A minha primeira confissão

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Crónica

Antes de morrer, a minha bisavó fez dois pedidos. Primeiro, que as suas últimas horas fossem passadas a ouvir música. Segundo, que todos os membros da família – filhos, netos, bisnetos – viessem despedir-se dela, um de cada vez.

Não me lembro se escolheu um compositor, mas sei que gostava de música clássica. A janela do seu quarto dava para um jardim de dois pisos, um pouco sombrio, com vista para os miradouros do Castelo de São Jorge. E, nesse jardim, um velho jacarandá em flor, cheio de cintilações lilases, parecia estar à espera dela.

Tinha sido dona de uma loja de brinquedos, na baixa lisboeta, e casara-se com um homem que gostava de teatro. O meu bisavô, que não conheci, acordava tarde e batia as palmas, para lhe levarem o pequeno-almoço. Ela levantava-se cedo, para ir trabalhar. Tinha a seu cargo o futuro da loja e várias propriedades situadas no centro de Lisboa. Era uma comerciante experiente. Uma herdeira respeitada. A mais velha, numa família sem varões. Imagino-a ainda nova, feliz na azáfama do negócio, nessa Lisboa buliçosa dos anos 30 e 40, enquanto a guerra rebentava ao fundo, no resto da Europa.

Antes de fechar os olhos, a minha bisavó recebeu-nos a todos, individualmente, para nos dizer qual era o principal defeito de cada um. Talvez entendesse que, no defeito, residia o perigo. Talvez quisesse defender-nos daquilo que nos tornava corruptíveis. Na família, fora uma diplomata – a melhor virtude que uma matriarca pode ter – mas nunca deixou de ser uma fina observadora da matéria humana.

Lembro-me de estar sentada no chão de alcatifa, a olhar para a porta daquele quarto. Quem ali entrava voltava a sair instantes depois – num vago sobressalto. Haveria no desgosto uma nota de indignação? A minha bisavó conhecia-nos desde o berço, vira-nos crescer – seguira o rumo dos nossos tormentos, desmontara a mecânica da nossa fé, descobrira, na criança que tínhamos sido, os traços do adulto que acabámos por ser.

E em quase nada a passagem do tempo a surpreendeu.

Como eu era a mais nova, fui a última a ouvi-la. E ainda hoje o guardo comigo – o meu principal defeito –, como se fosse de estimação. Tenho-o numa pequena caixa de madeira, pintada de verde, que me acompanha desde a infância. Fiz-lhe três furos estreitos, para deixar entrar o ar. Certas noites, parece-me que canta, outras, só o ouço respirar. Alimento o meu defeito com parcimónia, mas nunca me pareceu bem matá-lo à fome, ou deixá-lo sufocar. É a última palavra que tenho dela, foi a minha primeira confissão. Cabe-me apenas fechar a caixa. Guardar o vício no meu coração.

A delicadeza de um furacão

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Crónica

Ontem, a ilha adormeceu sob alerta de tempestade. Antes de ir deitar-me, corri os estores de todas as janelas, olhei para os meus cães, ligeiramente sobressaltados, e repeti-lhes várias vezes a palavra «vento», que lhes ensinei quando tinham meses, porque um nome pode ser o melhor antídoto para o medo.

Dormi a ouvir a força do ar a passar pelos Dois Caminhos e a decidir, como um louco que não sabe para onde vai, dividir-se ao meio, metade pelo Caminho de Além e a outra pela Fonte da Faneca. E dali acenderam-se no meu espírito as artérias da Terra Chã, que percorri de olhos fechados, pela noite dentro, até a luz do sol a bater nas vidraças se tornar mais ensurdecedora do que o ruído do vento.

Saio de casa cedo, de olhos semicerrados, e paro a saudar um vizinho sentado nos degraus da entrada. Ele responde-me com um sorriso complacente. Sinto as pernas pesadas, mas desço a rua a correr. Quero chegar ao cruzamento, porque sei que lá ao fundo, no princípio da Canada dos Folhadais, o mar aparece recortado no relevo da ilha – e puxa-me para dentro.

Uma corrida é uma espécie de abandono. Parte de nós não está ali. Corremos para chegar a esse lugar onde somos e não somos ao mesmo tempo. É um desaparecimento feliz, que se traduz em gramas, mas os gramas que perdemos não são água apenas: são desejos irresolúveis, taras que nos perseguem, metas que não cumprimos – porque continuámos sem dar por elas. A verdade é que nunca parámos de correr.

Na Silveira, explode a luz. Há banhistas no mar tempestuoso, vejo o delírio dos seus corpos brancos a esbracejar. Deixo-me envolver pelo cheiro quente da praia, sigo pelo canto do olho essa onda grande que entrou agora – e continuo. Da Aberta até ao Negrito, o vento bate-me de frente e estendem-se quilómetros de estrada e mar. Mas nunca, em nenhum ponto da ilha, ele nos ameaça, o que não deixa de ser avassalador. Que a delicadeza da geografia torne tudo mais angustiante.

