«Se for preciso, aspiro a casa todos os dias»

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“Keeping up with the Linos”: Ana, Roberto, Madalena e Lucas Lino já na ilha do Pico, três semanas passadas sobre a partida dos EUA

AO FIM DE QUASE três semanas de regresso, Roberto Lino ainda não assentou. Não podia ser de outra maneira: o contentor em que acomodou os pertences, os seus e os da família, nem chegou ao Pico. Mas não é só isso. Primeiro, viajaram todos para Lisboa, em cujos escritórios da gigantesca Cisco a mulher, Ana, passa agora a operar alguns dias por mês, vinda da ilha. Foi preciso adquirir um pequeno apartamento e, entretanto, valia a pena mostrar a capital portuguesa aos filhos. De volta todos à ilha, chegou a hora das férias na Madeira com que sonharam celebrar o início da nova vida. E nas próximas semanas ainda vai ser preciso Roberto dar um salto às Canárias, onde há um Land Rover clássico – já tem dois – que lhe interessa.

“De repente, dou por mim cheio de saudades do Pico. Como se, tendo acabado de chegar, já ma estivessem a tirar de novo”, suspira. “Vou acabar por assentar. Eu daqui, agora, não saio mais. Mas ainda preciso daquele momento de silêncio. Até de um momento de tédio. Se calhar só nessa altura me sentirei definitivamente de volta. Às vezes ainda me parece que é mentira.”

Nascido e criado no Pico, embora na primeira infância tenha passado alguns anos em Sacramento, na Califórnia – onde os pais chegaram a ser imigrantes –, Roberto apenas se mudou para os Estados Unidos aos 26 anos. Gostava de tecnologia e de marketing, viajava pelas ilhas do chamado Triângulo (Pico, Faial e São Jorge) a tocar música, mas levantava os olhos e não via as oportunidades que procurava – nem nos Açores, nem em Portugal.

Ficou “vinte anos e um mês” na América, sempre a crescer. Começou com um trabalho braçal, passou para o processamento de dados e, ao fim de algum tempo, foi desafiado a integrar uma equipa de vendas. Não tardou a começar a coleccionar no currículo nomes cada vez mais incontornáveis de Silicon Valley: Loretech, Asante, Netgear, Webex, Cisco. Foi director de marketing mundial da Skype, trabalhou na integração desta na Microsoft, ocupou a vice-presidência de marketing da Jive e depois a vice-presidência mundial da UserZoom. Mas nunca deixou de pensar no Pico.

“Era o meu lugar. É o meu lugar. Aqui, o mundo é muito maior. Não tem o espaço que a Califórnia tem, mas usufruímos realmente dele”, diz. “No fundo, o que eu fiz foi dar a volta grande. Saí das ilhas com o 11º ano incompleto, pelo que tive de formar-me. Ao longo dos anos, trabalhei com gente boa, fiz coisas divertidas, tentei sempre investir na minha ética de trabalho. Mas era aqui que eu queria chegar.”

Repete “volta grande”, satisfeito com o efeito da expressão, e ri-se: “Esta foi para a entrevista.” Marketeer de vocação, sabe identificar uma boa frase – catalogando, celebrando, persuadindo.A decisão de voltar para os Açores estava tomada desde o primeiro dia. Educada nos EUA, a própria Ana se comprometera com ela logo nos anos 90, de modo que muito na vida dos dois – e depois dos quatro, contando os filhos Lucas e Madalena – foi sendo decidido em função do dia almejado. Simplesmente, o que eram para ser dois anos de vida californiana acabou por tornar-se cinco, e depois dez, e depois quinze. E só quando Roberto concluiu a missão na Jive, já depois de se ter ocupado de “impedir que a malta da Microsoft lixasse a Skype” – como lhe pediu o presidente desta –, começou a trabalhar na mudança.

“Deixei-me ficar aqui no Pico durante três meses, com os miúdos, a perceber como faríamos. O plano estava em marcha”, recorda. “Oficialmente, a decisão foi colegial. Mas não ignoro a minha influência. E confesso que, nesta fase, se sinto algum desconforto na Ana ou nas crianças, acorro de imediato. Se for preciso, aspiro a casa todos os dias”, ri-se.

Os projectos são muitos. Longe da ideia de reforma – tem 46 anos –, Roberto não vai viver em exclusivo da economia local, pois mantém actividade como consultor e freelancer nos EUA, mas espera ter “uma presença” e dar “um contributo positivo” à causa das ilhas. Fez planos para várias áreas, turismo incluído, mas o primeiro é desfrutar da vida. “Lembro-me de uma conversa que tive, nos últimos dias, com um amigo mais velho, um homem já mítico no Silicon Valley, cheio de dinheiro e apaixonado pelo trabalho. Ao despedir-se de mim, sorriu: ‘Não sabia que estávamos autorizados a ser felizes…’ Portanto, eu sei que estou a cumprir o sonho de muita gente no Vale.”Só não sabe ainda como chamar àquele desejo de regressar que nunca o largou. Foi Roberto, na verdade, quem lançou a semente deste projecto. A meio de uma noite circunstancial de copos nas festas do Cais de Agosto, em 2016, virou-se para mim e desafiou-me: “Tu é que tens de inventar a palavra. Tu é que és escritor. Como é que se chama a isto de uma pessoa estar no centro do mundo, mas sempre agarrada a estes nove torrõezinhos no meio do mar? Qual é a palavra?” Talvez não seja precisa uma palavra açoriana, proponho agora. Porque não a velhinha “saudade”, a suprema palavra portuguesa? E ele: “Não. É muito mais do que saudade.”

Prima (afastada) de Bo, o ex-Primeiro Cão: Roberto Lino com o quinto elemento da família, a cadela Bella, cão d’água português nascido nos EUA

SEMANA 1

Protagonista: Roberto Lino

Idade: 46 anos

Actividade: marketeer (ex-director mundial da Skype e ex-vice-presidente da UserZoom, entre outros cargos em Sillicon Valley)

Regresso: Santa Clara, Califórnia, EUA -> São Roque, ilha do Pico, Açores

Anos de ausência: 20 anos

6 thoughts on “«Se for preciso, aspiro a casa todos os dias»

  1. Trabalhar pelo mundo fora. Ser reconhecido nele todo. E ter sempre o objectivo de voltar às origens, mais que tudo voltar a uma terra pertença da mãe natureza.
    Boa!

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  2. As ilhas, a ilha, tem isto. Estamos longe, mas estamos perto, porque o coração recusa- se a deixá la. Tal como diz a canção “…é porque nas veias corre me basalto negro…”. É o ar, é o mar, é o verde, é a paz, é tudo e tanta coisa que nos enche a alma e nos faz querer ser parte disto tudo. Quantos saíram, com o mesmo desejo de um dia voltar? Demasiados, que deixaram os seus corpos apodrecer numa terra que nunca foi a sua. Por isso, sê bem vindo e que aqui sejas muito feliz, porque ser feliz não é tão difícil quanto isso, basta apenas ouvir um passarinho ao fim do dia e deixar se embalar pelo vento que rodopia nos cabelos e nos traz sons e cheiros que conhecemos desde o principio dos nossos tempos.

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