«Há 43 anos, 24 horas por dia, em português»

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Paulina Arruda nasceu na Ilha terceira em 1962 e emigrou para os EUA com 17 anos, em 1980. Formada em Psicologia, casou-se com Henrique Arruda, advogado, de quem tem um filho, e juntos, em 2010, adquiriram a WJFD, a maior rádio portuguesa da América. Sediada em New Bedford, mítica cidade baleeira, a WJFD chega a meio milhão de luso-americanos. É um pilar da comunidade portuguesa nos EUA e tem vindo a afirmar-se como uma ponte entre as suas várias gerações.

Com uma licença de emissão de 50 mil watts, o máximo autorizado na Costa Leste, a WJFD cobre seis Estados da Nova Inglaterra, chegando a Long Island, em Nova Iorque, e ao Maine, no extremo nordeste. Com um protocolo com a RTP e a Antena 1, divulga em português notícias de um Portugal distante e procura ser uma embaixadora da cultura lusa nos EUA.

Na sede da rádio – um escritório arrendado num antigo edifício fabril -, Paulina explica-nos que, apesar da sua dimensão, a WJFD nunca deixou de ser uma rádio comunitária, com uma forte aposta nas notícias locais e nos conteúdos de interesse para a comunidade, especificidade essa que despertou recentemente a atenção da FCC (Federal Communications Commission):

Nós somos um caso muito, muito único. Na semana passada, eu e o Henrique viajámos para Washington DC durante dois dias. A FCC está numa fase transitória. Basicamente, o que eles querem é mais rádios comunitárias, em vez das grandes companhias que compraram os 50 mil watts e que transmitem de Nova Iorque para São Francisco: fazem uma programação em Nova Iorque ou em qualquer lado e transmitem nas rádios todas. (…) A FCC está a ponderar o que vai fazer e quer ouvir as rádios, as comunidades, e nós fomos lá apresentar o nosso caso. Eles nunca tinham pensado que poderia existir uma situação como a nossa: uma rádio de 50 mil watts FM há 43 anos, 24 horas por dia numa língua que não é o inglês, que atinge esta comunidade toda. Eles disseram-nos mesmo: “pode ser que agora apareça mais alguém, mas até este momento não nos apareceu caso nenhum como o vosso”. Portanto, somos uma estação muito, muito, muito única, mesmo em termos das rádios americanas, em grande parte por causa dos 50 mil watts – as rádios de 50 mil watts foram todas compradas, são rádios americanas e talvez dez companhias sejam proprietárias de todas. Uma coisa que eles perguntavam era quantas rádios tínhamos – “mas é só essa?”, “é, é só essa”.

Os 50 mil watts FM trazem encargos. Há uma torre a manter, uma antena de 152 metros, uma série de contratações externas em serviços de manutenção e de limpeza, despesas de electricidade, comunicação, etc., e ainda os 12 funcionários que constituem a equipa permanente da rádio. Não havendo apoios significativos, a WJFD sobrevive da publicidade e essa é uma das principais funções de Paulina – a de garantir o pecúlio publicitário.

Muitos americanos ainda se surpreendem por ainda existirmos. Mesmo quando estou a falar com alguns clientes eles perguntam se na comunidade, num lugar assim grande, a publicidade vai ter algum sucesso e eu digo-lhes “estamos aqui há 43 anos, 24 horas por dia e sobrevivemos cem por cento de publicidade”. Portanto, deve haver alguém que frequenta as casas comerciais, os negócios que negoceiam connosco, senão já não existíamos.

A preocupação de Paulina é evidente e, quando lhe perguntamos como é que se consegue angariar publicidade para sustentar uma rádio em português nos EUA, a resposta não ignora o rumo natural da «americanização» das novas gerações:

Acho que é o poder da comunidade que ainda temos: ainda temos uma comunidade suficientemente grande, com poder de compra suficientemente bom, que é capaz de manter uma rádio destas. (…) [No entanto], quando uma geração começa a morrer e as outras gerações se vão integrando na comunidade americana, não sabemos o que vai acontecer, mas às vezes pensamos no que vai acontecer, como é que vai acontecer e como é que vai ser.

Interessa-nos ponderar esse desaparecimento e tentar perceber a dimensão da perda: o fim da WJFD não seria apenas o fim de uma rádio, de uma empresa, de um sonho. Seria, antes de mais, o fim de uma missão que começou há 43 anos – a de garantir, por um lado, a longevidade da língua e cultura portuguesas nesta região da América e, por outro, a união e identidade da mais antiga comunidade de emigrantes portugueses nos EUA.

Nós sentimos muito isso. Se fôssemos uma rádio que existisse há 10 ou 15 anos, que só tivesse umas horas em português… Mas quando são 43 anos, 24 horas por dia, quando se atinge pelo menos meio milhão de portugueses e de luso-descendentes, o peso é maior, sentimos mais essa responsabilidade. Nós sentimos que levamos Portugal à comunidade, mas também sentimos que representamos a comunidade. É por isso que a nossa prioridade é a qualidade e a boa imagem. Quando olham para a comunicação social, quando olham para a rádio, nós estamos a representar essa comunidade – por um lado, somos a voz dessa comunidade. Na rádio, uma das nossas grandes funções é essa: networking. Nós sentimos que estamos a representar essa comunidade e sentimos a obrigação da boa imagem.

A nossa pergunta não podia ser mais directa: o que é que deixaria de existir com o desaparecimento da WJFD? Paulina responde sem hesitações:

A ligação da comunidade a Portugal, a presença de Portugal na comunidade através não só do protocolo que temos com a Antena 1, mas também dos convidados, das pessoas de Portugal, políticos ou não, todos os que são relacionados com Portugal e que por aqui aparecem, de tudo o que achamos que é importante para a comunidade. Mesmo o relacionamento entre as comunidades. Por exemplo, Lowell e Pawtucket sabem o que se passa nas outras comunidades: Lowell fica no Norte de Boston e sabe o que se passa em New Bedford e em Fall River através da WJFD.

