O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

Crónica de Joel Neto

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Nunca escrevi foi sobre o Roberto, e a razão é a mais simples: conheço-o mal o suficiente para temer não estar à altura. Apesar disso, não há semana em que não me entre em casa uma história do Roberto. Algumas vêm da Catarina, que dia sim dia não anda com ele na urbana, a caminho da biblioteca ou de regresso do ginásio. Mas tenho a impressão de que não há um só lugar nesta ilha onde seja garantido que não me vão falar no Roberto: nem as mesas das pastelarias nem os consultórios dos dentistas – nem os corredores das escolas secundárias, nem os guichés das repartições públicas, nem sequer as cadeiras frias das casas mortuárias durante a madrugada.

Há que tempos que estou para escrever sobre o Roberto. Talvez deva arriscar.

O Roberto, que partilha o nome com o dono do café onde vou mas na verdade conduz a urbana da Terra Chã, deve ser o homem mais popular da ilha. “Urbana” é como na Terceira se chama a um autocarro, uma camioneta da carreira: carreira urbana, por extenso – para sintetizar, “urbana”. E é dali, daquele assento altivo, que o Roberto gere os seus domínios. Cumprimenta cada pessoa com que se cruza, mas isso ainda é dizer muito pouco. Sabe o nome de cada um dos seus passageiros, das velhinhas que vão para o Centro de Saúde aos miúdos que vão para a escola e aos próprios pais de família que, apanhados com o carro na revisão, não andam de urbana mais do que uma vez ao ano. E, sobretudo, quando fala com eles é como se se preocupasse.

Entra uma garota numa daquelas urbanas das oito e meia e, ao dar-se conta de que a manhã está mais fresca do que esperava, faz um arrepio: “Bom dia, Roberto. Ai, que frio…” Então o Roberto leva o pé ao travão hidráulico. “Mas tens frio, Andreia? Queres ir buscar um casaco?” Acto contínuo, carrega no botão luminoso, a abrir a porta de novo: “Vá, vai lá buscar um casaquinho, que eu espero.” E quando, ainda antes do fim dessa viagem, verifica que a greve dos professores vai realmente deixar os miúdos sem aulas, como já temia, tira os óculos escuros e olha o miúdo mais rufia através do espelho retrovisor: “João, a escola está fechada. Como é que queres fazer? Sais aqui e eu vou dar a volta e apanho-te no regresso? Ou vens já comigo até lá acima e voltas?”

Trata toda a gente por tu, o Roberto, e ninguém lho leva a mal. Toda a gente trata toda a gente por tu, aqui na ilha. Mas, principalmente, o Roberto elevou a condução de um autocarro a uma arte pop e a figura do condutor a uma estrela. Melhor: fê-lo por generosidade. As crianças, os adultos, os velhos – ninguém, para ele, merece menos cuidados. Na sua história conjura-se tudo o que ainda reste de rural nesta ilha e de decente na ideia de transporte público. O meu único medo é que um dia venha um partido qualquer e o convide para se candidatar a uma junta de freguesia, ou assim. Homens como o Roberto são atraentes de mais para a política pelintra destas ilhas. Nunca me esqueço daquele carteiro do Corvo de quem deram cabo.

Até lá, porém, há um adolescente muito hormonoso que não se senta quieto na cadeira, sempre aos saltos a importunar as raparigas? O Roberto chega ali à subida do Alto das Covas e, quando o trânsito pára, deixa descair a camioneta dez centímetros e carrega no travão, fazendo-o sentar-se. Vem aí a Páscoa e há duas senhoras sentadas no banco da frente a lamentar-se pela falta de tempo para cozer a massa sovada, contrariamente à tradição familiar? O Roberto promete trazer no dia seguinte um bolo para cada uma, daqueles que o irmão coze na Agualva (acho que é na Agualva). A urbana esvaziou e já só resta a Catarina para transportar até ao ginásio? O Roberto leva o resto da viagem a fazer conversa sobre exercício físico e a contar do pequeno ginásio que se esforçou por instalar em casa, aqui há uns anos, mas nem sempre tem tempo de usar como pensava.

