Rosa Violante

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Crónica

Chamava-se Rosa Violante e era cigana. Quando se falava dela, pelo Natal, ou noutras reuniões familiares, alguém chorava. Quisera o destino que um amor irreprimível a unisse, na viragem do século, a um nosso antepassado, e ainda hoje é matéria polémica se essa união deu frutos que nunca chegaram propriamente a cair da copa ilustre da nossa árvore genealógica.

Que todos nós, à distância de cinco ou seis gerações, possamos carregar o fardo desse sangue nómada é um assunto quase tabu. Entre os mais velhos, alguns deploram a ideia. Envergonha-os a possível miscigenação. No entanto, a tez morena e os olhos fundos de uma certa tetravó singularmente bela não deixam grande margem para dúvidas, e o mesmo se poderia dizer da veia dramática, quase artística, que em tantas ocasiões da história desta família tem vindo a manifestar-se. Por vezes, no calor de uma festa, na folia de um casamento, destaca-se o pezinho demoníaco de um dançarino exemplar, o talento musical de uma garganta de onde se escapa um fado mais do que vadio, as saias compridas de algumas tias, que gostam de usar tecidos de várias cores e texturas. Não discuto o bom gosto, mas identifico na tendência uma vaga nostalgia (cromática) que irremediavelmente nos diferencia.

Tão forte era a história de Rosa Violante, tão palpável a dor que ainda causava em gerações que nunca tinham chegado a conhecê-la, que guardei para mim o segredo desse sangue impuro como se ele fosse o meu mais requintado património genético. À distância de cinco ou seis gerações, eu era fruto de um amor proibido, de um acto de quase literário heroísmo romântico, de uma paixão subversiva, enfim, de um erro colossal. Porque a Rosa, conspurcada, acabara por ser expulsa do seu clã. E o homem por quem se apaixonara também se vira obrigado a renegá-la, para poder dar o seu nome ao filho de ambos – e esconder o resto.

Não sei a que limbo ou ruela de má vida foi parar Rosa Violante, mas aqui há vinte anos, andava eu própria a debater-me com as complicações de um amor proibido (desta feita, francês), e decidi fazer uma viagem de camioneta até Barcelona (onde ele me aguardava). Quis o destino que uma família de ciganos me acompanhasse nesse trajecto monótono de mais de vinte horas que desce ao Alentejo, atravessa a Extremadura espanhola e continua por esse deserto até quase à fronteira com a França. E, de imediato, as crianças, muito vivas e morenas, cobiçaram o meu colo. As mães, olhando-me de soslaio, confiaram, e ali começou a nossa inesperada comunhão, pela estrada fora.

Quando parámos numa estação de serviço, à hora do jantar, eu arregacei a minha saia comprida e desci os três degraus da camioneta, no meio das outras mulheres. Os homens iam na frente, vestidos de preto. E assim que o meu pé de menina esclarecida se adiantou ao passo comedido das minhas companheiras, elas puxaram-me para trás. Os homens, sussurraram-me, vão uns metros mais adiante. Sorri de volta, cheia de um estranho orgulho por ir na cauda, por ser uma delas. E ainda hoje guardo desse cortejo colorido, dos nossos passos silenciosos e orquestrados a caminho daquela estação de serviço, uma memória feliz.

No fim da viagem, as ciganas olharam para o francês alto e louro que me aguardava no cais e perguntaram-me: vais fugir? Abanei a cabeça. Mas ele, disseram-me, não é um de nós. Lembra-te, insistiu a mais velha, não sei quando foi que a tua família te perdeu, mas, para onde quer que vás, nós lá estaremos. Nós estamos em todo o lado. Procura-nos.

Fiquei a olhar para elas, para os olhos castanhos-escuros, como os meus, para os cabelos macios das crianças, a tez morena dos homens, que me viam sem olhar, e disse-lhes adeus. É a nossa derradeira família, pensei, espiando-nos desde a noite dos tempos. O clã a que sempre pertencemos.

Na segunda-feira de manhã, a minha mãe telefonou-me, horrorizada. Ao fim destes anos todos, uma tia-avó decidiu confessar: a Rosa, afinal, foi inventada. E insiste, com o furor dos seus oitenta anos, que nada da sua história aconteceu de verdade. Que nenhum de nós, mouros, tem sangue cigano. Que nunca houve um amor proibido, um gesto de heroísmo, um acto de coragem. E o nome, Violante, nunca o estranharam? Vocês, de facto, lêem pouco.

