A delicadeza de um furacão

IMG_0858

Crónica

Ontem, a ilha adormeceu sob alerta de tempestade. Antes de ir deitar-me, corri os estores de todas as janelas, olhei para os meus cães, ligeiramente sobressaltados, e repeti-lhes várias vezes a palavra «vento», que lhes ensinei quando tinham meses, porque um nome pode ser o melhor antídoto para o medo.

Dormi a ouvir a força do ar a passar pelos Dois Caminhos e a decidir, como um louco que não sabe para onde vai, dividir-se ao meio, metade pelo Caminho de Além e a outra pela Fonte da Faneca. E dali acenderam-se no meu espírito as artérias da Terra Chã, que percorri de olhos fechados, pela noite dentro, até a luz do sol a bater nas vidraças se tornar mais ensurdecedora do que o ruído do vento.

Saio de casa cedo, de olhos semicerrados, e paro a saudar um vizinho sentado nos degraus da entrada. Ele responde-me com um sorriso complacente. Sinto as pernas pesadas, mas desço a rua a correr. Quero chegar ao cruzamento, porque sei que lá ao fundo, no princípio da Canada dos Folhadais, o mar aparece recortado no relevo da ilha – e puxa-me para dentro.

Uma corrida é uma espécie de abandono. Parte de nós não está ali. Corremos para chegar a esse lugar onde somos e não somos ao mesmo tempo. É um desaparecimento feliz, que se traduz em gramas, mas os gramas que perdemos não são água apenas: são desejos irresolúveis, taras que nos perseguem, metas que não cumprimos – porque continuámos sem dar por elas. A verdade é que nunca parámos de correr.

Na Silveira, explode a luz. Há banhistas no mar tempestuoso, vejo o delírio dos seus corpos brancos a esbracejar. Deixo-me envolver pelo cheiro quente da praia, sigo pelo canto do olho essa onda grande que entrou agora – e continuo. Da Aberta até ao Negrito, o vento bate-me de frente e estendem-se quilómetros de estrada e mar. Mas nunca, em nenhum ponto da ilha, ele nos ameaça, o que não deixa de ser avassalador. Que a delicadeza da geografia torne tudo mais angustiante.

Queríamos que o oceano espelhasse o que nos vai por dentro – os mastros partidos, as velas rasgadas, as cordas de salvação. Queríamos a fúria de Emily Watson em Breaking the Waves e a paixão de Ingrid Bergman à beira do vulcão. Mas há fogos extintos que nos acompanham a vida inteira e são eles que nos ensinam a disciplinar as nossas emoções.

Muitas vezes, quando corro, sinto um segundo coração. Ouço, em São Mateus, o tumulto dos barcos atracados no cais, as asas dos pássaros a lutarem contra o vento, o riso dos pescadores que não se fizeram ao mar e, lá no meio, um coração a bater ao meu lado que já nem é o meu. Foi Julian Barnes quem o disse – the past beats inside me like a second heart.

Então, desvio os olhos para o porto e percebo. É Peniche ao pôr do sol. É o frio na praia do Baleal quando o nevoeiro ainda não se levantou. São os meus pés na água gelada a dizerem-me que o Verão começou. É a criança que eu fui nesse areal onde a maré recuava até desaparecer. É a minha prancha de esferovite a subir uma onda de cada vez. A capela de pedra, isolada, e os saltos da falésia para o mar. São as travessias a nado e as primeiras noites passadas em branco, a filosofar.

É o sorriso dos meus amigos de infância a dizerem-me que a aventura ainda não acabou.

8 thoughts on “A delicadeza de um furacão

  1. Muito bom.
    O ruído do vento em Peniche ainda ecoa nos meus ouvidos desde os anos oitenta quando lá dei aulas. Inigualável, pensava eu, até saber que por aí se ouve também, quase da mesma forma.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s