“Estás a ver aquela casinha?”, apontou-lhe há dias. Falava de um casebre poético que há ali em baixo, em frente à Cadeia, brilhando na orla de uma mata elevada ao fundo de uma quinta muito bonita. “Tu és uma pessoa que ali é que estavas bem, não és?” Perguntou-lhe a Catarina: “Porque é que dizes isso, Roberto?” E ele: “Não sei. Podias traduzir os teus livros sem barulho.”

O Roberto é assim: olha realmente para as pessoas, interessa-se realmente por elas. Penso nele e lembro-me dos motoristas de autocarro da minha infância: o Dutra, que fazia o caminho todo em segunda, numa lentidão que nos entediava de morte; o José Pereira, que era do Sporting e andava o tempo todo nos limites do que o autocarro dava, como talvez só fosse possível naqueles anos tontos; o António, que era filho da D. Albertina e não havia nada sobre que não soubesse tudo – ao pé do Roberto, temo bem, eram todos figuras bidimensionais, desprovidas de dimensão literária.

A única vantagem é que, nos casos deles, a urbana andava sempre a horas – mesmo quando era o Dutra a conduzir. Já com o Roberto, tantos são os afazeres, acontece estar atrasada, o que é sempre uma chatice. Quando alguém protesta, porém, ele meneia a cabeça: “Eu sei… Mas eu esforço-me…” Um dia ainda o transformo no herói de um conto infantil. Talvez aí consiga fazer-lhe justiça – aqui, não fiz.

Foto: © António Araújo

As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

O alcatrão derretido sob o olival

Crónica

Joel Neto

“Felicidade diferente de alegria?!”, estranhou ele. Riu-se, como se tudo pudesse ser ainda uma piada cúmplice entre nós: “Não ‘tou te entendendo. O que é que você quer dizer com isso, felicidade é uma coisa e alegria é outra?” – e eu fiquei ali, a pensar na possibilidade de também isso ter a ver com o desastre Bolsonaro, talvez como efeito, talvez como causa.

Contei-lhe a minha história também. Muitos dos meus amigos brasileiros iam votar Bolsonaro. Todos os meus amigos brasileiros protestantes, tanto os do protestantismo bom como os do protestantismo mau, iam votar Bolsonaro. E eu não queria fazer juízos morais sobre isso, apesar da tentação. Mas não deixava de me sentir inquieto perante a evidência de que, ao contrário do que sempre quisera acreditar, o humanismo que me esforçava por cultivar, aquele que talvez tivesse persistido em mim mesmo quando eu me empenhara tão determinada e estupidamente em resistir-lhe, não vinha afinal da minha formação protestante.

“De repente”, suspirei, “é como se tivesse estado mais certo na adolescência rebelde e contestatária do que na maturidade serena e conciliadora. Talvez deva mesmo ser assim. Mas, de qualquer maneira, esta eleição, para mim, não é só sobre a fragilidade original da democracia face ao imperativo da segurança, a experiência da corrupção ou o impulso do ódio: é também sobre a verdade e a mentira no modo como, para nosso próprio apaziguamento, forjamos a memória da juventude.”

Ele meneou a cabeça, numa anuência branda. Levou a mão às frontes, mais uma vez. Andava com enxaquecas há semanas, coisa que logo no princípio do jantar anunciara como uma reacção antecipada à vitória do fascismo. Afinal, estávamos a menos de 24 horas da abertura das urnas da primeira volta – o mais natural era que a dor estivesse ao rubro. Mas, inesperadamente, aquilo em que se deteve foi na felicidade e na alegria, como se eu devesse ter mais cuidado com a minha ideia: “Diferentes. Não percebo…”

Isto foi em Óbidos, no fim-de-semana. Quase todos os anos vou ao Fólio, e este não foi diferente. Durante dois dias, percorri o empedrado, revi amigos, discuti literatura. O Luís levou-me uma garrafa de vinho e o pai da Pipa – nunca se esquece – uma ginjinha das dele. Entretanto, revi a Gisele, conheci a Patrícia, acertei pendentes com o João e a Ana Margarida, pedi ao Afonso que me explicasse tudo sobre o Scrivener, agradeci a generosidade indefectível da Maria João, conversei longa e cumplicemente com a Ana Cristina. Mas em nenhum momento voltou a sair-me da cabeça aquele homem que as sortes do jantar tinham colocado à minha frente: aquele brasileiro grande e elegante, intelectual, bem de vida – e, apesar disso, confuso com a hipótese de a infelicidade conviver com a mais retumbante alegria (e vice-versa).