E agora sim, também eu chorava. Chorava por termos comprado a mentira. Ou por termos precisado dela. Chorava o fim de um mito. E a crueldade de se desmentir uma história como aquela.

O jogo dos homens devastados

Crónica

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E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia – cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Que saudades tenho da Aroeira. E das nossas expedições pelos campos da Grande Lisboa – dos tugúrios desoladores de Benavente às berrarias exibicionistas do Estoril e Cascais. E daquelas venetas que nos davam para jogar os grandes campeonatos, em pares e até sozinhos, e onde quase nunca algum de nós chegou sequer à mediania. Que saudades tenho daquilo, um grupo de homens com tanto que fazer em casa, todos razoavelmente devastados, todos preferindo estar ali – perseguindo de ferros em riste o seu (como dizia Churchill) comprimido de quinino através da pastagem. Como é irrepetível esse tempo, agora, ao fim de tão longo afastamento. E como eu o senti esta tarde, em instantes intermitentes, ao atravessar o fairway ao lado do João, ambos tão destreinados já daquilo que sabíamos fazer e talvez já nem saibamos.

Ah, o que eu gostava de jogar golfe, cirandando entre a flora e a fauna em busca do inefável. E como eu odiava jogar golfe, ao mesmo tempo, porque toda a minha vida era apenas isso, jogar golfe, e tudo o mais apenas os aborrecimentos infinitos do homem que faz contas ao tempo que falta para jogar golfe outra vez. Quantos livros escrevi, afinal, nesses dez anos em que o joguei com a avidez de um menino? Quantos livros em condições, pelo menos? E, no entanto, quantas vezes voltei a ser menino depois de pendurar os tacos na garagem?

Nunca mais fui menino como naquele dia em que, jogando sozinho no encantador tormento a que em Ponte de Lima chamam campo de golfe, fechei o back nine duas abaixo do Par e depois não havia ninguém para servir de testemunha. Nunca mais fui menino como naquele dia aqui na Terceira em que levei o Jorge da Agualva ao sétimo buraco do playoff, celebrando com tal alegria o segundo lugar no torneio que só depois me lembrei que até tivera um putt para ficar em primeiro e não me concentrara como deve ser. E também nunca mais fui menino como naquele dia em que, chegado às imediações do green do 17 do Aroeira 2 no Par do campo, que nunca tinha igualado, fiquei não nervoso que fiz triplo-bogey com duplo hit e tudo. Nem como naquele em que, no 6 da Penha Longa, o buraco lindo atrás do qual passa o aqueduto que os fotógrafos estrangeiros adoram, nos afundámos ambos um ao outro, eu e o António, porque não havia decisão razoável que o nosso impulso de autodestruição não sabotasse.

Como eu gostava de ser menino a dois também. E como éramos tão bons meninos a dois, eu e o António, conversando sobre literatura, brandindo o driver e rindo da nossa própria trapalhice. Quantos torneios jogámos a dois e quantas vezes, na hora de concluir, pura e simplesmente nos dinamitávamos, como se tivéssemos medo de erguer fasquias que depois não pudéssemos sonhar vencer.

Também ele veio comigo hoje, o António. E o Luís, o outro irmão Barreira – e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui. Caminhávamos pelo fairway, ao lado do João, e às vezes nem abríamos a boca: era o nosso silêncio que contava das nossas solidões, afinal tão parecidas umas com as outras. Então, um de nós metia um tee shot comprido e direitinho, para lá dos lagos e dos bunkers, e celebrávamo-lo todos juntos: “Bom shot.” Depois outro fazia um daqueles slices paralisantes, a bola no meio do cerrado, perdida entre a erva, e baixávamos os olhos, lamentando ter saído de casa.

Porque o golfe se fez em primeiro lugar para atestar da impossibilidade do Absoluto, mas afinal trata-se da lição mais difícil de todas – não é assim?

