Animal de sangue frio

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Crónica

Tarde na vida, arranjarei o conforto de um animal de estimação que continue a existir depois de mim. Vejo-me já velhinha sentada numa poltrona florida (de tons claros e verdes, com a transparência das algas) a fazer companhia a uma jovem tartaruga de cerca de oitenta anos.

Ela estará no pico da sua crise de adolescência, conspirando suspiros de tédio inaudíveis enquanto se desloca (maciça e lenta) da sala onde eu estou para a cozinha, num vaivém que não durará os escassos segundos que nós, humanos, levamos a transitar entre divisões, mas longos minutos de desassossego, que serão horas, dias e meses a acontecer em segredo.

Assim decorrerá um ano, distribuído por angústias e estações, pelo sol que nasce e desce, para nós as duas, em simultâneo. Mas o tempo que amanhece na cabeça da tartaruga é uma coisa comestível. Um nada que se mastiga e não resiste ao vagar persuasivo das suas entranhas húmidas.

A nós atravessa-nos como o fogo um balão de oxigénio – o ar quando o sopramos já é cinza. Na boca da tartaruga, o tempo é uma pastilha elástica, não é ígneo.

Pergunto-me se a atormentam os negros cânticos de José Régio, ou os impasses do Variações, caberá na sua marcha que atravessa os séculos o luxo dessas indecisões? Sonhará a tartaruga com uma cerveja no inferno, com a miragem do infinito em paraísos artificiais, causar-lhe-á temor, pelos seus descendentes, o rodar das engrenagens industriais?

Não. A tartaruga só sente a eterna imutabilidade do presente.

Para ela eu estar aqui é um sinal de fraca solidariedade cósmica. No meio do silêncio da casa, que já viu envelhecer, ouve o meu coração (tão depressa) a bater. Não sabe como dizer-me. Falta-lhe a língua, o dente, o ponto de articulação. Na palavra que ela engendra o tempo perde textura, não tem cheiro ou temperatura, é oco de dimensão.

Eu sou aquela que deixa morrer as flores

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Crónica

Não tenho filhos. Tenho flores muito resistentes. Um marido atencioso e relativamente independente. E dois cães sentimentais mas autónomos que falam comigo em silêncio, com uma voz que me chega do interior dessa vida profunda e contemplativa que é a de todos os cães adultos, uma vez que todos os cães adultos são, como sabemos, grandes filósofos. Incessantes tecedores do pensamento.

É deles a liberdade do não dizer de que nós, humanos, fomos privados. Aos cães, nunca aconteceu Babel. Deus não os condenou ao labirinto da incomunicabilidade. Partilham uma linguagem universal e incorrupta que não conhece fronteiras geográficas ou genéticas. E que usam com a contenção dos grandes estetas.

Também lhes foi concedida uma outra graça: a de serem rigorosos contadores do tempo, mas imunes à sua metafísica. Um cão dedicará horas infinitas (que não tem) a uma tarefa menor que considere fundamental. Abrir uma porta fechada à chave, por exemplo (e que impertinência a nossa, termos inventado portas e chaves). Ou arrancar meticulosamente o forro de um sofá (tão absurdo como o charuto que ali fumamos com os pés pousados no pousa-pés).

A noção de espera de um cão rebentará com a escala do asiático mais paciente. Um cão aguarda a chegada do seu dono até ser estátua no centro de uma praça. A plenitude com que vive cada momento é inocente ou criminosa em absoluto, nele coexistindo sem julgamento a grande capacidade de amar e de ser amado, a de matar ou entregar-se à morte. Uns poderão pecar por excesso, outros terão uma ideia mais justa da proporção, mas tudo o que é defeito no cão deve-se, antes de mais, à sua convivência forçada com o homem.

Perdi muito cedo (acho que nunca a tive) a ilusão de que os meus cães eram os filhos que não tenho. Enquanto nós, humanos, atendemos às necessidades básicas do nosso animal de estimação, o cão que nos estima atenderá a lacunas espirituais, intrínsecas e insuspeitas, da ordem de um entendimento do mundo que nos transcende.