Fez-me lembrar um daqueles nova-iorquinos do Woody Allen, sobretudo os dos anos 80 e 90, tão desejosos de encontrar um problema que acabavam por encontrá-lo realmente. Com a diferença de que a confusão dele não parecia apenas uma auspiciosa perspectiva de depressão, mas uma verdadeira perplexidade, como se se tratasse antes de um filme de ficção científica e houvessem espetado um garfo nas costas do robô, petrificando-o num curto-circuito cheio de luzinhas verdes.

Agora estou em Torres Novas, e é com a alegria de um regresso a casa que aqui volto. Já não passava um dia inteiro nesta cidade há quase 40 anos, mas houve um tempo em que, inclusive, vivi aqui. O meu pai cresceu aqui. Apesar de nascido nas ilhas, algumas das minhas primeiras memórias são deste rio e deste castelo ensolarado e deste cheiro a alcatrão derretido sob o olival. E, embora acabe sempre por ir a onde me convidam, mentiria se dissesse que vou a todo o lado com o mesmo entusiasmo com que venho hoje aqui, visitar os leitores e passear pelos lugares da infância sobre que julgo ainda guardar alguma recordação.

De maneira que o Abílio me leva por eles: a tarambola do Almonda, a rua onde o tio Manuel Jorge tinha a retrosaria, o bairro de Valverde onde vivia o tio Alfredo, a fábrica de álcool onde agora está um centro comercial sobredimensionado, com metade das lojas por alugar. E o Nicho, claro. A casa onde vivemos. A Santa da Ladeira, ali mesmo ao lado. O Ritonicho. O pinhal que já não existe, a curva onde o cabeleireiro se dobrava sobre a carrinha do leite para pedir um iogurte Longa Vida, o campo de argila para onde o vento levou o meu pára-quedista de brincar (e que, aparentemente, também já desapareceu).

Foi um tempo importante para mim, aquele. As pessoas – lembro-me – diziam: “A ‘inha casa é branca”, ou: “O peixe está todo a desaparecer do’ rios.” Creio que foi a primeira vez que pensei nas palavras. Entretanto, o terramoto da Terceira interrompeu a estada, acrescentando-lhe dramatismo a ela e redenção a ele – sabe-me bem lembrar tudo isso, salvo que não me sai da cabeça a estupefacção do meu novo amigo, que tem dores de cabeça porque Bolsonaro vai ser eleito presidente do Brasil, mas nunca tinha pensado na possibilidade de alegria e felicidade serem palavras diferentes, que significam coisas diferentes e até, às vezes, opostas.

Pergunto-me qual das duas ele nunca terá experimentado, e esforço-me por recapitular o nosso jantar, na esperança de não encontrar uma gargalhada.

Foto: © António Araújo

Como chamais a isto a que eu chamo viver?

Crónica

Joel Neto

“Mas também é preciso viver…”, insiste ele. Censura-me, a verdade é essa, e não está sozinho. Sentou-se à minha frente com queixas de outros elementos da família – que não apareço, que nem sequer falo ao telefone, que sou (isto não o diz, e talvez também não o pense) um sacana egoísta obcecado com o trabalho –, e eu chego a perguntar-me se devo de facto defender-me.

Devo-lhe muito, mas nem é por isso que o prefiro aos restantes tios. Por um lado, foi o primeiro da família (e o único até à sua geração), a estudar – à noite, de permeio com uma profissão exigente e competitiva, à custa de sacrifícios que nenhum de nós considerou. Por outro, a vida guardou-lhe os mais difíceis testes de força e de carácter, e ele respondeu-lhes com uma integridade quase sobre-humana.

