«Eu sou do tempo em que não havia nada em plástico»

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Venceslau nasceu na Fajã de São João, na Ilha de São Jorge, e construiu uma casa na Fajã do Fischer, na Terceira: toda a vida procurou um lugar onde sentisse reproduzido o palco da infância

Venceslau Reis, 70 anos, residente na Fajã do Fischer, na Ilha Terceira, olha da sua varanda para São Jorge, a ilha onde nasceu, que se vê ao fundo. Viveu até aos dezoito anos na Fajã de São João e, quando lhe perguntamos se gostaria de voltar a viver em São Jorge, responde, peremptório: «Não.» A pergunta foi mal formulada, não tardamos a perceber, porque a fajã, para Venceslau, é muito mais do que a ilha.

Já dentro de casa, sem desviar o olhar, aponta para a janela: «São Jorge está ali. Vejo-a todos os dias», diz, como se lhe bastasse. Quando referimos a Fajã de São João, porém, enche-se de lágrimas e assume a emoção. «Estou emocionado, porque é assim mesmo.»

Construiu com o pai uma boa parte dos muros de pedra que delimitam os caminhos íngremes da encosta da fajã. Aprendeu com ele, e com o irmão mais velho, «a arte da pedra» e, mais tarde, veio a trocá-la pela «do cimento», de que não gosta tanto. «O meu pai era uma pessoa do calhau», descreve, falando das pontes que construíram juntos e de uma bica da sua lavra para onde «encanou» uma água boa. «Era uma água boa, porque fazia arrotar a gente.» Referindo-se às curvas do caminho velho, o dos carros de bois, volta a chorar: «Todas as voltas tinham um nome. Eram descansadouros.»

Quando lhe pedimos que recorde a infância, diz-nos que a escola só chegou à fajã  quando ele tinha 9 anos. «A minha infância foi a acartar molhos de lenha às costas e milho», que o pai ia buscar ao Topo, em troca de peixe. «Éramos felizes.» Vendo que isso nos surpreende, acrescenta: «a senhora não tem noção. Naquela altura, a fajã tinha muita gente.» A mãe, boa mãe, mas «excelente» cozinheira, dava muito pão de milho, que era feito com o milho depois de assado no forno, «mas não lhe ficavam a dever nada», explica, «porque os vizinhos lhe traziam o queijo e o leite».

Imaginamos esses longos dias de trabalho na fajã, onde tantas vezes ficava «a governar chicharro até à meia-noite, à luz do petromax», e os dias em que a chuva dava uma folga aos trabalhos mais pesados, e reconsideramos. «Eram felizes.» Hoje, imigrado na Terceira há já 52 anos, Venceslau vai de visita a casa do pai, de que é proprietário de 7%, e come por lá umas lapas, com os irmãos e amigos. «Nunca pensei que um dia ia haver carros na Fajã de São João», reflecte, lamentando ainda o quebra-mar, construído por cima de uma pequena baía de calhau miúdo, que acabou com «aquele barulho que as ondas fazem a enrolar-se nas pedras». E que o ajudava a adormecer.

«Eu sou do tempo em que não havia nada em plástico», afirma, com um certo orgulho, mas, na garagem da sua casa, guarda um manancial de ferramentas de todos os tipos e materiais. A mulher, «que estava sempre a travá-lo», faleceu há quinze anos. «Apanhei-me livre», confessa, «e tenho uma cegueira por ferramentas que é uma coisa doida.»

A viuvez foi um grande desgosto e houve outros, de que não fala, que o levaram a um internamento temporário numa casa de saúde mental. Agora, alegra-se com a perspectiva da chegada do filho mais velho, que emigrou para a Inglaterra e vem de férias, com a namorada, no dia 10 de Agosto. Recorda com emoção a luta inglória de Paulo por um emprego na Terceira, e o dia em que, por fim, lhe declarou: «Pai, eu não espero nem mais um dia, nem mais um mês, nem mais um ano.» Pesou-lhe a partida do mais velho, mas é um homem resignado com a fatalidade da condição de ilhéu.

Hoje, quando se lhe pergunta se a vinda de São Jorge para a Terceira foi uma emigração, hesita. «Foi uma deslocação». Depois, reconsidera: «Bem, quem foi para a América não levou nada, mas nós tivémos de trazer tudo connosco.» Na Fajã do Fischer, rodeado de tomateiros e de vinhas que ocupam uma boa parte dos seus dias, sentimos a sombra perene de São João, «uma fajã muito saudável», descreve, «boa para a gente respirar. Com muito arvoredo e vinhas escondidas na encosta.» Remata com uma crítica: «Isto aqui não devia chamar-se Canada das Vinhas. Devia ser a Fajã do Fischer.» E, de novo, percebêmo-lo. A fajã antes de tudo o resto.

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Na Fajã do Fischer, Venceslau Reis cuida dos tomateiros e das vinhas e aguarda a chegada do filho que vive na Inglaterra. Quando o telefone toca, suspende-se a entrevista, pois é grande a expectativa da sua chegada.

SEMANA 5

Protagonista: Venceslau Reis

Idade: 70 anos

Actividade: aposentado

Regresso: Fajã do Fischer, Ilha Terceira -> Fajã de São João, Ilha de São Jorge

Anos de ausência: 52 anos

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