Queríamos que o oceano espelhasse o que nos vai por dentro – os mastros partidos, as velas rasgadas, as cordas de salvação. Queríamos a fúria de Emily Watson em Breaking the Waves e a paixão de Ingrid Bergman à beira do vulcão. Mas há fogos extintos que nos acompanham a vida inteira e são eles que nos ensinam a disciplinar as nossas emoções.

Muitas vezes, quando corro, sinto um segundo coração. Ouço, em São Mateus, o tumulto dos barcos atracados no cais, as asas dos pássaros a lutarem contra o vento, o riso dos pescadores que não se fizeram ao mar e, lá no meio, um coração a bater ao meu lado que já nem é o meu. Foi Julian Barnes quem o disse – the past beats inside me like a second heart.

Então, desvio os olhos para o porto e percebo. É Peniche ao pôr do sol. É o frio na praia do Baleal quando o nevoeiro ainda não se levantou. São os meus pés na água gelada a dizerem-me que o Verão começou. É a criança que eu fui nesse areal onde a maré recuava até desaparecer. É a minha prancha de esferovite a subir uma onda de cada vez. A capela de pedra, isolada, e os saltos da falésia para o mar. São as travessias a nado e as primeiras noites passadas em branco, a filosofar.

É o sorriso dos meus amigos de infância a dizerem-me que a aventura ainda não acabou.

Imunes ao paraíso

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Crónica

Uma mulher passa quarenta e um dias num barco à deriva – e sobrevive. Um furacão no meio do Pacífico levou-lhe tudo: o noivo, o sonho, a carne (perdeu 18 quilos), a ilusão de que há lugares onde somos eternos.

Tami Oldham tinha vinte e três anos e Richard Sharp trinta e quatro quando o Hazana, o iate de luxo que deviam levar do Taiti a San Diego, foi colhido por ventos de 230 Km/h e ondas de 12 metros. Quando Tami acordou (vinte e sete horas depois), o mastro principal estava partido, as velas esfarrapadas, o barco inundado e deserto.

É aqui que tudo começa. Tami talvez queira morrer, mas vê um frasco de manteiga de amendoim a boiar nas águas e abre-o. Não sabe bem se está viva, mas olha para o mar, de súbito tranquilo, e enfurece-se. O Hazana é um caixão a flutuar no Pacífico, mas ela improvisa uma vela e fixa um rumo com a ajuda de um sextante. Ao tocar na cabeça, percebe que tem um golpe fundo e que a vida lhe escapa, mas ouve uma voz difusa e decide obedecer-lhe.

Tudo isto nos é familiar. Quantos de nós não adormecemos no paraíso e acordámos no meio da devastação? Há soluções imediatas a boiar nos escombros e uma impotência do tamanho do mar. Há um exército de instrumentos que não funcionam e o milagre de um velho sistema de navegação.  De repente, uma voz que ainda não sabemos que é a nossa – mas que nos mantém vivos – diz-nos qualquer coisa. É um grito mudo, sem oxigénio, mas vem cheio de uma fúria que acende a noite.

Nunca mais me esqueço desse jardim imaculado, na casa de uma viúva, onde havia uma porta minúscula pintada de azul celeste. Tinha vinte centímetros de altura, dez de largura, e era por ali, explicou-me ela, que entravam as fadas. Ficámos as duas a olhar para aquela porta, e talvez os seus olhos me tenham sorrido com uma auto-ironia salutar. Havia uma irreverência azul celeste a tentar romper o luto. E disto se fazia o seu heroísmo.

Parafraseando John Cassavetes, «eu nunca vi um furacão. Nunca passei quarenta e um dias à deriva no mar. Mas já vi pessoas a destruírem-se a si próprias da maneira mais comezinha – já vi pessoas a abdicar (…)».

Não precisamos de um furacão para nos convencermos de que estamos vivos. Só que há quem passe uma vida inteira à espera de que ele aconteça para se salvar. E a maior parte das vezes, ainda que o procuremos no horizonte, o cone metálico feito de pó e de vento não chega sequer a formar-se.

Deus já nos visitou a todos – e já nos abandonou. Não lhe sigo o rasto no meio da floresta de laurissilva, essa mata incandescente que percorremos numa tarde de calor. Mas há uma estrada de terra vermelha que atravessa a ilha, longe da areia e das ondas do mar, onde um touro enraivecido pode, a qualquer momento, provar-nos que somos heróis.

Ardendo na luz de Setembro

kate e jasmim serreta

Crónica

Sempre invejei aquelas pessoas que tomam o pequeno-almoço de robe. No velho apartamento do Bairro Alto, quando descia as escadas para ir trabalhar, sentia o cheiro de torradas acabadas de fazer e imaginava-os de robe, ao casal que vivia por baixo, a tomarem o seu pequeno-almoço devagar, às sete da manhã.

