As Palavras do Regresso

partidaUm livro. Um documentário. Um blog.

Desde Ítaca que o regresso constitui um tema recorrente na tradição literária ocidental. Não obstante, a literatura portuguesa, e em particular a literatura portuguesa contemporânea – incluindo o microcosmos da literatura açoriana, produzida em terra de migrações –, tem sido sobretudo uma literatura de partida.

Mesmo o jornalismo o tem sido: de partida.

O projecto As Palavras do Regresso, da autoria de Joel Neto e Catarina Ferreira de Almeida, propõe-se ajudar a preencher essa lacuna. Consiste fundamentalmente num livro centrado em diferentes tipos de regresso – reais e imaginários, ponderados e à pressa, bem-sucedidos e fracassados –, todos eles com as ilhas dos Açores como primeiro referencial, geográfico e emocional; num documentário de cinema, realizado por Arlindo Horta e com distribuição conjunta com o referido livro; e ainda num blog de viagem e making-of (este, precisamente).

O projecto tem o apoio da FLAD-Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. O blog tem alojamento no “Diário de Notícias”.

Está no ADN dos povos o modo como abordam a viagem. E os açorianos são um povo de viagem. Viajam porque é a viagem o que os separa do mundo. Viajam porque é a viagem o que os separa da sobrevivência. Por outro lado, viajam porque não podem confinar-se, por mais um momento que seja, às fronteiras da ilha (à sua pequenez, ao seu pequeno horror) e logo sucumbem às saudades dela (e deles).

Mas onde está o verdadeiro regresso, afinal? No que regressa de facto ou no que o foi atrasando, porque na verdade nunca partiu? Dito mais à maneira de Chatwin: onde está o nómada? O nómada é aquele que viaja ou, pelo contrário, aquele que fica? É o que leva a casa com ele para onde quer que vá (o que procura incessantemente uma casa) ou o que permanece no mesmo sítio, a sonhar com a viagem (porque já tem uma casa)?

Aliás, que papel exactamente representa, nesse contexto, a ideia de casa? Que casa é essa a que se regressa? Que casas existem? Onde fica a nossa casa durante a nossa ausência? Que género de casa podemos construir nesse outro lugar de onde não somos? E é de regresso mesmo que falamos, ou é outra a palavra? É saudade, o que está em causa, ou é muito mais do que isso?

Em suma: pode ou não regressar-se a casa, independentemente do que dizia Tom Wolfe? Esse lugar ainda tem alguma coisa a oferecer àquele que regressa, malgré Kaváfis? Haverá mesmo um recomeço nisso, ao contrário do que defendia Steiner? Haverá recomeços, seja onde for?

E que palavra define o que liga o povo dos Açores aos seus nove desgarrados torrões espalhados por centenas de quilómetros de mar? Que palavra é essa que nem Nemésio formulou? De que palavras urdem e desmancham os açorianos a ideia de regresso – a do seu regresso e a do regresso dos outros –, como Penélope urdia e desmanchava a sua tapeçaria até que Ulisses, enfim, regressasse?

É precisamente em torno desse léxico que As Palavras do Regresso se propõe gravitar. Quantas vezes usou cada entrevistado, ao longo dos encontros com os autores do projecto, a palavra regresso (e suas derivações)? E a palavra saudade? E a palavra casa? E mãe? E pertença? E cansaço? E intimidade? E liberdade? Quantas vezes insistiu ele numa palavra ainda para além destas? Qual é a sua palavra recorrente?

Quais são  as palavras do regresso e qual é, no fundo, a suprema palavra do regresso? Eis a nossa demanda.

11 thoughts on “As Palavras do Regresso

  1. Olá Joel, Este que voz fala é o Marcio Berbat, que recebeu teu livro “Meridiano 28” direto de Braga das mãos da Graziele (Porto Alegre), no encontro que fizeste no lançamento do livro. Agradeço pelas palavras e desejo uma ótima caminhada neste novo projeto. Estaremos acompanhando. Um abraço desde o Rio de Janeiro.

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  2. Muito bom. Adoro os Açores. Todos os dias tenho saudades, todos os dias quero regressar. No ano passado foi um reencontro, este ano será apenas a lembrança mas para o ano espero voltar. Até lá vou conhecendo o vosso trabalho. Força!

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  3. Um dia vou regressar porque é no regresso que esta o segredo, levo muitas histórias para contar aos filhos, netos e Amigos em minha casa, em casa deles ou na casa de um Amigo, enssencialmente numa casa.

    Levarei sobretudo a mensagem que ser Emigrante não é nada, nada fácil.

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