Os animais à minha volta

Crónica

Joel Neto

Talvez a cabra nem tenha sido o primeiro bicho para que ela me chamou a atenção. Desde muito pequena que eu a via acarinhar todos os tipos de animais: gatos, cães, pássaros, até galinhas. Dizia que queria ser veterinária ou pet sitter, bióloga marinha ou dog groomer. “Cabeleireira de cães”, acho que foi a sua expressão (e estava mais certa).

Eu sorria-lhe. Sempre gostei daqueles olhos tristes. E depois, não sei como, alguém deu uma cabra ao pai.

Creio que nem cheguei a ver essa cabra, agora que penso nisso. Andava sempre a viajar, de Lisboa para a ilha e de novo para Lisboa. Mas, por outro lado, vi-a muita vezes nas palavras daquela menina. Encontrávamo-nos e a primeira coisa de que me falava era a cabra: “Sabes que eu tenho uma cabrinha?” Então, eu imaginava uma cabrinha branca e rabina, como a da Heidi – e ficava ali, a ouvir as histórias que a menina me contava sobre ela.

Acontecia alguma coisa onde se podia esconder uma metáfora caprina? “É como a minha cabrinha, no outro dia também começou a…” Eu queria saber o que ela planeava ser quando fosse grande? “Se calhar já não quero ser bióloga marinha, quero ser pet sitter para passear a minha cabrinha.” Não tínhamos mais sobre o que conversar? “Ainda não te contei o que a minha cabrinha fez ontem…”

Tinha sentido de humor. Fazia um riso escarninho, ao imaginar-se a passear uma cabra, um animal tudo menos passeável, e fazia outros gestos cúmplices e inteligentes. Às vezes lembrava-me a minha avó, outras não. A minha avó era má.

Até que um dia cheguei de Lisboa, vim pôr as malas a casa e fui vê-los. Na altura a minha chegada já não era uma novidade: tornara-se uma rotina. A cozinha estava quente e aconchegante, e foi com uma sensação de regresso que girei o trinco à porta. Cumprimentámo-nos todos, na alegria do costume. Finalmente, ao canto da mesa, ela fez o seu ar maroto, um cubinho de carne erguido na ponta do garfo: “Não queres provar a minha cabrinha?”

Toda a gente me diz que esta história não foi bem assim, que fui eu que a inventei. Terá havido uma refeição de cabrito, talvez, mas nunca com aquela cabra. O que acontece é que as crianças chamam “cabrinha” a tudo o que é carneiro, macho ou fêmea, adulto ou cria… E é possível, realmente. À força de tanto contar histórias, um homem deixa de saber o que aconteceu e o que inventou. E, mesmo que ache que de facto aconteceu, ainda há a possibilidade de o seu cérebro o ter enganado.

É o bê-á-bá da neurologia: o nosso cérebro conta-nos histórias para preencher os espaços em branco, ajudando-nos a assimilar o mundo. Eu sempre tive dificuldade em assimilar o mundo. Mas não seria surpreendente se aquela menina tivesse comido a sua cabrinha. Faz parte do ADN das gentes do campo, uma certa promiscuidade entre as funções dos animais domésticos (e as emoções à volta deles). Eu próprio matei galinhas. E todos nós comemos da ‘Rita’, a porca que bebia água pela mangueira.

Como pude eu comer da ‘Rita’, pergunto-me hoje? Como pude ajudar a ir buscá-la ao curral, a erguê-la para cima do banco de abate, a segurá-la com todas as minhas forças de adolescente, sentindo-me a transformar-me num homem enquanto, debaixo de mim, um animal inteligente, talvez até afectuoso, guinchava desesperado? Como pude eu, durante tantos anos, arrancar as penas do pescoço às galinhas e cravar-lhe o gume frio e nem sempre regular de uma faca?

