A mulher réptil e o homem leopardo

img_0354

Jurei que a tinha visto no dia anterior, com um anoraque vibrante, num tecido inexplicável, em tom de escamas de réptil, uns ténis último grito, que cintilavam, os lábios pintados com um rosa discreto, mas incandescente, cigarro no canto da boca, óculos de massa que deixavam entrever dois olhos claros, estrangeiros, irremediavelmente.

Era tão superior, na sua aparência, a tudo o que a rodeava, que as cores sem nome que a vestiam se diluíam nas paredes da cidade, tingindo as fachadas brancas e o mar azul ao fundo como um traço de aguarela. Ou de lava.

Havia vento. Mas ela estava sentada numa mesa lá fora. Camaleónica. Deslocada. O simples facto de estar ali suscitava comparações impossíveis entre planos que não se tocavam: não era uma mulher entre outras. Era o humano a superar a paisagem. Mineral. Sem idade. Desejável, ainda que de uma forma abstracta.

Hoje, vi-a de novo, sentada no mesmo café, mas do lado de dentro. Não estava sozinha. E não era a mesma mulher. Em vez de escamas, trazia umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Algo nela, desfocado, estremecia. O corpo, hirto, mantinha-se recuado mesmo enquanto ela comia. Sentado à sua frente, um homem olhava-a como se olha alguém que adoeceu há muito tempo. Sem culpa. Sem pena. Sem condescendência. E ela, de olhos baixos, alimentava-se. Empenhada naquela relutância.

Perguntei-me: tê-la-ei sonhado ontem? Ou será que ela lhe mente? Talvez lhe esconda que é jovem. Talvez se finja doente. Olho para o homem e reparo. Há um brilho que o torna cúmplice, uma inércia que não sente. Também ele é ilusão, também ele é fingimento. Um pacto houve entre os dois. Que ela seja a enferma, e ele o sobrevivente. O guardião da doença. O porteiro daquela dor. E num teatro sem palco, o casal emudeceu.

No casal que não se toca, que não diz uma palavra, não há antes nem depois. Talvez descubram que ela, misteriosa iguana, vai armazenando o calor. Talvez ignorem que ele, leopardo solitário, já não é um predador. Que o mundo o tornou vulnerável, que a natureza o expulsou, que essa espécie sem destino já está a desaparecer. Talvez não saibam ainda o que quase chegaram a ser.

Nesse quase onde cabemos, fomos felizes a dois. Percorremos os desertos, partilhámos as miragens, juntos aceitámos exilar-nos de tudo o que era selvagem, e nas selvas sufocantes que criámos, entretanto, já nevou.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s