Rosa Violante

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Crónica

Chamava-se Rosa Violante e era cigana. Quando se falava dela, pelo Natal, ou noutras reuniões familiares, alguém chorava. Quisera o destino que um amor irreprimível a unisse, na viragem do século, a um nosso antepassado, e ainda hoje é matéria polémica se essa união deu frutos que nunca chegaram propriamente a cair da copa ilustre da nossa árvore genealógica.

Que todos nós, à distância de cinco ou seis gerações, possamos carregar o fardo desse sangue nómada é um assunto quase tabu. Entre os mais velhos, alguns deploram a ideia. Envergonha-os a possível miscigenação. No entanto, a tez morena e os olhos fundos de uma certa tetravó singularmente bela não deixam grande margem para dúvidas, e o mesmo se poderia dizer da veia dramática, quase artística, que em tantas ocasiões da história desta família tem vindo a manifestar-se. Por vezes, no calor de uma festa, na folia de um casamento, destaca-se o pezinho demoníaco de um dançarino exemplar, o talento musical de uma garganta de onde se escapa um fado mais do que vadio, as saias compridas de algumas tias, que gostam de usar tecidos de várias cores e texturas. Não discuto o bom gosto, mas identifico na tendência uma vaga nostalgia (cromática) que irremediavelmente nos diferencia.

Tão forte era a história de Rosa Violante, tão palpável a dor que ainda causava em gerações que nunca tinham chegado a conhecê-la, que guardei para mim o segredo desse sangue impuro como se ele fosse o meu mais requintado património genético. À distância de cinco ou seis gerações, eu era fruto de um amor proibido, de um acto de quase literário heroísmo romântico, de uma paixão subversiva, enfim, de um erro colossal. Porque a Rosa, conspurcada, acabara por ser expulsa do seu clã. E o homem por quem se apaixonara também se vira obrigado a renegá-la, para poder dar o seu nome ao filho de ambos – e esconder o resto.

Não sei a que limbo ou ruela de má vida foi parar Rosa Violante, mas aqui há vinte anos, andava eu própria a debater-me com as complicações de um amor proibido (desta feita, francês), e decidi fazer uma viagem de camioneta até Barcelona (onde ele me aguardava). Quis o destino que uma família de ciganos me acompanhasse nesse trajecto monótono de mais de vinte horas que desce ao Alentejo, atravessa a Extremadura espanhola e continua por esse deserto até quase à fronteira com a França. E, de imediato, as crianças, muito vivas e morenas, cobiçaram o meu colo. As mães, olhando-me de soslaio, confiaram, e ali começou a nossa inesperada comunhão, pela estrada fora.

Quando parámos numa estação de serviço, à hora do jantar, eu arregacei a minha saia comprida e desci os três degraus da camioneta, no meio das outras mulheres. Os homens iam na frente, vestidos de preto. E assim que o meu pé de menina esclarecida se adiantou ao passo comedido das minhas companheiras, elas puxaram-me para trás. Os homens, sussurraram-me, vão uns metros mais adiante. Sorri de volta, cheia de um estranho orgulho por ir na cauda, por ser uma delas. E ainda hoje guardo desse cortejo colorido, dos nossos passos silenciosos e orquestrados a caminho daquela estação de serviço, uma memória feliz.

No fim da viagem, as ciganas olharam para o francês alto e louro que me aguardava no cais e perguntaram-me: vais fugir? Abanei a cabeça. Mas ele, disseram-me, não é um de nós. Lembra-te, insistiu a mais velha, não sei quando foi que a tua família te perdeu, mas, para onde quer que vás, nós lá estaremos. Nós estamos em todo o lado. Procura-nos.

Fiquei a olhar para elas, para os olhos castanhos-escuros, como os meus, para os cabelos macios das crianças, a tez morena dos homens, que me viam sem olhar, e disse-lhes adeus. É a nossa derradeira família, pensei, espiando-nos desde a noite dos tempos. O clã a que sempre pertencemos.

Na segunda-feira de manhã, a minha mãe telefonou-me, horrorizada. Ao fim destes anos todos, uma tia-avó decidiu confessar: a Rosa, afinal, foi inventada. E insiste, com o furor dos seus oitenta anos, que nada da sua história aconteceu de verdade. Que nenhum de nós, mouros, tem sangue cigano. Que nunca houve um amor proibido, um gesto de heroísmo, um acto de coragem. E o nome, Violante, nunca o estranharam? Vocês, de facto, lêem pouco.

E agora sim, também eu chorava. Chorava por termos comprado a mentira. Ou por termos precisado dela. Chorava o fim de um mito. E a crueldade de se desmentir uma história como aquela.

