O jogo dos homens devastados

Crónica

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E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia – cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Que saudades tenho da Aroeira. E das nossas expedições pelos campos da Grande Lisboa – dos tugúrios desoladores de Benavente às berrarias exibicionistas do Estoril e Cascais. E daquelas venetas que nos davam para jogar os grandes campeonatos, em pares e até sozinhos, e onde quase nunca algum de nós chegou sequer à mediania. Que saudades tenho daquilo, um grupo de homens com tanto que fazer em casa, todos razoavelmente devastados, todos preferindo estar ali – perseguindo de ferros em riste o seu (como dizia Churchill) comprimido de quinino através da pastagem. Como é irrepetível esse tempo, agora, ao fim de tão longo afastamento. E como eu o senti esta tarde, em instantes intermitentes, ao atravessar o fairway ao lado do João, ambos tão destreinados já daquilo que sabíamos fazer e talvez já nem saibamos.

Ah, o que eu gostava de jogar golfe, cirandando entre a flora e a fauna em busca do inefável. E como eu odiava jogar golfe, ao mesmo tempo, porque toda a minha vida era apenas isso, jogar golfe, e tudo o mais apenas os aborrecimentos infinitos do homem que faz contas ao tempo que falta para jogar golfe outra vez. Quantos livros escrevi, afinal, nesses dez anos em que o joguei com a avidez de um menino? Quantos livros em condições, pelo menos? E, no entanto, quantas vezes voltei a ser menino depois de pendurar os tacos na garagem?

Nunca mais fui menino como naquele dia em que, jogando sozinho no encantador tormento a que em Ponte de Lima chamam campo de golfe, fechei o back nine duas abaixo do Par e depois não havia ninguém para servir de testemunha. Nunca mais fui menino como naquele dia aqui na Terceira em que levei o Jorge da Agualva ao sétimo buraco do playoff, celebrando com tal alegria o segundo lugar no torneio que só depois me lembrei que até tivera um putt para ficar em primeiro e não me concentrara como deve ser. E também nunca mais fui menino como naquele dia em que, chegado às imediações do green do 17 do Aroeira 2 no Par do campo, que nunca tinha igualado, fiquei não nervoso que fiz triplo-bogey com duplo hit e tudo. Nem como naquele em que, no 6 da Penha Longa, o buraco lindo atrás do qual passa o aqueduto que os fotógrafos estrangeiros adoram, nos afundámos ambos um ao outro, eu e o António, porque não havia decisão razoável que o nosso impulso de autodestruição não sabotasse.

Como eu gostava de ser menino a dois também. E como éramos tão bons meninos a dois, eu e o António, conversando sobre literatura, brandindo o driver e rindo da nossa própria trapalhice. Quantos torneios jogámos a dois e quantas vezes, na hora de concluir, pura e simplesmente nos dinamitávamos, como se tivéssemos medo de erguer fasquias que depois não pudéssemos sonhar vencer.

Também ele veio comigo hoje, o António. E o Luís, o outro irmão Barreira – e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui. Caminhávamos pelo fairway, ao lado do João, e às vezes nem abríamos a boca: era o nosso silêncio que contava das nossas solidões, afinal tão parecidas umas com as outras. Então, um de nós metia um tee shot comprido e direitinho, para lá dos lagos e dos bunkers, e celebrávamo-lo todos juntos: “Bom shot.” Depois outro fazia um daqueles slices paralisantes, a bola no meio do cerrado, perdida entre a erva, e baixávamos os olhos, lamentando ter saído de casa.

Porque o golfe se fez em primeiro lugar para atestar da impossibilidade do Absoluto, mas afinal trata-se da lição mais difícil de todas – não é assim?

Portanto aqui estou, a pensar nisso tudo, com as pernas cansadas de uma rotina de que se tinham esquecido e os tacos pendurados de novo na garagem porque, agora, já não preciso ir amanhã outra vez. Deixei de ser um homem devastado, devolvido ao espaço e aos cheiros de vida, e tão-pouco me inquieta hoje a impossibilidade do Absoluto, da Perfeição ou da Eternidade. Um homem ganha uma força enorme quando deixa de acreditar em palavras com letra grande. Mas, apesar disso, comprometemo-nos a jogar uma vez por mês, eu e o João. Ensinaremos o Matthew. O Matthew, sim, o Matthew carregará o que restar da nossa obsessão, durante uns anos – até que chegue o momento de também para ele seja suficiente brincar como um menino uma vez ao mês.