Portanto aqui estou, a pensar nisso tudo, com as pernas cansadas de uma rotina de que se tinham esquecido e os tacos pendurados de novo na garagem porque, agora, já não preciso ir amanhã outra vez. Deixei de ser um homem devastado, devolvido ao espaço e aos cheiros de vida, e tão-pouco me inquieta hoje a impossibilidade do Absoluto, da Perfeição ou da Eternidade. Um homem ganha uma força enorme quando deixa de acreditar em palavras com letra grande. Mas, apesar disso, comprometemo-nos a jogar uma vez por mês, eu e o João. Ensinaremos o Matthew. O Matthew, sim, o Matthew carregará o que restar da nossa obsessão, durante uns anos – até que chegue o momento de também para ele seja suficiente brincar como um menino uma vez ao mês.

Foto: © António Araújo

«Era o único som na noite de todo o mundo»

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Crónica

Mudámos tantas vezes de casa em Lisboa que existia sempre um caixote por abrir no fundo do corredor. Esse caixote (sem rótulo) viajou selado da Rua dos Mouros para a Travessa de São Pedro, da Travessa de São Pedro para a Rua da Costa do Castelo e da Rua da Costa do Castelo para os Dois Caminhos da Terra Chã. Em cima dele, jantámos à luz das velas. Amigos usaram-no como cadeira. Vários sacaram de um canivete, numa fúria de curiosidade, porque queriam ver o que continha, de uma vez por todas. Não deixámos. Ainda hoje continua fechado, num canto da cave, esse caixote sem rótulo, um mistério nascido da nossa preguiça, ou da nossa superstição.

Pode ser que lá estejam as cassetes de vídeo da colecção Atalanta (mas já nem temos leitor de vídeo), o jogo de panelas de alumínio que uma tia nos ofereceu no dia do nosso casamento (e que nunca chegámos a usar), os sapatos de salto alto que comprei em Paris (e que não consigo calçar), soporíferos e analgésicos poderosíssimos (e fora de prazo). Nenhum de nós, nestes últimos anos, se lembrou do que está guardado no interior desse caixote indecifrável, que não é leve nem é pesado, nem se deteriorou especialmente com o passar do tempo.

Mais cedo ou mais tarde, num sábado de chuva pela manhã, uma saudade indefinida vai levar-me a descer até à cave, em busca desse não sei o quê que fazia parte do nosso passado. Só espero que aquilo que ainda lá está dentro, de facto, nos pertença, e que não tenha havido, perdida nesse momento longínquo, alguma troca indevida de caixotes. Que ao som da chuva eu não descubra, ironia do acaso, os fragmentos amarelecidos de uma velha correspondência, escrita numa letra que não é a nossa. E que não seja esse o castigo desta preguiça: o de termos sido os fiéis raptores da história manuscrita de uma outra intimidade. Como se, inesperada, nos assaltasse a estranheza de tudo o que nos é familiar?

Havia na nossa casa do Bairro Alto uma velha cómoda de família, de madeira escura, de onde se libertava um odor. Um cheiro que um homem sabe que traz na memória, mas não consegue identificar o que é. Talvez fosse o odor das coisas antigas, mas bem conservadas, uma mistura do aroma do papel envelhecido que forrava as gavetas com o perfume da casquinha, e ainda algum vestígio da alfazema que noutros tempos se usara para aromatizar a roupa.

Esse odor rico, espesso e impossível de decompor — uma vez que a cómoda já existia na minha família há várias gerações e que cada um dos seus donos lhe dera um uso diferente — entrava dentro de nós como a resposta a um desejo antigo. Um desejo de memória ou de passado. E ali guardava eu grande parte do meu guarda-roupa, sem saber que a cada dia este odor me acompanhava.

A certa altura, no sufoco da falta de espaço que sucede nos pequenos apartamentos do centro de Lisboa, livrei-me daquela cómoda. E, com a cómoda, foram todos esses cheiros e suas origens remotas e o catalisador insuspeito de um momento de paixão. O casamento sobreviveu ao desaparecimento da cómoda. Mas nunca, em mais nenhuma peça de roupa que eu usei, ele tornou a sentir aquele odor, ainda que, por vezes, o tenha procurado.

Quanto do que procuramos uma vida inteira afinal já nos foi dado? Quanto do que nos une é efémero como um cheiro e granítico como a memória que dele temos e que, por vezes, nunca nos deixa? Dentro do caixote sem rótulo onde guardamos, sem o saber, as provas da nossa felicidade, algo nos espera, algo ainda nos pertence, uma música a tocar ao contrário da vida, o segredo do tempo que dura, ausente.

