«Voltei para o Corvo por ambição, não por falta dela»

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As memórias, as tradições, a identidade: Andreia Silva quer continuar a concretizar o Ecomuseu do Corvo, de que é co-coordenadora, “com a comunidade” e “pela comunidade”

À primeira pergunta que lhe fazemos, Andreia Silva rasga uma gargalhada. Não é uma gargalhada cúmplice, sequer: é de estupefacção. Perguntamos-lhe: “Achas que o facto de teres sido a última pessoa a nascer no Corvo te imbuiu de alguma espécie suplementar de espírito de preservação da memória da ilha?” Ela: “A sério que me estão a perguntar isso?!” – e abanava a cabeça, como se não pudesse nunca compreender aqueles que não resistem a racionalizar tudo, que pensam de mais, que precisam de dar sempre nomes bonitos às coisas.

Tudo nela é despachado, desconcertante, tantas vezes exultante. Não há como não lhe achar graça. E, no entanto, ela foi de facto a última pessoa a nascer na ilha do Corvo: numa altura em que já ia toda a gente nascer a uma ilha maior, com cuidados de saúde mais adequados, decidiu aparecer antes do tempo. Passaram-se 29 anos. Entretanto, fez o liceu em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, fez a faculdade em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e fez os primeiros anos de trabalho no Museu da Fábrica da Baleia, em Santa Cruz, na ilha das Flores. No ano passado, voltou ao Corvo, para viver num perímetro de 17 km2, entre 430 pessoas, e ocupar-se da co-coordenação do novo Ecomuseu da ilha.

“Já me perguntaram como podia eu ser tão desprovida de ambição ao ponto de voltar para o Corvo, mas eu acho que é precisamente o contrário. Voltei para o Corvo por ambição, não por falta dela. O que eu posso fazer neste projecto, pelo projecto, pela comunidade, com a comunidade, é qualquer coisa de excepcional”, diz. “No Corvo não há desemprego nem RSI. É o lugar perfeito para quem quer constituir família, não apenas pela segurança, mas porque já somos todos, à partida, uma grande família. Nem sequer existem tribos. Temos os nossos gostos diferenciados, as nossas inclinações, mas no café toda a gente se senta na primeira mesa livre.”

O seu dia-a-dia é hoje passado pela Vila, grande parte dele a falar com as pessoas. Quando o Governo Regional dos Açores decidiu dotar o Corvo de um museu de ilha, corrigindo uma velha assimetria, acabaram por entender todos, políticos e técnicos, que o ideal seria um ecomuseu. “Eco” no sentido total da palavra, incluindo a paisagem humana. No fundo, a ilha “é” o museu – a sua história, a sua identidade, as suas tradições e saberes. E todo esse acervo está nas mãos dos habitantes, cuja memória cabe a Andreia recolher, sistematizar e verter – dir-se-ia – no próprio ordenamento urbanístico local.

“Tenho sorte, porque toda a gente me conhece desde sempre. Para a maior parte destas pessoas, eu ainda sou a ‘monça’ do Quaresma, a neta do Ti José Pedro. Foi por isso que fui desafiada a participar no concurso para o lugar e também há-de ter sido por isso, em parte, que fui escolhida. Portanto, quero usá-lo em benefício do trabalho”, explica. “É claro que ter estado fora me mudou a perspectiva. Ma enriqueceu. Mas eu sempre fui ‘a corvina’ em todo o lado. Nunca deixei de sê-lo. E cheguei mesmo a pensar em voltar mais cedo. No final do liceu, estive um ano aqui no Corvo, a repetir Matemática em e-learning e a trabalhar num restaurante. Imaginei não voltar a sair. Mas lembrei-me de que o Corvo nos acomoda um pouco, e agora acho que fiz bem.”

De certa maneira, vive em Vila do Corvo ao ritmo a que se vive numa grande cidade. Fala tanto e tão depressa que lhe foram detectados nódulos benignos na garganta, o que a impede de cantar mais vezes (tinha uma banda nas Flores e, de vez em quando, também canta o fado). Raramente tem tempo sequer para ir ao Caldeirão, a mais bela paisagem da ilha, e provavelmente uma das mais belas dos Açores. Mas diz que não é stressada, e sim  “acelerada”.

Um dos mais recentes projectos desenvolvidos no âmbito do Ecomuseu, em articulação com a Câmara Municipal de Vila do Corvo, é uma banda desenhada de José Ruy sobre um velho ataque de piratas africanos que entrou para a mitografia da ilha. O autor e desenhador foi ao Corvo ouvir a comunidade, recolher as memórias passadas de geração em geração, somar-lhe as histórias que enformam a cultura do povo e, inclusive, desenhar os rostos dos habitantes para os emprestar às personagens do livro. A edição está pronta e é apresentada nos próximos dias.

“Queremos que a comunidade seja protagonista da sua própria história. Chega de ficar tudo na mão de olhares externos sobre nós. As pessoas raramente se revêem neles”, insiste Andreia. “É um trabalho fascinante, que pode mudar realmente a lógica de desenvolvimento da ilha. O meu compromisso, para já, é ficar três anos. Nessa altura, a decisão será complicada de tomar. Há muito a fazer, e isso que há a fazer pode de facto mudar a vida das pessoas.”

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Andreia diz que não é stressada, mas “acelerada”: vive no Corvo ao ritmo a que se vive numa grande cidade e fala tão depressa que lhe foram detectados nódulos benignos nas cordas vocais

SEMANA 2

Protagonista: Andreia Freitas da Silva

Idade: 29 anos

Actividade: mediadora de educação patrimonial

Regresso: Angra do Heroísmo, Ilha Terceira -> Ponta Delgada, ilha de São Miguel -> Santa Cruz, ilha das Flores -> Vila do Corvo, ilha do Corvo

Anos de ausência: 14 anos no total

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