Uma fogueira na escuridão

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Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.

No fundo do copo, amanhece

eu e melville

Crónica

São inesperados os lugares onde nos sentimos em casa. Duzentos metros mais abaixo, do lado esquerdo da rua, o café da freguesia, onde se vende aguardente às sete da manhã e onde ambos os venenos – o álcool que eles bebem, o café que eu peço – se respeitam.

Estamos de acordo quanto a isto: o café, tal como o bagaço, bebe-se de pé. São verticais. E se alguém de fora me puxa para uma mesa e eu, por cortesia, me sento, é como se o dia me entrasse pelo canal errado – e amanhecesse ao contrário. Não me levanto da mesa vencida, não desisti ainda, mas custa-me voltar a subir a rua na direcção da minha secretária e começo a imaginar como seriam as próximas horas – ou o tempo que me resta – se não o fizesse.

Talvez virando à esquerda, em vez de entrar pelo portão, eu fosse dar a uma estrada que ainda não conheço. Um caminho de terra batida que me conduzisse a uma outra casa, a uma outra vida. E talvez essa casa não existisse sequer nesta ilha, e não houvesse mar nenhum à volta. E a vista das janelas mais altas, ao subir uma longa escadaria, fosse a de uma cidade em tons de prata e sépia que se estendesse, como um réptil pré-histórico, até à linha do horizonte.

Talvez eu não fosse uma mulher de quarenta anos, nessa varanda sobre o deserto, mas uma anciã de oitenta. E o meu corpo já nem precisasse da força dos músculos para vencer a geografia. Talvez eu já tivesse feito as pazes com a ideia do meu desaparecimento e a fronteira entre o ser e o não ser se evaporasse no ar que respiro como a idade num copo de aguardente.

Antes das nove, na venda, não discuto outro tema se não a meteorologia. Quero saber se estava calor lá em cima, de madrugada, nos campos cerrados. Se corria alguma aragem na montanha, vinda do mar. Quero ouvir os homens ébrios que lá estiveram, decifrar metade, intuir o resto, procurar nas suas vozes roucas o que não os inquieta. O que os fez voltar.

No meio de uma conversa de circunstância, há alguém que me responde: «tentamos respirar». É cedo para tanto. Pago o meu café, espreito o céu que se adensa. Penso: nestes velhos lavradores que se despedem, há uma chama, um desalento. Há um destino que não cumpriram, um falso tormento. Escondem-me, como fantasmas, que eu, sem o saber, já sou um deles.

«Rádio»

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A PALAVRA DO DIA

rá·di·o 3
(redução de radiofonia)

substantivo masculino

1. Aparelho de radiofonia receptor das ondas hertzianas (ex.: comprou um rádio portátil). = RADIOFONETELEFONIATRANSÍSTOR

2. Aparelho transmissor-receptor usado para comunicações em empresas de táxisaeronavesembarcaçõesetc.

3. Mensagem transmitida por radiotelegrafia. = RADIOGRAMARADIOTELEGRAMA

substantivo feminino

4. Transmissão da voz e de outros sons utilizando as propriedades das ondas radioeléctricas. = RADIODIFUSÃORADIOFONIARADIOTELEFONIA

5. Estação de transmissão dos sons por meio de ondas electromagnéticas. = RADIODIFUSORARADIOEMISSORA

substantivo de dois géneros

6. Radiotelefonista ou radiotelegrafista.

 

rádio livre
• Organismo de radiodifusão privada cujas emissões apenas podem ser captadas num raio de alguns quilómetros.

rádio local privada
• O mesmo que rádio livre.

rádio pirata
• Rádio que difunde ilegalmente as suas emissões.

“rádio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/r%C3%A1dio [consultado em 01-10-2018].