Foto: © António Araújo

Os animais à minha volta

Crónica

Joel Neto

Talvez a cabra nem tenha sido o primeiro bicho para que ela me chamou a atenção. Desde muito pequena que eu a via acarinhar todos os tipos de animais: gatos, cães, pássaros, até galinhas. Dizia que queria ser veterinária ou pet sitter, bióloga marinha ou dog groomer. “Cabeleireira de cães”, acho que foi a sua expressão (e estava mais certa).

Eu sorria-lhe. Sempre gostei daqueles olhos tristes. E depois, não sei como, alguém deu uma cabra ao pai.

Creio que nem cheguei a ver essa cabra, agora que penso nisso. Andava sempre a viajar, de Lisboa para a ilha e de novo para Lisboa. Mas, por outro lado, vi-a muita vezes nas palavras daquela menina. Encontrávamo-nos e a primeira coisa de que me falava era a cabra: “Sabes que eu tenho uma cabrinha?” Então, eu imaginava uma cabrinha branca e rabina, como a da Heidi – e ficava ali, a ouvir as histórias que a menina me contava sobre ela.

Acontecia alguma coisa onde se podia esconder uma metáfora caprina? “É como a minha cabrinha, no outro dia também começou a…” Eu queria saber o que ela planeava ser quando fosse grande? “Se calhar já não quero ser bióloga marinha, quero ser pet sitter para passear a minha cabrinha.” Não tínhamos mais sobre o que conversar? “Ainda não te contei o que a minha cabrinha fez ontem…”

Tinha sentido de humor. Fazia um riso escarninho, ao imaginar-se a passear uma cabra, um animal tudo menos passeável, e fazia outros gestos cúmplices e inteligentes. Às vezes lembrava-me a minha avó, outras não. A minha avó era má.

Até que um dia cheguei de Lisboa, vim pôr as malas a casa e fui vê-los. Na altura a minha chegada já não era uma novidade: tornara-se uma rotina. A cozinha estava quente e aconchegante, e foi com uma sensação de regresso que girei o trinco à porta. Cumprimentámo-nos todos, na alegria do costume. Finalmente, ao canto da mesa, ela fez o seu ar maroto, um cubinho de carne erguido na ponta do garfo: “Não queres provar a minha cabrinha?”

Toda a gente me diz que esta história não foi bem assim, que fui eu que a inventei. Terá havido uma refeição de cabrito, talvez, mas nunca com aquela cabra. O que acontece é que as crianças chamam “cabrinha” a tudo o que é carneiro, macho ou fêmea, adulto ou cria… E é possível, realmente. À força de tanto contar histórias, um homem deixa de saber o que aconteceu e o que inventou. E, mesmo que ache que de facto aconteceu, ainda há a possibilidade de o seu cérebro o ter enganado.

É o bê-á-bá da neurologia: o nosso cérebro conta-nos histórias para preencher os espaços em branco, ajudando-nos a assimilar o mundo. Eu sempre tive dificuldade em assimilar o mundo. Mas não seria surpreendente se aquela menina tivesse comido a sua cabrinha. Faz parte do ADN das gentes do campo, uma certa promiscuidade entre as funções dos animais domésticos (e as emoções à volta deles). Eu próprio matei galinhas. E todos nós comemos da ‘Rita’, a porca que bebia água pela mangueira.

Como pude eu comer da ‘Rita’, pergunto-me hoje? Como pude ajudar a ir buscá-la ao curral, a erguê-la para cima do banco de abate, a segurá-la com todas as minhas forças de adolescente, sentindo-me a transformar-me num homem enquanto, debaixo de mim, um animal inteligente, talvez até afectuoso, guinchava desesperado? Como pude eu, durante tantos anos, arrancar as penas do pescoço às galinhas e cravar-lhe o gume frio e nem sempre regular de uma faca?

Parece-me tão longe, hoje, esse rapaz que eu era. E, no entanto, estaria ele menos certo, quanto à relação com os animais domésticos, do que este adulto confuso que ainda há dias viu uma vizinha matar um bicho-pau, com o desembaraço e a crueldade que só o hábito permite, e passou dois dias a rever a cena na sua cabeça? Está mais certo do que esse rapaz do campo este homem que nem é bem do campo nem é bem da cidade e que, cuidando dos cães como se fossem pessoas, é capaz de andar a semana toda a contar as horas para ir aos Altares comer um fillet mignon das mesmas vacas sobre que escreve?