Parece-me tão longe, hoje, esse rapaz que eu era. E, no entanto, estaria ele menos certo, quanto à relação com os animais domésticos, do que este adulto confuso que ainda há dias viu uma vizinha matar um bicho-pau, com o desembaraço e a crueldade que só o hábito permite, e passou dois dias a rever a cena na sua cabeça? Está mais certo do que esse rapaz do campo este homem que nem é bem do campo nem é bem da cidade e que, cuidando dos cães como se fossem pessoas, é capaz de andar a semana toda a contar as horas para ir aos Altares comer um fillet mignon das mesmas vacas sobre que escreve?

Pensei nisso esta tarde, mais uma vez. Vínhamos a descer o Escampadouro, com os cães no porta-bagagens, e à nossa frente uma senhora algo desengonçada caminhava, com uma vara de vime fininha na mão, atrás de uma vaca solitária. Era gorda e parecia estar a reaprender a andar, como se criar aquele animal lhe tivesse devolvido a actividade física exigida pelos médicos, mas agora fosse hora de deixar o bicho no pasto, no meio da manada de algum criador extensivo que dentro de dias tivesse de ir entregar novo lote ao matadouro.

Que pensaria aquela senhora, ao encaminhar a sua vaca para a morte – a vaca que lhe devolvera a vida? E o que terá pensado a minha mãe, quando andou a criar aquela outra bezerra nos Regatos, indo para lá e para cá no Fiat Uno, duas vezes ao dia, nesses anos de solidão em que, seguidos, saímos ambos de casa, primeiro eu e depois a minha irmã? Que dor a povoaria quando, ao telefone para Lisboa, me comunicou: “Morreu a minha vaquinha”? E como pudemos nós todos continuar, apesar disso, a comer carne de vaca?

O facto é que pudemos, e esse é o mistério. Eu pude, apesar de tudo isso sobre que pensei e li. Portanto, não vai ser a filosofia a resolver a minha confusão, e espero que não seja o moralismo também. Mas pergunto-me se não será a sensibilidade. Talvez um dia destes eu saia de casa, rumo aos Altares, e, ao debruçar-me sobre aquele fillet mignon, simplesmente já não consiga comê-lo. Também isso ficarei a dever aos dois cães que se deitam debaixo desta mesa no preciso momento em que escrevo este texto. E o mais provável é que lhes perdoe.

Foto: © António Araújo

3 thoughts on “Os animais à minha volta

  1. O Joel nem calcula como esta crónica me “abalou”. Há muito tempo que acho estranha esta minha vontade de comer uma boa alcatra e, ao mesmo tempo sentir um nó na garganta ao pensar na mansa vaquinha que a deu… Fui ensinada a tratar bem os animais, porque (dizia a minha mãe), “é deles que vem o nosso sustento” . Seja como for, passa-se qualquer coisa comigo e deve-se ao meu amor pela patuda, pois há meses que não consigo comer carne. Criar animais em casa para consumo é impensável! Na minha memória também existem várias personagens do reino animal por quem chorei a morte/matança: a galinha manca, o bezerro que adorava festinhas no pescoço, o porco que fazia corridas comigo, quando vivia na quinta… Enfim, já comprei alguns livros de cozinha vegetariana… 😉

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  2. Um comentário atrasado!
    Era, tinha por nome, chamavam-lhe e chamei-lhe, enquanto aí estive, Zé Maria.
    Saí de S. Miguel há mais de trinta anos.
    Nunca o esqueci por lhe ter partilhado a simpatia, o carinho com que fazia a sua função, guiava o autocarro de trazer e levar gente a Ponta Delgada e, numa tarde só ao alcance dos favorecidos, a matança do porco. Uma festa de família!
    Lembrei-me e lembrei-o ao ler do Roberto!
    É gente outra essa, feita pelo mar mas onde não se é ilha, por a solidariedade não ser uma palavra vertical, nunca a condizer com as arribas.
    Há sempre uma fajã em cada canto, um abraço disponível, o calor de um sorriso!
    Vou ter de regressar um dia!
    JJ

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