Admiro-o, e, quando fui para Lisboa, nos alvores dos anos 90, enganava-me e chamava-lhe pai. Era natural, porque os dois são gémeos idênticos, aliás com larguras de gestos e tons de voz parecidos. Mas, principalmente, senti-me sob os cuidados de um pai, naquelas semanas em que me acolheu. Não poderei esquecer-me. De maneira que me defendo, realmente, mas com factores circunstanciais: inoportunidades, coincidências infelizes, mal-entendidos.

Estamos no Rocha, a comer uma telha de polvo, e ao nosso lado a Catarina e a Odete esforçam-se por se concentrar uma na outra. Suspiro: quem sabe não consigo ser melhor sobrinho, agora que chego à segunda metade da vida – melhor sobrinho e melhor primo e melhor tio e melhor irmão e melhor filho. E, no entanto, aquelas palavras continuam a reverberar em volta: “Também é preciso viver…”

Porque, aparentemente, não é viver, isto que faço: é trabalhar apenas – de dia e de noite, de semana e ao fim-de-semana, no computador e até na hora da mesa. E a Catarina (isto o meu tio também não diz, é demasiado cavalheiro para isso) não ajuda. Enfia a cabeça nos livros de manhã e só a tira à noite. Às vezes vai ao ginásio e, mesmo assim, volta para o trabalho.

Ocorre-me brincar: não se preocupe, tio, que a reforma já não vem longe – não tarda teremos tempo para tudo. Mas, entretanto, lembro-me de ainda ontem ter visto o A., que foi colega do meu pai, a atravessar a Rua da Sé. Vi-o na passadeira à minha frente e parei diligentemente o automóvel. Ele meneou a cabeça e, olhando para o interior do carro, a perscrutar a identidade do motorista, chegou-se para trás e mandou-me passar a mim.

Nem me reconheceu: fez simplesmente um gesto com o braço, a mandar-me passar, porque tinha toda a prioridade mas nenhum compromisso. Entristeceu-me imenso, e imaginei-me a mim próprio a mandar passar os carros, já velho – sem horas para estar em lado nenhum, sem uma frase para escrever ou um parafuso para apertar ou um apêndice para extrair.

Creio que foi por isso que deixei de fumar: porque gostaria de não ter de viver assim, um dia. E que passei a pôr-me aos saltos ao final da tarde, e que comecei a comer alface: para, se de facto chegar à reforma, haver ao menos uma possibilidade de não ter de atravessá-la a mandar passar os carros – como aquele homem também não tem de fazer, mas faz porque quer, ou porque está deprimido.

Quero uma reforma saudável ou reforma nenhuma. Para que me serviria ela, no fundo, se não para trabalhar melhor?

De maneira que, quanto ao meu tio, me fiquei pelas inoportunidades. Ademais, tenho as pazes feitas com o inevitável. Primeiro, já não vou ser melhor pessoa. Depois, li o suficiente sobre a vida dos escritores, e mesmo que não tivesse lido sobre a vida deles tinha lido os seus livros: nunca um escritor deu um grande homem de família.

O resto não é fácil explicar a alguém que traz tão boas intenções, mas a verdade é que a família está quase sempre na origem das melhores e das piores coisas da vida – de todas as vidas. No fundo, aliás, é aí que o escritor estará sempre: às voltas na família. Ela julgá-lo distante, até alheado, não só faz parte do processo, mas chega a ser necessário. E, entretanto, trabalhemos, que ainda não vi melhor maneira de viver.

Foto: © António Araújo

Filhos do mar e da terra

Crónica

Joel Neto

Joel Neto, fotografias de António Araújo, tirado em Abril de 2017, na Terceira, Açores, Portugal.

Porque é que eu nunca escrevi sobre o mar? A pergunta ocorre-me mais ou menos a meio de uma espécie de debate, e, ao vê-la formular-se, sou atravessado por um calafrio. Estamos em Ovar, num festival literário íntimo mas nem por isso isento de responsabilidades, e a ideia de não ter o que dizer quando o moderador voltar a fazer-me uma pergunta torna a assustar-me.

É uma vertigem recente, que costumo atribuir a uma vergonha que passei em Matosinhos, há três ou quatro anos, quando eu e um colega escritor nos sentámo-nos com um colunista despachado, determinados os três a discutir um assunto que não dominávamos, e depois nenhum de nós tinha o que quer que fosse para dizer. Cheguei a desejar a morte súbita quando me dei conta do instante em que o senhor na segunda fila, abanando a cabeça, se apercebeu da fraude que constituíamos todos.