Para mim, era um manifesto contra a voragem do tempo. Que, independentemente dos copos de vinho que tinham bebido ao jantar na noite anterior (e eu bem ouvira o saca-rolhas, garrafa atrás de garrafa), se levantassem tão cedo só para poderem vestir os seus robes e saborear as suas torradas.

Em Lisboa, a vida era uma corrida, era um cansaço. Sucumbíamos à porta de um bar que se encadeara com a saída a desoras do trabalho só porque, naquele momento, seria impensável pousar a cabeça a ferver em cima da almofada. Dormíamos de pé, dormíamos por dentro do fumo dos cigarros e dos copos de balão, dormíamos a dois metros de casa, sentados nos degraus da calçada, até um vizinho nos perguntar: «Posso entrar?» E nós medíamos as nossas reservas de tabaco (e de outras coisas) e dizíamos, a arrastar a voz: «Há sempre lugar para mais um.» O vizinho ria-se, cheio de paciência, e corrigia: «Em casa. Eu só quero entrar em casa.»

Nessa noite, entreolhámo-nos, com vergonha. Este homem só quer entrar em casa, e nós aqui a impedir-lhe o caminho, em fuga não se sabe bem do quê. Da manhã? Do tempo? Do trabalho que inventámos? Do amor que nos escapou?

Os vinte são uma idade maravilhosamente estúpida. Cheia de surtos de tenacidade e de teimosa desilusão. Choramos como velhos a recordar um passado que ainda não vivemos. Rimos como crianças da infância que já não temos. E quando, um dia, sentimos o cheiro de torradas pela manhã, e os trinta nos tomam de mansinho, a vida de repente já não nos parece tão assustadora – não porque enfrentámos os nossos maiores medos, mas porque aprendemos a dar o braço a todos esses fantasmas e passámos a noite com eles, a fumar.

Hoje em dia, ainda não visto robe nem como torradas de manhã. Às vezes, sento-me nos degraus das traseiras a olhar para o jardim, mas, se não tiver a minha chávena de café na mão, pergunto-me logo o que estou ali a fazer. A contemplação é um tributo que prestamos à profunda indiferença da natureza. São pequenas as nossas dores nos vários cambiantes de verde que se acendem com a passagem da luz, são ínfimas as nossas inquietudes na gloriosa explosão de roxo que é uma buganvília em flor, são ridículos os nossos fracassos quando corremos pela calçada com vista para o mar e uma chuva com sabor a mel nos molha devagarinho.

A Terceira, descobri-a aos quarenta. Voo quilómetros pelas canadas da ilha, perco-me nos matos e nos trilhos pedestres, ando de canoa, de pedal e de prancha, encho-me de sangria nas festas populares, danço o que não é dançável e ainda quero mais. Há uma vontade quase canibalesca escondida nas inércias da idade. Uma espécie de «selva polar», como canta Arthur H., um «vamos comer Caetano», como diz Adriana Calcanhoto, evocando o espírito do Carnaval. Talvez por isso eu tenha, da natureza inebriante destas ilhas, uma visão peculiar: a mesma de Pieter Bruegel, um mestre flamengo da Renascença, quando pintou Paisagem com a Queda de Ícaro. Ícaro, cujas asas de cera foram derretidas pelo Sol (porque ousou subir demasiado alto…), acabou de cair no mar. Mas o mundo idílico ali retratado cumpre serenamente as suas rotinas, em tudo alheio ao quase invisível par de pernas que se agita nas águas.

A paisagem é um deus risonho a brincar connosco: se lhe morrermos aos pés, ninguém repara. Ninguém repara porque está sol. Ninguém repara porque está calor. Ninguém repara porque alguém se riu. Ninguém repara porque a nossa morte se dilui na luz.

Fecho os olhos para ver

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Crónica

Entrei na Strand Bookstore, uma livraria mítica no centro buliçoso de Nova Iorque, em busca de salvação. Minutos antes, ouvira Alain de Botton no meio do trânsito, em podcast, falar do seu último romance, The Course of Love, e pensei: será um sintoma de alguma patologia grave interessar-me pelo que um autor suíço, perdido entre a filosofia conjugal e a autoajuda, tem a dizer a respeito do amor? Esse amor que perdura depois de já termos sido «felizes para sempre»?

A estante onde fui encontrá-lo deu-me a resposta: «Books to help you escape the madness». Livros que vão ajudá-la a escapar à loucura! Perfeito, pensei, ouvindo pela primeira vez a voz daquela livraria. Olhei para o espaço em redor, para as «18 milhas de livros» (novos, usados, raros) que anuncia a publicidade da Strand, mas já não saí dali. Levei comigo o Alain de Botton e duas peças de teatro: A Slight Ache (Uma Dor Ligeira), de Harold Pinter, e Death of a Salesman (A Morte de um Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. O primeiro porque todos nós, casados, na meia-idade, sentimos essa pequena dor dormente e crónica que não sabemos de onde vem. O segundo porque sempre achei que, para vencer na vida, uma pessoa tem de aprender a vender as suas ilusões.

