«Mil euros, um carrinho e uma casinha?»

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Lisandra Sousa estudou no Porto, viajou pelo mundo, trabalhou numa favela de Nova Deli, atirou-se de pára-quedas nos Himalaias e, entretanto, regressou aos Açores, para trabalhar numa farmácia na ilha Natal.

Lisandra Sousa está a morar em casa dos pais, uma propriedade rural na freguesia dos Biscoitos (ilha Terceira), para onde regressou há meses, vinda de um voluntariado em Nova Deli. «Vim anestesiada e nem percebi bem o que estava a acontecer-me», explica-nos, falando do seu regresso, sentada numa poltrona de couro, numa sala ampla, cuja porta só costuma abrir-se «para deixar passar a árvore de Natal». Hesita: «Ou um caixão. O velório do meu avô foi aqui.»

Ganhamos um novo interesse por aquela divisão da casa, enquanto Lisandra nos explica, apontando para um retrato emoldurado onde aparece com os pais e o irmão, que é costume oferecer-se uma fotografia quando se vai visitar a família imigrada nos EUA. «Eles fazem o mesmo quando nos visitam.»

No quarto, onde um saco de boxe de um metro e meio jaz a um canto como peça de decoração (um presente dos tempos em que praticou kickboxing), salta à vista o mapa-mundo afixado na parede por cima da cabeceira da cama. A noite passada, enviou um CV para um lugar que não sabia onde se situava – Vanuatu – e, hoje de manhã, subiu para cima da colcha e descobriu que se trata de um arquipélago no Sul do Oceano Pacífico. «Eu até me vejo a servir cafés noutro sítio do mundo – na Austrália.»

O voluntariado na área de farmácia, numa clínica situada no centro de uma favela de Nova Deli, teve a duração de um mês e deixou-a com vontade de muito mais. Abriu-lhe os olhos para um mundo de necessidades onde, pela primeira vez, se sentiu pequena. «Um peixe pequeno num tanque grande», explica, descrevendo-nos o convívio com os colegas de outros países e os protocolos que desenvolveu sozinha, de rentabilização de recursos e orientação de mulheres grávidas. Na sua última semana em Nova Deli, pediu que lhes dessem continuidade e ainda hoje se preocupa.

O regresso aos Biscoitos, condicionado por uma proposta de emprego na Terceira que já tinha aceitado antes de partir – um bom emprego, pelos padrões locais e não só -, pareceu-lhe «fútil». Quando a ouvimos dizer «havia tanta coisa a fazer no mundo, e eu ainda não tinha feito nada», queremos desconfiar do altruísmo, mas Lisandra desconcerta-nos uma vez mais: «Sentia um desconforto que não era o das outras pessoas. Algumas estavam ali só para encher o currículo, para terem uma experiência diferenciadora. Ou, então, porque o casamento, afinal, não acontecera. Ou porque tinham tentado suicidar-se. Eu era a única que não tinha motivo nenhum para estar ali.»

Olhamos para as suas fotografias na Índia, de bata verde, maquilhada, com um sorriso de orelha a orelha no meio de uma lixeira da favela, vêmo-la de capacete na cabeça instantes antes de saltar de pára-quedas nos Himalaias, ou rodeada de crianças no interior de habitações em ruínas, e pensamos: ao contrário do que acabou de dizer, Lisandra era a única que tinha um verdadeiro motivo para estar ali.

Quando, na Terceira, lhe perguntam «já cá estás de vez?», fica aflita. «Eu não estou aqui para ficar à espera do fim-de-semana, ou das férias… Mil euros, um carrinho e uma casinha. Não é que não possa ser, ou que seja mau. Mas eu esforço-me imenso para não me sentir confortável.»

Tentamos saber mais. Queremos que Lisandra nos revele o segredo deste desconforto de que nos fala como se fosse uma doença. «Porque eles deitam-se na cama e dormem. Não andam neste tormento.» Diz-nos que esta sua inquietude já «contagiou» o namorado e as amigas, que sabem que ela «não aceita nada». É o medo de levar «uma vida comum», confessa-nos, com receio de parecer arrogante.

Quando lhe perguntamos se imagina esse desconforto a acompanhá-la a vida inteira, fala-nos da mãe. «A minha mãe costuma dizer que, se o meu pai tivesse um avião estacionado no pátio, estava sempre a ir-se embora.» A imagem faz-nos sorrir, mas a hipótese de que seja uma condição hereditária não nos agrada. Insistimos: qual é o segredo desse desconforto? «Não sei qual é o segredo», confessa-nos. «Talvez seja lidar apenas com pessoas que nos fazem sentir pequenos. Temos de procurar quem nos estimule. Quando nos rodeamos de pessoas que fazem, que acontecem, que vão, sentimos esse estímulo.»

Agitamo-nos nas nossas cadeiras e, ganhando coragem, pedimos-lhe que defina o que é, no seu entender, a perigosa zona de conforto. A resposta é rápida e nela já se sente a ousadia do ilhéu que saiu da ilha e regressou: o olhar de fora para dentro. «A zona de conforto é nós acharmos que o nosso Carnaval é o melhor, que o nosso Espírito Santo é o maior, que nunca se viu divindade assim, e quem é que não gosta de comer uma Sopa do Espírito Santo? Mas eu adorei ter ido a um crematório na Índia.»

Lisandra olha-nos como se procurasse que a tranquilizássemos, mas nós não estamos tranquilos. Fazemos-lhe a derradeira pergunta, aquela que nos redime, e pedimos-lhe que mergulhe no futuro. «E daqui a dez, vinte anos, como imaginas que seja a tua vida?» Pela primeira vez, obrigamo-la a abandonar o momento presente, esse «agora» que será a sua morada perpétua, e Lisandra demora algum tempo a responder. «Daqui a dez anos, não vou estar na Europa. Daqui a vinte, talvez já tenha regressado à Terceira.»

Respiramos fundo os dois. A perspectiva pacífica de um regresso à ilha não deixa de ser um eco distante da nossa própria migração. Chegou a nossa vez de desarmá-la: «Lisandra, o regresso à ilha não será também uma aventura?» Com uma humildade desprovida de falsas modéstias, responde-nos: «Ainda não consigo ter essa percepção. Não me deixa ver uma coisa diferente.»

A ausência de sujeito nesta última frase é reveladora. Aquilo que não a deixa ver mais além não tem nome, porque Lisandra não se perde em futurologias. A sua inquietação é com o presente, com o agora. «Tudo na minha vida aconteceu de repente.»

Lisandra Sousa nasceu em 1993. Tinha quatro anos quando Leonardo di Caprio se empoleirou na proa do Titanic e abriu os braços de Kate Winslet. Escapou ao mito do grande amor trágico que marcou a nossa adolescência. E ainda bem. A sua hybris não se compadece com os Titanics desta vida, nem ela precisa que alguém lhe sussurre que pode conquistar o mundo. Afinal, existe uma Lisandra em todos nós. Conhecêmo-la bem. Por vezes, deixamos de ouvi-la.

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Lisandra em Nova Deli, cidade em cujas favelas trabalhou como farmacêutica, ao abrigo de uma missão humanitária internacional: passado quase um ano, os seus sucessores ainda zelam pelos métodos que implantou

SEMANA 3

Protagonista: Lisandra Sousa

Idade: 25 anos

Actividade: farmacêutica

Regresso: Porto -> Biscoitos, Ilha Terceira

Anos de ausência: 3 anos

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