É por isso que o meu avô Augusto (um homem de poucas palavras e um dos mais inteligentes que conheci), de todos os Boxers que teve, nunca se considerou dono de nenhum. É um encontro feliz, disse-me um dia, eu aprendi a lidar com ele, ele aprendeu a lidar comigo, creio que nos respeitamos um ao outro. E que melhor retrato poderíamos nós fazer da amizade, nesta vida que une antípodas em cápsulas exíguas de tempo e de espaço e que ainda nos pede que sonhemos.

Este ao menos é um capricho acertado da insondável omnisciência da natureza: que cães e homens se amem. No outro dia, os quatro, no sofá, humanos, culpados, pensando: uma vez sem exemplo! Os cães, filósofos, sussurrando: temos de ser pacientes com esta espécie. Lá no fundo, eles sabem.

Rosa Violante

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Crónica

Chamava-se Rosa Violante e era cigana. Quando se falava dela, pelo Natal, ou noutras reuniões familiares, alguém chorava. Quisera o destino que um amor irreprimível a unisse, na viragem do século, a um nosso antepassado, e ainda hoje é matéria polémica se essa união deu frutos que nunca chegaram propriamente a cair da copa ilustre da nossa árvore genealógica.

Que todos nós, à distância de cinco ou seis gerações, possamos carregar o fardo desse sangue nómada é um assunto quase tabu. Entre os mais velhos, alguns deploram a ideia. Envergonha-os a possível miscigenação. No entanto, a tez morena e os olhos fundos de uma certa tetravó singularmente bela não deixam grande margem para dúvidas, e o mesmo se poderia dizer da veia dramática, quase artística, que em tantas ocasiões da história desta família tem vindo a manifestar-se. Por vezes, no calor de uma festa, na folia de um casamento, destaca-se o pezinho demoníaco de um dançarino exemplar, o talento musical de uma garganta de onde se escapa um fado mais do que vadio, as saias compridas de algumas tias, que gostam de usar tecidos de várias cores e texturas. Não discuto o bom gosto, mas identifico na tendência uma vaga nostalgia (cromática) que irremediavelmente nos diferencia.

Tão forte era a história de Rosa Violante, tão palpável a dor que ainda causava em gerações que nunca tinham chegado a conhecê-la, que guardei para mim o segredo desse sangue impuro como se ele fosse o meu mais requintado património genético. À distância de cinco ou seis gerações, eu era fruto de um amor proibido, de um acto de quase literário heroísmo romântico, de uma paixão subversiva, enfim, de um erro colossal. Porque a Rosa, conspurcada, acabara por ser expulsa do seu clã. E o homem por quem se apaixonara também se vira obrigado a renegá-la, para poder dar o seu nome ao filho de ambos – e esconder o resto.

Não sei a que limbo ou ruela de má vida foi parar Rosa Violante, mas aqui há vinte anos, andava eu própria a debater-me com as complicações de um amor proibido (desta feita, francês), e decidi fazer uma viagem de camioneta até Barcelona (onde ele me aguardava). Quis o destino que uma família de ciganos me acompanhasse nesse trajecto monótono de mais de vinte horas que desce ao Alentejo, atravessa a Extremadura espanhola e continua por esse deserto até quase à fronteira com a França. E, de imediato, as crianças, muito vivas e morenas, cobiçaram o meu colo. As mães, olhando-me de soslaio, confiaram, e ali começou a nossa inesperada comunhão, pela estrada fora.

Quando parámos numa estação de serviço, à hora do jantar, eu arregacei a minha saia comprida e desci os três degraus da camioneta, no meio das outras mulheres. Os homens iam na frente, vestidos de preto. E assim que o meu pé de menina esclarecida se adiantou ao passo comedido das minhas companheiras, elas puxaram-me para trás. Os homens, sussurraram-me, vão uns metros mais adiante. Sorri de volta, cheia de um estranho orgulho por ir na cauda, por ser uma delas. E ainda hoje guardo desse cortejo colorido, dos nossos passos silenciosos e orquestrados a caminho daquela estação de serviço, uma memória feliz.

