O meu amigo Manuel

CRÓNICA

Joel Neto

Torno a procurar na caixa de e-mail as mensagens do meu amigo Manuel e a mais antiga que encontro data de 4 de Fevereiro de 2007. Começa assim (copio directamente): “Eis senão quando reaparece a chatíssima Melga Barreirense, a qual o m/grande amigo Joel Neto já nem pode houvir falar ou ver.” Não pode ser a primeira que recebi, claro. Trata-se de um reaparecimento e, aliás, eu sou tratado por “grande amigo”, pelo que já lhe terei enviado pelo menos alguma resposta a agradecer um comentário, ou algo que se pareça.

De qualquer maneira, está lá grande parte daquilo que, nos anos seguintes, singularizaria o Manuel. Na altura eu assinava numa revista uma coluna semanal em que comentava assuntos avulsos e ele usava o correio electrónico para fazer uma exegese daquilo que eu escrevia. Às vezes, repetindo o meu título, comentava por baixo: “Concordo plenamente com o jornalista ao afirmar que…”, etc, etc. Outras, não concordando, repetia o título e acrescentava: “Amigo Joel, agradeço que leia com muita atenção o anexo em epígrafe”, da autoria da pessoa X, residente na cidade Y (a proveniência geográfica era uma das suas obsessões, as pessoas tinham sempre um lugar). E outras vezes ainda não chegava a concordar nem a discordar, antes limitando-se a colar alguma coisa que tivesse ido pesquisar à Internet – frequentemente à Wikipedia – sobre o tema abordado.

Eram as melhores vezes. Porque mostravam que, lendo-me, o meu amigo Manuel se tinha sentido desafiado a ir aprender alguma coisa sobre um assunto em particular. Não se pode pedir melhor, pelo que, anos depois, no lançamento de um livro meu a que ele compareceu, o congratulei por isso. “Um gajo está reformado…” respondeu-me, “faz o que pode, a ver se não morre estúpido…” Tornei a achar que havia mais em comum entre nós do que aquilo que noutro tempo teria gostado de pensar. Depois de tanto sonho de infância, tanta arrogância de adolescência e tanta megalomania de juventude, não morrer estúpido já não me parecia tão mau objectivo assim.

Uma vez falei do meu amigo Manuel ao F., cujo endereço de e-mail encontrei entre os dos destinatários de algumas mensagens dele. Como qualquer homem desejoso de aprender, o Manuel escrevia a várias pessoas – vários colunistas de jornal, no caso – e, às vezes, a todas elas ao mesmo tempo. Podia ser uma mensagem de Natal ou outra inutilidade qualquer, mas muitas vezes era a partilha de uma descoberta. Mesmo que não me trouxessem mais nada, essas mensagens diziam-me do que tantos portugueses andavam a falar lá em casa, no intervalo entre o telejornal e a novela. “Eu não ligo a esses gajos!”, respondeu-me o F. Achando a crueza algo estúpida num escritor, insisti: “Mas olha que este homem tem a sua ternura…” E o F.: “São uns chatos!”

Sim, o meu amigo Manuel também podia ter-se tornado um chato. Uma vez copiou o meu número telefone do rodapé de um e-mail – eu ainda não tinha sentido a necessidade de me proteger, usava o número de telefone no rodapé do e-mail – e telefonou-me no Natal. Percebi logo quem estava do outro lado. “Daqui é o camelo!”, anunciou ele. Isto foi quando aquele ministro parvo do Sócrates disse “Alcochete jamé!”, porque a Margem Sul era “um deserto”. “Quem fala?”, fingi estranhar. “É o camelo aqui do deserto, o seu amigo Manuel do Barreiro!” Atalhei com certa brusquidão, mas o Manuel compreendeu que tinha incomodado e nunca mais telefonou. Nem tive de trocar de número. E os e-mails continuaram, estando em em Lisboa ou já na ilha – porque a curiosidade dele também.

Com os anos, encontrámo-nos várias vezes. Eu convidava-o para os lançamentos e ele vinha. Trocávamos poucas palavras, visto haver sempre fila para os autógrafos, mas fiquei a saber que tinha sido técnico de informática num grande banco e que, embora consciente de que a tecnologia já o ultrapassara, se sentia orgulhoso de ter sido um profissional de primeira geração da indústria que revolucionara o mundo. Em todas essas vezes o comparei ao meu pai. Quase da mesma idade, eram ambos homens simples e de linguagem despachada, mas ao mesmo tempo curiosos e infinitamente sentimentais. Voltei a sentir-me feliz por ainda ter o meu pai vivo decidi pensar naquele homem como num tio – o meu tio do Barreiro.

Esta Primavera, quando lancei o último romance, ele já não apareceu. Estranhei logo, mas entretanto tive o que fazer. Na semana passada lembrei-me de que há vários meses não recebia correspondência dele. Fui conferir o e-mail e a última mensagem era já de 2016: uma daquelas gerais em que o Manuel colava um texto, copiado não sei de onde, sobre um poeta menor cujo nome tinha acabado de aprender. Abri o Facebook, à procura do perfil dele. O post mais recente era de uma senhora que, em Setembro do ano passado, lhe dava parabéns pelo aniversário. O primeiro comentário era de outra que dizia: “Acho que o Sr. Manuel já não se encontra entre nós….” Por baixo havia uma resposta da filha do meu amigo Manuel: “Não está entre nós desde Fevereiro. Sou a filha.”

Troquei com ela algumas mensagens, apresentando-me e apresentando-lhe condolências. Ela não precisava que eu me identificasse. “O meu pai era um grande amigo seu e falava muitas vezes em si”, disse. “Fiquei com os seus livros.” Desejei-lhe felicidades, tornei a lamentar a morte do pai, tão novo ainda, e removi a amizade (o Facebook chama-lhe assim) com este. Tenho removido imensas, nos últimos tempos, e sempre pela mesma razão. Mas em nenhum caso ainda me arrependi de retribuir às pessoas, quem quer que sejam, ao menos uma fracção da gentileza que têm comigo. Elas me permitem escrever e viver de escrever – a quem deverei francamente mais do que isso?

© Foto: António Araújo

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