Um poeta definiu a duração. Diz ele que é «o mais fugidio de todos os sentimentos», um arrepio, uma intuição. O reencontro súbito com aquilo que somos e de que nos esquecemos. A celebração do que é irrepetível e, porém, permanece.

Os animais à minha volta

Crónica

Joel Neto

Talvez a cabra nem tenha sido o primeiro bicho para que ela me chamou a atenção. Desde muito pequena que eu a via acarinhar todos os tipos de animais: gatos, cães, pássaros, até galinhas. Dizia que queria ser veterinária ou pet sitter, bióloga marinha ou dog groomer. “Cabeleireira de cães”, acho que foi a sua expressão (e estava mais certa).

Eu sorria-lhe. Sempre gostei daqueles olhos tristes. E depois, não sei como, alguém deu uma cabra ao pai.

Creio que nem cheguei a ver essa cabra, agora que penso nisso. Andava sempre a viajar, de Lisboa para a ilha e de novo para Lisboa. Mas, por outro lado, vi-a muita vezes nas palavras daquela menina. Encontrávamo-nos e a primeira coisa de que me falava era a cabra: “Sabes que eu tenho uma cabrinha?” Então, eu imaginava uma cabrinha branca e rabina, como a da Heidi – e ficava ali, a ouvir as histórias que a menina me contava sobre ela.

Acontecia alguma coisa onde se podia esconder uma metáfora caprina? “É como a minha cabrinha, no outro dia também começou a…” Eu queria saber o que ela planeava ser quando fosse grande? “Se calhar já não quero ser bióloga marinha, quero ser pet sitter para passear a minha cabrinha.” Não tínhamos mais sobre o que conversar? “Ainda não te contei o que a minha cabrinha fez ontem…”

Tinha sentido de humor. Fazia um riso escarninho, ao imaginar-se a passear uma cabra, um animal tudo menos passeável, e fazia outros gestos cúmplices e inteligentes. Às vezes lembrava-me a minha avó, outras não. A minha avó era má.

Até que um dia cheguei de Lisboa, vim pôr as malas a casa e fui vê-los. Na altura a minha chegada já não era uma novidade: tornara-se uma rotina. A cozinha estava quente e aconchegante, e foi com uma sensação de regresso que girei o trinco à porta. Cumprimentámo-nos todos, na alegria do costume. Finalmente, ao canto da mesa, ela fez o seu ar maroto, um cubinho de carne erguido na ponta do garfo: “Não queres provar a minha cabrinha?”

Toda a gente me diz que esta história não foi bem assim, que fui eu que a inventei. Terá havido uma refeição de cabrito, talvez, mas nunca com aquela cabra. O que acontece é que as crianças chamam “cabrinha” a tudo o que é carneiro, macho ou fêmea, adulto ou cria… E é possível, realmente. À força de tanto contar histórias, um homem deixa de saber o que aconteceu e o que inventou. E, mesmo que ache que de facto aconteceu, ainda há a possibilidade de o seu cérebro o ter enganado.

É o bê-á-bá da neurologia: o nosso cérebro conta-nos histórias para preencher os espaços em branco, ajudando-nos a assimilar o mundo. Eu sempre tive dificuldade em assimilar o mundo. Mas não seria surpreendente se aquela menina tivesse comido a sua cabrinha. Faz parte do ADN das gentes do campo, uma certa promiscuidade entre as funções dos animais domésticos (e as emoções à volta deles). Eu próprio matei galinhas. E todos nós comemos da ‘Rita’, a porca que bebia água pela mangueira.

Como pude eu comer da ‘Rita’, pergunto-me hoje? Como pude ajudar a ir buscá-la ao curral, a erguê-la para cima do banco de abate, a segurá-la com todas as minhas forças de adolescente, sentindo-me a transformar-me num homem enquanto, debaixo de mim, um animal inteligente, talvez até afectuoso, guinchava desesperado? Como pude eu, durante tantos anos, arrancar as penas do pescoço às galinhas e cravar-lhe o gume frio e nem sempre regular de uma faca?