Pensei nisso esta tarde, mais uma vez. Vínhamos a descer o Escampadouro, com os cães no porta-bagagens, e à nossa frente uma senhora algo desengonçada caminhava, com uma vara de vime fininha na mão, atrás de uma vaca solitária. Era gorda e parecia estar a reaprender a andar, como se criar aquele animal lhe tivesse devolvido a actividade física exigida pelos médicos, mas agora fosse hora de deixar o bicho no pasto, no meio da manada de algum criador extensivo que dentro de dias tivesse de ir entregar novo lote ao matadouro.

Que pensaria aquela senhora, ao encaminhar a sua vaca para a morte – a vaca que lhe devolvera a vida? E o que terá pensado a minha mãe, quando andou a criar aquela outra bezerra nos Regatos, indo para lá e para cá no Fiat Uno, duas vezes ao dia, nesses anos de solidão em que, seguidos, saímos ambos de casa, primeiro eu e depois a minha irmã? Que dor a povoaria quando, ao telefone para Lisboa, me comunicou: “Morreu a minha vaquinha”? E como pudemos nós todos continuar, apesar disso, a comer carne de vaca?

O facto é que pudemos, e esse é o mistério. Eu pude, apesar de tudo isso sobre que pensei e li. Portanto, não vai ser a filosofia a resolver a minha confusão, e espero que não seja o moralismo também. Mas pergunto-me se não será a sensibilidade. Talvez um dia destes eu saia de casa, rumo aos Altares, e, ao debruçar-me sobre aquele fillet mignon, simplesmente já não consiga comê-lo. Também isso ficarei a dever aos dois cães que se deitam debaixo desta mesa no preciso momento em que escrevo este texto. E o mais provável é que lhes perdoe.

Foto: © António Araújo

O elogio do Inverno

Crónica

Joel Neto

Esta semana chegou o Inverno. Há mais de um mês que nós já vínhamos acendendo a salamandra, mas isso nunca é sinal de nada a não ser de que passamos dois terços do ano com saudades do Inverno. Entretanto, tinha havido dias de frio, dias de chuva e dias de vento. Por várias vezes a Catarina voltara do café matinal, esforçando-se por escorrer os sapatos à entrada, e cantarolara: “Acho que chegou o Inverno!” Mas só agora tivemos aquela chuva gélida e ventosa que nos desce pelo pescoço ao abrigarmo-nos sob um beirado e nos greta as mãos ao baixarmo-nos para disputar a bola de ténis com os cães. E o sol, evidentemente: aqueles rasgões de luz brilhantes e líquidos que podiam valer, sozinhos, um ano inteiro.

Já estive em muitos lugares, e já experimentei muitas meteorologias, e agora vivo novamente numa ilha que tem muitas meteorologias e, por via disso, se traveste de muitos lugares: nunca conheci um lugar tão perfeito e uma meteorologia tão ideal como os Açores sob o sol de Inverno, esperneando contra a distância e o esquecimento.

Vejo os meus amigos de Lisboa lamuriando o fim do Verão e não posso fazer mais do que solidarizar-me com o seu desânimo. Vejo os meus vizinhos dos Açores suspirando contra a humidade e a noite e não me ocorre melhor do que assoar-lhes o nariz vermelho e gordo da neurose.

A verdade é que não se ensina, o gosto do Inverno. Mas pode-se aprender. Nas longas horas de contemplação, ao sábado à tarde, olhando pela janela a ver languescer a Terra. Num passeio pelas ruas solitárias da cidade, noite dentro, com o frio invectivando-nos o rosto. Na espuma que, das ondas que se atiram contra o pontão, o vento faz levantar sobre a estrada – eu aprendi.

Da primeira vez que decidi falar a um amigo sobre a ideia de voltar à Terceira, tão vaga ainda, fui logo alertado para o Inverno. “Isto agora parece-te muito bonito”, disse-me ele, “mas só depois de voltares a passar aqui um Inverno é que te vais lembrar.” E eu assustei-me, porque, na ânsia de escolher um forasteiro residente, ademais com experiência consolidada, e além disso educado – tudo o que, no fundo, pudesse pôr-me a salvo dos mitos da falta de mundividência e das paixões imberbes do moralismo –, tinha acabado por ir dar a um serrano. Se um serrano se assustava com este Inverno, então era porque este Inverno metia respeito, e foi ainda com esse receio sobre todos os outros que, anos depois, nos instalámos na ilha.

Lembro-me de, no início de Fevereiro, ao ver florir a primeira erva azeda, me ter dado para celebrar a chegada da Primavera, quando ela ainda estava a três meses de chuva, de vento e de frio. Foram meses penosos, devo reconhecê-lo, e todos os anos, ao ver os cerrados pontilhados de florzinhas amarelo-vivo, sou forçado a lembrar-me deles, como se, apesar de tudo, fosse importante ir mantendo o inimigo à vista.

