Ardendo na luz de Setembro

kate e jasmim serreta

Crónica

Sempre invejei aquelas pessoas que tomam o pequeno-almoço de robe. No velho apartamento do Bairro Alto, quando descia as escadas para ir trabalhar, sentia o cheiro de torradas acabadas de fazer e imaginava-os de robe, ao casal que vivia por baixo, a tomarem o seu pequeno-almoço devagar, às sete da manhã.

Para mim, era um manifesto contra a voragem do tempo. Que, independentemente dos copos de vinho que tinham bebido ao jantar na noite anterior (e eu bem ouvira o saca-rolhas, garrafa atrás de garrafa), se levantassem tão cedo só para poderem vestir os seus robes e saborear as suas torradas.

Em Lisboa, a vida era uma corrida, era um cansaço. Sucumbíamos à porta de um bar que se encadeara com a saída a desoras do trabalho só porque, naquele momento, seria impensável pousar a cabeça a ferver em cima da almofada. Dormíamos de pé, dormíamos por dentro do fumo dos cigarros e dos copos de balão, dormíamos a dois metros de casa, sentados nos degraus da calçada, até um vizinho nos perguntar: «Posso entrar?» E nós medíamos as nossas reservas de tabaco (e de outras coisas) e dizíamos, a arrastar a voz: «Há sempre lugar para mais um.» O vizinho ria-se, cheio de paciência, e corrigia: «Em casa. Eu só quero entrar em casa.»

Nessa noite, entreolhámo-nos, com vergonha. Este homem só quer entrar em casa, e nós aqui a impedir-lhe o caminho, em fuga não se sabe bem do quê. Da manhã? Do tempo? Do trabalho que inventámos? Do amor que nos escapou?

Os vinte são uma idade maravilhosamente estúpida. Cheia de surtos de tenacidade e de teimosa desilusão. Choramos como velhos a recordar um passado que ainda não vivemos. Rimos como crianças da infância que já não temos. E quando, um dia, sentimos o cheiro de torradas pela manhã, e os trinta nos tomam de mansinho, a vida de repente já não nos parece tão assustadora – não porque enfrentámos os nossos maiores medos, mas porque aprendemos a dar o braço a todos esses fantasmas e passámos a noite com eles, a fumar.

Hoje em dia, ainda não visto robe nem como torradas de manhã. Às vezes, sento-me nos degraus das traseiras a olhar para o jardim, mas, se não tiver a minha chávena de café na mão, pergunto-me logo o que estou ali a fazer. A contemplação é um tributo que prestamos à profunda indiferença da natureza. São pequenas as nossas dores nos vários cambiantes de verde que se acendem com a passagem da luz, são ínfimas as nossas inquietudes na gloriosa explosão de roxo que é uma buganvília em flor, são ridículos os nossos fracassos quando corremos pela calçada com vista para o mar e uma chuva com sabor a mel nos molha devagarinho.

A Terceira, descobri-a aos quarenta. Voo quilómetros pelas canadas da ilha, perco-me nos matos e nos trilhos pedestres, ando de canoa, de pedal e de prancha, encho-me de sangria nas festas populares, danço o que não é dançável e ainda quero mais. Há uma vontade quase canibalesca escondida nas inércias da idade. Uma espécie de «selva polar», como canta Arthur H., um «vamos comer Caetano», como diz Adriana Calcanhoto, evocando o espírito do Carnaval. Talvez por isso eu tenha, da natureza inebriante destas ilhas, uma visão peculiar: a mesma de Pieter Bruegel, um mestre flamengo da Renascença, quando pintou Paisagem com a Queda de Ícaro. Ícaro, cujas asas de cera foram derretidas pelo Sol (porque ousou subir demasiado alto…), acabou de cair no mar. Mas o mundo idílico ali retratado cumpre serenamente as suas rotinas, em tudo alheio ao quase invisível par de pernas que se agita nas águas.

A paisagem é um deus risonho a brincar connosco: se lhe morrermos aos pés, ninguém repara. Ninguém repara porque está sol. Ninguém repara porque está calor. Ninguém repara porque alguém se riu. Ninguém repara porque a nossa morte se dilui na luz.

12 thoughts on “Ardendo na luz de Setembro

  1. Desde garota, e em virtude de viagens que fiz com os pais, e por comparação, que sempre senti haver um preço a pagar por viver exposta a tanta beleza natural. No regresso dessas andanças, encontrava sempre o que de mais exuberante os meus olhos poderiam querer ver… e o incómodo longínquo de ser uma privilegiada.
    Cultivo, após todos estes anos, a convicção de que a generosidade desta natureza nos resguardará de um final “icariano”.
    Obrigada pelas palavras que galvanizaram memórias.

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