«Há 43 anos, 24 horas por dia, em português»

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Paulina Arruda nasceu na Ilha terceira em 1962 e emigrou para os EUA com 17 anos, em 1980. Formada em Psicologia, casou-se com Henrique Arruda, advogado, de quem tem um filho, e juntos, em 2010, adquiriram a WJFD, a maior rádio portuguesa da América. Sediada em New Bedford, mítica cidade baleeira, a WJFD chega a meio milhão de luso-americanos. É um pilar da comunidade portuguesa nos EUA e tem vindo a afirmar-se como uma ponte entre as suas várias gerações.

Com uma licença de emissão de 50 mil watts, o máximo autorizado na Costa Leste, a WJFD cobre seis Estados da Nova Inglaterra, chegando a Long Island, em Nova Iorque, e ao Maine, no extremo nordeste. Com um protocolo com a RTP e a Antena 1, divulga em português notícias de um Portugal distante e procura ser uma embaixadora da cultura lusa nos EUA.

Na sede da rádio – um escritório arrendado num antigo edifício fabril -, Paulina explica-nos que, apesar da sua dimensão, a WJFD nunca deixou de ser uma rádio comunitária, com uma forte aposta nas notícias locais e nos conteúdos de interesse para a comunidade, especificidade essa que despertou recentemente a atenção da FCC (Federal Communications Commission):

Nós somos um caso muito, muito único. Na semana passada, eu e o Henrique viajámos para Washington DC durante dois dias. A FCC está numa fase transitória. Basicamente, o que eles querem é mais rádios comunitárias, em vez das grandes companhias que compraram os 50 mil watts e que transmitem de Nova Iorque para São Francisco: fazem uma programação em Nova Iorque ou em qualquer lado e transmitem nas rádios todas. (…) A FCC está a ponderar o que vai fazer e quer ouvir as rádios, as comunidades, e nós fomos lá apresentar o nosso caso. Eles nunca tinham pensado que poderia existir uma situação como a nossa: uma rádio de 50 mil watts FM há 43 anos, 24 horas por dia numa língua que não é o inglês, que atinge esta comunidade toda. Eles disseram-nos mesmo: “pode ser que agora apareça mais alguém, mas até este momento não nos apareceu caso nenhum como o vosso”. Portanto, somos uma estação muito, muito, muito única, mesmo em termos das rádios americanas, em grande parte por causa dos 50 mil watts – as rádios de 50 mil watts foram todas compradas, são rádios americanas e talvez dez companhias sejam proprietárias de todas. Uma coisa que eles perguntavam era quantas rádios tínhamos – “mas é só essa?”, “é, é só essa”.

Os 50 mil watts FM trazem encargos. Há uma torre a manter, uma antena de 152 metros, uma série de contratações externas em serviços de manutenção e de limpeza, despesas de electricidade, comunicação, etc., e ainda os 12 funcionários que constituem a equipa permanente da rádio. Não havendo apoios significativos, a WJFD sobrevive da publicidade e essa é uma das principais funções de Paulina – a de garantir o pecúlio publicitário.

Muitos americanos ainda se surpreendem por ainda existirmos. Mesmo quando estou a falar com alguns clientes eles perguntam se na comunidade, num lugar assim grande, a publicidade vai ter algum sucesso e eu digo-lhes “estamos aqui há 43 anos, 24 horas por dia e sobrevivemos cem por cento de publicidade”. Portanto, deve haver alguém que frequenta as casas comerciais, os negócios que negoceiam connosco, senão já não existíamos.

A preocupação de Paulina é evidente e, quando lhe perguntamos como é que se consegue angariar publicidade para sustentar uma rádio em português nos EUA, a resposta não ignora o rumo natural da «americanização» das novas gerações:

Acho que é o poder da comunidade que ainda temos: ainda temos uma comunidade suficientemente grande, com poder de compra suficientemente bom, que é capaz de manter uma rádio destas. (…) [No entanto], quando uma geração começa a morrer e as outras gerações se vão integrando na comunidade americana, não sabemos o que vai acontecer, mas às vezes pensamos no que vai acontecer, como é que vai acontecer e como é que vai ser.