Tornei a sair para o calor da Broadway confortada com a ideia de que, antes de eu nascer, a literatura já tinha resolvido todos os meus dilemas sentimentais e ali, no meio da multidão de turistas, do ruído do trânsito, de nova-iorquinos discretos a tentarem reclamar a sua cidade num sábado de manhã, acode-me ao pensamento uma imagem que irá acompanhar-me a vida inteira: a cama do lado num quarto do hospital de São José, em Lisboa. Duas mulheres de mãos dadas a chorar um homem moribundo. Uma, a legítima, a outra, ilegítima. Conheceram-se ali, no fim. E, depois de tantos anos a travarem uma guerra silenciosa contra uma adversária invisível, deram as mãos. Comoveu-me a impotência do gesto. A fragilidade daquela geração.

Talvez o melhor desta vida se faça de alianças improváveis, de uma profissão de fé naquilo que não se acredita, de uma desconfiança optimista nesse imponderável que nos cerca. Uma miúda chinesa sorridente, numa carruagem do metro de Nova Iorque, olha para o pai e para a sua mulher grávida (que conversam em Mandarim) e comunica-lhes em inglês: «I feel I don’t belong to this family.» Um casal de ex-junkies faz-se pintar o retrato no cais, com a estátua da liberdade ao fundo, mas ele não gosta do que vê e vai-se embora sem pagar. Ela segue-o, dois passos mais atrás, de cigarro na mão – será que alguma vez acreditou?

Para mim, uma cidade só se torna autêntica quando me distraio da sua arquitectura e vem ao meu encontro a tristeza residente. Pode vir na voz solene de um empregado da recolha do lixo a quem pedimos indicações: «Did you say 36 Street Station?», ou nos néones vermelhos e azuis da bandeira americana que enfeitam um posto de recruta militar em plena Times Square, pode vir escondida no sorriso de Doneeta, nesse diner em Brooklyn, quando nos falou do pai famoso, que era pintor.

Não me aflige o que já não vou fazer, essa autoestrada perdida. Mas atormenta-me o que já não consigo ver. Nova Iorque teria sido invisível sem a passagem pela Strand, sem as viagens de metro, sem a refeição no diner de Brooklyn às quatro da manhã, enfim, sem os nossos monólogos, penosos e eloquentes, com o call-center da Meo, quando nos perdemos, sem dados ou GPS, nos subúrbios da cidade. Nas insuficiências da tecnologia, emerge tantas vezes a intimidade. E de uma coisa podemos estar certos: ela pode sempre falhar.

«No Pico, ainda sou o rapaz que emigrou»

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Ângelo Garcia, natural do Pico, emigrou em 1971, com quinze anos, para os EUA. Formado em Engenharia Civil na San José State University, trabalhou para a Oracle nos anos oitenta, para a Adobe nos anos noventa e, em 2004, foi contratado por George Lucas. É hoje presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties. Pelo caminho, recusou por duas vezes trabalhar com Steve Jobs. Na Lucasfilm, liderou a construção do edifício SandCrawler, em Singapura, e cabe-lhe agora concretizar o sonho mais recente do ex-realizador de cinema: o Lucas Museum of Narrative Art, que abrirá portas em Los Angeles no fim de 2021.

Quando lhe perguntamos, admirativos, o que trouxe do Pico, nos anos 70, para conseguir chegar tão longe em tão pouco tempo, Ângelo Garcia responde-nos com uma frase apenas: «a habilidade de não ter medo.» Ficamos à espera que elabore, mas não o faz. O laconismo amável combina bem com o sorriso cândido que lhe muda o rosto sempre que nos fala da sua ilha, e com o olhar distante, de homem de negócios, que não cessa de avaliar o seu interlocutor.

Em 2004, exigiu a Georges Lucas o impossível: um mês completo de férias, todos os anos, para poder voltar a casa. Encontramo-lo no seu escritório, no Presidio, na véspera da partida para os Açores. «O que é que faz de si um homem do Pico?», queremos saber, conscientes de que vive alheado do mundo imigrante português, ou não lhe exigisse a profissão que resida «a cem por cento num mundo americano». De novo, a resposta é concisa: «ser um homem corajoso.»

Tentamos romancear, acrescentar palavras à sua economia narrativa, e falamos-lhe do pai, que foi baleeiro. Essa coragem, herda-se? Conta-nos, então, que o progenitor, os primos e os amigos lhe falavam do fascínio pela baleação, da coragem que era preciso ter, e à pergunta «alguma vez na vida teve de ser baleeiro?», responde-nos com um ar sério: «quase todos os anos.» E acrescenta: «Nós temos de estar sempre a lutar e é preciso ter coragem para lutar – às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, mas é preciso estar sempre a lutar.»