Mas o inimigo nunca foi o Inverno: é o tédio. A expectativa de uma coisa que não vem e a incapacidade de nos povoarmos com outra – esse, sim, foi o adversário para que nos armámos desde o início, para que nos armámos desde sempre. E o Inverno é tudo menos tédio. O Inverno é silêncio, supremo antónimo do tédio – talvez se possa mesmo dizer que na confusão entre os dois reside um dos mais frequentes e irremediáveis labirintos do viver.

No Inverno ninguém me toca à campainha. Não há foguetes no horizonte, nem touradas ao fundo da estrada, nem cortejos apitando aí em baixo no caminho. Ouço um zumbido ao fundo, uma roçadora mecânica aparando uma sebe, e sei que é sábado de manhã, porque a ninguém ocorreria, no Inverno, aparar uma sebe senão a um sábado de manhã. Cruzo-me com um par de vozes alteadas, ao passar frente à porta de um café, e sei que as vozes vêm da televisão, porque ninguém precisa de altear a voz no Inverno.

No Inverno, tudo à nossa volta se aquieta: os animais acalmam-se, as plantas hibernam, as pessoas aguentam. E é então que, dentro de nós, o mundo entra em ebulição. Como se, se repente, fôssemos nós a própria fonte da vida. Trabalhando. Lendo. Conversando.

Ouvindo jazz, e dirimindo os programas da BBC Radio, e afagando a testa aos cães. E ateando de novo a salamandra para ouvir jazz e dirimir os programas da BBC Radio e afagar a testa aos cães e trabalhar e ler e conversar e escrever.

É rotina, o Inverno – sobretudo isso. E é magnífico. Tudo o que temos feito de bom na vida, temo-lo feito no Inverno. É no Inverno que se plantam as árvores e se escrevem os livros. É no Inverno que se dão os melhores passeios e se cozinham os pratos mais saborosos.

No Inverno não se vai à praia, mas usam-se os casacos. Ainda não encontrei razão mais irrefutável para uma pessoa dar atenção à roupa que veste antes de sair de casa. Um casaco elegante e confortável, um passeio na noite, o vento invectivando-nos o rosto, uma casa à nossa espera com cheiro a lenha, livros nas estantes e cães dormitando sobre os tapetes – chega o Inverno e tudo o mais me parece apenas uma sucessão de instrumentos para termos saudades dele.

Foto: © António Araújo

O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

Crónica de Joel Neto

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Nunca escrevi foi sobre o Roberto, e a razão é a mais simples: conheço-o mal o suficiente para temer não estar à altura. Apesar disso, não há semana em que não me entre em casa uma história do Roberto. Algumas vêm da Catarina, que dia sim dia não anda com ele na urbana, a caminho da biblioteca ou de regresso do ginásio. Mas tenho a impressão de que não há um só lugar nesta ilha onde seja garantido que não me vão falar no Roberto: nem as mesas das pastelarias nem os consultórios dos dentistas – nem os corredores das escolas secundárias, nem os guichés das repartições públicas, nem sequer as cadeiras frias das casas mortuárias durante a madrugada.

Há que tempos que estou para escrever sobre o Roberto. Talvez deva arriscar.

O Roberto, que partilha o nome com o dono do café onde vou mas na verdade conduz a urbana da Terra Chã, deve ser o homem mais popular da ilha. “Urbana” é como na Terceira se chama a um autocarro, uma camioneta da carreira: carreira urbana, por extenso – para sintetizar, “urbana”. E é dali, daquele assento altivo, que o Roberto gere os seus domínios. Cumprimenta cada pessoa com que se cruza, mas isso ainda é dizer muito pouco. Sabe o nome de cada um dos seus passageiros, das velhinhas que vão para o Centro de Saúde aos miúdos que vão para a escola e aos próprios pais de família que, apanhados com o carro na revisão, não andam de urbana mais do que uma vez ao ano. E, sobretudo, quando fala com eles é como se se preocupasse.

Entra uma garota numa daquelas urbanas das oito e meia e, ao dar-se conta de que a manhã está mais fresca do que esperava, faz um arrepio: “Bom dia, Roberto. Ai, que frio…” Então o Roberto leva o pé ao travão hidráulico. “Mas tens frio, Andreia? Queres ir buscar um casaco?” Acto contínuo, carrega no botão luminoso, a abrir a porta de novo: “Vá, vai lá buscar um casaquinho, que eu espero.” E quando, ainda antes do fim dessa viagem, verifica que a greve dos professores vai realmente deixar os miúdos sem aulas, como já temia, tira os óculos escuros e olha o miúdo mais rufia através do espelho retrovisor: “João, a escola está fechada. Como é que queres fazer? Sais aqui e eu vou dar a volta e apanho-te no regresso? Ou vens já comigo até lá acima e voltas?”

