é como se o dia me entrasse pelo canal errado – e amanhecesse ao contrário. Não me levanto da mesa vencida, não desisti ainda, mas custa-me voltar a subir a rua na direcção da minha secretária e começo a imaginar como seriam as próximas horas – ou o tempo que me resta – se não o fizesse.

Talvez virando à esquerda, em vez de entrar pelo portão, eu fosse dar a uma estrada que ainda não conheço. Um caminho de terra batida que me conduzisse a uma outra casa, a uma outra vida. E talvez essa casa não existisse sequer nesta ilha, e não houvesse mar nenhum à volta. E a vista das janelas mais altas, ao subir uma longa escadaria, fosse a de uma cidade em tons de prata e sépia que se estendesse, como um réptil pré-histórico, até à linha do horizonte.

Talvez eu não fosse uma mulher de quarenta anos, nessa varanda sobre o deserto, mas uma anciã de oitenta. E o meu corpo já nem precisasse da força dos músculos para vencer a geografia. Talvez eu já tivesse feito as pazes com a ideia do meu desaparecimento e a fronteira entre o ser e o não ser se evaporasse no ar que respiro como a idade num copo de aguardente.

Antes das nove, na venda, não discuto outro tema se não a meteorologia. Quero saber se estava calor lá em cima, de madrugada, nos campos cerrados. Se corria alguma aragem na montanha, vinda do mar. Quero ouvir os homens ébrios que lá estiveram, decifrar metade, intuir o resto, procurar nas suas vozes roucas o que não os inquieta. O que os fez voltar.

No meio de uma conversa de circunstância, há alguém que me responde: «tentamos respirar». É cedo para tanto. Pago o meu café, espreito o céu que se adensa. Penso: nestes velhos lavradores que se despedem, há uma chama, um desalento. Há um destino que não cumpriram, um falso tormento. Escondem-me, como fantasmas, que eu, sem o saber, já sou um deles.

A minha primeira confissão

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Crónica

Antes de morrer, a minha bisavó fez dois pedidos. Primeiro, que as suas últimas horas fossem passadas a ouvir música. Segundo, que todos os membros da família – filhos, netos, bisnetos – viessem despedir-se dela, um de cada vez.

Não me lembro se escolheu um compositor, mas sei que gostava de música clássica. A janela do seu quarto dava para um jardim de dois pisos, um pouco sombrio, com vista para os miradouros do Castelo de São Jorge. E, nesse jardim, um velho jacarandá em flor, cheio de cintilações lilases, parecia estar à espera dela.

Tinha sido dona de uma loja de brinquedos, na baixa lisboeta, e casara-se com um homem que gostava de teatro. O meu bisavô, que não conheci, acordava tarde e batia as palmas, para lhe levarem o pequeno-almoço. Ela levantava-se cedo, para ir trabalhar. Tinha a seu cargo o futuro da loja e várias propriedades situadas no centro de Lisboa. Era uma comerciante experiente. Uma herdeira respeitada. A mais velha, numa família sem varões. Imagino-a ainda nova, feliz na azáfama do negócio, nessa Lisboa buliçosa dos anos 30 e 40, enquanto a guerra rebentava ao fundo, no resto da Europa.

Antes de fechar os olhos, a minha bisavó recebeu-nos a todos, individualmente, para nos dizer qual era o principal defeito de cada um. Talvez entendesse que, no defeito, residia o perigo. Talvez quisesse defender-nos daquilo que nos tornava corruptíveis. Na família, fora uma diplomata – a melhor virtude que uma matriarca pode ter – mas nunca deixou de ser uma fina observadora da matéria humana.

Lembro-me de estar sentada no chão de alcatifa, a olhar para a porta daquele quarto. Quem ali entrava voltava a sair instantes depois – num vago sobressalto. Haveria no desgosto uma nota de indignação? A minha bisavó conhecia-nos desde o berço, vira-nos crescer – seguira o rumo dos nossos tormentos, desmontara a mecânica da nossa fé, descobrira, na criança que tínhamos sido, os traços do adulto que acabámos por ser.

E em quase nada a passagem do tempo a surpreendeu.

Como eu era a mais nova, fui a última a ouvi-la. E ainda hoje o guardo comigo – o meu principal defeito –, como se fosse de estimação. Tenho-o numa pequena caixa de madeira, pintada de verde, que me acompanha desde a infância. Fiz-lhe três furos estreitos, para deixar entrar o ar. Certas noites, parece-me que canta, outras, só o ouço respirar. Alimento o meu defeito com parcimónia, mas nunca me pareceu bem matá-lo à fome, ou deixá-lo sufocar. É a última palavra que tenho dela, foi a minha primeira confissão. Cabe-me apenas fechar a caixa. Guardar o vício no meu coração.