«Era o único som na noite de todo o mundo»

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Crónica

Mudámos tantas vezes de casa em Lisboa que existia sempre um caixote por abrir no fundo do corredor. Esse caixote (sem rótulo) viajou selado da Rua dos Mouros para a Travessa de São Pedro, da Travessa de São Pedro para a Rua da Costa do Castelo e da Rua da Costa do Castelo para os Dois Caminhos da Terra Chã. Em cima dele, jantámos à luz das velas. Amigos usaram-no como cadeira. Vários sacaram de um canivete, numa fúria de curiosidade, porque queriam ver o que continha, de uma vez por todas. Não deixámos. Ainda hoje continua fechado, num canto da cave, esse caixote sem rótulo, um mistério nascido da nossa preguiça, ou da nossa superstição.

Pode ser que lá estejam as cassetes de vídeo da colecção Atalanta (mas já nem temos leitor de vídeo), o jogo de panelas de alumínio que uma tia nos ofereceu no dia do nosso casamento (e que nunca chegámos a usar), os sapatos de salto alto que comprei em Paris (e que não consigo calçar), soporíferos e analgésicos poderosíssimos (e fora de prazo). Nenhum de nós, nestes últimos anos, se lembrou do que está guardado no interior desse caixote indecifrável, que não é leve nem é pesado, nem se deteriorou especialmente com o passar do tempo.

Mais cedo ou mais tarde, num sábado de chuva pela manhã, uma saudade indefinida vai levar-me a descer até à cave, em busca desse não sei o quê que fazia parte do nosso passado. Só espero que aquilo que ainda lá está dentro, de facto, nos pertença, e que não tenha havido, perdida nesse momento longínquo, alguma troca indevida de caixotes. Que ao som da chuva eu não descubra, ironia do acaso, os fragmentos amarelecidos de uma velha correspondência, escrita numa letra que não é a nossa. E que não seja esse o castigo desta preguiça: o de termos sido os fiéis raptores da história manuscrita de uma outra intimidade. Como se, inesperada, nos assaltasse a estranheza de tudo o que nos é familiar?

Havia na nossa casa do Bairro Alto uma velha cómoda de família, de madeira escura, de onde se libertava um odor. Um cheiro que um homem sabe que traz na memória, mas não consegue identificar o que é. Talvez fosse o odor das coisas antigas, mas bem conservadas, uma mistura do aroma do papel envelhecido que forrava as gavetas com o perfume da casquinha, e ainda algum vestígio da alfazema que noutros tempos se usara para aromatizar a roupa.

Esse odor rico, espesso e impossível de decompor — uma vez que a cómoda já existia na minha família há várias gerações e que cada um dos seus donos lhe dera um uso diferente — entrava dentro de nós como a resposta a um desejo antigo. Um desejo de memória ou de passado. E ali guardava eu grande parte do meu guarda-roupa, sem saber que a cada dia este odor me acompanhava.

A certa altura, no sufoco da falta de espaço que sucede nos pequenos apartamentos do centro de Lisboa, livrei-me daquela cómoda. E, com a cómoda, foram todos esses cheiros e suas origens remotas e o catalisador insuspeito de um momento de paixão. O casamento sobreviveu ao desaparecimento da cómoda. Mas nunca, em mais nenhuma peça de roupa que eu usei, ele tornou a sentir aquele odor, ainda que, por vezes, o tenha procurado.

Quanto do que procuramos uma vida inteira afinal já nos foi dado? Quanto do que nos une é efémero como um cheiro e granítico como a memória que dele temos e que, por vezes, nunca nos deixa? Dentro do caixote sem rótulo onde guardamos, sem o saber, as provas da nossa felicidade, algo nos espera, algo ainda nos pertence, uma música a tocar ao contrário da vida, o segredo do tempo que dura, ausente.

Um poeta definiu a duração. Diz ele que é «o mais fugidio de todos os sentimentos», um arrepio, uma intuição. O reencontro súbito com aquilo que somos e de que nos esquecemos. A celebração do que é irrepetível e, porém, permanece.

«Digo o nome da cidade»

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Crónica

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que já não sou. De muito mais do que saudade se faz este regresso ao lugar de onde partimos (que é só um).

Assaltam-me primeiro as areias da Caparica, nós em Maio, prematuros, a inventar tardes de sol, depois o Tejo, que aos olhos dos outros apenas brilha, e o namoro relutante das duas margens que o rio desune, cheio do bocejo daqueles que o atravessam dia após dia, antes de amanhecer. Avisto com um fascínio que me antecede as lajes brancas do Terreiro do Paço que um lodo antigo humedece, e é como se a cidade tivesse sido, noutros tempos, uma ruína (que, de vez em quando, reemerge). Seguem-se as ruas da Baixa, ilusória esquadria, e a estátua do Marquês, a pergunta que fiz ao meu pai, no Renault 4, daquela vez: quem é o senhor dos cabelos compridos, porque é que tem um leão? Os cabelos são uma peruca e o leão é um símbolo de poder. O que é um símbolo? Ao fim de tantos anos, como me pude esquecer? Não tardamos a chegar ao Campo Grande, e o avião já vai tão baixo, quase a pousar, que o seu voo rasante me angustia. Porque eu já vi Lisboa, perdida no meio das nuvens, mas Lisboa não me viu ainda.

