Pelo teu coração passou um barco

Crónica

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No Inverno, o meu avô Augusto usava uma gabardina que, embora leve, lhe pesava. Estava guardada num armário cor de marfim, na entrada. Ele abria a porta do armário, que se iluminava por dentro, e vestia-a. Depois, via-se ao espelho — era um homem bonito — e endireitava as costas. Como se o peso da gabardina lhe exigisse uma pequena correção de postura. Preferia Lisboa no Verão. Andar de camisa pela rua. E nunca se esqueceu do calor de Goa, onde viveu um ano, como médico do batalhão Vasco da Gama, com a minha avó.

Regressou da Índia com um apetite por Bebinka e Onion Bhajis, por caril de gambas e Chutney de manga, e trouxe um álbum de fotografias a preto e branco que nos mostrou muitas vezes, como se nunca o tivéssemos visto. E não tínhamos. Cabia nele a viagem de 18 dias pelo Canal de Suez que a minha avó, Mariana, fizera no seu encalço. Os rádio-telegramas de saudade enviados para o navio Serpa Pinto onde ele fora embarcado. A luz de Goa antes da monção. Na noite do reencontro, ela vestiu-se a rigor para irem jantar (calçou meias de vidro) e foram o único casal a levantar-se da mesa para dançar. A minha avó levou armários, arcas de roupa, uma mesa, cadeiras de lona e uma cama de dossel, mas dormia no chão, sobre uma esteira, como os goeses.

Quero ver Goa através dos olhos do meu avô, mas não o ouvi o suficiente. O silêncio, para ele, era uma instituição. Lembro-me de sentir o Old Spice no algodão macio da fronha da sua almofada, e do cheiro doce a tabaco de cachimbo que inundava o escritório, onde a luz mortiça de um candeeiro com abajur de veludo deixava entrever, à noite, o fio sinuoso do fumo. Que era o fio do pensamento do meu avô sentado à sua secretária: começava de baixo, fininho, e espalhava-se depois em concha pelo teto, de onde enchia o espaço todo, adensando-se.

No tecto do escritório, um fresco de motivos vegetais, há uma ondulação sugestiva de outras coisas. Consoante a incidência da luz, são letras, cobras, ou algas marinhas. Rodeado de vitrinas com relevos dourados, repletas de livros, fotografias e curiosidades (a coleção de cachimbos, por exemplo), o meu avô era o habitante discreto deste espaço exótico.

Nas horas vagas, construía barcos. Naus, bergantins, fragatas cresciam nos estaleiros da sua secretária, do casco até às velas. Peça a peça, eu via-o desaparecer atrás destas construções e, quando chegava ao fim, dando o último retoque com o mesmo vagar com que percorrera todos os outros passos, pousava as mãos. O barco nascido da sua paciência era um objeto trémulo. Nunca poderia fazer-se ao mar. E, sabendo que o seu destino era ficar parado numa vitrina, o meu avô sorria.

Detenho-me à frente do mais perfeito — pousado na mesa do telefone fixo — e sei que, sempre que este toca, o barco estremece no interior da vitrina. A qualquer momento, a caixa de vidro pode estilhaçar-se e deixá-lo partir sob o apelo de um mar distante.

O meu avô deixou barcos espalhados no andar de Lisboa, e outros tantos na casa do Toxofal. Com isso quis dizer-nos que a viagem começa sempre por ser um exercício da imaginação. E que a inevitabilidade que se instala numa casa pode ser contrariada pela fantasia, da mesma maneira que um par de asas engana a força da gravidade.

 

35 thoughts on “Pelo teu coração passou um barco

  1. Linda descrição do seu avô, diria dos seus avós, que me fez recordar os meus, e ficar a conhecer um pouco dos seus. Que bom que é termos recordações de momentos felizes, e podermos partilhá-las com os outros, de uma forma tão sábia, como o faz a Catarina. Obrigada por me ter feito sentir tão bem, nesta maravilhosa manhã de sábado. Parabéns!

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  2. Porque conheço um pouco da vida do Joel, quero parabenizar você por estar aqui e dizer que, para o meu amigo Joel, pelas circunstância que fui constatando, a Catarina foi o achado tão desejado, pela forma como vocês se completam. Parabéns e também referir que é um prazer colocar os seus escritor no meu Blog, à semelhança do que faço com os do Joel, o netinho querido do senhor Guilherme que, lá de cima, se ufana com os sucessos do filho da D. Eva e do Ajudante Neto.

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  3. Que me desculpe o Joel (o Meridiano 28 já aqui chegou, ao meridiano 121 W, nos sopés da Sierra Nevada e já está lido e apreciado) mas agora quero mais crónicas da Catarina!
    Seja bem-vinda

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  4. A memória impõe-se, eleva-se, numa descrição que nos conduz à viagem… os sentidos soltam-se, interpenetram-se e multiplicam-se… a arquitetura textual assenta no equilíbrio de forças várias que sustém o texto… o leitor segue atentamente a “viagem”, visualiza-a e dececiona-se quando se confronta com o fim… o leitor quer sorver mais e muito… Parabéns pela construção textual, seus “ingredientes”.

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    • Ana Maria Bruno, fico-lhe muito agradecida pelo seu comentário, tão intuitivo na apreciação da narrativa e dos seus processos. Muito obrigada!

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  5. Catarina, fui doente do seu avô Augusto, fiquei literal/ sua paciente desde que deixei a infância, pq ele se soube ser o pediatra benevolente do resto da infância da minha vida. Por ele conheci a sua tia Margarida, conheci o tio Guilherme que tão abrupta/ partiu há um mês, conheci a avó Mariana e conheci-a a si na véspera da morte do avô Augusto, no hospital. Foi bom conhecer-vos depois a todos, é bom reconhecer na Catarina e neste belíssimo texto evocativo o legado inteligente e manso, a pose discreta e delicada do Dr. A. Ferreira de Almeida. Acima de tudo pela muita humanidade que nele ia, pela mesma muita humanidade que vai na escrita da Catarina. Ela lhe impregna o mesmo ritmo manso.

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    • Querida Teresa Arsénio Nunes, fico-lhe muito grata por este elogio tão bonito e pela grande estima e admiração que sei que tem pelo meu avô. Enfim, pela grande amizade que sei que tem por todos nós. Também sei que a Teresa tinha um lugar muito especial no coração do meu avô. Falta dizer tanto. Temos pouco espaço, afinal, para lhe fazer um retrato justo. Talvez este seja apenas o começo. Muito obrigada, Teresa. Um abraço apertado nosso.

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