Numa altura em que a maior parte dos pais de família emigrados punha os filhos a trabalhar, o pai de Ângelo permitiu-lhe que fosse estudar. Hoje, admite que nunca foi um bom aluno e aceita que lhe falemos da escola da vida. Nunca se sentiu inferior por não ser um produto da Ivy League e, quanto a isso, é definitivo: «Via outros colegas que podiam ter vindo de outras universidades, mais famosas, e nunca tive receio de combater com eles. Nunca.»

«Carisma» é a palavra que se segue. Escolheu-a como algo que o define nesse mundo exigente onde conseguiu vencer. E talvez faça parte do carisma de Ângelo Garcia tratar George Lucas por «George» ainda que não tenha um grande amor pelo cinema. «Fui criado no Pico, havia um filme da FNAT que ia lá de seis em seis semanas. Não cresci com o cinema e, por isso, nunca tive assim um grande amor.» Quando interpretamos essa posição como «um mecanismo de defesa, de separação das águas», concorda: «quando cá cheguei e iniciei o meu contacto do dia-a-dia com actores e outras pessoas, também tive essa reacção – é o trabalho deles, o meu trabalho é este, eles fazem o seu trabalho, eu faço o meu muito bem. Somos amigos, mas é só.»

Também não deixa de ser carismática a relação que teve com Steve Jobs, seu colega na San José State University, a quem por duas vezes disse que não. Uma em 1988/9, altura em que Jobs queria «construir uma casa nova e fazê-la de um certo modo, mas estava a ter problemas». «Tentei dizer-lhe que era impossível fazer o que ele queria, mas, teimoso como era, manteve a ideia. Disse-lhe que não podia ajudá-lo, porque ele não ouvia.» Quinze anos depois, sem saber que Jobs estava a morrer, negou-lhe uma segunda proposta de trabalho.

Arrependeu-se?, perguntamos. Responde-nos que não, porque adora o que faz, mas lança a ressalva: «estive à frente da construção do Adobe e, depois, estive à frente da construção do Oracle e, naquele tempo, talvez tivesse mais experiência do que qualquer outra pessoa no Silicon Valley a construir o que nós chamamos de headquarters. Eu sabia que aquela arquitectura que ele queria fazer, que é uma das grandes coisas a acontecer no Silicon Valley, era uma visão como qualquer outra que ele teve e gostava de lhe ter dado a saber que iria ser uma realidade, como é.»

«Visão», «aventura», «coragem» são palavras que se repetem no léxico de Ângelo Garcia. O modo como encara o trabalho já vem de trás, dos dias em que contribuiu para o arranque de dois monstros da tecnologia, nessa Califórnia dos anos 80 onde «o céu era o limite»: «A história nos dirá, mas foi a altura em que a ciência avançou mais do que tinha avançado nos últimos dois séculos. Não havia ideia nenhuma que não fosse analisada, que não fosse trabalhada para se saber se seria uma realidade ou não.»

Quando lhe perguntamos o que mudou no Silicon Valley dos anos oitenta para cá, não hesita: «o dinheiro – há muito mais. As pessoas agora trabalham mais para o dinheiro. Lembro-me de trabalharmos, às vezes, 14 horas por dia para um fim que não era o de trazer para casa mais um quarto de milhão, meio milhão de dólares – era para vencer o que estávamos a querer fazer. A mentalidade era um pouco diferente, era uma mentalidade um pouco mais aventureira.»

Nessas quatro semanas em que regressa ao Pico e «vive no mundo português», Ângelo consegue, por fim, descansar. As pessoas perguntam-lhe por que razão não escolhe outros destinos de férias, mas ir a outros lugares «é um descansar muito diferente do descansar no Pico. Aqui, é o descanso na minha casa, é o descanso de dar um passeio de manhã, de reconhecer tudo.» Tentamos aprofundar este descanso: «no Pico, ainda sou simplesmente o rapaz que emigrou.» A diferença reside, então, no olhar dos outros. Nas expectativas dos outros. Vamos mais longe: «na América, estão sempre à espera de alguma coisa da sua parte, de uma orientação, de um reconhecimento…» Ele corrige: «de uma decisão.»

«Pois, tenho de tomar decisões todos os dias, desde as sete, oito horas da manhã até, às vezes, às dez horas da noite – chamam-me e perguntam “olha, o que é que pensas que se deve fazer?”.»

No Pico, Ângelo Garcia reencontra os amigos da escola, com quem jogava à bola na rua. Às vezes, a bola era de pano. Também havia arcos e piões. Agora, ficam a conversar na praça, até à meia-noite. A «casinha» onde passa férias, hoje tão pequena para duas pessoas, era a casa dos avós, onde moravam dez. Percebe-se que tem uma grande admiração pela história da sua família e talvez seja esse o segredo, a narrativa que usou para reclamar o seu lugar no mundo.