Trata toda a gente por tu, o Roberto, e ninguém lho leva a mal. Toda a gente trata toda a gente por tu, aqui na ilha. Mas, principalmente, o Roberto elevou a condução de um autocarro a uma arte pop e a figura do condutor a uma estrela. Melhor: fê-lo por generosidade. As crianças, os adultos, os velhos – ninguém, para ele, merece menos cuidados. Na sua história conjura-se tudo o que ainda reste de rural nesta ilha e de decente na ideia de transporte público. O meu único medo é que um dia venha um partido qualquer e o convide para se candidatar a uma junta de freguesia, ou assim. Homens como o Roberto são atraentes de mais para a política pelintra destas ilhas. Nunca me esqueço daquele carteiro do Corvo de quem deram cabo.

Até lá, porém, há um adolescente muito hormonoso que não se senta quieto na cadeira, sempre aos saltos a importunar as raparigas? O Roberto chega ali à subida do Alto das Covas e, quando o trânsito pára, deixa descair a camioneta dez centímetros e carrega no travão, fazendo-o sentar-se. Vem aí a Páscoa e há duas senhoras sentadas no banco da frente a lamentar-se pela falta de tempo para cozer a massa sovada, contrariamente à tradição familiar? O Roberto promete trazer no dia seguinte um bolo para cada uma, daqueles que o irmão coze na Agualva (acho que é na Agualva). A urbana esvaziou e já só resta a Catarina para transportar até ao ginásio? O Roberto leva o resto da viagem a fazer conversa sobre exercício físico e a contar do pequeno ginásio que se esforçou por instalar em casa, aqui há uns anos, mas nem sempre tem tempo de usar como pensava.

“Estás a ver aquela casinha?”, apontou-lhe há dias. Falava de um casebre poético que há ali em baixo, em frente à Cadeia, brilhando na orla de uma mata elevada ao fundo de uma quinta muito bonita. “Tu és uma pessoa que ali é que estavas bem, não és?” Perguntou-lhe a Catarina: “Porque é que dizes isso, Roberto?” E ele: “Não sei. Podias traduzir os teus livros sem barulho.”

O Roberto é assim: olha realmente para as pessoas, interessa-se realmente por elas. Penso nele e lembro-me dos motoristas de autocarro da minha infância: o Dutra, que fazia o caminho todo em segunda, numa lentidão que nos entediava de morte; o José Pereira, que era do Sporting e andava o tempo todo nos limites do que o autocarro dava, como talvez só fosse possível naqueles anos tontos; o António, que era filho da D. Albertina e não havia nada sobre que não soubesse tudo – ao pé do Roberto, temo bem, eram todos figuras bidimensionais, desprovidas de dimensão literária.

A única vantagem é que, nos casos deles, a urbana andava sempre a horas – mesmo quando era o Dutra a conduzir. Já com o Roberto, tantos são os afazeres, acontece estar atrasada, o que é sempre uma chatice. Quando alguém protesta, porém, ele meneia a cabeça: “Eu sei… Mas eu esforço-me…” Um dia ainda o transformo no herói de um conto infantil. Talvez aí consiga fazer-lhe justiça – aqui, não fiz.

Foto: © António Araújo

As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

O alcatrão derretido sob o olival

Crónica

Joel Neto

“Felicidade diferente de alegria?!”, estranhou ele. Riu-se, como se tudo pudesse ser ainda uma piada cúmplice entre nós: “Não ‘tou te entendendo. O que é que você quer dizer com isso, felicidade é uma coisa e alegria é outra?” – e eu fiquei ali, a pensar na possibilidade de também isso ter a ver com o desastre Bolsonaro, talvez como efeito, talvez como causa.

Contei-lhe a minha história também. Muitos dos meus amigos brasileiros iam votar Bolsonaro. Todos os meus amigos brasileiros protestantes, tanto os do protestantismo bom como os do protestantismo mau, iam votar Bolsonaro. E eu não queria fazer juízos morais sobre isso, apesar da tentação. Mas não deixava de me sentir inquieto perante a evidência de que, ao contrário do que sempre quisera acreditar, o humanismo que me esforçava por cultivar, aquele que talvez tivesse persistido em mim mesmo quando eu me empenhara tão determinada e estupidamente em resistir-lhe, não vinha afinal da minha formação protestante.

