Uma cidade de pé

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Crónica

Foi em Paris que vi Nova Iorque pela primeira vez. Uma noite, no Théâtre du Rond Point. Já não me lembro se apanhámos a linha 2 até Etoile, e depois a 1 até F. D. Roosevelt, ou se subimos os Champs Élisées a pé. Sei que a cada viagem de metro me parecia estar a atravessar a cidade (não estava). Sei que sempre que chegava a algum lado, emergindo à superfície de mais uma rua irreconhecível, de mais uma avenida indistinta, me perguntava se ainda seria a mesma cidade (Paris e a sua escala, desumana).

Também não me recordo se jantámos pelo caminho. Se bebemos um copo a seguir. Se fomos dançar ao Paris-Prague Jazz Club. 18 Rue Bonaparte. Nem tem importância.

O que me ficou dessa noite foi Fabrice Luchini, sozinho no palco, numa sala onde as luzes nunca chegaram a apagar-se, a ler Céline para a multidão. Os bilhetes tinham esgotado, mas não havia teatro. Era apenas o actor e um texto. «L’arrivée à New York». «A chegada a Nova Iorque», um capítulo do livro Viagem ao Fim da Noite. De Louis-Ferdinand Céline.

Fabrice Luchini já lia este excerto em público desde 1985, mas só em 1992 é que sentiu em primeira mão o verdadeiro choque da chegada à metrópole americana. Nunca foi um viajante, porque tem pavor de andar de avião. Mas, nos anos oitenta, Paris já enchia salas para o ouvir falar dessa cidade onde ele nunca tinha estado.

Luchini enfrentava a assistência apaixonada e judiciosa dos teatros parisienses com uma altivez felina que, a maior parte das vezes, assumia a arrogância, repetindo frases com uma voz pedagógica porque entendia que o público não lhes prestara a devida atenção. Só mesmo Fabrice Luchini. Só mesmo em Paris.

Nessa noite (talvez tivesse sido no Verão, porque alguém fez troça do lenço colorido que eu levava preso à cabeça), o primeiro parágrafo que ele leu em voz alta, naquele tom de sacerdote fanático cujo templo é a própria literatura, ficou-me gravado na memória, imune a todo o esquecimento:

«Imaginem vocês que ela estava de pé, a cidade deles, absolutamente direita. Nova Iorque é uma cidade de pé. Nós já as tínhamos visto, às cidades, é claro, e bem bonitas, e aos portos, famosos até. Mas, na nossa terra, elas estão deitadas, não é assim, as cidades, estão estendidas à beira-mar ou na margem dos rios, sobre a paisagem, à espera do viajante, enquanto aquela, a americana, não se oferecia, ah não, mantinha-se bem rija, ali, nada submissa, tão firme que metia medo.»

Já foi há mais de vinte anos. Paris ficou para trás. Nova Iorque espera-me. Uma cidade de pé. Absolutamente direita. E nisto reside a inquietude do viajante: no momento da partida, é sempre mais importante o que levamos connosco do que aquilo que vamos encontrar. Aos vinte anos, não sabemos que uma grande metrópole pode derrotar-nos. Aos quarenta, queremos saber se ainda conseguimos sentir o sabor dessa derrota.

 

 

12 thoughts on “Uma cidade de pé

  1. Uma cidade vertical, poderosa, também banhada pelas águas foi o 1º impacto de New York em mim quando fisicamente me confrontei com ela. A imagem que levava era a que me tinha sido dada pelos filmes de woody Allen ” Manhattan” e todos os outros em que a vida na cidade, nos seus parques e bairros decorre e que eu não queria que se desfizesse (como não se desfez…). Mas esta ideia que se liga à forma de New york de ser uma “cidade de pé”, do Céline coincide com o que senti quando a vi, eu própria. -E passo a citar: “Todas as cidades são a minha cidade, à qual sempre regresso, para ver, conhecer.”-Álvaro Siza.
    Muito enriquecedor, o teu texto porque nos dá nitidez ao que apenas tínhamos vislumbrado. Bjo grande e continuação de uma Boa viagem e de Bons escritos!

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    • Muito obrigada, mãe! Muito interessante a ideia de que podemos ter receio de que uma cidade que conhecemos dos livros e filmes nos desiluda. Ainda teremos oportunidade de testá-lo, em primeira mão, ainda esta semana. Espero que estejam todos bem por aí. Muitas saudades nossas! Bjo grande e obrigada!

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