Parece-me tão longe, hoje, esse rapaz que eu era. E, no entanto, estaria ele menos certo, quanto à relação com os animais domésticos, do que este adulto confuso que ainda há dias viu uma vizinha matar um bicho-pau, com o desembaraço e a crueldade que só o hábito permite, e passou dois dias a rever a cena na sua cabeça? Está mais certo do que esse rapaz do campo este homem que nem é bem do campo nem é bem da cidade e que, cuidando dos cães como se fossem pessoas, é capaz de andar a semana toda a contar as horas para ir aos Altares comer um fillet mignon das mesmas vacas sobre que escreve?

Pensei nisso esta tarde, mais uma vez. Vínhamos a descer o Escampadouro, com os cães no porta-bagagens, e à nossa frente uma senhora algo desengonçada caminhava, com uma vara de vime fininha na mão, atrás de uma vaca solitária. Era gorda e parecia estar a reaprender a andar, como se criar aquele animal lhe tivesse devolvido a actividade física exigida pelos médicos, mas agora fosse hora de deixar o bicho no pasto, no meio da manada de algum criador extensivo que dentro de dias tivesse de ir entregar novo lote ao matadouro.

Que pensaria aquela senhora, ao encaminhar a sua vaca para a morte – a vaca que lhe devolvera a vida? E o que terá pensado a minha mãe, quando andou a criar aquela outra bezerra nos Regatos, indo para lá e para cá no Fiat Uno, duas vezes ao dia, nesses anos de solidão em que, seguidos, saímos ambos de casa, primeiro eu e depois a minha irmã? Que dor a povoaria quando, ao telefone para Lisboa, me comunicou: “Morreu a minha vaquinha”? E como pudemos nós todos continuar, apesar disso, a comer carne de vaca?

O facto é que pudemos, e esse é o mistério. Eu pude, apesar de tudo isso sobre que pensei e li. Portanto, não vai ser a filosofia a resolver a minha confusão, e espero que não seja o moralismo também. Mas pergunto-me se não será a sensibilidade. Talvez um dia destes eu saia de casa, rumo aos Altares, e, ao debruçar-me sobre aquele fillet mignon, simplesmente já não consiga comê-lo. Também isso ficarei a dever aos dois cães que se deitam debaixo desta mesa no preciso momento em que escrevo este texto. E o mais provável é que lhes perdoe.

Foto: © António Araújo

«Digo o nome da cidade»

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Crónica

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que já não sou. De muito mais do que saudade se faz este regresso ao lugar de onde partimos (que é só um).

Assaltam-me primeiro as areias da Caparica, nós em Maio, prematuros, a inventar tardes de sol, depois o Tejo, que aos olhos dos outros apenas brilha, e o namoro relutante das duas margens que o rio desune, cheio do bocejo daqueles que o atravessam dia após dia, antes de amanhecer. Avisto com um fascínio que me antecede as lajes brancas do Terreiro do Paço que um lodo antigo humedece, e é como se a cidade tivesse sido, noutros tempos, uma ruína (que, de vez em quando, reemerge). Seguem-se as ruas da Baixa, ilusória esquadria, e a estátua do Marquês, a pergunta que fiz ao meu pai, no Renault 4, daquela vez: quem é o senhor dos cabelos compridos, porque é que tem um leão? Os cabelos são uma peruca e o leão é um símbolo de poder. O que é um símbolo? Ao fim de tantos anos, como me pude esquecer? Não tardamos a chegar ao Campo Grande, e o avião já vai tão baixo, quase a pousar, que o seu voo rasante me angustia. Porque eu já vi Lisboa, perdida no meio das nuvens, mas Lisboa não me viu ainda.

Assim que dou o primeiro passo do lado de fora do avião, envolve-me o ar seco da minha terra como um abraço de sal. Venho cheia do verde húmido das ilhas, das noites dormidas no fundo do mar, e às portas da cidade chego a medo, como um anfíbio transitando entre dois mundos, devagar. No aeroporto, as multidões cosmopolitas desconhecem-me, mas os Lisboetas sabem que sou um deles. Vêem a minha cauda de limos, a escorrer água, e tudo em mim lhes é familiar. Também eles partiram, também eles mergulharam e, chegados do sonho de outras ilhas, é como se só ali acordassem. Respiro fundo, sinto o sangue nas veias a aquecer, esperam-me sorrisos à chegada e o olhar doce dos meus pais, que eu sei que nunca vai envelhecer. Avançando a passos leves, numa versão de mim mesma destilada, finjo que não é nada, mas preparo-me.

