«Digo o nome da cidade»

kate - a vida num contentor

Crónica

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que já não sou. De muito mais do que saudade se faz este regresso ao lugar de onde partimos (que é só um).

Assaltam-me primeiro as areias da Caparica, nós em Maio, prematuros, a inventar tardes de sol, depois o Tejo, que aos olhos dos outros apenas brilha, e o namoro relutante das duas margens que o rio desune, cheio do bocejo daqueles que o atravessam dia após dia, antes de amanhecer. Avisto com um fascínio que me antecede as lajes brancas do Terreiro do Paço que um lodo antigo humedece, e é como se a cidade tivesse sido, noutros tempos, uma ruína (que, de vez em quando, reemerge). Seguem-se as ruas da Baixa, ilusória esquadria, e a estátua do Marquês, a pergunta que fiz ao meu pai, no Renault 4, daquela vez: quem é o senhor dos cabelos compridos, porque é que tem um leão? Os cabelos são uma peruca e o leão é um símbolo de poder. O que é um símbolo? Ao fim de tantos anos, como me pude esquecer? Não tardamos a chegar ao Campo Grande, e o avião já vai tão baixo, quase a pousar, que o seu voo rasante me angustia. Porque eu já vi Lisboa, perdida no meio das nuvens, mas Lisboa não me viu ainda.

Assim que dou o primeiro passo do lado de fora do avião, envolve-me o ar seco da minha terra como um abraço de sal. Venho cheia do verde húmido das ilhas, das noites dormidas no fundo do mar, e às portas da cidade chego a medo, como um anfíbio transitando entre dois mundos, devagar. No aeroporto, as multidões cosmopolitas desconhecem-me, mas os Lisboetas sabem que sou um deles. Vêem a minha cauda de limos, a escorrer água, e tudo em mim lhes é familiar. Também eles partiram, também eles mergulharam e, chegados do sonho de outras ilhas, é como se só ali acordassem. Respiro fundo, sinto o sangue nas veias a aquecer, esperam-me sorrisos à chegada e o olhar doce dos meus pais, que eu sei que nunca vai envelhecer. Avançando a passos leves, numa versão de mim mesma destilada, finjo que não é nada, mas preparo-me.

Preparo-me para o peso impossível da cidade que me viu nascer. Para as ruas da Baixa apinhadas, que eram melancólicas e desertas (ao fim da tarde), para os cafés filosóficos do Chiado (antes das lojas de grande marca), para os botequins da Graça e as tascas de Alfama (quando o fado era vadio), para as mesas dos bares do Bairro Alto, onde metade do que sonhámos, de facto, não aconteceu. Preparo-me para o mistério de tudo o que escapou à nossa decisão. À nossa vontade. Ao nosso querer. Para o mistério de tudo o que inadvertidamente deixámos de ser.

E, nesse momento, já estamos lá em cima, no largo de São Tomé, onde a ruína convive com os turistas e quase não se sente. E ali mesmo, ao virar da esquina, abre-se o abismo de Santa Luzia, onde, tantas vezes, a imensidão azul nos asfixia. Porque queríamos ir e não podíamos. Porque éramos ricos e ingénuos, e inquietos ao mesmo tempo. Porque sonhávamos com viagens de barco e com a vida dos piratas, e com tudo o que era longe, pueril e incerto.

Numa rua do Castelo, à frente de um quartel desabitado com a melhor vista fantasma da cidade, mora ainda a minha infância. Levo comigo, para toda a parte, as portadas brancas dessa casa onde o sol não entra, mas avança. Adoro o som dos meus passos no soalho de madeira, a voz clara dos poetas brasileiros que os meus pais ouviam de manhã, e a casa dos avós, ali tão perto, que se atravessava a passos largos, nas tardes de luz e de ópera. Por vezes, ouço o grito solitário dos pavões, cativos nos jardins de São Jorge, e lá por dentro estremeço: o que é voltar a casa? De que fios se urde a sensação, haverá algum segredo, alguma fórmula para descrever o lugar onde nos esperam, intactas, as nossas ilusões?

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que ainda sou. Nas suas ruas, ao entardecer, conspiro a minha próxima errância. Naquela esquina de que me esqueço, e onde alguém tentou escrever um verso, volto a encher-me de esperança. De todos os lugares do mundo, só Lisboa me vê partir. Há nela uma passagem para o eterno que não chega a ser secreta, porque o lugar de onde somos nunca o tempo o desfez.

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