Interessa-nos ponderar esse desaparecimento e tentar perceber a dimensão da perda: o fim da WJFD não seria apenas o fim de uma rádio, de uma empresa, de um sonho. Seria, antes de mais, o fim de uma missão que começou há 43 anos – a de garantir, por um lado, a longevidade da língua e cultura portuguesas nesta região da América e, por outro, a união e identidade da mais antiga comunidade de emigrantes portugueses nos EUA.

Nós sentimos muito isso. Se fôssemos uma rádio que existisse há 10 ou 15 anos, que só tivesse umas horas em português… Mas quando são 43 anos, 24 horas por dia, quando se atinge pelo menos meio milhão de portugueses e de luso-descendentes, o peso é maior, sentimos mais essa responsabilidade. Nós sentimos que levamos Portugal à comunidade, mas também sentimos que representamos a comunidade. É por isso que a nossa prioridade é a qualidade e a boa imagem. Quando olham para a comunicação social, quando olham para a rádio, nós estamos a representar essa comunidade – por um lado, somos a voz dessa comunidade. Na rádio, uma das nossas grandes funções é essa: networking. Nós sentimos que estamos a representar essa comunidade e sentimos a obrigação da boa imagem.

A nossa pergunta não podia ser mais directa: o que é que deixaria de existir com o desaparecimento da WJFD? Paulina responde sem hesitações:

A ligação da comunidade a Portugal, a presença de Portugal na comunidade através não só do protocolo que temos com a Antena 1, mas também dos convidados, das pessoas de Portugal, políticos ou não, todos os que são relacionados com Portugal e que por aqui aparecem, de tudo o que achamos que é importante para a comunidade. Mesmo o relacionamento entre as comunidades. Por exemplo, Lowell e Pawtucket sabem o que se passa nas outras comunidades: Lowell fica no Norte de Boston e sabe o que se passa em New Bedford e em Fall River através da WJFD.

A ideia de que a WJFD se encontra «no coração de uma grande comunidade» suscita novas perguntas. Será que o papel da rádio também é o de unir as várias comunidades de emigrantes lusófonos na Nova Inglaterra? Decidimos ir mais longe: é legítimo dizer que, se hoje ainda existe essa comunidade, ela existe, sobretudo, através da rádio? Paulina não estranha a ideia e apressa-se a concordar:

Sim. Nós nunca falamos em madeirenses, em açorianos, em continentais do Norte ou do Sul de Lisboa. Os cabo-verdianos também são uma comunidade muito importante para a WJFD desde o princípio. No ano passado reformou-se o Djosinha, que é uma figura muito conhecida em Cabo-Verde – se perguntar a qualquer cabo-verdiano se conhece o Djosinha ele diz “eu conheço, como é que você conhece?!” – e ele reformou-se com 86 ou 87 anos, fazia programação na WJFD desde o início. Como estava a dizer, para nós não há distinção de onde são, de onde vivem agora – é a comunidade portuguesa, nós transmitimos para todos.

 

A WJFD é um trabalho de união da comunidade no espaço, mas também no tempo. Alguns dos seus ouvintes ainda lhe chamam «A Hora Portuguesa», o nome que tinha a frequência 97.3 antes de 1973, quando era apenas um programa e não uma rádio. Essas pessoas, que hoje têm 80 e 90 anos, já ouviam «A Hora Portuguesa» nos anos 50, a altura em que chegaram aos EUA. Hoje, muitos dos jovens que ouvem a WJFD confessam ter aprendido o vício de ouvir a rádio com os avós e bisavós. Este público-alvo, multi-geracional, não deixa de representar um desafio para os programadores da WJFD:

Um dos desafios da nossa programação é transmitir para várias gerações, vários grupos etários – tem de haver sempre um balanço na música ou nos programas para agradar a todos. Quando vem música mais recente de Portugal, aquele rock mais pesado, temos de perceber onde é que encaixamos, como é que encaixamos. (…) Estamos sempre muito conscientes dessa programação, quem é que está no ar, o tipo de música, as notícias, os jogos da bola ou outra programação que se encaixa nessas horas. (…)