Assim que dou o primeiro passo do lado de fora do avião, envolve-me o ar seco da minha terra como um abraço de sal. Venho cheia do verde húmido das ilhas, das noites dormidas no fundo do mar, e às portas da cidade chego a medo, como um anfíbio transitando entre dois mundos, devagar. No aeroporto, as multidões cosmopolitas desconhecem-me, mas os Lisboetas sabem que sou um deles. Vêem a minha cauda de limos, a escorrer água, e tudo em mim lhes é familiar. Também eles partiram, também eles mergulharam e, chegados do sonho de outras ilhas, é como se só ali acordassem. Respiro fundo, sinto o sangue nas veias a aquecer, esperam-me sorrisos à chegada e o olhar doce dos meus pais, que eu sei que nunca vai envelhecer. Avançando a passos leves, numa versão de mim mesma destilada, finjo que não é nada, mas preparo-me.

Preparo-me para o peso impossível da cidade que me viu nascer. Para as ruas da Baixa apinhadas, que eram melancólicas e desertas (ao fim da tarde), para os cafés filosóficos do Chiado (antes das lojas de grande marca), para os botequins da Graça e as tascas de Alfama (quando o fado era vadio), para as mesas dos bares do Bairro Alto, onde metade do que sonhámos, de facto, não aconteceu. Preparo-me para o mistério de tudo o que escapou à nossa decisão. À nossa vontade. Ao nosso querer. Para o mistério de tudo o que inadvertidamente deixámos de ser.

E, nesse momento, já estamos lá em cima, no largo de São Tomé, onde a ruína convive com os turistas e quase não se sente. E ali mesmo, ao virar da esquina, abre-se o abismo de Santa Luzia, onde, tantas vezes, a imensidão azul nos asfixia. Porque queríamos ir e não podíamos. Porque éramos ricos e ingénuos, e inquietos ao mesmo tempo. Porque sonhávamos com viagens de barco e com a vida dos piratas, e com tudo o que era longe, pueril e incerto.

Numa rua do Castelo, à frente de um quartel desabitado com a melhor vista fantasma da cidade, mora ainda a minha infância. Levo comigo, para toda a parte, as portadas brancas dessa casa onde o sol não entra, mas avança. Adoro o som dos meus passos no soalho de madeira, a voz clara dos poetas brasileiros que os meus pais ouviam de manhã, e a casa dos avós, ali tão perto, que se atravessava a passos largos, nas tardes de luz e de ópera. Por vezes, ouço o grito solitário dos pavões, cativos nos jardins de São Jorge, e lá por dentro estremeço: o que é voltar a casa? De que fios se urde a sensação, haverá algum segredo, alguma fórmula para descrever o lugar onde nos esperam, intactas, as nossas ilusões?

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que ainda sou. Nas suas ruas, ao entardecer, conspiro a minha próxima errância. Naquela esquina de que me esqueço, e onde alguém tentou escrever um verso, volto a encher-me de esperança. De todos os lugares do mundo, só Lisboa me vê partir. Há nela uma passagem para o eterno que não chega a ser secreta, porque o lugar de onde somos nunca o tempo o desfez.

A mulher réptil e o homem leopardo

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Jurei que a tinha visto no dia anterior, com um anoraque vibrante, num tecido inexplicável, em tom de escamas de réptil, uns ténis último grito, que cintilavam, os lábios pintados com um rosa discreto, mas incandescente, cigarro no canto da boca, óculos de massa que deixavam entrever dois olhos claros, estrangeiros, irremediavelmente.

Era tão superior, na sua aparência, a tudo o que a rodeava, que as cores sem nome que a vestiam se diluíam nas paredes da cidade, tingindo as fachadas brancas e o mar azul ao fundo como um traço de aguarela. Ou de lava.

Havia vento. Mas ela estava sentada numa mesa lá fora. Camaleónica. Deslocada. O simples facto de estar ali suscitava comparações impossíveis entre planos que não se tocavam: não era uma mulher entre outras. Era o humano a superar a paisagem. Mineral. Sem idade. Desejável, ainda que de uma forma abstracta.

Hoje, vi-a de novo, sentada no mesmo café, mas do lado de dentro. Não estava sozinha. E não era a mesma mulher. Em vez de escamas, trazia umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Algo nela, desfocado, estremecia. O corpo, hirto, mantinha-se recuado mesmo enquanto ela comia. Sentado à sua frente, um homem olhava-a como se olha alguém que adoeceu há muito tempo. Sem culpa. Sem pena. Sem condescendência. E ela, de olhos baixos, alimentava-se. Empenhada naquela relutância.

Perguntei-me: tê-la-ei sonhado ontem? Ou será que ela lhe mente? Talvez lhe esconda que é jovem. Talvez se finja doente. Olho para o homem e reparo. Há um brilho que o torna cúmplice, uma inércia que não sente. Também ele é ilusão, também ele é fingimento. Um pacto houve entre os dois. Que ela seja a enferma, e ele o sobrevivente. O guardião da doença. O porteiro daquela dor. E num teatro sem palco, o casal emudeceu.