“De repente”, suspirei, “é como se tivesse estado mais certo na adolescência rebelde e contestatária do que na maturidade serena e conciliadora. Talvez deva mesmo ser assim. Mas, de qualquer maneira, esta eleição, para mim, não é só sobre a fragilidade original da democracia face ao imperativo da segurança, a experiência da corrupção ou o impulso do ódio: é também sobre a verdade e a mentira no modo como, para nosso próprio apaziguamento, forjamos a memória da juventude.”

Ele meneou a cabeça, numa anuência branda. Levou a mão às frontes, mais uma vez. Andava com enxaquecas há semanas, coisa que logo no princípio do jantar anunciara como uma reacção antecipada à vitória do fascismo. Afinal, estávamos a menos de 24 horas da abertura das urnas da primeira volta – o mais natural era que a dor estivesse ao rubro. Mas, inesperadamente, aquilo em que se deteve foi na felicidade e na alegria, como se eu devesse ter mais cuidado com a minha ideia: “Diferentes. Não percebo…”

Isto foi em Óbidos, no fim-de-semana. Quase todos os anos vou ao Fólio, e este não foi diferente. Durante dois dias, percorri o empedrado, revi amigos, discuti literatura. O Luís levou-me uma garrafa de vinho e o pai da Pipa – nunca se esquece – uma ginjinha das dele. Entretanto, revi a Gisele, conheci a Patrícia, acertei pendentes com o João e a Ana Margarida, pedi ao Afonso que me explicasse tudo sobre o Scrivener, agradeci a generosidade indefectível da Maria João, conversei longa e cumplicemente com a Ana Cristina. Mas em nenhum momento voltou a sair-me da cabeça aquele homem que as sortes do jantar tinham colocado à minha frente: aquele brasileiro grande e elegante, intelectual, bem de vida – e, apesar disso, confuso com a hipótese de a infelicidade conviver com a mais retumbante alegria (e vice-versa).

Fez-me lembrar um daqueles nova-iorquinos do Woody Allen, sobretudo os dos anos 80 e 90, tão desejosos de encontrar um problema que acabavam por encontrá-lo realmente. Com a diferença de que a confusão dele não parecia apenas uma auspiciosa perspectiva de depressão, mas uma verdadeira perplexidade, como se se tratasse antes de um filme de ficção científica e houvessem espetado um garfo nas costas do robô, petrificando-o num curto-circuito cheio de luzinhas verdes.

Agora estou em Torres Novas, e é com a alegria de um regresso a casa que aqui volto. Já não passava um dia inteiro nesta cidade há quase 40 anos, mas houve um tempo em que, inclusive, vivi aqui. O meu pai cresceu aqui. Apesar de nascido nas ilhas, algumas das minhas primeiras memórias são deste rio e deste castelo ensolarado e deste cheiro a alcatrão derretido sob o olival. E, embora acabe sempre por ir a onde me convidam, mentiria se dissesse que vou a todo o lado com o mesmo entusiasmo com que venho hoje aqui, visitar os leitores e passear pelos lugares da infância sobre que julgo ainda guardar alguma recordação.

De maneira que o Abílio me leva por eles: a tarambola do Almonda, a rua onde o tio Manuel Jorge tinha a retrosaria, o bairro de Valverde onde vivia o tio Alfredo, a fábrica de álcool onde agora está um centro comercial sobredimensionado, com metade das lojas por alugar. E o Nicho, claro. A casa onde vivemos. A Santa da Ladeira, ali mesmo ao lado. O Ritonicho. O pinhal que já não existe, a curva onde o cabeleireiro se dobrava sobre a carrinha do leite para pedir um iogurte Longa Vida, o campo de argila para onde o vento levou o meu pára-quedista de brincar (e que, aparentemente, também já desapareceu).

Foi um tempo importante para mim, aquele. As pessoas – lembro-me – diziam: “A ‘inha casa é branca”, ou: “O peixe está todo a desaparecer do’ rios.” Creio que foi a primeira vez que pensei nas palavras. Entretanto, o terramoto da Terceira interrompeu a estada, acrescentando-lhe dramatismo a ela e redenção a ele – sabe-me bem lembrar tudo isso, salvo que não me sai da cabeça a estupefacção do meu novo amigo, que tem dores de cabeça porque Bolsonaro vai ser eleito presidente do Brasil, mas nunca tinha pensado na possibilidade de alegria e felicidade serem palavras diferentes, que significam coisas diferentes e até, às vezes, opostas.

