O elogio do Inverno

Crónica

Joel Neto

Esta semana chegou o Inverno. Há mais de um mês que nós já vínhamos acendendo a salamandra, mas isso nunca é sinal de nada a não ser de que passamos dois terços do ano com saudades do Inverno. Entretanto, tinha havido dias de frio, dias de chuva e dias de vento. Por várias vezes a Catarina voltara do café matinal, esforçando-se por escorrer os sapatos à entrada, e cantarolara: “Acho que chegou o Inverno!” Mas só agora tivemos aquela chuva gélida e ventosa que nos desce pelo pescoço ao abrigarmo-nos sob um beirado e nos greta as mãos ao baixarmo-nos para disputar a bola de ténis com os cães. E o sol, evidentemente: aqueles rasgões de luz brilhantes e líquidos que podiam valer, sozinhos, um ano inteiro.

Já estive em muitos lugares, e já experimentei muitas meteorologias, e agora vivo novamente numa ilha que tem muitas meteorologias e, por via disso, se traveste de muitos lugares: nunca conheci um lugar tão perfeito e uma meteorologia tão ideal como os Açores sob o sol de Inverno, esperneando contra a distância e o esquecimento.

Vejo os meus amigos de Lisboa lamuriando o fim do Verão e não posso fazer mais do que solidarizar-me com o seu desânimo. Vejo os meus vizinhos dos Açores suspirando contra a humidade e a noite e não me ocorre melhor do que assoar-lhes o nariz vermelho e gordo da neurose.

A verdade é que não se ensina, o gosto do Inverno. Mas pode-se aprender. Nas longas horas de contemplação, ao sábado à tarde, olhando pela janela a ver languescer a Terra. Num passeio pelas ruas solitárias da cidade, noite dentro, com o frio invectivando-nos o rosto. Na espuma que, das ondas que se atiram contra o pontão, o vento faz levantar sobre a estrada – eu aprendi.

Da primeira vez que decidi falar a um amigo sobre a ideia de voltar à Terceira, tão vaga ainda, fui logo alertado para o Inverno. “Isto agora parece-te muito bonito”, disse-me ele, “mas só depois de voltares a passar aqui um Inverno é que te vais lembrar.” E eu assustei-me, porque, na ânsia de escolher um forasteiro residente, ademais com experiência consolidada, e além disso educado – tudo o que, no fundo, pudesse pôr-me a salvo dos mitos da falta de mundividência e das paixões imberbes do moralismo –, tinha acabado por ir dar a um serrano. Se um serrano se assustava com este Inverno, então era porque este Inverno metia respeito, e foi ainda com esse receio sobre todos os outros que, anos depois, nos instalámos na ilha.

Lembro-me de, no início de Fevereiro, ao ver florir a primeira erva azeda, me ter dado para celebrar a chegada da Primavera, quando ela ainda estava a três meses de chuva, de vento e de frio. Foram meses penosos, devo reconhecê-lo, e todos os anos, ao ver os cerrados pontilhados de florzinhas amarelo-vivo, sou forçado a lembrar-me deles, como se, apesar de tudo, fosse importante ir mantendo o inimigo à vista.

Mas o inimigo nunca foi o Inverno: é o tédio. A expectativa de uma coisa que não vem e a incapacidade de nos povoarmos com outra – esse, sim, foi o adversário para que nos armámos desde o início, para que nos armámos desde sempre. E o Inverno é tudo menos tédio. O Inverno é silêncio, supremo antónimo do tédio – talvez se possa mesmo dizer que na confusão entre os dois reside um dos mais frequentes e irremediáveis labirintos do viver.

No Inverno ninguém me toca à campainha. Não há foguetes no horizonte, nem touradas ao fundo da estrada, nem cortejos apitando aí em baixo no caminho. Ouço um zumbido ao fundo, uma roçadora mecânica aparando uma sebe, e sei que é sábado de manhã, porque a ninguém ocorreria, no Inverno, aparar uma sebe senão a um sábado de manhã. Cruzo-me com um par de vozes alteadas, ao passar frente à porta de um café, e sei que as vozes vêm da televisão, porque ninguém precisa de altear a voz no Inverno.

No Inverno, tudo à nossa volta se aquieta: os animais acalmam-se, as plantas hibernam, as pessoas aguentam. E é então que, dentro de nós, o mundo entra em ebulição. Como se, se repente, fôssemos nós a própria fonte da vida. Trabalhando. Lendo. Conversando.

Ouvindo jazz, e dirimindo os programas da BBC Radio, e afagando a testa aos cães. E ateando de novo a salamandra para ouvir jazz e dirimir os programas da BBC Radio e afagar a testa aos cães e trabalhar e ler e conversar e escrever.

É rotina, o Inverno – sobretudo isso. E é magnífico. Tudo o que temos feito de bom na vida, temo-lo feito no Inverno. É no Inverno que se plantam as árvores e se escrevem os livros. É no Inverno que se dão os melhores passeios e se cozinham os pratos mais saborosos.

No Inverno não se vai à praia, mas usam-se os casacos. Ainda não encontrei razão mais irrefutável para uma pessoa dar atenção à roupa que veste antes de sair de casa. Um casaco elegante e confortável, um passeio na noite, o vento invectivando-nos o rosto, uma casa à nossa espera com cheiro a lenha, livros nas estantes e cães dormitando sobre os tapetes – chega o Inverno e tudo o mais me parece apenas uma sucessão de instrumentos para termos saudades dele.

Foto: © António Araújo

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