Na residência dos Arruda, uma inspiradora casa New England, com soalho de madeira, papel de parede vintage e janelas de guilhotina, encontramos muitos livros em português, bustos de escritores portugueses, álbuns de jardins de Portugal… A família regressa todos os anos à Ilha Terceira, onde «se sente perfeitamente à vontade», para passar férias, ir à praia, relaxar, mas esse regresso às origens é uma constante: na rádio, em casa, na ilha, os Arruda nunca se esquecem de cultivar o seu «lado português», ainda que sejam um casal pragmático, pouco dado a nostalgias inúteis, e apreciem a centralidade do lugar onde vivem. Como diz Paulina:

Basicamente, o que eu gosto é – e agora já se faz, antes era mais difícil, mas já há mais voos e mais companhias – de dizer “vamos a Nova Iorque” e pronto, metemo-nos no carro e facilmente vamos a Nova Iorque passar o fim-de-semana. Nos Açores, numa ilha, é mais difícil e há uns anos era mais difícil ainda – e agora, em certas alturas do ano, como no Verão, é difícil apanhar o voo. Eu gosto dessa liberdade de decidir vamos aqui ou vamos ali, vamos a Boston jantar fora ou vamos ao teatro. Numa ilha pequena não há.

Para esta Terceirense, nascida perto da Base das Lajes, a emigração não parece ter sido uma experiência traumática, como foi para os seus avós maternos, por exemplo, que chegaram a Nova Iorque em 1880, ainda antes de se conhecerem, e fizeram uma árdua viagem de comboio até à Califórnia. Paulina não subestima, contudo, a distância geográfica:

A emigração, para mim, não é uma pessoa meter-se dentro de um carro e fazer alguns quilómetros. Eu digo isso quando se fala na emigração portuguesa na Europa: é fácil chegar a Portugal, é fácil visitar Portugal, é fácil regressar a Portugal. Quando se tem de atravessar o Atlântico é mais difícil, é mais caro, tem de se trabalhar, tem de se marcar férias, tem de se acumular dinheiro para voltar e nem sempre pode ser todos os anos. A distância e o tempo – não só a distância da Europa para cá, mas o tempo que, muitas vezes, se demora a poder voltar.

É esta distância que torna o papel da WJFD ainda mais determinante, não só porque a rádio se empenha em corrigir a percepção que a comunidade portuguesa nos EUA tem de Portugal – «fazer a ligação ao novo Portugal» -, mas também porque quer modificar essa imagem obsoleta que o Portugal moderno ainda tem «do emigrantezinho que veio com a malinha. A comunidade já não é essa.»

A missão dos Arruda talvez seja maior e mais pesada do que qualquer um de nós está disposto a conceber nesse fim de tarde pluvioso e agradável em que nos recebem na sua casa, para dois dedos de conversa e um copo de rosé. Não memorizámos a marca, mas era americano, e soube-nos ainda melhor do que o nosso rosé português.

 

SEMANA 9

Protagonista: Paulina Arruda

Actividade: dona (juntamente com Henrique Arruda) da WJFD, em New Bedford, Nova Inglaterra.

Regresso: New Bedford, Nova Inglaterra – Ilha Terceira, Açores 

Anos de ausência: 38 anos

«Pátria»

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A PALAVRA DO DIA

pá·tri·a 
(latim patria-ae)

substantivo feminino

1. Terra onde alguém nasce.

2. Nação a que pertence uma pessoa ou de que uma pessoa é cidadã.

3. Lugar a que pertence algo ou alguémlugar de onde algo ou alguém provém.

 

pátria celeste
• O Céu ou a glória.

pátria celestial
• O mesmo que pátria celeste.

“pátria”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/p%C3%A1tria [consultado em 27-09-2018].