Pergunto-me qual das duas ele nunca terá experimentado, e esforço-me por recapitular o nosso jantar, na esperança de não encontrar uma gargalhada.

Foto: © António Araújo

Como chamais a isto a que eu chamo viver?

Crónica

Joel Neto

“Mas também é preciso viver…”, insiste ele. Censura-me, a verdade é essa, e não está sozinho. Sentou-se à minha frente com queixas de outros elementos da família – que não apareço, que nem sequer falo ao telefone, que sou (isto não o diz, e talvez também não o pense) um sacana egoísta obcecado com o trabalho –, e eu chego a perguntar-me se devo de facto defender-me.

Devo-lhe muito, mas nem é por isso que o prefiro aos restantes tios. Por um lado, foi o primeiro da família (e o único até à sua geração), a estudar – à noite, de permeio com uma profissão exigente e competitiva, à custa de sacrifícios que nenhum de nós considerou. Por outro, a vida guardou-lhe os mais difíceis testes de força e de carácter, e ele respondeu-lhes com uma integridade quase sobre-humana.

Admiro-o, e, quando fui para Lisboa, nos alvores dos anos 90, enganava-me e chamava-lhe pai. Era natural, porque os dois são gémeos idênticos, aliás com larguras de gestos e tons de voz parecidos. Mas, principalmente, senti-me sob os cuidados de um pai, naquelas semanas em que me acolheu. Não poderei esquecer-me. De maneira que me defendo, realmente, mas com factores circunstanciais: inoportunidades, coincidências infelizes, mal-entendidos.

Estamos no Rocha, a comer uma telha de polvo, e ao nosso lado a Catarina e a Odete esforçam-se por se concentrar uma na outra. Suspiro: quem sabe não consigo ser melhor sobrinho, agora que chego à segunda metade da vida – melhor sobrinho e melhor primo e melhor tio e melhor irmão e melhor filho. E, no entanto, aquelas palavras continuam a reverberar em volta: “Também é preciso viver…”

Porque, aparentemente, não é viver, isto que faço: é trabalhar apenas – de dia e de noite, de semana e ao fim-de-semana, no computador e até na hora da mesa. E a Catarina (isto o meu tio também não diz, é demasiado cavalheiro para isso) não ajuda. Enfia a cabeça nos livros de manhã e só a tira à noite. Às vezes vai ao ginásio e, mesmo assim, volta para o trabalho.

Ocorre-me brincar: não se preocupe, tio, que a reforma já não vem longe – não tarda teremos tempo para tudo. Mas, entretanto, lembro-me de ainda ontem ter visto o A., que foi colega do meu pai, a atravessar a Rua da Sé. Vi-o na passadeira à minha frente e parei diligentemente o automóvel. Ele meneou a cabeça e, olhando para o interior do carro, a perscrutar a identidade do motorista, chegou-se para trás e mandou-me passar a mim.

Nem me reconheceu: fez simplesmente um gesto com o braço, a mandar-me passar, porque tinha toda a prioridade mas nenhum compromisso. Entristeceu-me imenso, e imaginei-me a mim próprio a mandar passar os carros, já velho – sem horas para estar em lado nenhum, sem uma frase para escrever ou um parafuso para apertar ou um apêndice para extrair.

Creio que foi por isso que deixei de fumar: porque gostaria de não ter de viver assim, um dia. E que passei a pôr-me aos saltos ao final da tarde, e que comecei a comer alface: para, se de facto chegar à reforma, haver ao menos uma possibilidade de não ter de atravessá-la a mandar passar os carros – como aquele homem também não tem de fazer, mas faz porque quer, ou porque está deprimido.

Quero uma reforma saudável ou reforma nenhuma. Para que me serviria ela, no fundo, se não para trabalhar melhor?

De maneira que, quanto ao meu tio, me fiquei pelas inoportunidades. Ademais, tenho as pazes feitas com o inevitável. Primeiro, já não vou ser melhor pessoa. Depois, li o suficiente sobre a vida dos escritores, e mesmo que não tivesse lido sobre a vida deles tinha lido os seus livros: nunca um escritor deu um grande homem de família.

O resto não é fácil explicar a alguém que traz tão boas intenções, mas a verdade é que a família está quase sempre na origem das melhores e das piores coisas da vida – de todas as vidas. No fundo, aliás, é aí que o escritor estará sempre: às voltas na família. Ela julgá-lo distante, até alheado, não só faz parte do processo, mas chega a ser necessário. E, entretanto, trabalhemos, que ainda não vi melhor maneira de viver.