No fim da viagem, as ciganas olharam para o francês alto e louro que me aguardava no cais e perguntaram-me: vais fugir? Abanei a cabeça. Mas ele, disseram-me, não é um de nós. Lembra-te, insistiu a mais velha, não sei quando foi que a tua família te perdeu, mas, para onde quer que vás, nós lá estaremos. Nós estamos em todo o lado. Procura-nos.

Fiquei a olhar para elas, para os olhos castanhos-escuros, como os meus, para os cabelos macios das crianças, a tez morena dos homens, que me viam sem olhar, e disse-lhes adeus. É a nossa derradeira família, pensei, espiando-nos desde a noite dos tempos. O clã a que sempre pertencemos.

Na segunda-feira de manhã, a minha mãe telefonou-me, horrorizada. Ao fim destes anos todos, uma tia-avó decidiu confessar: a Rosa, afinal, foi inventada. E insiste, com o furor dos seus oitenta anos, que nada da sua história aconteceu de verdade. Que nenhum de nós, mouros, tem sangue cigano. Que nunca houve um amor proibido, um gesto de heroísmo, um acto de coragem. E o nome, Violante, nunca o estranharam? Vocês, de facto, lêem pouco.

E agora sim, também eu chorava. Chorava por termos comprado a mentira. Ou por termos precisado dela. Chorava o fim de um mito. E a crueldade de se desmentir uma história como aquela.

«Era o único som na noite de todo o mundo»

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Crónica

Mudámos tantas vezes de casa em Lisboa que existia sempre um caixote por abrir no fundo do corredor. Esse caixote (sem rótulo) viajou selado da Rua dos Mouros para a Travessa de São Pedro, da Travessa de São Pedro para a Rua da Costa do Castelo e da Rua da Costa do Castelo para os Dois Caminhos da Terra Chã. Em cima dele, jantámos à luz das velas. Amigos usaram-no como cadeira. Vários sacaram de um canivete, numa fúria de curiosidade, porque queriam ver o que continha, de uma vez por todas. Não deixámos. Ainda hoje continua fechado, num canto da cave, esse caixote sem rótulo, um mistério nascido da nossa preguiça, ou da nossa superstição.

Pode ser que lá estejam as cassetes de vídeo da colecção Atalanta (mas já nem temos leitor de vídeo), o jogo de panelas de alumínio que uma tia nos ofereceu no dia do nosso casamento (e que nunca chegámos a usar), os sapatos de salto alto que comprei em Paris (e que não consigo calçar), soporíferos e analgésicos poderosíssimos (e fora de prazo). Nenhum de nós, nestes últimos anos, se lembrou do que está guardado no interior desse caixote indecifrável, que não é leve nem é pesado, nem se deteriorou especialmente com o passar do tempo.

Mais cedo ou mais tarde, num sábado de chuva pela manhã, uma saudade indefinida vai levar-me a descer até à cave, em busca desse não sei o quê que fazia parte do nosso passado. Só espero que aquilo que ainda lá está dentro, de facto, nos pertença, e que não tenha havido, perdida nesse momento longínquo, alguma troca indevida de caixotes. Que ao som da chuva eu não descubra, ironia do acaso, os fragmentos amarelecidos de uma velha correspondência, escrita numa letra que não é a nossa. E que não seja esse o castigo desta preguiça: o de termos sido os fiéis raptores da história manuscrita de uma outra intimidade. Como se, inesperada, nos assaltasse a estranheza de tudo o que nos é familiar?

Havia na nossa casa do Bairro Alto uma velha cómoda de família, de madeira escura, de onde se libertava um odor. Um cheiro que um homem sabe que traz na memória, mas não consegue identificar o que é. Talvez fosse o odor das coisas antigas, mas bem conservadas, uma mistura do aroma do papel envelhecido que forrava as gavetas com o perfume da casquinha, e ainda algum vestígio da alfazema que noutros tempos se usara para aromatizar a roupa.