Mas talvez até nem tenha nada que ver com Matosinhos. Estou simplesmente mais tímido e inseguro, com o passar dos anos, e o problema é que nem sempre consigo persuadir-me de que isso seja sinal de maturidade. Porque é que a consciência das nossas fraquezas haveria de ser melhor prova de inteligência do que a das nossas forças?

Desta vez é pior, porque do lado oposto da mesa está um poeta elegante e terno, com um traje hipster e uma tal generosidade de gestos – como, aliás, é próprio de um homem das Caxinas – que a plateia não tarda a render-se-lhe. Ouço-o nas suas metáforas ora doces, ora em staccato, a meio caminho entre o improviso e a programação, e é como se a cada palavra que diz aumentasse o volume à contagem decrescente para o momento em que eu próprio terei, penosamente, de pronunciar-me.

Até que o moderador, que é o João Morales: “Julgo saber, João Rios [o poeta chama-se João Rios], que tu estiveste há não muito tempo nos Açores. Como é o mar dos Açores para um caxineiro? É o mesmo mar?”

Levo de imediato a mão ao peito: e se ele me pergunta sobre o mar? Este tipo não deixa uma pessoa fugir à questão – o que tenho eu a dizer sobre o mar? Porque é que o mar é sempre tão periférico, nos meus livros, nas minhas crónicas, até no meu quotidiano? Porque é que os meus Açores são sempre tão feitos de terra e montanhas e pastagens e vulcões, e nunca o suficiente de mar?

Porque é que eu nunca escrevi sobre o mar?

Lembro-me da pergunta que fiz a mim mesmo, há agora mais seis anos, ao tornar a pousar os pés nestas ilhas com intenção, desta vez, de viver nelas. O sol deitava-se brandamente sobre a Canada dos Vinte, de que já então eu intuía a necessidade de fazer passeio semanal, e no horizonte as ilhas de São Jorge, Pico e Graciosa espalhavam-se como uma promessa de liberdade. Fumando um cigarro, sentado no muro de pedra, olhei-as. “E este mar? É o que nos separa ou o que nos une?”

Agora está ali o João Rios, que vem de uma terra de pescadores, temeroso de um modo diferente desse mesmo mar que então olhei. Que sim, que é o mesmo, diz, recordando o dia em que o viu pela primeira vez a partir da ilha. O mesmo mar redentor e irado das Caxinas, que nos sustenta e leva tantos de nós – o mesmo mar, todo ele, e teria valido a pena (garante) percorrer aqueles mais de dois mil quilómetros por terra e ar mesmo que não houvesse sido possível ver mais nada senão esse mar que há tantas gerações mata a fome a caxineiros e açorianos, fazendo-se de vez em quando ressarcir com as vidas de mais três ou quatro deles.

E só então, ao ouvi-lo, eu percebo porque nunca escrevi sobre o mar. Escrever sobre a terra foi quase fácil. Para escrever sobre o mar, é preciso primeiro ser-se filho dele. E o que um filho do mar se pergunta nunca é: “É o que nos separa ou o que nos une?”, mas sim: “É o que nos alimenta ou o que nos mata?” Para um filho do mar, dos Açores ou das Caxinas, o mar é uma questão de vida ou de morte. Já eu ainda não consegui vê-lo senão como um turista, um lisboeta. Talvez seja precisa uma tragédia antes de poder escrever sobre ele.

 

Foto: © António Araújo

«Outono»

A PALAVRA DO DIA

Ou·to·no |tô| 
(latim autumnus-i)

substantivo masculino

1. Estação que precede ao Inverno.
outono

2. Colheita.

3. [Figurado]  Decadência.
outonos

substantivo masculino plural

4. Cereais que se semeiam no Outono.

 

outono da vida
• Princípio da velhice.

Plural: outonos |ô|.

“outono”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/outono [consultado em 20-09-2018].