«Culto»

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A PALAVRA DO DIA

cul·to 

adjectivo

1. Cuidadoesmeradopolidocivilizadoilustrado.

substantivo masculino

2. Forma pela qual se presta homenagem à divindade.

3. Cerimónias religiosasforma externa (de qualquer religião).

4. Acto religioso dominical (nas igrejas protestantes).

5. [Figurado]  Veneraçãorespeito.

6. Amor intenso.

 

liberdade de cultos
• Reconhecimento oficial do livre exercício de todas as religiões.

“culto”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/culto [consultado em 25-09-2018].

«Tentação»

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A PALAVRA DO DIA

ten·ta·ção 
(latim temptatio-onis ou tentatio-onisataquetentativa)

substantivo feminino

1. Acto ou efeito de tentar.

2. Movimento interior que nos instiga a fazer o mal.

3. Apetitedesejo violento.

Palavras relacionadas:

“tentação”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/tenta%C3%A7%C3%A3o [consultado em 24-09-2018].

A minha primeira confissão

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Crónica

Antes de morrer, a minha bisavó fez dois pedidos. Primeiro, que as suas últimas horas fossem passadas a ouvir música. Segundo, que todos os membros da família – filhos, netos, bisnetos – viessem despedir-se dela, um de cada vez.

Não me lembro se escolheu um compositor, mas sei que gostava de música clássica. A janela do seu quarto dava para um jardim de dois pisos, um pouco sombrio, com vista para os miradouros do Castelo de São Jorge. E, nesse jardim, um velho jacarandá em flor, cheio de cintilações lilases, parecia estar à espera dela.

Tinha sido dona de uma loja de brinquedos, na baixa lisboeta, e casara-se com um homem que gostava de teatro. O meu bisavô, que não conheci, acordava tarde e batia as palmas, para lhe levarem o pequeno-almoço. Ela levantava-se cedo, para ir trabalhar. Tinha a seu cargo o futuro da loja e várias propriedades situadas no centro de Lisboa. Era uma comerciante experiente. Uma herdeira respeitada. A mais velha, numa família sem varões. Imagino-a ainda nova, feliz na azáfama do negócio, nessa Lisboa buliçosa dos anos 30 e 40, enquanto a guerra rebentava ao fundo, no resto da Europa.

Antes de fechar os olhos, a minha bisavó recebeu-nos a todos, individualmente, para nos dizer qual era o principal defeito de cada um. Talvez entendesse que, no defeito, residia o perigo. Talvez quisesse defender-nos daquilo que nos tornava corruptíveis. Na família, fora uma diplomata – a melhor virtude que uma matriarca pode ter – mas nunca deixou de ser uma fina observadora da matéria humana.

Lembro-me de estar sentada no chão de alcatifa, a olhar para a porta daquele quarto. Quem ali entrava voltava a sair instantes depois – num vago sobressalto. Haveria no desgosto uma nota de indignação? A minha bisavó conhecia-nos desde o berço, vira-nos crescer – seguira o rumo dos nossos tormentos, desmontara a mecânica da nossa fé, descobrira, na criança que tínhamos sido, os traços do adulto que acabámos por ser.

E em quase nada a passagem do tempo a surpreendeu.

Como eu era a mais nova, fui a última a ouvi-la. E ainda hoje o guardo comigo – o meu principal defeito –, como se fosse de estimação. Tenho-o numa pequena caixa de madeira, pintada de verde, que me acompanha desde a infância. Fiz-lhe três furos estreitos, para deixar entrar o ar. Certas noites, parece-me que canta, outras, só o ouço respirar. Alimento o meu defeito com parcimónia, mas nunca me pareceu bem matá-lo à fome, ou deixá-lo sufocar. É a última palavra que tenho dela, foi a minha primeira confissão. Cabe-me apenas fechar a caixa. Guardar o vício no meu coração.

«Labour of Love»

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Michael Benevides emigrou de São Miguel aos dois anos de idade no seio de uma família intrépida e ambiciosa. Hoje tem 40 anos e já transformou o negócio grossista do pai num supermercado gourmet de renome internacional, o Portugalia Marketplace, cuja elegância se destaca na paisagem comercial algo deprimida da cidade de Fall River.