No casal que não se toca, que não diz uma palavra, não há antes nem depois. Talvez descubram que ela, misteriosa iguana, vai armazenando o calor. Talvez ignorem que ele, leopardo solitário, já não é um predador. Que o mundo o tornou vulnerável, que a natureza o expulsou, que essa espécie sem destino já está a desaparecer. Talvez não saibam ainda o que quase chegaram a ser.

Nesse quase onde cabemos, fomos felizes a dois. Percorremos os desertos, partilhámos as miragens, juntos aceitámos exilar-nos de tudo o que era selvagem, e nas selvas sufocantes que criámos, entretanto, já nevou.

«A nossa casa é onde nós os dois estamos»

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António e Maria Linhares, casal protestante, emigrou pela segunda vez da Ilha Terceira, nos Açores, para San José, na Califórnia. Da primeira, estiveram 21 anos longe do arquipélago e, quando decidiram voltar a casa, Portugal entrou em crise e deixou de haver trabalho no ramo que os alimentava: o da construção. Ao fim de 13 anos, já à porta dos sessenta, viram-se obrigados a regressar aos EUA, o país para onde já tinham emigrado na juventude. Na ilha, deixaram uma parte da família, assim como os amigos mais chegados e a vivenda que tinham comprado a pronto.

Entramos na residência de António e Maria Linhares, uma mobile home nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e cedo percebemos que esta casa, em teoria desmontável, é uma metáfora para a vida do casal e para o seu entendimento do mundo. António explica-nos que uma mobile home «é uma casa que pode ser mudada. Os alicerces não são fixos. Pode-se pôr rodas de carros e transportar para outro parque. […] A casa é nossa, o terreno não.» O lugar onde vivem é uma construção «móvel», e o carro é um lease. Que nada seja perene não parece atormentá-los.

Queremos explorar o romantismo e perguntamos: «Porquê uma mobile home? A aventura não termina aqui?» A resposta de António não nos deixa perder de vista a realidade:

O preço das casas actualmente, em San José, é muito caro e nós nunca nos iríamos qualificar para comprar uma. As casas estão acima das nossas posses, embora nós os dois ganhemos relativamente bem. Para nos qualificarmos para uma casa, hoje aqui em San José, é muito difícil. Teríamos de ter uma grande quantidade de dinheiro para pôr como down payment, como sinal, e não tínhamos. Quando voltámos para cá viemos sem dinheiro, praticamente – eu trouxe 100 dólares e a Maria trouxe 200. Começámos uma vida de novo outra vez.

Entre a primeira e a segunda emigração dos Linhares, deu-se a bolha imobiliária. Se antes se tinham endividado, porque «havia essa facilidade […] de jogar com os cartões de crédito», agora, guiou-os a preocupação de não viverem acima das suas posses:

Os bancos emprestavam mais facilmente do que emprestam agora, por isso é que em 2008 houve aquela grande quebra na economia que levou muita gente à bancarrota aqui na América. Desta vez não entrámos nesse sistema, entrámos num sistema de não irmos acima das nossas posses: durante dois anos vivemos com a minha cunhada, não temos filhos agora, estamos só nós os dois, podemos controlar melhor as nossas dívidas. Depois de estarmos dois anos com a minha cunhada arrendámos uma casa, sempre de maneira a que tivéssemos hipótese de guardar algum dinheiro para casos de emergência; não comprámos carros novos, comprámos sempre carros usados e acabámos por entrar no sistema do leasing […] Já o disse várias vezes: agora é que estou na América. Sinto-me bem, vivemos à vontade, fazemos as nossas despesas, mas podemos fazê-las porque temos dinheiro para isso.

 

O regresso provisório aos Açores começou por ser uma viagem de sonho, um recomeço limpo, sem dívidas, num lugar «onde sempre foi um sonho voltar», mas cedo se tornou claro que seria apenas a segunda de três etapas:

A minha ideia era não voltar mais aos Estados Unidos, não por não ter gostado de estar cá, mas por causa do traffic, do trabalho, da pressão que tivemos de agarrar dinheiro suficiente para poder pagar dívidas. Quando fomos para [os Açores] comprámos a nossa casa, pagámos na totalidade para não termos dívidas; comprámos o carro, pagámos na totalidade para não termos dívidas… Mas chegámos a um ponto, nos Açores, em que começámos a entrar em dívida. Só eu é que trabalhava e só dava o suficiente para a vida normal, só para comida, gás, roupa, o básico.

No entanto, quando perguntamos se, de alguma forma, sentem que a ilha os rejeitou, Maria é peremptória:

Não foi rejeitar, foi por causa da inflação. Na minha opinião, quando entrou o euro descontrolou tudo: um café custava 50 escudos e foi logo para um euro e um euro não é 50 escudos, são 200. Foi tudo para o dobro, mesmo no supermercado e os ordenados nunca acompanharam.

