A nossa vida num contentor

Crónica

kate - a vida num contentor

O primeiro regresso fomos nós, eu e o Joel. Em 2012, metemos o carro num barco e o recheio da nossa casa alugada, no centro de Lisboa, num contentor (as plantas e tudo) e partimos para a Terceira. O carro sobreviveu à travessia de metade do Atlântico, nós a uma viagem de avião que era uma ida sem volta, as plantas a quinze dias sem água e sem luz, fechadas num contentor que ficou retido em parte incerta.

Quando o contentor chegou, abrimos a porta metálica e ali estava a nossa vida, metida numa grande caixa de 3m por 5m. O ficus um pouco quebrado e amarelecido perdera parte da graça, mas estava vivo. A orquídea era como se nem tivesse dado pela falta de nada. Os cactos guardavam ainda o seu orgulho coberto de picos. No meio do sofá-cama, das cadeiras austríacas, das mesas e tapetes, um candeeiro aguentava-se de pé, insólito e periclitante.

Todos aqueles objectos, assim amontoados, continuavam a ser estranhamente familiares. Ainda eram a nossa medida de conforto no vazio da transição. De um dia para o outro, colonizaram uma casa que nunca tinha sido a nossa — que ainda não era a nossa casa —, sobrepondo-se à sua mobília original, substituindo-a, remetendo para a cave móveis antigos, camas que rangiam, lâmpadas de tecto demasiado brancas, bancadas de cozinha feitas à medida da avó do Joel, que tinha 1,49 m de altura.

Aos poucos, essa casa de família antiga, que ruíra no terramoto de 1980 e fora reconstruída, tábua a tábua, pelos avós sexagenários do Joel, começou a falar connosco. Primeiro, falou-nos uma velha terrina de sopa, de onde o avô José Guilherme, no fim de longos dias de trabalho, servia a sua açorda refogada, temperada com hortelã. Depois, falou-nos a chávena centenária da avó, Maria do Carmo, que dela bebia o seu café todos os dias.

Uma chávena larga e baixa, de bordos finos, com um padrão de florzinhas azuis que se confunde com as manchas de humidade. Nunca ousei beber o café dessa chávena, primeiro porque sempre me disseram que a avó do Joel era torcida, depois porque a chávena de onde uma mulher bebe o seu café de manhã, contemplando o dia que tem pela frente, é um objecto que ela não partilha com mais ninguém.

Falou-nos ainda o barulho fantasma de um gancho metálico que trazia toros de madeira do cimo da encosta que existe atrás da casa e os espetava contra a fachada das traseiras. Seria inconcebível, pensámos, vivermos com esse ruído agora. Mas, na altura, era um barulho que não incomodava, porque fazia parte de todos os fazeres ruidosos que preenchiam a vida da casa e a sua labuta diária pela sobrevivência: os campos cultivados ao lado, a encosta arborizada em cima, a venda em baixo, alugada a três comerciantes: um barbeiro, um merceeiro e um vendedor de alfaias agrícolas.

Hoje, a casa é silenciosa e, nela, escreve-se. O Joel voltou a comer a açorda com hortelã da sua infância e a acordar de manhã com o som de cães a ladrar quando um rebanho de cabras atravessa o largo dos Dois Caminhos. O regresso foi um dos caminhos da nossa vida. Quando já chove há três semanas e a humidade nos estraga os sapatos de camurça e os casacos de cabedal, cozinha-se a alcatra em alguidar de barro, com cravinho, canela e vinho de cheiro, e o aroma das especiarias impregna o ar, resgatando-nos do frio.

Haverá sempre lugares de onde andamos exilados, lugares onde nos esperam, lugares a que voltamos. Mas aqui, por ora, não nos sentimos perdidos.

50 thoughts on “A nossa vida num contentor

  1. Uma outra visão do local e da vida. Sem querer percebesse que há uma linguagem feminina que se apercebeu de pequenos e outros promenores.
    Gostei. É realmente uma casa onde se escreve e se percebe que resgataram uma vida calma num lugar de recordações para o Joel. E os cães esses nossos amigos fiéis completam a paisagem e o lugar. Parabéns

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    • Penso que a minha mãe terá vivido esta situação de uma forma totalmente diferente de mim. Eu era pequena. Mas não sei se ela sabe, a minha primeira memória relaciona-se com a chegada do contentor..
      É sempre maravilhoso ler as vossas histórias. É quase uma continuação/complemento de “A vida no campo”. Parabéns por mais este desafio!
      Beijinhos grandes

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      • Muito obrigada, Roberta. É como se já tivessem nascido aqui, nestes comentários, tantas outras histórias de regressos e migrações.

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  2. Lindo! Ajudei a abrir o contentor, a levar a mobília para casa, e a querer muito que se sentissem acolhidos, nesta terra que, primeiro foi do Joel, mas que agora, acredito, não pode deixar de ser também da Catarina. Mesmo que partam, o regresso será sempre uma possibilidade. Não pode deixar de o ser. Obrigada!

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  3. Espero que tenha muito sucesso Catarina e obrigada por despertar o meu hábito de leitura junto com os Joel, pois acho que vou adorar também o que escrever.

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  4. Sobrinha, gostei muito de ler o teu texto. Como sabes também regressei a casa dos meus Avós e lá me sinto bem com os cheiros que me recordam outros e muito bons tempos. Vou ser teu seguidor por isso não pares. Um beijo da California.

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    • Soube-me tão bem este comentário da Califórnia! Muito obrigada, Alfredo. Hoje vou escrever à Joaninha. A vossa casa no Alcaide também é uma inspiração, sim, há certas memórias da vossa chegada que se cruzaram com as nossas. Abraço apertado a todos!

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  5. Gostei muito.
    Considero-me uma pessoa viajada, mas só conheci os Açores há três anos numa viagem linda. À paixão pela minha mulher juntou-se outra, por essa terra.
    E não foi um regresso. Foi uma novidade.
    O contentor! Tinha 9 anos, e lembro-me perfeitamente de abrir o nosso, vindo de África, e olhar para pedaços da nossa vida, lá dentro.
    Obrigado pela crónica, espero pela próxima.

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  6. Que texto bonito! A visão feminina do regresso a uma ilha por uma lisboeta , o amor permite embarcar nestas aventuras e abrir vários contentores ao longo da vida. Parabéns, venham as próximas crônicas.

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  7. Belíssimo relato, Catarina! Revi(vi) a minha vinda de Lisboa para a ilha. Na altura não pensei na poeticidade da viagem, mas agora, com as suas palavras, a ideia de regresso às origens fez todo o sentido. Obrigada!

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  8. Sentimos algo de muito semelhante há um ano na vinda para a Terceira. O regresso do Miguel é uma nova mudança para mim. As plantas vieram comigo no carro, de barco. O lar… ainda não temos. Mas temos uma “casa” com os nossos objectos, que se vai tornando lar a cada dia que passa.
    Obrigada pela partilha.
    É sempre bom saber que há outras pessoas que também passaram pelos mesmos processos de adaptação. 🙂
    Gostei de ler.
    Até breve!

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