Fecho os olhos para ver

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Crónica

Entrei na Strand Bookstore, uma livraria mítica no centro buliçoso de Nova Iorque, em busca de salvação. Minutos antes, ouvira Alain de Botton no meio do trânsito, em podcast, falar do seu último romance, The Course of Love, e pensei: será um sintoma de alguma patologia grave interessar-me pelo que um autor suíço, perdido entre a filosofia conjugal e a autoajuda, tem a dizer a respeito do amor? Esse amor que perdura depois de já termos sido «felizes para sempre»?

A estante onde fui encontrá-lo deu-me a resposta: «Books to help you escape the madness». Livros que vão ajudá-la a escapar à loucura! Perfeito, pensei, ouvindo pela primeira vez a voz daquela livraria. Olhei para o espaço em redor, para as «18 milhas de livros» (novos, usados, raros) que anuncia a publicidade da Strand, mas já não saí dali. Levei comigo o Alain de Botton e duas peças de teatro: A Slight Ache (Uma Dor Ligeira), de Harold Pinter, e Death of a Salesman (A Morte de um Caixeiro-Viajante), de Arthur Miller. O primeiro porque todos nós, casados, na meia-idade, sentimos essa pequena dor dormente e crónica que não sabemos de onde vem. O segundo porque sempre achei que, para vencer na vida, uma pessoa tem de aprender a vender as suas ilusões.

Tornei a sair para o calor da Broadway confortada com a ideia de que, antes de eu nascer, a literatura já tinha resolvido todos os meus dilemas sentimentais e ali, no meio da multidão de turistas, do ruído do trânsito, de nova-iorquinos discretos a tentarem reclamar a sua cidade num sábado de manhã, acode-me ao pensamento uma imagem que irá acompanhar-me a vida inteira: a cama do lado num quarto do hospital de São José, em Lisboa. Duas mulheres de mãos dadas a chorar um homem moribundo. Uma, a legítima, a outra, ilegítima. Conheceram-se ali, no fim. E, depois de tantos anos a travarem uma guerra silenciosa contra uma adversária invisível, deram as mãos. Comoveu-me a impotência do gesto. A fragilidade daquela geração.

Talvez o melhor desta vida se faça de alianças improváveis, de uma profissão de fé naquilo que não se acredita, de uma desconfiança optimista nesse imponderável que nos cerca. Uma miúda chinesa sorridente, numa carruagem do metro de Nova Iorque, olha para o pai e para a sua mulher grávida (que conversam em Mandarim) e comunica-lhes em inglês: «I feel I don’t belong to this family.» Um casal de ex-junkies faz-se pintar o retrato no cais, com a estátua da liberdade ao fundo, mas ele não gosta do que vê e vai-se embora sem pagar. Ela segue-o, dois passos mais atrás, de cigarro na mão – será que alguma vez acreditou?

Para mim, uma cidade só se torna autêntica quando me distraio da sua arquitectura e vem ao meu encontro a tristeza residente. Pode vir na voz solene de um empregado da recolha do lixo a quem pedimos indicações: «Did you say 36 Street Station?», ou nos néones vermelhos e azuis da bandeira americana que enfeitam um posto de recruta militar em plena Times Square, pode vir escondida no sorriso de Doneeta, nesse diner em Brooklyn, quando nos falou do pai famoso, que era pintor.

Não me aflige o que já não vou fazer, essa autoestrada perdida. Mas atormenta-me o que já não consigo ver. Nova Iorque teria sido invisível sem a passagem pela Strand, sem as viagens de metro, sem a refeição no diner de Brooklyn às quatro da manhã, enfim, sem os nossos monólogos, penosos e eloquentes, com o call-center da Meo, quando nos perdemos, sem dados ou GPS, nos subúrbios da cidade. Nas insuficiências da tecnologia, emerge tantas vezes a intimidade. E de uma coisa podemos estar certos: ela pode sempre falhar.

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