 António concorda:

Também não achei que tínhamos sido rejeitados – pelo menos pelos nossos familiares e amigos fomos bem recebidos. A gente gostava da ilha, a gente gosta da ilha e gostava de estar lá. Se não tivesse acontecido aquela quebra com Portugal e com a Grécia, que estiveram mal financeiramente, talvez ainda estivéssemos lá – a Maria tinha o seu trabalho, eu tinha o meu e dava para nos mantermos. Quando houve a quebra, quando houve falta de emprego, as construções praticamente pararam e tudo mudou.

 

No parque onde agora vivem, rodeados de outras mobile homes, a população é 99% asiática. A relação que mantêm com os vizinhos é sobretudo cordial, mas «o sistema de vida é cada um para si». Como diz Maria, «é aquele sistema de “olá, bom dia, como é que estão, adeus” e cada um vai para os seus trabalhos». A principal dificuldade é a língua: «muitos deles aqui no bairro não falam inglês».

Longe da família, num bairro de imigrantes asiáticos onde são «estrangeiros», os Linhares poder-se-iam sentir um pouco sós. Mas têm a companhia da irmã viúva de Maria, que visitam com frequência e com quem vão muitas vezes jantar fora, e a comunidade da Igreja Evangélica Baptista, a East Valley Church, onde já tinham sido baptizados da primeira vez que estiveram nos EUA e para onde voltaram.

A igreja acaba por ser, também ela, uma casa «móvel», que tem acompanhado o casal nas suas várias errâncias. Depois do baptismo na Califórnia, continuaram a frequentar a Igreja Baptista em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, quando regressaram aos Açores, e agora voltaram ao ponto de partida. Diz-nos António:

A comunidade da igreja protestante, ou como queiram chamar, é unida. Geralmente, temos vários programas que são feitos durante a semana e que nos juntam uns com os outros. Nós já não frequentávamos muito as festas portuguesas, mas uma vez que nos tornámos protestantes – é a melhor maneira de o dizer, porque todos nós somos cristãos, católicos ou baptistas – afastámo-nos completamente porque não acreditamos naquelas festas. Para além disso, como veio uma nova etapa, como nos afastámos das festas, criámos outros amigos e outros convívios. É completamente diferente. […] É a nossa segunda família.

Conhecendo um pouco dos ideais da Igreja Baptista, ocorre-nos perguntar aos Linhares se esta nova América de Donald Trump é um lugar onde se sentem mais em casa, com as suas crenças e convicções, do que se sentiam na Europa ou no tempo de Barack Obama. António responde sem hesitações.

Felizmente, tivemos o Donald Trump. A Hillary já estava a perseguir os cristãos e a ideia dela era tentar abafar, fazer com que os cristãos tivessem menos e menos poder, menos voz activa no país. Não que Donald Trump seja um santo ou um pastor – ele tem os seus defeitos, tem as suas virtudes, mas veio como uma lufada de ar fresco para os cristãos, porque tirou uma data de pressão. Estávamos a ver-nos ser cada dia mais abafados quando estava o Obama e se tivesse sido a Hillary as coisas, para os cristãos deste país, iam estar mal e mal.

Maria acrescenta: «As crianças não podiam falar de Jesus numa escola, podiam ser expulsas.» E António elabora:

Isto começou a ficar terrível. Não se podia dizer “merry Christmas”, tinha de ser “happy holidays”… Começaram a apertar e a apertar e com a entrada do Donald Trump ele cortou isso tudo, temos a liberdade de expressão cristã que estava a ser muito oprimida. No entanto, nós sabemos que mais tarde ou mais cedo Donald Trump vai sair do governo – o máximo que ele pode estar são oito anos. Se viermos a ter um governo democrata vai voltar a opressão sobre os cristãos. Nós esperamos isso. A bíblia diz-nos isso sobre os últimos tempos, que os cristãos vão ser oprimidos, perseguidos. São profecias que vão ter de se cumprir e nós compreendemos isso.

Quanto à posição do actual Presidente dos EUA relativamente às minorias étnicas e aos imigrantes, António apressa-se a esclarecer:

Não houve presidente nenhum até agora que tivesse mais minorias a trabalhar do que aquelas que ele tem, tanto faz a comunidade preta, como a comunidade hispânica. Há emprego agora como nunca houve antes, o desemprego nos Estados Unidos é de 3.99% e dizem os entendidos que o desemprego nunca esteve tão baixo como agora; a comunidade negra e a comunidade hispânica têm agora mais pessoas empregadas do que nunca. Os gays ele talvez não apoie porque vai mais pela moralidade. O embaixador da Alemanha é gay e ele tem-no como embaixador da Alemanha. Ele não é contra gays, ele não é contra pretos – a media é que tira do contexto. O que ele não faz é o que o Obama fez. O Obama, quando foi o dia da comunidade gay, enfeitou a White House com luzes gay – ele não é para isso.

