Paisagem com dor ao fundo

Crónica

IMG_3643

Foi nas Flores, há vinte anos. A minha avó, Maria Rosa, mãe do meu pai, tinha morrido há pouco tempo e decidimos fazer uma viagem pelas ilhas com o meu avô, Julião. A Ilha das Flores fazia parte do pacote escolhido e aterrámos no seu pequeno aeroporto um dia a meio da manhã.

Recordo-me das ruas um tanto desoladas de Santa Cruz das Flores, do porto exíguo com vista para o Corvo (não se via, mas era como se visse) e do interior da hospedaria onde ficámos, em quartos atravancados de móveis antigos, daqueles pesados e castanhos-escuros. Na sala, um sofá grande e puído acomodava as várias filhas da proprietária, que ora se sentavam, ora se levantavam e cirandavam pela casa, dando-lhe uma animação que esta, de outro modo, não teria. As mais velhas queriam ir à Expo 98 e a mãe fazia questão de proporcionar-lhes a experiência.

Era uma mulher de olhar desencantado mas atento e, mal ganhou alguma cumplicidade com a minha mãe, confessou-lhe: «É preciso uma certa dose de loucura para viver na Ilha das Flores.»

O meu avô pousou a mala, deu a volta à praceta mais próxima, espreitou o porto ao fundo e, quando os seus olhos azuis cristalinos, sempre tão acesos até ao dia em que morreu, descobriram, ali mesmo à frente, os limites da terra e o seu encontro abrupto com o mar, deu meia volta num passo estugado e foi falar com o meu pai. «Filho, o pai já viu a ilha, vamos embora?»

O próximo avião só partia dali a 3 dias. O meu pai sabia-o, mas não lho disse. Propôs-lhe uma viagem de táxi pela ilha, uma vez que já ali estavam, e deixou-o pôr a mala no porta-bagagens, como se dali seguissem para o aeroporto. Ele concedeu.

Acabámos todos cinco, os meus pais, o meu irmão Sebastião, o meu avô e eu, sentados a uma mesa branca, munida de chapéu-de-sol, no meio do Éden. O meu avô olhou em redor, para o verde eléctrico da encosta sulcada de cascatas e para o mar infinito do outro lado e, numa voz delicada, perguntou a quem nos servia: «Como é que se chama este lugar?» Fajã Grande. «Traga-me, então, por favor, um Casal Garcia.» Veio o Casal Garcia e, a acompanhar, uma jardineira celestial, com batata aos cubos, ervilha, cenoura, e uma carne de vaca que se desfazia. Ao primeiro gole (estava bem fresco, o Casal Garcia), o meu avô recostou-se na sua cadeira de plástico e suspirou.

Ouvimo-lo durante horas (vieram várias garrafas de vinho verde), desbravando a tristeza com filosofia, procurando o conforto na ideia de um além, mas negando-o (nunca deixou de ser fiel às suas convicções e Deus não passava na malha fina do seu entendimento da vida) e, quando se rendeu, por fim, a esse calor anestesiante provocado pelo álcool, pela humidade do ar, pelo verde ofuscante da fajã em volta, o seu dilema já era o nosso.

Poucas vezes, na minha vida, vi um homem tão triste como o meu avô Julião nessa tarde na Fajã Grande da Ilha das Flores. E é esta a primeira memória que guardo dos Açores. A de uma tristeza irremediável no meio de uma paisagem delirante. Porque o meu avô levara a minha avó com ele para toda a parte e, juntos, de carro, tinham percorrido quilómetros impossíveis. Eram ambos forças da natureza, quase indestrutíveis, e por momentos ocorreu-me que, afinal, talvez tivéssemos ido todos visitá-la ao paraíso.

 

11 thoughts on “Paisagem com dor ao fundo

  1. Triste, mas lindo e verdadeiro. Viver é exatamente isso, experenciar momentos de alegria e também de tristeza. Os ultimos são os mais dificeis de relatar, mas a Catarina fá-lo com mão de “mestre”. Obrigada!

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s