No Lucas Museum of Narrative Arte, que abrirá portas em Los Angeles em 2021, privilegia-se «a arte que conta uma história», que é «narrativa». Pretende-se que o museu seja um lugar onde as pessoas «se sintam bem, se sintam em casa, reconheçam algumas coisas e digam “penso que sei o que eles queriam dizer quando fizeram aquela pintura”».

O museu é apenas mais uma «visão» na vida de um homem cuja profissão tem sido tornar possíveis todos os sonhos. E se George Lucas é «muito mais do que A Guerra das Estrelas», Ângelo Garcia é muito mais do que o simples braço direito do ex-realizador. Les beaux-esprits se rencontrent.

SEMANA 6

Protagonista: Ângelo Garcia

Idade: 62 anos

Actividade: Presidente da Lucas Real Estate Holdings e vice-presidente da Skywalker Properties

Regresso: São Francisco, Califórnia – Ilha do Pico, Açores

Anos de ausência: 47 anos

Manual de sobrevivência para a meia-idade

Crónica 

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Ao fim de um minuto de viagem, o serviço de dados do meu telemóvel desliga-se por razão nenhuma e ficamos sem GPS. Andamos nisto há dias, porque quando saímos da Califórnia eu decidi que haveria de convencer a rent-a-car de Boston a dar-nos um SUV pelo preço de um utilitário, mas esqueci-me de exigir sistema de navegação também. Deixado às cegas, ando desde esse dia a enfiar o SUV em becos sem saída. Às vezes o GPS do telemóvel funciona, outras não, e não é por o fornecedor ter adquirido nome brasileiro que o call center passou a ter gente em vez de scripts.

Agora estamos a meio da Quarta Avenida, algures nos cruzamentos com as ruas Vinte e Tal, e não sabemos sair daqui. Se se tratasse de Manhattan, ademais onde a Quarta se cruza com as Vinte e Tal (ou seja, no coração da Park), seria quase fácil. Mas esta é a Quarta Avenida de Brooklyn, para lá do Bronx e de Queens. Na altura pareceu-nos boa ideia instalarmo-nos aqui, determinados a conhecer melhor a Nova Iorque da classe média (e do Smoke), e as noites passadas naquele diner da Quinta com a Trinta e Nove, onde trabalha a Doneeta e comemos as melhores-piores home fries da viagem, esforçaram-se por confirmá-lo. Agora, porém, são quatro da manhã e esperam-nos dezenas de quilómetros e nem sei quantos nós de auto-estrada até passarmos para as Interstates Noventa e Cincos e podermos considerar-nos realmente a caminho do Massachusetts, onde devemos embarcar – ainda por cima com paragem numa cidadezinha do Connecticut onde, na sexta-feira, nos esquecemos de um computador.

Damos por nós a vaguear na noite. Telefono várias vezes para o call center, faço reclamações e ameaças – nada. O telemóvel do Arlindo é de outro fornecedor, mas não chegamos a activar-lhe os dados. O da Catarina sempre dá qualquer coisa, mas as mensagens com que pedimos o reforço do serviço não têm resposta, pelo que vai acabar sem dados também. Talvez devêssemos levar as mãos à cabeça, começar os preparativos para apanhar outro voo. E, no entanto, em nenhum momento chegamos a admitir perder de facto o avião.

Em nenhum momento chegamos a admitir perder o avião porque esta cidade nos é, de algum modo, familiar. Já aqui escrevi sobre isso e sobre como já não podemos vir conhecê-la: apenas revisitá-la. Mas, à medida que, com as ajudas disponíveis e também às apalpadelas, descobrimos a ponta do novelo e conseguimos apontar o carro a Norte, e de repente já estamos em Bay Ridge, e de Bay Ridge vamos para Brooklyn Heights, e daí para Williamsburg, e Port Morris, e Soundview, e Schuylerville – à medida que nos aproximamos das Noventa e Cincos, isto é, Nova Iorque já não me parece apenas uma cidade familiar, mas quase íntima, íntima mesmo, e agora aquilo de que me apercebo, com uma inusitada sensação de perda, é que já não vou viver nela.

E nem é só ela. Já não vou viver em Nova Iorque como já não vou ser marinheiro. Já não vou estudar neurociência (ou sequer psiquiatria) ou tão-pouco jogar no Sporting. Já não vou tocar Bach numa orquestra sinfónica. Já não vou ensinar literatura num colégio da Nova Inglaterra nem ter um paixoneta pela professora de matemática. Já não vou aprender matemática. Já não vou ser forte dos gémeos. Já não vou conhecer os anos 20. Já não vou escrever o meu primeiro livro. Já não vou decidir quem sou, e mesmo quem quero ser – suspeito agora – vou decidir cada vez menos, à medida que comece a sobrar a carga e a escassear as mãos.

