Imunes ao paraíso

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Crónica

Uma mulher passa quarenta e um dias num barco à deriva – e sobrevive. Um furacão no meio do Pacífico levou-lhe tudo: o noivo, o sonho, a carne (perdeu 18 quilos), a ilusão de que há lugares onde somos eternos.

Tami Oldham tinha vinte e três anos e Richard Sharp trinta e quatro quando o Hazana, o iate de luxo que deviam levar do Taiti a San Diego, foi colhido por ventos de 230 Km/h e ondas de 12 metros. Quando Tami acordou (vinte e sete horas depois), o mastro principal estava partido, as velas esfarrapadas, o barco inundado e deserto.

É aqui que tudo começa. Tami talvez queira morrer, mas vê um frasco de manteiga de amendoim a boiar nas águas e abre-o. Não sabe bem se está viva, mas olha para o mar, de súbito tranquilo, e enfurece-se. O Hazana é um caixão a flutuar no Pacífico, mas ela improvisa uma vela e fixa um rumo com a ajuda de um sextante. Ao tocar na cabeça, percebe que tem um golpe fundo e que a vida lhe escapa, mas ouve uma voz difusa e decide obedecer-lhe.

Tudo isto nos é familiar. Quantos de nós não adormecemos no paraíso e acordámos no meio da devastação? Há soluções imediatas a boiar nos escombros e uma impotência do tamanho do mar. Há um exército de instrumentos que não funcionam e o milagre de um velho sistema de navegação.  De repente, uma voz que ainda não sabemos que é a nossa – mas que nos mantém vivos – diz-nos qualquer coisa. É um grito mudo, sem oxigénio, mas vem cheio de uma fúria que acende a noite.

Nunca mais me esqueço desse jardim imaculado, na casa de uma viúva, onde havia uma porta minúscula pintada de azul celeste. Tinha vinte centímetros de altura, dez de largura, e era por ali, explicou-me ela, que entravam as fadas. Ficámos as duas a olhar para aquela porta, e talvez os seus olhos me tenham sorrido com uma auto-ironia salutar. Havia uma irreverência azul celeste a tentar romper o luto. E disto se fazia o seu heroísmo.

Parafraseando John Cassavetes, «eu nunca vi um furacão. Nunca passei quarenta e um dias à deriva no mar. Mas já vi pessoas a destruírem-se a si próprias da maneira mais comezinha – já vi pessoas a abdicar (…)».

Não precisamos de um furacão para nos convencermos de que estamos vivos. Só que há quem passe uma vida inteira à espera de que ele aconteça para se salvar. E a maior parte das vezes, ainda que o procuremos no horizonte, o cone metálico feito de pó e de vento não chega sequer a formar-se.

Deus já nos visitou a todos – e já nos abandonou. Não lhe sigo o rasto no meio da floresta de laurissilva, essa mata incandescente que percorremos numa tarde de calor. Mas há uma estrada de terra vermelha que atravessa a ilha, longe da areia e das ondas do mar, onde um touro enraivecido pode, a qualquer momento, provar-nos que somos heróis.

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