Nessa América onde agora se sentem mais em casa, António levanta-se muitas vezes às 3 da manhã para ir trabalhar e Maria só tem uma fim-de-semana de folga em dois. Mas fazem as compras no Costco, onde «compram aquilo de que [necessitam] em grandes quantidades», ou no Grocery Outlet, «que é muito mais barato, às vezes metade do preço em muitas coisas» e não dispensam, durante a semana, o papo-seco português, que compram numa padaria popular portuguesa em Allen Road. Quando a saudade aperta, recorrem ao Abel’s Liquor Store, «que vende tudo o que é português – o bacalhau, a morcela, a linguiça, os vinhos…».

Com a família que ficou na Ilha Terceira (o filho Daniel, a nora e um neto) e com a que emigrou para Vancouver, no Canadá (a filha Stacey, o genro e duas crianças), comunicam por video conference, mas também lhes proporcionam algumas visitas à Califórnia. Agora, podem dar-se ao luxo de ajudá-los, mas também não querem «mimá-los» demasiado.

Não. Eles têm de trabalhar pelo que é seu, como nós também trabalhámos por tudo o que temos – ninguém nos deu nada. A nossa família não podia, era muito pobre. Viemos sem nada e voltámos sem nada, começámos a trabalhar para podermos ter. Com muito suor, trabalho e persistência é que a gente tem o que tem. Com muito sacrifício…

Da Ilha Terceira, António guarda a memória de infância dos serões passados com o avô, nos Biscoitos, a vindimar. «Não havia luz, não havia nada, mas vivíamos naquele sistema, com candeeiro ou com velas, e eu adorava aquilo. […] Sim, essa é uma que fica sempre na memória: estar naquela parte da ilha, onde não havia luz, e passar tempos com o meu avô a jogar às cartas, ao burro. Ele ria-se e eu ria-me. Éramos só nós os dois, ele até é que cozinhava para mim. Eu adorei aquela época da infância, do vindimar, ir buscar e acartar uvas, ir para o lagar.»

Já Maria, da infância na Ilha Terceira, recorda a fome:

A memória que tenho é de uma coisa que a minha mãe fazia: todas as vezes que ela cozia o pão – a gente era pobrezinhos, havia dias em que íamos para a cama sem comer, com fome – ela punha um pãozinho na rua, embrulhadinho, para a primeira pessoa que passasse levar.

Na mobile home do casal Linhares, em Pepper Tree Estates, respira-se uma felicidade a que não é alheio um certo desapego das coisas materiais. Queremos saber de onde vem esse desapego, se a sua origem é a adversidade que tão evidentemente marcou a vida de ambos, ou se é algo mais.

Nós não estamos agarrados a nada, isto é tudo temporário. É a maneira de ver do crente: nada disto é nosso, é temporário, Deus dá-nos para usar enquanto estivermos aqui, porque esta vida é curta e a outra é que é eterna. Devemos usá-lo com respeito, no melhor sentido, mas não estamos agarrados a nada. Estou preparado para morrer quando Deus me chamar, a qualquer altura. Gosto muito das minhas coisas, mas se me disserem “tens de te livrar disso, vais para trás, começar de novo noutro lugar” estou pronto para isso.

 Em última instância, o lugar onde vivem deixa de ser relevante.

A nossa nação não é esta, é a nação de Deus. Nada disto nos importa. Somos naturalizados americanos, somos naturalizados portugueses, mas, para nós, isto é temporário.

O que será, então, a casa para António e Maria Linhares? A casa que tanto lhes custou encontrar e pela qual ainda lutam, quase sexagenários, como se a vida de trabalho tivesse mesmo agora começado? É Maria quem nos responde, e a sua resposta não deixa de ser redentora:

A casa é onde nós estamos os dois – se estamos aqui, se estamos em casa da minha irmã, se estamos noutro lugar, se estamos na Terceira. Qualquer lugar onde estamos é a nossa casa.

SEMANA 10

Protagonistas: António e Maria Linhares

Actividade: Indústria da Construção Civil (António); limpezas hospitalares (Maria).

Regresso: San José, Califórnia – Ilha Terceira, Açores.

Anos de ausência: Da primeira vez que emigraram, 21. Da segunda, 5.

Crónica de um desaparecimento

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Crónica

Numa manhã ventosa de novembro, eu vi-os. Eram quatro: três rapazes novos, atléticos, e uma octogenária, paralítica, a descerem a rampa na direcção do cais. Ela, gritando, gesticulava com frenesim, numa espécie de furor endiabrado. Eles, metódicos, içavam-na em peso da cadeira de rodas e mergulhavam-na na água plúmbea, sem piedade.

Em redor, alguns madrugadores observavam a cena com pacatez, de mãos nos bolsos. Os três rapazes inclinaram, então, a cabeça ao mesmo tempo, à beira do cais, e viram a sombra a descer, ondulante, naquele canto de mar sem fundo.

Ao meu lado, um turista assistia, num horror mudo. Devia julgar-se testemunha de um crime inconcebível, num país onde se afogavam octogenárias com um descaramento impune. Não fora um crime, porém, que ele testemunhara – mas um milagre.