Foto: © António Araújo

Filhos do mar e da terra

Crónica

Joel Neto

Joel Neto, fotografias de António Araújo, tirado em Abril de 2017, na Terceira, Açores, Portugal.

Porque é que eu nunca escrevi sobre o mar? A pergunta ocorre-me mais ou menos a meio de uma espécie de debate, e, ao vê-la formular-se, sou atravessado por um calafrio. Estamos em Ovar, num festival literário íntimo mas nem por isso isento de responsabilidades, e a ideia de não ter o que dizer quando o moderador voltar a fazer-me uma pergunta torna a assustar-me.

É uma vertigem recente, que costumo atribuir a uma vergonha que passei em Matosinhos, há três ou quatro anos, quando eu e um colega escritor nos sentámo-nos com um colunista despachado, determinados os três a discutir um assunto que não dominávamos, e depois nenhum de nós tinha o que quer que fosse para dizer. Cheguei a desejar a morte súbita quando me dei conta do instante em que o senhor na segunda fila, abanando a cabeça, se apercebeu da fraude que constituíamos todos.

Mas talvez até nem tenha nada que ver com Matosinhos. Estou simplesmente mais tímido e inseguro, com o passar dos anos, e o problema é que nem sempre consigo persuadir-me de que isso seja sinal de maturidade. Porque é que a consciência das nossas fraquezas haveria de ser melhor prova de inteligência do que a das nossas forças?

Desta vez é pior, porque do lado oposto da mesa está um poeta elegante e terno, com um traje hipster e uma tal generosidade de gestos – como, aliás, é próprio de um homem das Caxinas – que a plateia não tarda a render-se-lhe. Ouço-o nas suas metáforas ora doces, ora em staccato, a meio caminho entre o improviso e a programação, e é como se a cada palavra que diz aumentasse o volume à contagem decrescente para o momento em que eu próprio terei, penosamente, de pronunciar-me.

Até que o moderador, que é o João Morales: “Julgo saber, João Rios [o poeta chama-se João Rios], que tu estiveste há não muito tempo nos Açores. Como é o mar dos Açores para um caxineiro? É o mesmo mar?”

Levo de imediato a mão ao peito: e se ele me pergunta sobre o mar? Este tipo não deixa uma pessoa fugir à questão – o que tenho eu a dizer sobre o mar? Porque é que o mar é sempre tão periférico, nos meus livros, nas minhas crónicas, até no meu quotidiano? Porque é que os meus Açores são sempre tão feitos de terra e montanhas e pastagens e vulcões, e nunca o suficiente de mar?

Porque é que eu nunca escrevi sobre o mar?

Lembro-me da pergunta que fiz a mim mesmo, há agora mais seis anos, ao tornar a pousar os pés nestas ilhas com intenção, desta vez, de viver nelas. O sol deitava-se brandamente sobre a Canada dos Vinte, de que já então eu intuía a necessidade de fazer passeio semanal, e no horizonte as ilhas de São Jorge, Pico e Graciosa espalhavam-se como uma promessa de liberdade. Fumando um cigarro, sentado no muro de pedra, olhei-as. “E este mar? É o que nos separa ou o que nos une?”

Agora está ali o João Rios, que vem de uma terra de pescadores, temeroso de um modo diferente desse mesmo mar que então olhei. Que sim, que é o mesmo, diz, recordando o dia em que o viu pela primeira vez a partir da ilha. O mesmo mar redentor e irado das Caxinas, que nos sustenta e leva tantos de nós – o mesmo mar, todo ele, e teria valido a pena (garante) percorrer aqueles mais de dois mil quilómetros por terra e ar mesmo que não houvesse sido possível ver mais nada senão esse mar que há tantas gerações mata a fome a caxineiros e açorianos, fazendo-se de vez em quando ressarcir com as vidas de mais três ou quatro deles.

E só então, ao ouvi-lo, eu percebo porque nunca escrevi sobre o mar. Escrever sobre a terra foi quase fácil. Para escrever sobre o mar, é preciso primeiro ser-se filho dele. E o que um filho do mar se pergunta nunca é: “É o que nos separa ou o que nos une?”, mas sim: “É o que nos alimenta ou o que nos mata?” Para um filho do mar, dos Açores ou das Caxinas, o mar é uma questão de vida ou de morte. Já eu ainda não consegui vê-lo senão como um turista, um lisboeta. Talvez seja precisa uma tragédia antes de poder escrever sobre ele.

 

Foto: © António Araújo