Preparo-me para o peso impossível da cidade que me viu nascer. Para as ruas da Baixa apinhadas, que eram melancólicas e desertas (ao fim da tarde), para os cafés filosóficos do Chiado (antes das lojas de grande marca), para os botequins da Graça e as tascas de Alfama (quando o fado era vadio), para as mesas dos bares do Bairro Alto, onde metade do que sonhámos, de facto, não aconteceu. Preparo-me para o mistério de tudo o que escapou à nossa decisão. À nossa vontade. Ao nosso querer. Para o mistério de tudo o que inadvertidamente deixámos de ser.

E, nesse momento, já estamos lá em cima, no largo de São Tomé, onde a ruína convive com os turistas e quase não se sente. E ali mesmo, ao virar da esquina, abre-se o abismo de Santa Luzia, onde, tantas vezes, a imensidão azul nos asfixia. Porque queríamos ir e não podíamos. Porque éramos ricos e ingénuos, e inquietos ao mesmo tempo. Porque sonhávamos com viagens de barco e com a vida dos piratas, e com tudo o que era longe, pueril e incerto.

Numa rua do Castelo, à frente de um quartel desabitado com a melhor vista fantasma da cidade, mora ainda a minha infância. Levo comigo, para toda a parte, as portadas brancas dessa casa onde o sol não entra, mas avança. Adoro o som dos meus passos no soalho de madeira, a voz clara dos poetas brasileiros que os meus pais ouviam de manhã, e a casa dos avós, ali tão perto, que se atravessava a passos largos, nas tardes de luz e de ópera. Por vezes, ouço o grito solitário dos pavões, cativos nos jardins de São Jorge, e lá por dentro estremeço: o que é voltar a casa? De que fios se urde a sensação, haverá algum segredo, alguma fórmula para descrever o lugar onde nos esperam, intactas, as nossas ilusões?

Vejo Lisboa de cima, recortada na asa do avião, aparecida no fundo de uma cortina de nuvens, distante ainda, mas evidente – e a cidade atinge-me com a força de tudo o que ainda sou. Nas suas ruas, ao entardecer, conspiro a minha próxima errância. Naquela esquina de que me esqueço, e onde alguém tentou escrever um verso, volto a encher-me de esperança. De todos os lugares do mundo, só Lisboa me vê partir. Há nela uma passagem para o eterno que não chega a ser secreta, porque o lugar de onde somos nunca o tempo o desfez.

O elogio do Inverno

Crónica

Joel Neto

Esta semana chegou o Inverno. Há mais de um mês que nós já vínhamos acendendo a salamandra, mas isso nunca é sinal de nada a não ser de que passamos dois terços do ano com saudades do Inverno. Entretanto, tinha havido dias de frio, dias de chuva e dias de vento. Por várias vezes a Catarina voltara do café matinal, esforçando-se por escorrer os sapatos à entrada, e cantarolara: “Acho que chegou o Inverno!” Mas só agora tivemos aquela chuva gélida e ventosa que nos desce pelo pescoço ao abrigarmo-nos sob um beirado e nos greta as mãos ao baixarmo-nos para disputar a bola de ténis com os cães. E o sol, evidentemente: aqueles rasgões de luz brilhantes e líquidos que podiam valer, sozinhos, um ano inteiro.

Já estive em muitos lugares, e já experimentei muitas meteorologias, e agora vivo novamente numa ilha que tem muitas meteorologias e, por via disso, se traveste de muitos lugares: nunca conheci um lugar tão perfeito e uma meteorologia tão ideal como os Açores sob o sol de Inverno, esperneando contra a distância e o esquecimento.

Vejo os meus amigos de Lisboa lamuriando o fim do Verão e não posso fazer mais do que solidarizar-me com o seu desânimo. Vejo os meus vizinhos dos Açores suspirando contra a humidade e a noite e não me ocorre melhor do que assoar-lhes o nariz vermelho e gordo da neurose.

A verdade é que não se ensina, o gosto do Inverno. Mas pode-se aprender. Nas longas horas de contemplação, ao sábado à tarde, olhando pela janela a ver languescer a Terra. Num passeio pelas ruas solitárias da cidade, noite dentro, com o frio invectivando-nos o rosto. Na espuma que, das ondas que se atiram contra o pontão, o vento faz levantar sobre a estrada – eu aprendi.

