Eu sou aquela que deixa morrer as flores

kate e jasmim serreta

Crónica

Não tenho filhos. Tenho flores muito resistentes. Um marido atencioso e relativamente independente. E dois cães sentimentais mas autónomos que falam comigo em silêncio, com uma voz que me chega do interior dessa vida profunda e contemplativa que é a de todos os cães adultos, uma vez que todos os cães adultos são, como sabemos, grandes filósofos. Incessantes tecedores do pensamento.

É deles a liberdade do não dizer de que nós, humanos, fomos privados. Aos cães, nunca aconteceu Babel. Deus não os condenou ao labirinto da incomunicabilidade. Partilham uma linguagem universal e incorrupta que não conhece fronteiras geográficas ou genéticas. E que usam com a contenção dos grandes estetas.

Também lhes foi concedida uma outra graça: a de serem rigorosos contadores do tempo, mas imunes à sua metafísica. Um cão dedicará horas infinitas (que não tem) a uma tarefa menor que considere fundamental. Abrir uma porta fechada à chave, por exemplo (e que impertinência a nossa, termos inventado portas e chaves). Ou arrancar meticulosamente o forro de um sofá (tão absurdo como o charuto que ali fumamos com os pés pousados no pousa-pés).

A noção de espera de um cão rebentará com a escala do asiático mais paciente. Um cão aguarda a chegada do seu dono até ser estátua no centro de uma praça. A plenitude com que vive cada momento é inocente ou criminosa em absoluto, nele coexistindo sem julgamento a grande capacidade de amar e de ser amado, a de matar ou entregar-se à morte. Uns poderão pecar por excesso, outros terão uma ideia mais justa da proporção, mas tudo o que é defeito no cão deve-se, antes de mais, à sua convivência forçada com o homem.

Perdi muito cedo (acho que nunca a tive) a ilusão de que os meus cães eram os filhos que não tenho. Enquanto nós, humanos, atendemos às necessidades básicas do nosso animal de estimação, o cão que nos estima atenderá a lacunas espirituais, intrínsecas e insuspeitas, da ordem de um entendimento do mundo que nos transcende.

É por isso que o meu avô Augusto (um homem de poucas palavras e um dos mais inteligentes que conheci), de todos os Boxers que teve, nunca se considerou dono de nenhum. É um encontro feliz, disse-me um dia, eu aprendi a lidar com ele, ele aprendeu a lidar comigo, creio que nos respeitamos um ao outro. E que melhor retrato poderíamos nós fazer da amizade, nesta vida que une antípodas em cápsulas exíguas de tempo e de espaço e que ainda nos pede que sonhemos.

Este ao menos é um capricho acertado da insondável omnisciência da natureza: que cães e homens se amem. No outro dia, os quatro, no sofá, humanos, culpados, pensando: uma vez sem exemplo! Os cães, filósofos, sussurrando: temos de ser pacientes com esta espécie. Lá no fundo, eles sabem.

10 thoughts on “Eu sou aquela que deixa morrer as flores

  1. Eles, na verdade, não precisam realmente de nós. Somos nós que precisamos deles e daquele Amor incondicional.
    Mais uma magnífica crónica que nos leva à profundidade da nossa relação com os outros, neste caso os animais nossos companheiros.

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  2. – Aí vêm eles, como dois irmãos!
    Ao ouvi-lo dizer isto, vi um senhor simpático, quase careca mas cabelo bem comprido na nuca e em cima das orelhas, a passear um cão pela trela, um lindo animal que eu conhecia como um ‘lassie’!
    A pelagem, o nariz comprido como o do dono e o cuidado com que evitavam as poças de água, sem nunca um ir à frente do outro, podiam levar a um comentário assim!
    Um ‘collie’, afirmou ele e ajuntou como uma verdade absoluta – os casais antigos e os cães e donos a viver juntos há muito tempo, acabam a ficar parecidos um com o outro!
    Talvez tivesse razão, talvez só tivessem aprendido a líder um com o outro!|
    Obrigado, Catarina!
    JJ

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