«Destination Store» é uma das primeiras expressões da gíria de gestão americana que Michael evoca para caracterizar a sua loja. Seguir-se-ão outras, ao longo da nossa conversa, mas esta fica-nos na memória, porque o Portugalia não se limita a ser um espaço comercial, não é apenas uma marca – é um destino. Apesar das vendas online já terem assegurado a projecção do nome a nível nacional (com clientes em Seattle, Nevada, Texas, Califórnia, Flórida…), as pessoas deslocam-se a Fall River não para visitarem a cidade, mas para irem às compras ao Portugalia.

Aqui, bebe-se um bom café a preços muito competitivos, prova-se a doçaria, leva-se o jantar para casa e ainda se enche o cabaz da semana. Encontram-se todas as matérias-primas necessárias para a confecção de uma boa refeição tradicional portuguesa – inclusivamente, o bacalhau, uma espécie de cartão de visita do Portugalia e que é vendido pela marca desde os seus primeiros tempos de existência. Só que, dessa garagem com poucas condições aberta há mais de 30 anos, o Portugalia evoluiu para um conceito que ocupa um edifício inteiro e que acomoda um espaço exclusivamente dedicado à preservação e ao corte do bacalhau em circunstâncias ideais.

O resto da loja é um desfile de tentações e de bom gosto: as boas conservas portuguesas recebem um lugar de destaque, assim como os azeites, os temperos típicos, os vinhos, os chás, as compotas, os chocolates a peso e os frutos secos. Aqueles que regressam de férias em Portugal fazem compras no Portugalia para relembrar «esses 15 dias em que foram felizes». Michael insiste: «Sim, Portugal está muito na moda agora, as pessoas visitam muito Portugal: nota-se que há cada vez mais americanos a visitarem Portugal e, quando voltam, vêm logo à procura dos artigos que consumiram lá.»

Percebemos muito depressa que, para Michael, o Portugalia Marketplace não é apenas o sonho americano da sua família tornado realidade. É, antes de mais, uma missão. Primeiro, a de ser uma montra da qualidade e requinte dos bons produtos portugueses. Depois, e na perspectiva da expansão «espiritual» da marca, a de ser uma loja embaixadora da própria cultura portuguesa, com a associação do nome «Portugalia» a festivais culturais e à revelação de artistas de nacionalidade lusa.

«Isto é uma coisa mais de feeding my soul, é um projecto de paixão e a ideia é que, ao mesmo tempo, possamos ter um impacto, mudar a percepção do que é Portugal. Isso é uma coisa que temos feito com a Portugalia. Muita gente vem à Portugalia e diz: “nunca imaginei que Portugal fosse isto, que tivesse esta variedade de vinhos”. Da mesma maneira como temos feito isso com produtos alimentares, a ideia é continuar a fazer isso de outras formas, com arte, com coisas modernas. Acho que pode haver boas oportunidades para criar intercâmbios, sinergias entre Portugal e os Estados Unidos em termos de arte: trazer artistas de Portugal cá, levar artistas de cá para Portugal. Isto pode ser uma coisa muito interessante, pode ser muito bom para a região e muito bom para Portugal.»

Quando lhe pedimos para escolher um artista que personifique o Portugal moderno, Michael lembra-se primeiro de Joana Vasconcelos e, logo a seguir, de Catarina Portas – que «é quase uma artista, de certa forma é uma curadora» e em cuja Vida Portuguesa claramente se inspirou. Mas é quando fala de Vhils que os seus olhos brilham. «O Vhils, para mim, é o artista português com mais projecção no mundo, até fez agora uma colaboração com a Hennessy, o conhaque francês – fez-lhes um rótulo. É um artista que está a quebrar barreiras.»