Chamava-se Idalina e tinha 83 anos. Há cinquenta que todas as manhãs o seu dia começava ali, na praia da Silveira, com um mergulho indiferente às convenções do calendário ou aos caprichos da meteorologia. Para Idalina, só uma coisa era verdade: o mar gelado, de madrugada. E essa verdade guardou-a ela a vida inteira, escondida no meio das mentiras: que era doente, que não podia, que estava velha, que a gripe (estendiam-lhe o dedo, quando o diziam) ia acabar por apanhá-la um dia. Com uma militância que metia medo (só os bisnetos aguentavam o peso daquela ditadura), mergulhava sem pernas todos os dias.

E ali, no fundo do mar, elas renasciam-lhe.

Idalina morreu muito velha, sentada na sua cadeira de balouço, à lareira, mas estava nesse preciso momento a sonhar com o mar de chumbo no cais da Silveira (não o azul, que era coisa de meninos, mas aquele, mais proceloso, com revérberos de prata). E a morte foi apenas mais um mergulho.

Procuro esse músculo que se chama resiliência. E entro no quarto pouco mobilado de uma residência para estudantes nos subúrbios de outra cidade. Lá fora, a temperatura desce, e não conheço ninguém. O quarto não é aquecido, o que é bom (dizem-me), porque posso usar o parapeito da janela como frigorífico. Nos duches, a água é descontínua (tenho de carregar num botão de vinte em vinte segundos). Acima de tudo, não há um só café à vista, com bolas de Berlim, meias de leite e folhados de salsicha.

Mas há uma estante que me corta o quarto ao meio e que eu, para ganhar espaço, arranco do chão. Há um pano florido, com que cubro a parede, e um candeeiro de mesa que trouxe comigo e que sempre foi o meu. Dali a horas, na cantina, constato que o jantar é um engano. Dali a anos, descubro que o mais difícil foi o recomeço. Voltei diferente, já não cabia no meu quarto de criança.

Hoje, chamo-me Idalina e tenho 83 anos. Entro noutro quarto pouco mobilado, no segundo piso de um lar (também lhe chamam residência sénior, última morada, não lugar). Pouso no chão a minha pequena mala, olho em redor para a mobília que só atrapalha e reprimo um suspiro. Será que a memória me trai, ou já passei por aqui? A tinta amarela das paredes lembra-me outras manhãs, do mesmo tom desmaiado. E da janela, o que se vê? Ponho os óculos. Um mar prateado.

Menina? Bom dia. Pode fazer-me um favor? Traga-me uma pequena lata de tinta branca, uma trincha e um tabuleiro. E já que está aí, com um ar ocioso, traga-me também parafusos e uma chave inglesa. Não sabe o que é uma chave inglesa? Que pecado…

Na minha última morada, há uma cadeira onde me sento descalça, a apanhar sol. Será que aos oitenta as ondas do mar já não rebentam? Já não nos sussurram as nossas paixões? É o corpo que o decide, é a mente que não sente? Aos oitenta, ainda temos ilusões? Procuro, ignorante, o que vai fazer-nos falta. É a ternura. Ou a ficção? Será o toque imaginado de outras mãos?

Neste mundo de beleza inadiável, onde o nada se decide, somos doces e a noite é de veludo. Mas ninguém lá entra brandamente.

Autópsia sentimental

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Crónica

Na última noite, eu pedi um gin tónico com casca de laranja caramelizada, pau de canela e estrela de anis – e ele uniu as mãos em cima da mesa, fez-me um sorriso e mandou vir uma água das pedras. Não tinha despido o fato de trabalho, ou sequer aliviado o nó da gravata, e ainda ficou uns segundos a olhar para mim, como se eu fosse a última reunião desse dia – e a mais delicada.

Lancei-me num balanço incoerente do tempo que passáramos juntos, na esperança de que, ao fazê-lo, parte do feitiço se dissipasse, e revisitei os momentos de epifania, os insultos requintados, as promessas inspiradas. Falei-lhe do desperdício. Da ironia. Dos infernos que tínhamos visitado, de mãos dadas.

E ele, visivelmente feliz por ter pedido uma água das pedras, arqueou ao de leve as sobrancelhas, descruzou as pernas e inclinou-se para a frente: «Isto é o quê? Um balanço de contas?» Levantei a cabeça e respondi-lhe: «Não. É uma autópsia.» O fantasma de um recomeço brilhou-lhe nos olhos, mas já sabia, tão bem como eu, que o nosso jogo tinha acabado.

Nessa noite, saí do bar, entrei na chuva (se chovesse, teria entrado), e dei um passo na direcção do futuro. Há certos fins que nos aproximam do princípio. Há certos passos que têm um som diferente dos outros, como se, por momentos, nos tivéssemos esquecido de tropeçar. De sermos coxos.

E há paredes nesta casa vivida a dois onde o taxidermista que também somos pendura animais embalsamados. Por vezes, eles espreitam-nos de manhã cedo (quando vamos a caminho do duche), com os seus chifres cor de marfim e os seus olhos incisivos e vazios. E sussurram-nos culpas, humilhações, calamidades. São pequenos demónios, cristalizados, que servem o grande propósito de nos lembrar que a nossa cabeça, por alguma razão, não está ali. Por sorte, alguém nos salvou. Fomos resgatados.

