As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

6 thoughts on “As palavras proibidas

  1. A maior parte dos que escrevem, fá-lo sempre sozinha!
    Habitua-se a isso até na vida, como os homens da venda, por só ali acorrerem para verem outros iguais a eles, com ‘truques’ idênticos!
    Saem sempre de rabo entre as pernas, porque as castanhas podem ter bicho e já ninguém se importar com as safras!
    Não é a mesma em todos os lados!
    Também pratico!
    Não gosto de matrecos, mas gosto das vendas e dos ‘truques’ dos amigos!
    JJ

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  2. Caro Senhor,

    Em primeiro lugar, agradecer-lhe pelo requinte com que utiliza o idioma – não obstante a religião do progresso a que nem as formas comuns de diálogo se podem eximir, a sua escrita está entre aquelas que dignificam e justificam a existência de uma determinada forma de encarar o Português falado/escrito. (Pedante? Nostálgica? Quiçá saudosista? Que se dane…)
    Depois, e talvez mais pertinente para este espaço de comentário, partilhar com quem quiser ler a reflexão suscitada pela ideia do seu texto que se destacou na minha leitura:
    “Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?”
    Esta relação complicada-supersticiosa-agourenta que os portugueses têm com a verbalização de algumas ideias em determinados contextos (que a falta de sofisticação cosmopolita me faz ignorar se é comum a outros povos), e que aflige até as elites (?) autóctones, como é realçado no texto e que me fez recordar as vozes que ainda recentemente, durante os actos mais rocambolescos da crise financeira que afectou o país, insistiam no “perigo” que constituía falar da (ir)responsabilidade pátria na criação das sempiternas dificuldades económicas.
    Para a idiossincrasia nacional, atrair a ira dos deuses (ou dos djinns ou outros especuladores, locais ou globais) parece estar sempre à curta distância de um inoportuno acto de fazer vibrar moléculas de modo a produzir os sons errados. O que é curioso: se ao princípio era o Verbo, se Deus emitiu um som e se fez o Universo, para os portugueses, esses escatológicos indefessos, o Fim está próximo sempre que se alvitre quer a Felicidade, quer o Fado.

    Com os melhores cumprimentos.

    (Porque as castanhas assadas são como as cerejas: enquanto a referência ao órgão sexual masculino feita em baixo calão é muitas vezes encarada como a expressão de justificada ira, dizer “pénis” em público, mesmo num contexto pertinente, suscita sempre reacções que, no seu melhor, sugerem o vivo receio que Príapo se manifeste, de supetão, em toda a sua pujança.)

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  3. No tempo das castanhas ou em qualquer outro é sempre tão bom ler estas crónicas. Constatar que fazer alarde, da felicidade, do bem estar com as pequenas coisas ou com a abundância, perante os outros fica-nos sempre a sensação de não pertencer aqui, talvez só os animais nos entendam.

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