O amor é uma casa desmontável

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Crónica

Entramos na casa dos Linhares, uma mobile house nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e ficamos na expectativa de que o chão vacile. Uma mobile house é uma casa desmontável. Pode ser transportada para outro lugar. Tem escadinhas, um alpendre, telhado e janelas, como as outras casas, e vasos com plantas a decorar a entrada, pequenos gnomos de jardim, uma faixa estreita de terra à volta, onde crescem árvores que parecem lá estar há anos. No interior da casa, ouvem-se os espanta-espíritos pendurados no vão das janelas. E cheira a flores.

São felizes, o António e a Maria, apesar de a vida os ter empurrado para uma segunda emigração (à porta dos 60 anos) e de o trabalho lhes exigir ainda que se levantem muitas vezes às três da manhã. Dizem: «A nossa casa é o lugar onde nós os dois estamos» e, sem querer, olho para baixo, para ver se deram as mãos. Não deram. Mas é como se tivessem dado. Ele fala muito. Ela sorri. Não sei se é cumplicidade, se é construção, mas sei de muitos que vivem anos na mesma casa – nessas de pedra e de cimento, com telhados de telha e alicerces de betão – e que nunca lá estiveram, de facto, ao mesmo tempo.

A Maria serve-me uma água com gás e sabor a mandarina e eu reparo que tem outras vinte guardadas na sua pequena despensa. Insiste comigo: «Leva duas, vais ter sede», e eu constato que estou, de facto, com sede. Que vim do calor lá de fora, um calor que não se sente aqui dentro, e que o calor voltará a cercar-me assim que sair do seu pequeno oásis desmontável. Quero acreditar que são reais, estas pessoas, e belisco-me. A água com sabor a mandarina não me tira a sede, mas faz-me sorrir também. Talvez sorrindo eu comece a falar a mesma linguagem.

Tento não pensar nesse Deus que eles perseguem todos os domingos de manhã (são membros da East Valley Church, uma Igreja Baptista de San José) e de que nos falam como se fosse incontestável. Porém, quando me explicam que Deus é «a nação» onde se instalaram, nessa casa colorida e desmontável com cheiro a flores onde se ouve o murmúrio dos espanta-espíritos, quase me esqueço do que significa a palavra «Deus». Quase lhe atribuo um novo significado. Quase desaprendo a palavra «fé», tornando-a mais familiar, mais minha. Qual indígena de uma ilha do Pacífico a ouvir pela primeira vez o português dos lábios de um missionário.

Os Linhares não chegam a converter-me. Mas a possibilidade enternece-me.

Acredito nisto: que há certas palavras que envelhecem nos nossos bolsos como aqueles rebuçados de que nos esquecemos durante anos (descobri há pouco, no bolso de trás de uns jeans da minha adolescência, uns caramelos fossilizados que me ofereceu o meu primeiro namorado. Foi num parque de campismo, no Gerês).

Ensinam-nos o que significa «casa», «família», «amor», «intimidade», e a definição cristaliza-nos no cérebro como se não tivéssemos de reinventá-la. Mas, enquanto me despeço de Maria, digo a mim própria que, na pequena mobile home, onde a água tem sabor a mandarina e a corrente de ar faz rodar as hélices azul-prateadas dos cata-ventos de papel, todas as palavras ganham um novo significado.

7 thoughts on “O amor é uma casa desmontável

  1. A maioria das casas em terras de tio Sam são assim desmontáveis, moveis, transportáveis, “leves” tão leves que um sopro mais forte as derruba e logo dizem, maldito furacão.

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  2. Uma atmosfera muito bem descrita. Quase conseguimos ouvir o bater do espanta-espíritos, sentir a frescura do ar dentro da casa e calcular o nível do calor exterior. Muitas Saudades,continuação de uma Boa viagem para os 3 por esse outro lado do mundo!
    PS: Quando chegarem a Manhattan, não te esqueças, imperdível visitar: ” Four Freedoms Park” (projecto do arquitecto Louis Kahn, ver horário antes) e obviamente fazer a travessia a pé da Ponte de Brooklyn

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