A ideia de que a WJFD se encontra «no coração de uma grande comunidade» suscita novas perguntas. Será que o papel da rádio também é o de unir as várias comunidades de emigrantes lusófonos na Nova Inglaterra? Decidimos ir mais longe: é legítimo dizer que, se hoje ainda existe essa comunidade, ela existe, sobretudo, através da rádio? Paulina não estranha a ideia e apressa-se a concordar:

Sim. Nós nunca falamos em madeirenses, em açorianos, em continentais do Norte ou do Sul de Lisboa. Os cabo-verdianos também são uma comunidade muito importante para a WJFD desde o princípio. No ano passado reformou-se o Djosinha, que é uma figura muito conhecida em Cabo-Verde – se perguntar a qualquer cabo-verdiano se conhece o Djosinha ele diz “eu conheço, como é que você conhece?!” – e ele reformou-se com 86 ou 87 anos, fazia programação na WJFD desde o início. Como estava a dizer, para nós não há distinção de onde são, de onde vivem agora – é a comunidade portuguesa, nós transmitimos para todos.

 

A WJFD é um trabalho de união da comunidade no espaço, mas também no tempo. Alguns dos seus ouvintes ainda lhe chamam «A Hora Portuguesa», o nome que tinha a frequência 97.3 antes de 1973, quando era apenas um programa e não uma rádio. Essas pessoas, que hoje têm 80 e 90 anos, já ouviam «A Hora Portuguesa» nos anos 50, a altura em que chegaram aos EUA. Hoje, muitos dos jovens que ouvem a WJFD confessam ter aprendido o vício de ouvir a rádio com os avós e bisavós. Este público-alvo, multi-geracional, não deixa de representar um desafio para os programadores da WJFD:

Um dos desafios da nossa programação é transmitir para várias gerações, vários grupos etários – tem de haver sempre um balanço na música ou nos programas para agradar a todos. Quando vem música mais recente de Portugal, aquele rock mais pesado, temos de perceber onde é que encaixamos, como é que encaixamos. (…) Estamos sempre muito conscientes dessa programação, quem é que está no ar, o tipo de música, as notícias, os jogos da bola ou outra programação que se encaixa nessas horas. (…)

Na residência dos Arruda, uma inspiradora casa New England, com soalho de madeira, papel de parede vintage e janelas de guilhotina, encontramos muitos livros em português, bustos de escritores portugueses, álbuns de jardins de Portugal… A família regressa todos os anos à Ilha Terceira, onde «se sente perfeitamente à vontade», para passar férias, ir à praia, relaxar, mas esse regresso às origens é uma constante: na rádio, em casa, na ilha, os Arruda nunca se esquecem de cultivar o seu «lado português», ainda que sejam um casal pragmático, pouco dado a nostalgias inúteis, e apreciem a centralidade do lugar onde vivem. Como diz Paulina:

Basicamente, o que eu gosto é – e agora já se faz, antes era mais difícil, mas já há mais voos e mais companhias – de dizer “vamos a Nova Iorque” e pronto, metemo-nos no carro e facilmente vamos a Nova Iorque passar o fim-de-semana. Nos Açores, numa ilha, é mais difícil e há uns anos era mais difícil ainda – e agora, em certas alturas do ano, como no Verão, é difícil apanhar o voo. Eu gosto dessa liberdade de decidir vamos aqui ou vamos ali, vamos a Boston jantar fora ou vamos ao teatro. Numa ilha pequena não há.

Para esta Terceirense, nascida perto da Base das Lajes, a emigração não parece ter sido uma experiência traumática, como foi para os seus avós maternos, por exemplo, que chegaram a Nova Iorque em 1880, ainda antes de se conhecerem, e fizeram uma árdua viagem de comboio até à Califórnia. Paulina não subestima, contudo, a distância geográfica:

A emigração, para mim, não é uma pessoa meter-se dentro de um carro e fazer alguns quilómetros. Eu digo isso quando se fala na emigração portuguesa na Europa: é fácil chegar a Portugal, é fácil visitar Portugal, é fácil regressar a Portugal. Quando se tem de atravessar o Atlântico é mais difícil, é mais caro, tem de se trabalhar, tem de se marcar férias, tem de se acumular dinheiro para voltar e nem sempre pode ser todos os anos. A distância e o tempo – não só a distância da Europa para cá, mas o tempo que, muitas vezes, se demora a poder voltar.

É esta distância que torna o papel da WJFD ainda mais determinante, não só porque a rádio se empenha em corrigir a percepção que a comunidade portuguesa nos EUA tem de Portugal – «fazer a ligação ao novo Portugal» -, mas também porque quer modificar essa imagem obsoleta que o Portugal moderno ainda tem «do emigrantezinho que veio com a malinha. A comunidade já não é essa.»

A missão dos Arruda talvez seja maior e mais pesada do que qualquer um de nós está disposto a conceber nesse fim de tarde pluvioso e agradável em que nos recebem na sua casa, para dois dedos de conversa e um copo de rosé. Não memorizámos a marca, mas era americano, e soube-nos ainda melhor do que o nosso rosé português.

 

SEMANA 9

Protagonista: Paulina Arruda

Actividade: dona (juntamente com Henrique Arruda) da WJFD, em New Bedford, Nova Inglaterra.

Regresso: New Bedford, Nova Inglaterra – Ilha Terceira, Açores 

Anos de ausência: 38 anos

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