É um breve instante de depressão, talvez: uma súbita preclaridade sobre o tempo que cumpri, o tempo que ainda é legítimo esperar cumprir e a força para o manipular da mesma maneira. Ou então será apenas mais um desses dias em que decidimos chorar os nossos mortos, enxugando as lágrimas decididos a viver também por eles aquilo que nos resta. A descoberta da intimidade nunca se fez sem uma certa vertigem, e, numa cidade como estas – como esta –, intimidade e doença parecem sempre vizinhas uma da outra. Talvez não nos reste senão continuar a conduzir em direcção a Norte.

O horizonte do nosso fracasso

Crónica

Dizia Montaigne (penso que me fica bem citar Montaigne), quando as pessoas lhe perguntavam a razão de suas viagens: «sei do que fujo, não sei bem o que procuro». Revejo-me nesta ideia porque sempre achei que o verdadeiro horizonte das nossas vidas, aquele que nos move, não é o da aspiração, mas o do fracasso.

Temos sempre presente a imagem daquela colega de faculdade que se fechava no quarto às escuras, atrás de pesados reposteiros, daquele amigo hipercrítico que nunca arriscou fazer nada, da prima que todos os domingos ia ver o namorado a jogar futsal, da vizinha que, aos trinta anos, declarou com dramatismo que só voltaria a ter vida quando os filhos tivessem vinte (e até de ir tomar café à rua abdicou). E disto queremos fugir. Abrimos janelas no pino do Inverno (para deixar entrar a luz), tentamos deslumbrar-nos com as pequenas conquistas do homem comum, convertemo-nos a um amor próprio – cheio de manhãs de Yoga e de jejuns introspectivos – em que não acreditamos, dizemos não a todos os sacrifícios e concessões.

No fim de muitas destas nossas viagens, porém, não saímos do mesmo sítio, ainda que o olhemos de outro lugar.

Somos todos um pouco desse quarto escuro, desse desencanto crónico, desse jogo de futsal, desse martírio inútil. E talvez nunca consigamos ser tão condescendentes connosco próprios como somos cruéis com as impotências dos outros, o que nos torna banais. Há, contudo, uma sinceridade que me atordoa quando alguém me sussurra «eu tenho de fugir daqui»: ninguém me trata mal, mas eles deitam-se na cama à noite e dormem. E eu fico neste tormento.

Não se trata de uma fuga estética, não é a aventura de um Baudelaire no Oriente, de um Jack Kerouac pela estrada fora, de um Gauguin no Taiti, não é sequer o «I can’t mate in captivity» de Gloria Steiner em resposta a esse repórter da Newsweek que lhe perguntou, em 1984, por que razão não era casada. É um desconforto irreprimível, visceral, insaciável. O combustível da grandeza.

Quando temos vinte anos, atiramo-nos de paraquedas, nos Himalaias, e voamos. Aos quarenta (o paraquedas abriu-se), sentamo-nos na mesa do café da esquina, a ler. Algo nos diz, em surdina, que conquistámos o direito de sermos felizes.

Uma cidade de pé

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Crónica

Foi em Paris que vi Nova Iorque pela primeira vez. Uma noite, no Théâtre du Rond Point. Já não me lembro se apanhámos a linha 2 até Etoile, e depois a 1 até F. D. Roosevelt, ou se subimos os Champs Élisées a pé. Sei que a cada viagem de metro me parecia estar a atravessar a cidade (não estava). Sei que sempre que chegava a algum lado, emergindo à superfície de mais uma rua irreconhecível, de mais uma avenida indistinta, me perguntava se ainda seria a mesma cidade (Paris e a sua escala, desumana).

Também não me recordo se jantámos pelo caminho. Se bebemos um copo a seguir. Se fomos dançar ao Paris-Prague Jazz Club. 18 Rue Bonaparte. Nem tem importância.

O que me ficou dessa noite foi Fabrice Luchini, sozinho no palco, numa sala onde as luzes nunca chegaram a apagar-se, a ler Céline para a multidão. Os bilhetes tinham esgotado, mas não havia teatro. Era apenas o actor e um texto. «L’arrivée à New York». «A chegada a Nova Iorque», um capítulo do livro Viagem ao Fim da Noite. De Louis-Ferdinand Céline.

Fabrice Luchini já lia este excerto em público desde 1985, mas só em 1992 é que sentiu em primeira mão o verdadeiro choque da chegada à metrópole americana. Nunca foi um viajante, porque tem pavor de andar de avião. Mas, nos anos oitenta, Paris já enchia salas para o ouvir falar dessa cidade onde ele nunca tinha estado.

Luchini enfrentava a assistência apaixonada e judiciosa dos teatros parisienses com uma altivez felina que, a maior parte das vezes, assumia a arrogância, repetindo frases com uma voz pedagógica porque entendia que o público não lhes prestara a devida atenção. Só mesmo Fabrice Luchini. Só mesmo em Paris.