Da vontade de rir e chorar

Crónica

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São oito da manhã, e o motorista que me trouxe de volta a Lisboa, a tempo de um compromisso marcado à última hora, deixa-me nos limites do Lumiar, de modo a proteger-se das filas de trânsito. Há um cheiro a Verão em volta e uma luz deitada sobre as cordas de roupa nas varandas. Olho a pequena papelaria de bairro, de onde sai um senhor com um jornal da mão, e de repente, sem que perceba bem como, é 1997 outra vez. É 1997, e eu tenho 23 anos, e os passeios que bordejam as ruas são exactamente assim, desolados e libertadores, e as pessoas lêem jornais pela manhã, e é possível até que eu tenha escrito no que aquele senhor lê.

Há trânsito, evidentemente que há demasiado trânsito, mas hoje não é um dia daqueles. Compro o jornal também, ergo a mão a chamar um táxi e peço que tome o caminho de Benfica. Das colunas ecoam as notícias da TSF: Marcelo acusou Guterres de demagogia, afinal foi a miúda que se atirou a Clinton, concluiu-se mais um pavilhão da Expo. Está um andaime montado quase no meio da rua, afunilando a circulação, e apita-se bastante. Fecho os olhos, a tentar ignorar a tensão precoce, e dali a pouco a rádio passa das notícias aos Massive Attack: You are my angel/ Come from way above/ To bring me love.

Tudo na cidade se espreguiça hoje mais vital do que mecanicamente. Sou daqui também. Aqui regresso.

Lembro-me da Estela, que está a fazer um estágio na Holanda. Do Alcides, que amanhã segue para o Brasil, a ver a mãe. Tenho de telefonar-lhes. Lembro-me da Suzana que começou a trabalhar na Telecel, e da Pipa que eu gostava tanto de levar aos Açores, e da Yara que parece que arranjou um namorado francês. Saio do táxi, menos de 400 escudos como só num dia de pouco trânsito, e, como ainda tenho uns minutos, entro numa pastelaria para um café. Os clientes mastigam olhando a janela, tristemente, mas a certa altura entra um daqueles homens de meia-idade dados à jovialidade matinal, Ora bom dia, bom dia, bom dia!, e despertam quase todos da sua dormência, como se se dessem conta do quão boa, apesar de tudo, é a bica diante deles.

Tiro o meu Toshiba do saco preto que trago ao ombro. Abro o Wordstar com o texto que tenho em curso. Do outro lado do vidro passam autocarros. Alguns trazem palavras esdrúxulas escritas à ilharga, como Rodoviária. Uma rapariga ao volante de um Citroën AX leva um cigarro apagado entre os lábios. Pessoas à minha volta trocam piadas primárias, verdades absolutas, conselhos egoístas. Cheira intensamente a bolos quentes, para minha imensa volúpia, e por instantes tenho a certeza de que vou tomar este mundo sozinho, eu e o meu Toshiba – tenho a certeza de que vou pôr o mundo todo dentro do Toshiba e reduzi-lo a um texto só, a uma frase imortal, e talvez seja hoje mesmo o dia em que essa frase me vai ocorrer.

Só depois me lembro que não é 1997, mas 2018, e que essa frase ainda não me ocorreu, nem sequer esse texto, e que algumas das pessoas a que devia telefonar já nem estão na minha vida, de onde aliás saíram tragicamente. E que um táxi do Lumiar a Benfica não custa agora 400 escudos, mas seis euros, três vezes mais. E que tão-pouco eu vivo agora nesta cidade mas numa ilha, onde não preciso andar de táxi e em vez de andaimes tenho araucárias, buganvílias e rosas. Não se bebe um só bom café, em toda essa ilha, e de repente tenho vontade de chorar – e agora também já não sei se choro pelo lugar se pelo tempo, se por Lisboa se por 1997, se pelo que me rodeia ou pelos meus 23 anos, e o homem que quase fui, e tudo o que não fiz, e aquilo de que me livrei.

A vida é tanto uma tragédia como um milagre. Mas, se uma pessoa chega a uma idade em que quase tudo lhe dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, pode concluir o quê, se não que a tem vivido? Uma vida em que não se ri nem chora, em que nenhum motivo é grande o suficiente para se rir e chorar – que vida teria sido essa, afinal?

Foto: © António Fonseca Tavares