O bêbedo mais bera do Bairro Alto

Crónica

Joel Neto

Esta manhã vi o Henrique. Já não o via há muito tempo. Não pensei que estivesse vivo sequer. Vinha a descer o Camões, arrastando os passos exactamente da maneira que os arrastava aqui há dez anos, até se dar por sentado num daqueles bancos de pedra por sobre a Rua das Flores. Ao seu lado tinha um cão.

O Henrique era o mais irascível dos sem-abrigo do Bairro Alto. Mas não o mais antigo. O primeiro que conheci foi a Sónia, uma rapariga alta e morena, lindíssima, muito suja, que arrumava os carros entre a Pedro V e o Príncipe Real. Era má. Defendia o seu ponto com unhas e dentes, cultivava a mais irreprimível repulsa pelos vizinhos que lhe pagavam mal e soterrava de exigências e ingratidões os que lhe pagavam bem. Eu pagava-lhe bem, porque era a primeira vez que tinha um sem-abrigo na minha vida e também porque ela era tão bonita que me convenci de que podia salvá-la. Só quando a vi com um vestido às bolas e o cabelo penteado, num Natal em que algum familiar tentou derradeiramente integrá-la, percebi que era um caso perdido. Não sei o que é feito dela, mas há bastante tempo que não me detenho na Pedro V.

Entretanto, chegou o Carlos. Tinha um cabelo encaracolado, um profundo sotaque do Porto e as regiões cubitais intactas. Garantia que não se drogava, ao contrário da Sónia, e talvez não se drogasse mesmo, embora chutar entre os dedos dos pés (por exemplo) e mostrar as regiões cubitais intactas não deixasse de constituir boa estratégia naquele negócio da pequena extorsão. O Carlos era inteligente o suficiente para o fingir, pelo menos, mas por outro lado não tão inteligente pela Sónia. Talvez por isso a desqualificasse tantas vezes. De certa maneira, apoderou-se do ponto dela. Mas fê-lo sobretudo por amor. Amava-a, estou certo disso. Punha-se a arrumar os carros ao seu lado, a chamar-lhe a atenção para as distracções e as oportunidades que deixava passar, e depois os dois partilhavam o pecúlio. Alguns vizinhos chegavam a deixar com ele as chaves dos automóveis, para que os arrumasse melhor. Pela manhã, ao devolver-lhas, o Carlos voltava a difamar a Sónia: que era uma estouvada, que não se fazia nada dela, que mais dia menos dia desistia de ajudá-la.

Também não sei o que é feito do Carlos ou sequer do seu amor belo e desesperado. Mas sei que o Henrique está vivo e o vi esta manhã, no Camões, trazendo numa mão o saco sobre que dorme e na outra a ponta de uma trela a cuja extremidade oposta se prendia um pequeno rafeiro preto e branco, que eu diria ter algo de podengo e talvez um pouco de border collie se, na verdade, não tivesse essas raças e as outras todas, como as pessoas.

Nunca me contou a sua história, o Henrique. A Sónia contou-me a dela, e era banal. O Carlos contou-me pelo menos duas versões da dele, mas nenhuma tinha mais interesse do que a outra. Outros sem-abrigo me contaram as suas histórias, ao longo dos anos: o interesse delas era sempre mais humano do que literário, o que apenas se podia recompensar com dinheiro e uma dose razoável de pesar. O Henrique, não. O Henrique nunca me contou a história dele, e talvez por isso eu me tenha convencido de que tinha uma história melhor para contar. Uma história literária. Um segredo. Mas só esta manhã, ao vê-lo arrastar o seu saco e o seu cãozinho, até sentar num banco de pedra do Camões a olhar para lado nenhum, tive a certeza disso.

A droga dele era o álcool, não a heroína como no caso da Sónia, nem a psicose (e, suponho, os comprimidos) como no caso do Carlos. É uma droga devastadora, o álcool – pela capacidade de adição, pela destruição que deixa à sua passagem, pela escassez de escrutínio que reúne. E então o Henrique veio não sei de onde, para o Bairro Alto, como o Nicholas Cage foi para Las Vegas. Encontrávamo-lo a dormir nos sítios mais inusitados: a soleira de uma porta, a sombra de um caixote do lixo, aquele cotovelo ao cimo da Rua da Atalaia. Tinha o rosto inchado e vermelho do álcool e do sono excessivo. Passava frequentemente a noite no vão da escada da casa da Teresa, que lhe dava sobras do restaurante. Uma vez ouvimos passos nocturnos no saguão do nosso próprio prédio, a Catarina assustou-se imenso – afinal era o Henrique, acomodando-se frente à nossa porta em pleno quarto andar sem elevador. E mesmo assim, quando o primeiro de nós saiu pela manhã, ele berrou de raiva e de rejeição, porque alguém lhe estava a interromper o sono.

Nunca pensei que durasse até hoje. Bebia quantidades inusitadas de álcool, até que foi precisando de cada vez menos para se embriagar. Era revoltado, odioso, e não foram poucas as vezes que o encontrei com a cara partida de uma maneira diferente ainda, depois de se ter voltado a meter, algures nessas madrugadas infinitas do Bairro, com quem não podia. Se não o tivessem consumido o álcool nem a amargura, então tê-lo-ia certamente consumido o ódio que era capaz de gerar.

Mas vi-o esta manhã, no Camões, com um cãozinho pela mão. Sentou-se num banco de pedra, mandou o cão sentar-se ao seu lado e ficou a olhar o infinito. Era um cão feliz, como sempre são os cães dos sem-abrigo, rodeados de cheiros e de atenções e de ar livre. E, ao vê-lo ali, quase sorrindo para as gentes que passavam, eu achei que o Henrique não precisava de salvação.

Foto: © António Araújo

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