Já não se pode ir à América

Crónica

Joel Neto

A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi há mais de duas décadas. Tinha 22 anos e quase não saíra de Portugal. Eu era o único açoriano do mundo sem um único familiar nos EUA ou no Canadá, pelo que nunca houvera um tio que me convidasse a atravessar o Atlântico. Aos 16, tinha ido passar um mês a Paris com o meu primo-gémeo (os nossos pais é que são gémeos, não nós). Depois, esperara uns cinco anos até fazer a minha primeira viagem como jornalista, então à Suécia e à Dinamarca. E era tudo o que tinha viajado, fora o vai-e-vem entre os Açores e Lisboa.

De maneira que, quando o chefe de redacção do Record me chamou e disse: “Vai à Embaixada dos Estados Unidos pedir um visto, que preciso de alguém para acompanhar o Belenenses”, o meu coração juvenil quase soçobrou.

Fui com o Nuno Perestrelo, que era d’A Bola, e ficámos amigos até hoje. Andámos pelos EUA e pelo Canadá. Estivemos no Massachusetts e no Rhode Island, no Connecticut e até no New Hampshire. Fomos ao casino com o Tino e o Morris. Comemos vieiras com o Afonso Costa. Visitámos as cataratas do Niagara. Conhecemos o estádio dos Blue Jays, experimentámos um restaurante grego com aquele taxista velhote – até o Luciano e a Noémia eu consegui ir ver, em Toronto, e ainda não há muitos anos a Noémia me mostrou fotografias dessa noite e tudo no meu semblante era entusiasmo.

Apesar disso, no dia em que passámos por Nova Iorque, precisamente o dia mais esperado, eu não sabia se devia ou não amar aquela cidade. Ela não me surpreendeu.

Andámos apenas algumas horas pela Baixa, eu e o Nuno. Fomos às compras ao Macy’s e tirar fotografias em frente à St. Patrick’s Cathedral. Comprámos souvenirs pirosos convictos de que eram charmosíssimos (eles e nós). Visitámos o Empire State Building e, já quase sem tempo, demos um salto ao Central Park, onde me imaginei a passear com Meg Ryan, Jenna Elfman e Michelle Pfeiffer, uma de cada vez e todas ao mesmo tempo.

Não me esqueço dessa viagem. Mas não me esqueço sobretudo porque, a cada ícone que encontrava, tornava a baixar os olhos, numa frustração inesperada. Eu já conhecia aqueles lugares. Já conhecia aquele edifício – aquela rua, aquele monumento, até aquele saxofonista da Lower Manhattan que tinha tido imenso azar mas agora havia uns tipos da Blue Note interessados.

Conhecia-os nas formas, nas cores, nos cheiros. Conhecia-os nas posições relativas. Conhecia-os até nas proporções: exactamente aquelas proporções.

Voltei muitas vezes aos EUA depois disso, e em algumas até vim acompanhado. Esforcei-me sempre por me surpreender. Hoje, entrando em São Francisco vindo do Silicon Valley, ao volante do nosso Toyota Tacoma de caixa aberta, estendi as mãos e anunciei-a à Catarina e ao Arlindo, que se estreiam na América: “Portanto, ei-la, São Francisco!” E, de repente, pude ver-lhes nos olhos, passados os quarenta, o mesmo desconcerto de que me apercebi em mim aos vinte.

Também eles já aqui tinham estado, afinal. Andaram em perseguições com Steve McQueen, subiram ao campanário com Kim Novak, fugiram de Alcatraz com Clint Eastwood. É assim em São Francisco para eles, como foi assim em Nova Iorque para mim e é assim nas grandes cidades americanas para nós todos, porque essa é a força da cultura popular e é, em especial, a força do cinema: já não se pode ir à América, só se pode regressar.

foto: © António Araújo

10 thoughts on “Já não se pode ir à América

  1. Para mim NY é sempre NY…. tive o prazer de pisar o chão dessa enorme cidade por duas vezes e tenho sempre a mesma situação…UAU!!!! I Love NY.
    Bjs grandes e divirtam-se muito.
    Fico à espera do grande momento de dança à porta do Madison Square Garden

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  2. Por viver em terras de tio Sam ja passei físicamente por todos os locais mencionados, mas também já me imaginei e sonhei neles…

    Hoje o meu sonho é outro, cansado da America sonho regressar pois não há nada como as Gentes da minha Gente e a Terra que nos viu nascer.

    Ps: America é uma ilusão que hoje engana a nossa visão, visto de cima é tudo lindo. Abraço Joel e não necessito dizer aproveita pois sabes o fazer de uma forma muito própria.

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