Esse odor rico, espesso e impossível de decompor — uma vez que a cómoda já existia na minha família há várias gerações e que cada um dos seus donos lhe dera um uso diferente — entrava dentro de nós como a resposta a um desejo antigo. Um desejo de memória ou de passado. E ali guardava eu grande parte do meu guarda-roupa, sem saber que a cada dia este odor me acompanhava.

A certa altura, no sufoco da falta de espaço que sucede nos pequenos apartamentos do centro de Lisboa, livrei-me daquela cómoda. E, com a cómoda, foram todos esses cheiros e suas origens remotas e o catalisador insuspeito de um momento de paixão. O casamento sobreviveu ao desaparecimento da cómoda. Mas nunca, em mais nenhuma peça de roupa que eu usei, ele tornou a sentir aquele odor, ainda que, por vezes, o tenha procurado.

Quanto do que procuramos uma vida inteira afinal já nos foi dado? Quanto do que nos une é efémero como um cheiro e granítico como a memória que dele temos e que, por vezes, nunca nos deixa? Dentro do caixote sem rótulo onde guardamos, sem o saber, as provas da nossa felicidade, algo nos espera, algo ainda nos pertence, uma música a tocar ao contrário da vida, o segredo do tempo que dura, ausente.

Um poeta definiu a duração. Diz ele que é «o mais fugidio de todos os sentimentos», um arrepio, uma intuição. O reencontro súbito com aquilo que somos e de que nos esquecemos. A celebração do que é irrepetível e, porém, permanece.

«Digo o nome da cidade»

kate - a vida num contentor

Crónica

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que já não sou. De muito mais do que saudade se faz este regresso ao lugar de onde partimos (que é só um).

Assaltam-me primeiro as areias da Caparica, nós em Maio, prematuros, a inventar tardes de sol, depois o Tejo, que aos olhos dos outros apenas brilha, e o namoro relutante das duas margens que o rio desune, cheio do bocejo daqueles que o atravessam dia após dia, antes de amanhecer. Avisto com um fascínio que me antecede as lajes brancas do Terreiro do Paço que um lodo antigo humedece, e é como se a cidade tivesse sido, noutros tempos, uma ruína (que, de vez em quando, reemerge). Seguem-se as ruas da Baixa, ilusória esquadria, e a estátua do Marquês, a pergunta que fiz ao meu pai, no Renault 4, daquela vez: quem é o senhor dos cabelos compridos, porque é que tem um leão? Os cabelos são uma peruca e o leão é um símbolo de poder. O que é um símbolo? Ao fim de tantos anos, como me pude esquecer? Não tardamos a chegar ao Campo Grande, e o avião já vai tão baixo, quase a pousar, que o seu voo rasante me angustia. Porque eu já vi Lisboa, perdida no meio das nuvens, mas Lisboa não me viu ainda.

Assim que dou o primeiro passo do lado de fora do avião, envolve-me o ar seco da minha terra como um abraço de sal. Venho cheia do verde húmido das ilhas, das noites dormidas no fundo do mar, e às portas da cidade chego a medo, como um anfíbio transitando entre dois mundos, devagar. No aeroporto, as multidões cosmopolitas desconhecem-me, mas os Lisboetas sabem que sou um deles. Vêem a minha cauda de limos, a escorrer água, e tudo em mim lhes é familiar. Também eles partiram, também eles mergulharam e, chegados do sonho de outras ilhas, é como se só ali acordassem. Respiro fundo, sinto o sangue nas veias a aquecer, esperam-me sorrisos à chegada e o olhar doce dos meus pais, que eu sei que nunca vai envelhecer. Avançando a passos leves, numa versão de mim mesma destilada, finjo que não é nada, mas preparo-me.

