Agora que subo esta mata e piso estes socalcos

Crónica

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Ao sexto dia de férias, subo a mata com a Jasmim. O Manuel e o pai andam a insistir comigo há semanas, pelo telefone, e quando aqui há dias passei momentaneamente na ilha, vindo já não sei de onde e a caminho já não me lembro bem do quê, apanharam-me logo: “Então, como é? Diz que só vinha no dia 12…”

Querem que verifique o trabalho feito, e, agora que estou finalmente de volta, e que recuperei pelo menos algumas das forças, e que ainda me parece ter tempo para recuperar as que vou perder nesta subida – agora subo. A minha mata que já não é uma mata, mas um descampado cheio de novos trilhos e socalcos. Num dia de Verão que já não é propriamente um dia de Verão, mas a promessa de um Outono precoce e chuvoso – subo pachorrento, ao lado do meu cão que também não é bem um cão, e sim uma cadela, aliás mais da Catarina do que minha, e é tão pouca a motivação que, a dada altura, chego a temer não conseguir subir.

Nos últimos quatro meses, apresentei livros e participei em debates, dei e fiz entrevistas, percorri as minhas ilhas, o meu país e até outro país. Contei-os ontem: ao todo, apanhei mais de duas dezenas de aviões, fugazes e longuíssimos. A única atenção que me sinto capaz de dispensar, neste momento, é àquele Fitzgerald que estava para ler há tanto e ontem à tarde, estendido sobre o areal da Praia, foi quase todo.

Mas o Manuel e o pai são gente de trabalho, cujo empenho merece ser respeitado. Tenho realmente de conferir o abate da mata, de pedir as correcções de trajectória que julgue necessárias – e é isso que faço enfim hoje, exausto ainda, na manhã do sexto dia.

E de repente, sem que me aperceba sequer porquê, a chuva deixa de ser um empecilho e passa a ser um refrigério – um milagre, tanto para o jardim como para o pomar, sufocadíssimos pela seca. E a Jasmim também já não é apenas o cão da Catarina, ou sequer um cão que dê trabalho, mas o cão perfeito, o oposto do Melville, acompanhando-me a par e passo, distraindo-se com as libelinhas e logo acorrendo à minha chamada. E esta mata – oh, meu Deus, esta mata –, esta mata não é um descampado. Como é possível que me tenha parecido um descampado, ao avistá-la lá de baixo?

Subo-a e, se aceitasse pensar nisso, não encontraria de facto o Cerrado do Aguilhão, nem a Ladeira Vermelha, nem a Matinha – nenhum desses lugares míticos da minha infância que outros madeireiros, antes destes, arrasaram. E, contudo, para minha própria surpresa, não é nisso que penso. É nos castanheiros que planeio plantar aqui, com a ajuda do Sr. Francisco e do Rúben. Nos lugares apropriados a cada um deles. Nas potencialidades daquele caminho que a Jasmim percorre agora, atrás de uma borboleta – no arranjo que poderei fazer junto àquelas pedras amontoadas.

É na minha mata que eu penso, não na do meu avô: nesta modesta parcela de que quero agora fazer minúscula quinta, cultivando as castanhas que ele cultivou, mas à minha maneira. Porque – e a epifania é essa – esta mata é efectivamente minha. Aqueles socalcos são meus. Esta casa é minha e este pomar é meu e este jardim é meu também. Já não é do meu avô, nada disso: é meu – o que ergui para honrar a nossa memórias e até isto que durante anos deixei como ele deixou e finalmente transformo.

No outro dia percebi que nem o Chico, que vive aqui na Terra Chã há 25 anos e já é mais do que um homem da freguesia, se lembra do meu avô. Um dia antes, vindo das festas de São Mateus, dera boleia ao Mário, aquele miúdo da Graciosa que veio para aqui há uns anos com os pais: nem se lembra no meu avô, nem se podia lembrar, nem o velho desta casa alguma vez poderia ser o meu avô, porque na verdade quem será o velho desta casa sou eu.

O homem disto sou eu, e eu fui o último a percebê-lo. Há muito tempo que, para toda a gente aqui à volta, o homem desta casa sou eu – e agora resta-me sê-lo até que não me falte senão ser o antepassado de alguém que talvez me honre a mim até, finalmente, aceitar ser o homem ou a mulher dela.

 

foto: © António Araújo

 

6 thoughts on “Agora que subo esta mata e piso estes socalcos

  1. Adorei este texto. A vida e os lugares estão repletos de memórias. As do seu avô perdurarão nessa casa, porque estão, essencialmente, dentro de si. E é isso, possivelmente, que torna esse lugar tão especial e único para o Joel.

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  2. Já não é a casa do seu avô (de quem ainda tenho uma vaga memória), isso pode dizer se sem dúvida. É a casa do Joel, e tem dado um novo ar ao Largo dos Dois Caminhos, aquele ar de que bem precisava. 🙂

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  3. Muito bom, muito belo, um cheirinho poético a entrelaçar-se nos odores que as ilhas libertam e oferecem a quem ama o seu chão. Até a Jasmim ganha honras de perfume em busca das borboletas soltas pelas matas que, apesar de tudo e dos anos, permanecem. Um abraço

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