Manual de sobrevivência para a meia-idade

Crónica 

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Ao fim de um minuto de viagem, o serviço de dados do meu telemóvel desliga-se por razão nenhuma e ficamos sem GPS. Andamos nisto há dias, porque quando saímos da Califórnia eu decidi que haveria de convencer a rent-a-car de Boston a dar-nos um SUV pelo preço de um utilitário, mas esqueci-me de exigir sistema de navegação também. Deixado às cegas, ando desde esse dia a enfiar o SUV em becos sem saída. Às vezes o GPS do telemóvel funciona, outras não, e não é por o fornecedor ter adquirido nome brasileiro que o call center passou a ter gente em vez de scripts.

Agora estamos a meio da Quarta Avenida, algures nos cruzamentos com as ruas Vinte e Tal, e não sabemos sair daqui. Se se tratasse de Manhattan, ademais onde a Quarta se cruza com as Vinte e Tal (ou seja, no coração da Park), seria quase fácil. Mas esta é a Quarta Avenida de Brooklyn, para lá do Bronx e de Queens. Na altura pareceu-nos boa ideia instalarmo-nos aqui, determinados a conhecer melhor a Nova Iorque da classe média (e do Smoke), e as noites passadas naquele diner da Quinta com a Trinta e Nove, onde trabalha a Doneeta e comemos as melhores-piores home fries da viagem, esforçaram-se por confirmá-lo. Agora, porém, são quatro da manhã e esperam-nos dezenas de quilómetros e nem sei quantos nós de auto-estrada até passarmos para as Interstates Noventa e Cincos e podermos considerar-nos realmente a caminho do Massachusetts, onde devemos embarcar – ainda por cima com paragem numa cidadezinha do Connecticut onde, na sexta-feira, nos esquecemos de um computador.

Damos por nós a vaguear na noite. Telefono várias vezes para o call center, faço reclamações e ameaças – nada. O telemóvel do Arlindo é de outro fornecedor, mas não chegamos a activar-lhe os dados. O da Catarina sempre dá qualquer coisa, mas as mensagens com que pedimos o reforço do serviço não têm resposta, pelo que vai acabar sem dados também. Talvez devêssemos levar as mãos à cabeça, começar os preparativos para apanhar outro voo. E, no entanto, em nenhum momento chegamos a admitir perder de facto o avião.

Em nenhum momento chegamos a admitir perder o avião porque esta cidade nos é, de algum modo, familiar. Já aqui escrevi sobre isso e sobre como já não podemos vir conhecê-la: apenas revisitá-la. Mas, à medida que, com as ajudas disponíveis e também às apalpadelas, descobrimos a ponta do novelo e conseguimos apontar o carro a Norte, e de repente já estamos em Bay Ridge, e de Bay Ridge vamos para Brooklyn Heights, e daí para Williamsburg, e Port Morris, e Soundview, e Schuylerville – à medida que nos aproximamos das Noventa e Cincos, isto é, Nova Iorque já não me parece apenas uma cidade familiar, mas quase íntima, íntima mesmo, e agora aquilo de que me apercebo, com uma inusitada sensação de perda, é que já não vou viver nela.

E nem é só ela. Já não vou viver em Nova Iorque como já não vou ser marinheiro. Já não vou estudar neurociência (ou sequer psiquiatria) ou tão-pouco jogar no Sporting. Já não vou tocar Bach numa orquestra sinfónica. Já não vou ensinar literatura num colégio da Nova Inglaterra nem ter um paixoneta pela professora de matemática. Já não vou aprender matemática. Já não vou ser forte dos gémeos. Já não vou conhecer os anos 20. Já não vou escrever o meu primeiro livro. Já não vou decidir quem sou, e mesmo quem quero ser – suspeito agora – vou decidir cada vez menos, à medida que comece a sobrar a carga e a escassear as mãos.

É um breve instante de depressão, talvez: uma súbita preclaridade sobre o tempo que cumpri, o tempo que ainda é legítimo esperar cumprir e a força para o manipular da mesma maneira. Ou então será apenas mais um desses dias em que decidimos chorar os nossos mortos, enxugando as lágrimas decididos a viver também por eles aquilo que nos resta. A descoberta da intimidade nunca se fez sem uma certa vertigem, e, numa cidade como estas – como esta –, intimidade e doença parecem sempre vizinhas uma da outra. Talvez não nos reste senão continuar a conduzir em direcção a Norte.

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