Da parte acidental da vida, e da sua inevitabilidade. Dessa grande floresta de acasos onde não existe o princípio de um caminho. Porque não se quer verdadeiramente partir – e muito menos chegar. Dos lugares onde nos dizem que somos livres, e onde a liberdade não nos responde – porque, afinal, tem outro nome.

Hoje de manhã, o Outono atravessou a nossa casa. Trazia um cheiro a raízes apodrecidas, folhas secas e erva molhada. Abri a porta de rede do jardim – e respirei. Não há nada que hoje em dia me faça desejar a Primavera. Todos nós somos estilhaços, que se recompuseram. Fragmentos de outros tempos, fantasmas de outras estações. Camadas sobre camadas de deslumbramentos e desilusões.

Nos seus silêncios cada vez mais densos, a linguagem conjugal é como um velho vinil que gostamos de ouvir e que inadvertidamente se foi riscando ao longo dos anos – até se tornar inaudível. Guardamos a canção que se esconde sob a superfície arranhada como o Outono a sua folha mais verde.

Porque a cada dia que passa, seja por milagre ou por teimosia, a Primavera acontece.

Uma fogueira na escuridão

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Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.

No fundo do copo, amanhece

eu e melville

Crónica

São inesperados os lugares onde nos sentimos em casa. Duzentos metros mais abaixo, do lado esquerdo da rua, o café da freguesia, onde se vende aguardente às sete da manhã e onde ambos os venenos – o álcool que eles bebem, o café que eu peço – se respeitam.

Estamos de acordo quanto a isto: o café, tal como o bagaço, bebe-se de pé. São verticais. E se alguém de fora me puxa para uma mesa e eu, por cortesia, me sento, é como se o dia me entrasse pelo canal errado – e amanhecesse ao contrário. Não me levanto da mesa vencida, não desisti ainda, mas custa-me voltar a subir a rua na direcção da minha secretária e começo a imaginar como seriam as próximas horas – ou o tempo que me resta – se não o fizesse.

Talvez virando à esquerda, em vez de entrar pelo portão, eu fosse dar a uma estrada que ainda não conheço. Um caminho de terra batida que me conduzisse a uma outra casa, a uma outra vida. E talvez essa casa não existisse sequer nesta ilha, e não houvesse mar nenhum à volta. E a vista das janelas mais altas, ao subir uma longa escadaria, fosse a de uma cidade em tons de prata e sépia que se estendesse, como um réptil pré-histórico, até à linha do horizonte.

Talvez eu não fosse uma mulher de quarenta anos, nessa varanda sobre o deserto, mas uma anciã de oitenta. E o meu corpo já nem precisasse da força dos músculos para vencer a geografia. Talvez eu já tivesse feito as pazes com a ideia do meu desaparecimento e a fronteira entre o ser e o não ser se evaporasse no ar que respiro como a idade num copo de aguardente.

Antes das nove, na venda, não discuto outro tema se não a meteorologia. Quero saber se estava calor lá em cima, de madrugada, nos campos cerrados. Se corria alguma aragem na montanha, vinda do mar. Quero ouvir os homens ébrios que lá estiveram, decifrar metade, intuir o resto, procurar nas suas vozes roucas o que não os inquieta. O que os fez voltar.

No meio de uma conversa de circunstância, há alguém que me responde: «tentamos respirar». É cedo para tanto. Pago o meu café, espreito o céu que se adensa. Penso: nestes velhos lavradores que se despedem, há uma chama, um desalento. Há um destino que não cumpriram, um falso tormento. Escondem-me, como fantasmas, que eu, sem o saber, já sou um deles.

«Rádio»

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A PALAVRA DO DIA

rá·di·o 3
(redução de radiofonia)

substantivo masculino

1. Aparelho de radiofonia receptor das ondas hertzianas (ex.: comprou um rádio portátil). = RADIOFONETELEFONIATRANSÍSTOR

2. Aparelho transmissor-receptor usado para comunicações em empresas de táxisaeronavesembarcaçõesetc.

3. Mensagem transmitida por radiotelegrafia. = RADIOGRAMARADIOTELEGRAMA

substantivo feminino

4. Transmissão da voz e de outros sons utilizando as propriedades das ondas radioeléctricas. = RADIODIFUSÃORADIOFONIARADIOTELEFONIA

5. Estação de transmissão dos sons por meio de ondas electromagnéticas. = RADIODIFUSORARADIOEMISSORA

substantivo de dois géneros

6. Radiotelefonista ou radiotelegrafista.

 

rádio livre
• Organismo de radiodifusão privada cujas emissões apenas podem ser captadas num raio de alguns quilómetros.

rádio local privada
• O mesmo que rádio livre.

rádio pirata
• Rádio que difunde ilegalmente as suas emissões.

“rádio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/r%C3%A1dio [consultado em 01-10-2018].