Anatomia da infância

Crónica

Joel Neto

Tenho-me lembrado daqueles Verões que os meus primos passavam lá em casa. Os primos são o supremo privilégio da infância, o melhor brinquedo e a melhor surpresa semanal e o mais encantador repositório de memórias. A sorte bafejou-me com muitos, açorianos, continentais e franceses. Mas o Rúben e o Ismael sempre ocuparam um lugar particular, e talvez não apenas por serem os da geografia mais próxima.

Eu e o Rúben éramos uma espécie de negativo um do outro, eu totalmente passional e ele precoce e decididamente racional. Talvez se pudesse dizer que representávamos na perfeição aquilo que o outro não queria ser, salvo que eu queria muito ser ele, o que de modo nenhum contribuía para apaziguar as coisas. Mas depois havia o Ismael, com aquela descontracção sábia e cómica a que devemos tanto. Reequilibrava-nos. E chegávamos a ser indomáveis.

Construíamos campos de futebol e pistas de corridas. Subíamos às árvores e abatíamos essas árvores para fabricar traves e instrumentos de arremesso. Fazíamos jornais em máquinas de escrever, com notícias desactualizadas do Sporting, do Benfica e do Ayrton Senna. Andávamos na BMX do Rúben.

Como era belo, o Rúben, ao subir para cima daquela BMX preta que os tios da América lhe tinham oferecido. Quando se sentava na sua BMX, o Rúben era pouco menos do que o anjo vingador, poderoso e rápido e belo. Admirávamo-lo infinitamente, e nem sequer éramos só nós.

Pergunto-me o que terá feito ele àquela bicicleta. Tenho a certeza de que está bem limpa e arrumada no sótão da Tia Edite, onde desde que nasceram a Rebeca e a Raquel puderam ir visitá-la todos os domingos à tarde, como num museu.

Não sei. Sei que, se foi uma infância estupenda, a minha, talvez tenha sido primeiramente por os meus primos terem vivido lá em casa aqueles Verões todos. Mais precisamente um Verão, percebi hoje: um Verão em que os meus tios foram ao continente e, anos depois, umas semanas quando o meu tio ficou doente – não mais do que isso.

Por junto, concluo agora com estupefacção, os meus primos não terão vivido em minha casa mais de três ou quatro meses. E por volta de 1983, no máximo 1984, a reconstrução das casas à volta da nossa já tinha acabado. E aquela tangerineira enorme que tínhamos no quintal só deu frutos mais um ano ou dois. E aqueles baloiços que o meu pai fez nos três castanheiros por detrás da roseira-do-Japão apodreceram ao fim de pouco tempo. E o Fidalgo morreu a minha irmã ainda era bem criança. E a Rita deu porquinhos, mas não tantas ninhadas assim.

E nós comemos a Rita. E os guinchos da Rita quando a matámos ainda hoje ecoam algures, a um canto da minha memória, por detrás de uma porta que eu não posso abrir. E o meu avô às vezes era um anjo e outras vezes era teimoso e colérico. E de maneira nenhuma eu merecia aquela tão cabal e injusta preferência dele.

Mas é assim, apesar de tudo, que recordo a minha infância. Uma década dela, sempre igual: uma freguesia em obras, uma tangerineira e um cão. Os meus primos. Aqueles baloiços lá em cima. Os castanheiros e a roseira-do-japão, uma porca que bebia água pela mangueira e procriava. Um avozinho perfeito – é assim que eu recordo a infância, apesar de poucas dessas coisas terem sido contemporâneas umas das outras, e é a partir desse quadro colorido e doce que não só regresso ao passado, mas provavelmente escrevo os meus livros.

A nossa infância nunca existiu, a verdade é essa. Fabricámo-la nós, fundindo tempos e espaços e ficções, e agora perseguimos essa mitologia como quem reordena o mundo, quando de facto estamos a ordená-lo pela primeira vez.

Nunca existiu, a nossa infância, mas existiu a ilusão dela, que é mais do que se pode dizer em relação a tantas coisas que nem uma ilusão chegaram a ser. Para mim chega como ponto de partida.

Foto: © António Araújo

3 thoughts on “Anatomia da infância

  1. Ó Joel Neto, a sua infância ainda foi como a minha, apesar das diferentes idades.
    Tivemos sorte, muita sorte, por termos tantas lembranças felizes para a reconstruirmos com um sorriso.
    O texto é lindo…como sempre.

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  2. Adorei. A final as recordações que guardo desse tempo de infância também são períodos gostosos de conquistas e partilha com primos e avós.
    Hoje esforço-me muito para tentar proporcionar aos meus netos, vivências entre primos, que possam mais tarde guardar como momentos doces de pequenas loucuras de fins de semana.
    Obrigada Joel Neto.

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