Preparo-me para o peso impossível da cidade que me viu nascer. Para as ruas da Baixa apinhadas, que eram melancólicas e desertas (ao fim da tarde), para os cafés filosóficos do Chiado (antes das lojas de grande marca), para os botequins da Graça e as tascas de Alfama (quando o fado era vadio), para as mesas dos bares do Bairro Alto, onde metade do que sonhámos, de facto, não aconteceu. Preparo-me para o mistério de tudo o que escapou à nossa decisão. À nossa vontade. Ao nosso querer. Para o mistério de tudo o que inadvertidamente deixámos de ser.

E, nesse momento, já estamos lá em cima, no largo de São Tomé, onde a ruína convive com os turistas e quase não se sente. E ali mesmo, ao virar da esquina, abre-se o abismo de Santa Luzia, onde, tantas vezes, a imensidão azul nos asfixia. Porque queríamos ir e não podíamos. Porque éramos ricos e ingénuos, e inquietos ao mesmo tempo. Porque sonhávamos com viagens de barco e com a vida dos piratas, e com tudo o que era longe, pueril e incerto.

Numa rua do Castelo, à frente de um quartel desabitado com a melhor vista fantasma da cidade, mora ainda a minha infância. Levo comigo, para toda a parte, as portadas brancas dessa casa onde o sol não entra, mas avança. Adoro o som dos meus passos no soalho de madeira, a voz clara dos poetas brasileiros que os meus pais ouviam de manhã, e a casa dos avós, ali tão perto, que se atravessava a passos largos, nas tardes de luz e de ópera. Por vezes, ouço o grito solitário dos pavões, cativos nos jardins de São Jorge, e lá por dentro estremeço: o que é voltar a casa? De que fios se urde a sensação, haverá algum segredo, alguma fórmula para descrever o lugar onde nos esperam, intactas, as nossas ilusões?

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que ainda sou. Nas suas ruas, ao entardecer, conspiro a minha próxima errância. Naquela esquina de que me esqueço, e onde alguém tentou escrever um verso, volto a encher-me de esperança. De todos os lugares do mundo, só Lisboa me vê partir. Há nela uma passagem para o eterno que não chega a ser secreta, porque o lugar de onde somos nunca o tempo o desfez.

A mulher réptil e o homem leopardo

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Jurei que a tinha visto no dia anterior, com um anoraque vibrante, num tecido inexplicável, em tom de escamas de réptil, uns ténis último grito, que cintilavam, os lábios pintados com um rosa discreto, mas incandescente, cigarro no canto da boca, óculos de massa que deixavam entrever dois olhos claros, estrangeiros, irremediavelmente.

Era tão superior, na sua aparência, a tudo o que a rodeava, que as cores sem nome que a vestiam se diluíam nas paredes da cidade, tingindo as fachadas brancas e o mar azul ao fundo como um traço de aguarela. Ou de lava.

Havia vento. Mas ela estava sentada numa mesa lá fora. Camaleónica. Deslocada. O simples facto de estar ali suscitava comparações impossíveis entre planos que não se tocavam: não era uma mulher entre outras. Era o humano a superar a paisagem. Mineral. Sem idade. Desejável, ainda que de uma forma abstracta.

Hoje, vi-a de novo, sentada no mesmo café, mas do lado de dentro. Não estava sozinha. E não era a mesma mulher. Em vez de escamas, trazia umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Algo nela, desfocado, estremecia. O corpo, hirto, mantinha-se recuado mesmo enquanto ela comia. Sentado à sua frente, um homem olhava-a como se olha alguém que adoeceu há muito tempo. Sem culpa. Sem pena. Sem condescendência. E ela, de olhos baixos, alimentava-se. Empenhada naquela relutância.

Perguntei-me: tê-la-ei sonhado ontem? Ou será que ela lhe mente? Talvez lhe esconda que é jovem. Talvez se finja doente. Olho para o homem e reparo. Há um brilho que o torna cúmplice, uma inércia que não sente. Também ele é ilusão, também ele é fingimento. Um pacto houve entre os dois. Que ela seja a enferma, e ele o sobrevivente. O guardião da doença. O porteiro daquela dor. E num teatro sem palco, o casal emudeceu.

