Da vontade de rir e chorar

Crónica

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São oito da manhã, e o motorista que me trouxe de volta a Lisboa, a tempo de um compromisso marcado à última hora, deixa-me nos limites do Lumiar, de modo a proteger-se das filas de trânsito. Há um cheiro a Verão em volta e uma luz deitada sobre as cordas de roupa nas varandas. Olho a pequena papelaria de bairro, de onde sai um senhor com um jornal da mão, e de repente, sem que perceba bem como, é 1997 outra vez. É 1997, e eu tenho 23 anos, e os passeios que bordejam as ruas são exactamente assim, desolados e libertadores, e as pessoas lêem jornais pela manhã, e é possível até que eu tenha escrito no que aquele senhor lê.

Há trânsito, evidentemente que há demasiado trânsito, mas hoje não é um dia daqueles. Compro o jornal também, ergo a mão a chamar um táxi e peço que tome o caminho de Benfica. Das colunas ecoam as notícias da TSF: Marcelo acusou Guterres de demagogia, afinal foi a miúda que se atirou a Clinton, concluiu-se mais um pavilhão da Expo. Está um andaime montado quase no meio da rua, afunilando a circulação, e apita-se bastante. Fecho os olhos, a tentar ignorar a tensão precoce, e dali a pouco a rádio passa das notícias aos Massive Attack: You are my angel/ Come from way above/ To bring me love.

Tudo na cidade se espreguiça hoje mais vital do que mecanicamente. Sou daqui também. Aqui regresso.

Lembro-me da Estela, que está a fazer um estágio na Holanda. Do Alcides, que amanhã segue para o Brasil, a ver a mãe. Tenho de telefonar-lhes. Lembro-me da Suzana que começou a trabalhar na Telecel, e da Pipa que eu gostava tanto de levar aos Açores, e da Yara que parece que arranjou um namorado francês. Saio do táxi, menos de 400 escudos como só num dia de pouco trânsito, e, como ainda tenho uns minutos, entro numa pastelaria para um café. Os clientes mastigam olhando a janela, tristemente, mas a certa altura entra um daqueles homens de meia-idade dados à jovialidade matinal, Ora bom dia, bom dia, bom dia!, e despertam quase todos da sua dormência, como se se dessem conta do quão boa, apesar de tudo, é a bica diante deles.

Tiro o meu Toshiba do saco preto que trago ao ombro. Abro o Wordstar com o texto que tenho em curso. Do outro lado do vidro passam autocarros. Alguns trazem palavras esdrúxulas escritas à ilharga, como Rodoviária. Uma rapariga ao volante de um Citroën AX leva um cigarro apagado entre os lábios. Pessoas à minha volta trocam piadas primárias, verdades absolutas, conselhos egoístas. Cheira intensamente a bolos quentes, para minha imensa volúpia, e por instantes tenho a certeza de que vou tomar este mundo sozinho, eu e o meu Toshiba – tenho a certeza de que vou pôr o mundo todo dentro do Toshiba e reduzi-lo a um texto só, a uma frase imortal, e talvez seja hoje mesmo o dia em que essa frase me vai ocorrer.

Só depois me lembro que não é 1997, mas 2018, e que essa frase ainda não me ocorreu, nem sequer esse texto, e que algumas das pessoas a que devia telefonar já nem estão na minha vida, de onde aliás saíram tragicamente. E que um táxi do Lumiar a Benfica não custa agora 400 escudos, mas seis euros, três vezes mais. E que tão-pouco eu vivo agora nesta cidade mas numa ilha, onde não preciso andar de táxi e em vez de andaimes tenho araucárias, buganvílias e rosas. Não se bebe um só bom café, em toda essa ilha, e de repente tenho vontade de chorar – e agora também já não sei se choro pelo lugar se pelo tempo, se por Lisboa se por 1997, se pelo que me rodeia ou pelos meus 23 anos, e o homem que quase fui, e tudo o que não fiz, e aquilo de que me livrei.

A vida é tanto uma tragédia como um milagre. Mas, se uma pessoa chega a uma idade em que quase tudo lhe dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, pode concluir o quê, se não que a tem vivido? Uma vida em que não se ri nem chora, em que nenhum motivo é grande o suficiente para se rir e chorar – que vida teria sido essa, afinal?

Foto: © António Fonseca Tavares

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