Duas ilhas

Crónica

Joel Neto

1.

Talvez para o Diogo a história tenha outro significado. Talvez lhe pareça até um expediente de sobrevivência. A vida dele está a começar, a economia anda de rastos: um rumo diferente é o mínimo que um homem de São Jorge podia exigir de si mesmo.

Mas, muito mais do que inventiva, há ali a poesia do regresso e da solidão – mesmo que ele não tenha consciência disso. E há a força dessa natureza exultante que o é em todas as ilhas, mas em nenhuma como na do dragão.

O Diogo tem 19 anos e decidiu dar por concluídos os estudos. Esteve no Porto, voltou a casa e, há umas semanas, começou a levantar-se cedo e a desaparecer da Fajã de São João. Regressa à noite, calado e exangue. Diz que andou o dia inteiro pelas fajãs desabitadas da costa Sul, acima e abaixo: atrás das cabras.

Di-lo assim porque é assim: anda atrás das cabras, a estudar uma maneira de as caçar. E, de repente, parece-me concentrar-se na sua demanda tudo o que distingue São Jorge.

Em São Jorge há cabras à solta, à espera de quem as queira apanhar. Fugiram de quintais, foram largadas de propósito, proliferaram. A sua casa são as fajãs que o homem não habita mais: lugares com nomes como Fajã das Barreiras, ou do Cavalete, ou outros que não vêm nem na Wikipedia nem nas recolhas oficiais, porque deles não resta registo a não ser a memória do relato desconexo de um velho que já morreu.

Ninguém conhece São Jorge, a verdade é essa. Nem o mais empedernido jorgense: ninguém conhece a ilha na totalidade. Um autarca sobe ao poder e o seu primeiro esforço é reconstituir os nomes dos recantos entretanto desabitados da sua freguesia.

Em breve esbarra num recanto que. Noutro que a que parece que davam o nome de.

Talvez devesse perguntá-los às cabras selvagens, pensando bem. E quem sabe não é isso que o Diogo anda a fazer: a reconhecer com elas os lugares da ilha a que voltou. Será ele o primeiro homem a conhecer São Jorge.

2.

Ainda não subimos da lancha para o cais e já há uma rapariga aos saltos no cimento, ansiosa. A ilha ficou sem Além-Mar Pequeno e ela pediu a mestre Jorge que lhe trouxesse um volume das Flores.

É assim que chegamos ao Corvo – e, por um momento, tudo nos parece mensageiro dessa solidão de que falam as revistas de viagem.

Mas à noite vamos às festas e há um pai a dançar com as filhas. É cómico, desinibido. Ensina-lhes a coreografia d’O Bicho, inventa passos para uma canção de Toni Carreira. A cada melodia que sai da aparelhagem sonora, arranja maneira de as divertir.

As garotas adoram-no. Dançam, correm para os braços dele, celebram-no.

Só no dia seguinte, ao indagar sobre aquele homem, fico a saber que não é pai das meninas, mas apenas mais um adulto da vila. E tudo o mais, ao longo do resto da nossa estada há-de ir dar a essa mesma descoberta que muda toda a minha visão sobre a mais pequena ilha dos Açores.

430 pessoas é pouca gente. 17 km2 é pouca terra e tantos quilómetros até São Miguel ou à Terceira – até Lisboa, mesmo até às Flores – são demasiados quilómetros. Mas, ali, tudo é o oposto da solidão.

Aquelas pessoas nascem, vivem e morrem juntas. Isso, privilégio ou infortúnio, é o privilégio ou o infortúnio que nenhum lugar grande alguma vez experimentará. E é também a verdade a que as revistas de viagem nunca chegam.

foto: © António Araújo

4 thoughts on “Duas ilhas

  1. Muito Bom! 😊 Excelente crónica! Consola a ler!! Não conheço o Corvo, mas conheço razoavelmente bem São Jorge. Para mim, é uma das mais belas e selvagens ilhas dos Açores – se não A mais! 😊 Em São Jorge, tudo é admirável (cabras incluídas!).

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