No casal que não se toca, que não diz uma palavra, não há antes nem depois. Talvez descubram que ela, misteriosa iguana, vai armazenando o calor. Talvez ignorem que ele, leopardo solitário, já não é um predador. Que o mundo o tornou vulnerável, que a natureza o expulsou, que essa espécie sem destino já está a desaparecer. Talvez não saibam ainda o que quase chegaram a ser.

Nesse quase onde cabemos, fomos felizes a dois. Percorremos os desertos, partilhámos as miragens, juntos aceitámos exilar-nos de tudo o que era selvagem, e nas selvas sufocantes que criámos, entretanto, já nevou.

Crónica de um desaparecimento

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Crónica

Numa manhã ventosa de novembro, eu vi-os. Eram quatro: três rapazes novos, atléticos, e uma octogenária, paralítica, a descerem a rampa na direcção do cais. Ela, gritando, gesticulava com frenesim, numa espécie de furor endiabrado. Eles, metódicos, içavam-na em peso da cadeira de rodas e mergulhavam-na na água plúmbea, sem piedade.

Em redor, alguns madrugadores observavam a cena com pacatez, de mãos nos bolsos. Os três rapazes inclinaram, então, a cabeça ao mesmo tempo, à beira do cais, e viram a sombra a descer, ondulante, naquele canto de mar sem fundo.

Ao meu lado, um turista assistia, num horror mudo. Devia julgar-se testemunha de um crime inconcebível, num país onde se afogavam octogenárias com um descaramento impune. Não fora um crime, porém, que ele testemunhara – mas um milagre.

Chamava-se Idalina e tinha 83 anos. Há cinquenta que todas as manhãs o seu dia começava ali, na praia da Silveira, com um mergulho indiferente às convenções do calendário ou aos caprichos da meteorologia. Para Idalina, só uma coisa era verdade: o mar gelado, de madrugada. E essa verdade guardou-a ela a vida inteira, escondida no meio das mentiras: que era doente, que não podia, que estava velha, que a gripe (estendiam-lhe o dedo, quando o diziam) ia acabar por apanhá-la um dia. Com uma militância que metia medo (só os bisnetos aguentavam o peso daquela ditadura), mergulhava sem pernas todos os dias.

E ali, no fundo do mar, elas renasciam-lhe.

Idalina morreu muito velha, sentada na sua cadeira de balouço, à lareira, mas estava nesse preciso momento a sonhar com o mar de chumbo no cais da Silveira (não o azul, que era coisa de meninos, mas aquele, mais proceloso, com revérberos de prata). E a morte foi apenas mais um mergulho.

Procuro esse músculo que se chama resiliência. E entro no quarto pouco mobilado de uma residência para estudantes nos subúrbios de outra cidade. Lá fora, a temperatura desce, e não conheço ninguém. O quarto não é aquecido, o que é bom (dizem-me), porque posso usar o parapeito da janela como frigorífico. Nos duches, a água é descontínua (tenho de carregar num botão de vinte em vinte segundos). Acima de tudo, não há um só café à vista, com bolas de Berlim, meias de leite e folhados de salsicha.

Mas há uma estante que me corta o quarto ao meio e que eu, para ganhar espaço, arranco do chão. Há um pano florido, com que cubro a parede, e um candeeiro de mesa que trouxe comigo e que sempre foi o meu. Dali a horas, na cantina, constato que o jantar é um engano. Dali a anos, descubro que o mais difícil foi o recomeço. Voltei diferente, já não cabia no meu quarto de criança.

Hoje, chamo-me Idalina e tenho 83 anos. Entro noutro quarto pouco mobilado, no segundo piso de um lar (também lhe chamam residência sénior, última morada, não lugar). Pouso no chão a minha pequena mala, olho em redor para a mobília que só atrapalha e reprimo um suspiro. Será que a memória me trai, ou já passei por aqui? A tinta amarela das paredes lembra-me outras manhãs, do mesmo tom desmaiado. E da janela, o que se vê? Ponho os óculos. Um mar prateado.