Nessa noite (talvez tivesse sido no Verão, porque alguém fez troça do lenço colorido que eu levava preso à cabeça), o primeiro parágrafo que ele leu em voz alta, naquele tom de sacerdote fanático cujo templo é a própria literatura, ficou-me gravado na memória, imune a todo o esquecimento:

«Imaginem vocês que ela estava de pé, a cidade deles, absolutamente direita. Nova Iorque é uma cidade de pé. Nós já as tínhamos visto, às cidades, é claro, e bem bonitas, e aos portos, famosos até. Mas, na nossa terra, elas estão deitadas, não é assim, as cidades, estão estendidas à beira-mar ou na margem dos rios, sobre a paisagem, à espera do viajante, enquanto aquela, a americana, não se oferecia, ah não, mantinha-se bem rija, ali, nada submissa, tão firme que metia medo.»

Já foi há mais de vinte anos. Paris ficou para trás. Nova Iorque espera-me. Uma cidade de pé. Absolutamente direita. E nisto reside a inquietude do viajante: no momento da partida, é sempre mais importante o que levamos connosco do que aquilo que vamos encontrar. Aos vinte anos, não sabemos que uma grande metrópole pode derrotar-nos. Aos quarenta, queremos saber se ainda conseguimos sentir o sabor dessa derrota.

 

 

Já não se pode ir à América

Crónica

Joel Neto

A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi há mais de duas décadas. Tinha 22 anos e quase não saíra de Portugal. Eu era o único açoriano do mundo sem um único familiar nos EUA ou no Canadá, pelo que nunca houvera um tio que me convidasse a atravessar o Atlântico. Aos 16, tinha ido passar um mês a Paris com o meu primo-gémeo (os nossos pais é que são gémeos, não nós). Depois, esperara uns cinco anos até fazer a minha primeira viagem como jornalista, então à Suécia e à Dinamarca. E era tudo o que tinha viajado, fora o vai-e-vem entre os Açores e Lisboa.

De maneira que, quando o chefe de redacção do Record me chamou e disse: “Vai à Embaixada dos Estados Unidos pedir um visto, que preciso de alguém para acompanhar o Belenenses”, o meu coração juvenil quase soçobrou.

Fui com o Nuno Perestrelo, que era d’A Bola, e ficámos amigos até hoje. Andámos pelos EUA e pelo Canadá. Estivemos no Massachusetts e no Rhode Island, no Connecticut e até no New Hampshire. Fomos ao casino com o Tino e o Morris. Comemos vieiras com o Afonso Costa. Visitámos as cataratas do Niagara. Conhecemos o estádio dos Blue Jays, experimentámos um restaurante grego com aquele taxista velhote – até o Luciano e a Noémia eu consegui ir ver, em Toronto, e ainda não há muitos anos a Noémia me mostrou fotografias dessa noite e tudo no meu semblante era entusiasmo.

Apesar disso, no dia em que passámos por Nova Iorque, precisamente o dia mais esperado, eu não sabia se devia ou não amar aquela cidade. Ela não me surpreendeu.

Andámos apenas algumas horas pela Baixa, eu e o Nuno. Fomos às compras ao Macy’s e tirar fotografias em frente à St. Patrick’s Cathedral. Comprámos souvenirs pirosos convictos de que eram charmosíssimos (eles e nós). Visitámos o Empire State Building e, já quase sem tempo, demos um salto ao Central Park, onde me imaginei a passear com Meg Ryan, Jenna Elfman e Michelle Pfeiffer, uma de cada vez e todas ao mesmo tempo.

Não me esqueço dessa viagem. Mas não me esqueço sobretudo porque, a cada ícone que encontrava, tornava a baixar os olhos, numa frustração inesperada. Eu já conhecia aqueles lugares. Já conhecia aquele edifício – aquela rua, aquele monumento, até aquele saxofonista da Lower Manhattan que tinha tido imenso azar mas agora havia uns tipos da Blue Note interessados.

Conhecia-os nas formas, nas cores, nos cheiros. Conhecia-os nas posições relativas. Conhecia-os até nas proporções: exactamente aquelas proporções.

Voltei muitas vezes aos EUA depois disso, e em algumas até vim acompanhado. Esforcei-me sempre por me surpreender. Hoje, entrando em São Francisco vindo do Silicon Valley, ao volante do nosso Toyota Tacoma de caixa aberta, estendi as mãos e anunciei-a à Catarina e ao Arlindo, que se estreiam na América: “Portanto, ei-la, São Francisco!” E, de repente, pude ver-lhes nos olhos, passados os quarenta, o mesmo desconcerto de que me apercebi em mim aos vinte.

Também eles já aqui tinham estado, afinal. Andaram em perseguições com Steve McQueen, subiram ao campanário com Kim Novak, fugiram de Alcatraz com Clint Eastwood. É assim em São Francisco para eles, como foi assim em Nova Iorque para mim e é assim nas grandes cidades americanas para nós todos, porque essa é a força da cultura popular e é, em especial, a força do cinema: já não se pode ir à América, só se pode regressar.

foto: © António Araújo