Há uma grande emoção neste gestor e no modo como fala do seu trabalho, que descreve como sendo um «passion project», ou um «labour of love», misturando a gíria do homem de negócios com a do homem sentimental. A palavra que se segue – «storytelling» – convida-nos a explorar o ADN da marca e a história da família que a criou. E ficamos a saber que a evolução «orgânica» do Portugalia Marketplace interiorizou de forma exemplar a passagem do testemunho de uma geração de emigrantes portugueses para a geração de luso-descentes que a perpetuou.

Na altura em que o pai, operário de uma fábrica têxtil, montou a sua empresa, Fall River era uma cidade onde as fábricas tinham começado a fechar, sendo deslocalizadas, numa primeira fase, para outros países da América, no âmbito da criação do NAFTA, e, numa segunda fase, para o continente asiático. O declínio da indústria de que viviam os portugueses desta geração marcou a infância e a adolescência de Michael e vem a cruzar-se com o seu percurso, de forma simbólica, anos mais tarde, quando a família compra o edifício de uma fábrica abandonada para expandir o seu negócio.

O espaço industrial trendy onde brilha o conceito do Portugalia Marketplace, resultado de uma atenção aturada de Michael a todos «os pequenos pormenores», é uma antiga sweatshop, nome que nos atrai imediatamente e que Michael se apressa a deslindar:

«As fábricas em Fall River eram as sweatshops porque as pessoas suavam muito. (…) Chegámos a ter clientes que entraram na loja e disseram: “já trabalhámos nesta fábrica”. E isto é uma história bastante interessante, porque a fábrica deu uma volta de 180º e é completamente diferente do que eles estavam habituados. Aquele espaço, para eles, tinha um negative feeling, as pessoas queixam-se do tempo em que trabalhavam nas fábricas – “aquilo é que era trabalho”, ou “a gente matava-se naquelas fábricas». Ouve-se muito essas conversas entre os portugueses. Era trabalho duro, não era fácil, as condições não eram grande coisa, mas tentámos, de um espaço mau, fazer um espaço bom.»

A transição para um modelo apelativo para as novas gerações não se fez, contudo, sem um cuidado permanente com a antiga clientela: «Havia uma fine line, como dizemos em inglês. Tínhamos de andar nesta linha: não podíamos fazer um espaço muito fino, muito high end, muito gourmet, muito desenhado. Não fazia parte da nossa marca, a Portugalia nunca foi um espaço fino. Fecharmos uma loja num dia e abrirmos uma loja fina ou gourmet no outro não ia funcionar, porque já tínhamos criado uma base com os clientes portugueses que já vêm de longe, que conheciam a nossa marca e gostavam imenso da nossa marca. A nossa marca é bom serviço, bons preços, boa qualidade, tínhamos de manter isso…»

O que o Portugalia Marketplace é hoje resulta, sem dúvida, da «visão» original de Fernando Benevides, «que queria uma boa vida para si e para a sua família e, portanto, dedicou-se ao american dream». Mas aquilo que lhe deu forma foi a procura «artística», incessante, de Michael por fontes de inspiração, modelos de negócio, novas maneiras de fazer e, sobretudo, novas maneiras de mostrar e de vender o «tradicional».

«A Portugalia é um negócio familiar e sente-se que é familiar. Hoje, os negócios de família estão a sofrer – as grandes empresas é que tomam conta do mercado – mas, ao mesmo tempo, há cada vez mais um certo charme, que é uma coisa que se vê cada vez menos. Os negócios de família e de comida são quase uma arte morta – hoje, para competir, é muito difícil. Quando as pessoas vêem que há um negócio desses tornam-se adeptas. Muita gente chega à Portugalia e quer saber quem é o dono, por curiosidade, e vem ter comigo e pergunta, quer saber a nossa história. As pessoas ficam encantadas por ouvir essas histórias – o que a gente faz é uma homenagem ao passado, é muito pessoal. É muito old world e, ao mesmo tempo, é new world.»

