O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

Crónica de Joel Neto

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Nunca escrevi foi sobre o Roberto, e a razão é a mais simples: conheço-o mal o suficiente para temer não estar à altura. Apesar disso, não há semana em que não me entre em casa uma história do Roberto. Algumas vêm da Catarina, que dia sim dia não anda com ele na urbana, a caminho da biblioteca ou de regresso do ginásio. Mas tenho a impressão de que não há um só lugar nesta ilha onde seja garantido que não me vão falar no Roberto: nem as mesas das pastelarias nem os consultórios dos dentistas – nem os corredores das escolas secundárias, nem os guichés das repartições públicas, nem sequer as cadeiras frias das casas mortuárias durante a madrugada.

Há que tempos que estou para escrever sobre o Roberto. Talvez deva arriscar.

O Roberto, que partilha o nome com o dono do café onde vou mas na verdade conduz a urbana da Terra Chã, deve ser o homem mais popular da ilha. “Urbana” é como na Terceira se chama a um autocarro, uma camioneta da carreira: carreira urbana, por extenso – para sintetizar, “urbana”. E é dali, daquele assento altivo, que o Roberto gere os seus domínios. Cumprimenta cada pessoa com que se cruza, mas isso ainda é dizer muito pouco. Sabe o nome de cada um dos seus passageiros, das velhinhas que vão para o Centro de Saúde aos miúdos que vão para a escola e aos próprios pais de família que, apanhados com o carro na revisão, não andam de urbana mais do que uma vez ao ano. E, sobretudo, quando fala com eles é como se se preocupasse.

Entra uma garota numa daquelas urbanas das oito e meia e, ao dar-se conta de que a manhã está mais fresca do que esperava, faz um arrepio: “Bom dia, Roberto. Ai, que frio…” Então o Roberto leva o pé ao travão hidráulico. “Mas tens frio, Andreia? Queres ir buscar um casaco?” Acto contínuo, carrega no botão luminoso, a abrir a porta de novo: “Vá, vai lá buscar um casaquinho, que eu espero.” E quando, ainda antes do fim dessa viagem, verifica que a greve dos professores vai realmente deixar os miúdos sem aulas, como já temia, tira os óculos escuros e olha o miúdo mais rufia através do espelho retrovisor: “João, a escola está fechada. Como é que queres fazer? Sais aqui e eu vou dar a volta e apanho-te no regresso? Ou vens já comigo até lá acima e voltas?”

Trata toda a gente por tu, o Roberto, e ninguém lho leva a mal. Toda a gente trata toda a gente por tu, aqui na ilha. Mas, principalmente, o Roberto elevou a condução de um autocarro a uma arte pop e a figura do condutor a uma estrela. Melhor: fê-lo por generosidade. As crianças, os adultos, os velhos – ninguém, para ele, merece menos cuidados. Na sua história conjura-se tudo o que ainda reste de rural nesta ilha e de decente na ideia de transporte público. O meu único medo é que um dia venha um partido qualquer e o convide para se candidatar a uma junta de freguesia, ou assim. Homens como o Roberto são atraentes de mais para a política pelintra destas ilhas. Nunca me esqueço daquele carteiro do Corvo de quem deram cabo.

Até lá, porém, há um adolescente muito hormonoso que não se senta quieto na cadeira, sempre aos saltos a importunar as raparigas? O Roberto chega ali à subida do Alto das Covas e, quando o trânsito pára, deixa descair a camioneta dez centímetros e carrega no travão, fazendo-o sentar-se. Vem aí a Páscoa e há duas senhoras sentadas no banco da frente a lamentar-se pela falta de tempo para cozer a massa sovada, contrariamente à tradição familiar? O Roberto promete trazer no dia seguinte um bolo para cada uma, daqueles que o irmão coze na Agualva (acho que é na Agualva). A urbana esvaziou e já só resta a Catarina para transportar até ao ginásio? O Roberto leva o resto da viagem a fazer conversa sobre exercício físico e a contar do pequeno ginásio que se esforçou por instalar em casa, aqui há uns anos, mas nem sempre tem tempo de usar como pensava.

“Estás a ver aquela casinha?”, apontou-lhe há dias. Falava de um casebre poético que há ali em baixo, em frente à Cadeia, brilhando na orla de uma mata elevada ao fundo de uma quinta muito bonita. “Tu és uma pessoa que ali é que estavas bem, não és?” Perguntou-lhe a Catarina: “Porque é que dizes isso, Roberto?” E ele: “Não sei. Podias traduzir os teus livros sem barulho.”

O Roberto é assim: olha realmente para as pessoas, interessa-se realmente por elas. Penso nele e lembro-me dos motoristas de autocarro da minha infância: o Dutra, que fazia o caminho todo em segunda, numa lentidão que nos entediava de morte; o José Pereira, que era do Sporting e andava o tempo todo nos limites do que o autocarro dava, como talvez só fosse possível naqueles anos tontos; o António, que era filho da D. Albertina e não havia nada sobre que não soubesse tudo – ao pé do Roberto, temo bem, eram todos figuras bidimensionais, desprovidas de dimensão literária.

A única vantagem é que, nos casos deles, a urbana andava sempre a horas – mesmo quando era o Dutra a conduzir. Já com o Roberto, tantos são os afazeres, acontece estar atrasada, o que é sempre uma chatice. Quando alguém protesta, porém, ele meneia a cabeça: “Eu sei… Mas eu esforço-me…” Um dia ainda o transformo no herói de um conto infantil. Talvez aí consiga fazer-lhe justiça – aqui, não fiz.

Foto: © António Araújo

2 thoughts on “O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

  1. O Roberto da Agualva, fomos campeões Regionais de Juniores A.

    Em Maio último ele parou o autocarro da carreira para tirarmos uma selfie, obrigado Joel por este texto, abraço Roberto.

    Gostar

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