Menina? Bom dia. Pode fazer-me um favor? Traga-me uma pequena lata de tinta branca, uma trincha e um tabuleiro. E já que está aí, com um ar ocioso, traga-me também parafusos e uma chave inglesa. Não sabe o que é uma chave inglesa? Que pecado…

Na minha última morada, há uma cadeira onde me sento descalça, a apanhar sol. Será que aos oitenta as ondas do mar já não rebentam? Já não nos sussurram as nossas paixões? É o corpo que o decide, é a mente que não sente? Aos oitenta, ainda temos ilusões? Procuro, ignorante, o que vai fazer-nos falta. É a ternura. Ou a ficção? Será o toque imaginado de outras mãos?

Neste mundo de beleza inadiável, onde o nada se decide, somos doces e a noite é de veludo. Mas ninguém lá entra brandamente.

Autópsia sentimental

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Crónica

Na última noite, eu pedi um gin tónico com casca de laranja caramelizada, pau de canela e estrela de anis – e ele uniu as mãos em cima da mesa, fez-me um sorriso e mandou vir uma água das pedras. Não tinha despido o fato de trabalho, ou sequer aliviado o nó da gravata, e ainda ficou uns segundos a olhar para mim, como se eu fosse a última reunião desse dia – e a mais delicada.

Lancei-me num balanço incoerente do tempo que passáramos juntos, na esperança de que, ao fazê-lo, parte do feitiço se dissipasse, e revisitei os momentos de epifania, os insultos requintados, as promessas inspiradas. Falei-lhe do desperdício. Da ironia. Dos infernos que tínhamos visitado, de mãos dadas.

E ele, visivelmente feliz por ter pedido uma água das pedras, arqueou ao de leve as sobrancelhas, descruzou as pernas e inclinou-se para a frente: «Isto é o quê? Um balanço de contas?» Levantei a cabeça e respondi-lhe: «Não. É uma autópsia.» O fantasma de um recomeço brilhou-lhe nos olhos, mas já sabia, tão bem como eu, que o nosso jogo tinha acabado.

Nessa noite, saí do bar, entrei na chuva (se chovesse, teria entrado), e dei um passo na direcção do futuro. Há certos fins que nos aproximam do princípio. Há certos passos que têm um som diferente dos outros, como se, por momentos, nos tivéssemos esquecido de tropeçar. De sermos coxos.

E há paredes nesta casa vivida a dois onde o taxidermista que também somos pendura animais embalsamados. Por vezes, eles espreitam-nos de manhã cedo (quando vamos a caminho do duche), com os seus chifres cor de marfim e os seus olhos incisivos e vazios. E sussurram-nos culpas, humilhações, calamidades. São pequenos demónios, cristalizados, que servem o grande propósito de nos lembrar que a nossa cabeça, por alguma razão, não está ali. Por sorte, alguém nos salvou. Fomos resgatados.

Da parte acidental da vida, e da sua inevitabilidade. Dessa grande floresta de acasos onde não existe o princípio de um caminho. Porque não se quer verdadeiramente partir – e muito menos chegar. Dos lugares onde nos dizem que somos livres, e onde a liberdade não nos responde – porque, afinal, tem outro nome.

Hoje de manhã, o Outono atravessou a nossa casa. Trazia um cheiro a raízes apodrecidas, folhas secas e erva molhada. Abri a porta de rede do jardim – e respirei. Não há nada que hoje em dia me faça desejar a Primavera. Todos nós somos estilhaços, que se recompuseram. Fragmentos de outros tempos, fantasmas de outras estações. Camadas sobre camadas de deslumbramentos e desilusões.

Nos seus silêncios cada vez mais densos, a linguagem conjugal é como um velho vinil que gostamos de ouvir e que inadvertidamente se foi riscando ao longo dos anos – até se tornar inaudível. Guardamos a canção que se esconde sob a superfície arranhada como o Outono a sua folha mais verde.

Porque a cada dia que passa, seja por milagre ou por teimosia, a Primavera acontece.

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

Uma fogueira na escuridão

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Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.