Michael recebe-nos na sua casa em Lincoln, Rhoad Island, onde a paixão pelo design é visível. Se hoje em dia é o homem que é – um irrepreensível cultor do bom gosto – é porque em momento algum da sua vida se fechou por completo na comunidade portuguesa de Fall River, que, de certo modo, acusa de se ter cristalizado no tempo. Teve a oportunidade de ir para a universidade e de viajar e isso, só por si, foi determinante. Ao fazer a anatomia desse processo, salienta:

«Essa transição tem a ver com muitos anos de interacções com outro tipo de pessoas. Se eu tivesse ficado sempre fechado na minha comunidade, acho que a minha visão e o meu pensamento eram mais limitados. Só que eu tive oportunidade de viajar, de conhecer várias coisas, era uma pessoa muito inspired – para todo o lado que ia andava sempre à procura de inspiração. Aí vai-se conhecendo várias pessoas, várias nacionalidades, vai-se vendo a forma como as outras comunidades funcionam, trabalham. Hoje a Portugalia é uma loja não só da comunidade portuguesa, é uma loja que está aberta para todos – temos clientes americanos, de todas as nacionalidades. Vão lá porque estamos a apresentar um Portugal mais moderno, um Portugal que sempre tive a ideia de projectar.»

No entanto, não deixa de ser interessante que o primeiro choque de urbanidade tenha sido aos catorze anos, quando visitou pela primeira vez os Açores: «Eu sempre me senti europeu. Quando tinha 14 anos fui aos Açores e foi uma viagem que me marcou bastante. Com 14 anos eu já tinha uma certa liberdade – não muita, os meus pais não me davam muita liberdade, mas era mais liberdade do que tinha cá. Cheguei lá e os meus pais não estavam sempre em cima de mim, deixavam-me mais à vontade e aí é que comecei a sentir a vida europeia. Fiquei encantado com a música, com a moda, mesmo nos Açores – os Açores não são uma meca do desenho ou da moda, mas notava-se, na altura, imensas diferenças. Hoje já nem tanto, hoje já é mais homogeneizado: quando vamos a Portugal já se nota que o vestir é muito parecido.»

Quando conheceu Lisboa, aos 18 anos, foi como se a cidade já lhe fosse familiar: «Quando visitei Lisboa, senti-me em casa. Conhecia imensos produtos portugueses, porque já tínhamos o negócio com produtos portugueses, mas agora estava a consumir os produtos no local de origem. Portugal marcou-me imenso: os cafés, a vida nocturna, as lojas, o design, a arquitectura – são coisas que eu tinha na ideia, tinha uma noção do que era Lisboa, mas quando fui a Lisboa senti uma conexão emocional a Portugal, senti-me mais português naquela altura. Sentindo isso, fiquei apaixonado por Lisboa, daí que tenha ido a Lisboa várias vezes desde os 18 anos – não era de ano a ano, mas nessa altura cheguei a ir várias vezes e vou muitas vezes a Lisboa em trabalho.»

E São Miguel, perguntamos, é um lugar grande ou pequeno? É o gestor criativo, atento a todas as oportunidades, quem nos responde: «É pequeno e grande ao mesmo tempo: pequeno no sentido em que é um espaço pequeno, há limitações, grande porque está no meio do oceano e tem todo o mundo à sua volta.»

Nasceu Arnaldo Miguel, mas acabou por adoptar o nome Michael. Os tempos do shaming, na escola americana, ficaram para trás. Hoje, é Michael Benevides: um homem que venceu todos os estigmas e que se transformou numa peça basilar da paisagem comercial de Fall River. O segredo do seu enorme êxito talvez seja esse mesmo, o de transformar o orgulho de ser português num modelo de negócio: «Eu sempre tive orgulho em ser português, sentia que tinha de representar a minha cultura para todo o lado para onde ia. Onde quer que fosse eu era “o português”. Foi uma coisa que foi ficando comigo.»

SEMANA 8

Protagonistas: Michael Benevides

Actividade: dono do Portugalia Marketplace, em Fall River, Massachusetts.

Regresso: Fall River, Massachusetts – Ilha de São Miguel, Açores 

Anos de ausência: 38 anos