Da primeira vez que decidi falar a um amigo sobre a ideia de voltar à Terceira, tão vaga ainda, fui logo alertado para o Inverno. “Isto agora parece-te muito bonito”, disse-me ele, “mas só depois de voltares a passar aqui um Inverno é que te vais lembrar.” E eu assustei-me, porque, na ânsia de escolher um forasteiro residente, ademais com experiência consolidada, e além disso educado – tudo o que, no fundo, pudesse pôr-me a salvo dos mitos da falta de mundividência e das paixões imberbes do moralismo –, tinha acabado por ir dar a um serrano. Se um serrano se assustava com este Inverno, então era porque este Inverno metia respeito, e foi ainda com esse receio sobre todos os outros que, anos depois, nos instalámos na ilha.

Lembro-me de, no início de Fevereiro, ao ver florir a primeira erva azeda, me ter dado para celebrar a chegada da Primavera, quando ela ainda estava a três meses de chuva, de vento e de frio. Foram meses penosos, devo reconhecê-lo, e todos os anos, ao ver os cerrados pontilhados de florzinhas amarelo-vivo, sou forçado a lembrar-me deles, como se, apesar de tudo, fosse importante ir mantendo o inimigo à vista.

Mas o inimigo nunca foi o Inverno: é o tédio. A expectativa de uma coisa que não vem e a incapacidade de nos povoarmos com outra – esse, sim, foi o adversário para que nos armámos desde o início, para que nos armámos desde sempre. E o Inverno é tudo menos tédio. O Inverno é silêncio, supremo antónimo do tédio – talvez se possa mesmo dizer que na confusão entre os dois reside um dos mais frequentes e irremediáveis labirintos do viver.

No Inverno ninguém me toca à campainha. Não há foguetes no horizonte, nem touradas ao fundo da estrada, nem cortejos apitando aí em baixo no caminho. Ouço um zumbido ao fundo, uma roçadora mecânica aparando uma sebe, e sei que é sábado de manhã, porque a ninguém ocorreria, no Inverno, aparar uma sebe senão a um sábado de manhã. Cruzo-me com um par de vozes alteadas, ao passar frente à porta de um café, e sei que as vozes vêm da televisão, porque ninguém precisa de altear a voz no Inverno.

No Inverno, tudo à nossa volta se aquieta: os animais acalmam-se, as plantas hibernam, as pessoas aguentam. E é então que, dentro de nós, o mundo entra em ebulição. Como se, se repente, fôssemos nós a própria fonte da vida. Trabalhando. Lendo. Conversando.

Ouvindo jazz, e dirimindo os programas da BBC Radio, e afagando a testa aos cães. E ateando de novo a salamandra para ouvir jazz e dirimir os programas da BBC Radio e afagar a testa aos cães e trabalhar e ler e conversar e escrever.

É rotina, o Inverno – sobretudo isso. E é magnífico. Tudo o que temos feito de bom na vida, temo-lo feito no Inverno. É no Inverno que se plantam as árvores e se escrevem os livros. É no Inverno que se dão os melhores passeios e se cozinham os pratos mais saborosos.

No Inverno não se vai à praia, mas usam-se os casacos. Ainda não encontrei razão mais irrefutável para uma pessoa dar atenção à roupa que veste antes de sair de casa. Um casaco elegante e confortável, um passeio na noite, o vento invectivando-nos o rosto, uma casa à nossa espera com cheiro a lenha, livros nas estantes e cães dormitando sobre os tapetes – chega o Inverno e tudo o mais me parece apenas uma sucessão de instrumentos para termos saudades dele.

Foto: © António Araújo

A mulher réptil e o homem leopardo

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Jurei que a tinha visto no dia anterior, com um anoraque vibrante, num tecido inexplicável, em tom de escamas de réptil, uns ténis último grito, que cintilavam, os lábios pintados com um rosa discreto, mas incandescente, cigarro no canto da boca, óculos de massa que deixavam entrever dois olhos claros, estrangeiros, irremediavelmente.

Era tão superior, na sua aparência, a tudo o que a rodeava, que as cores sem nome que a vestiam se diluíam nas paredes da cidade, tingindo as fachadas brancas e o mar azul ao fundo como um traço de aguarela. Ou de lava.

Havia vento. Mas ela estava sentada numa mesa lá fora. Camaleónica. Deslocada. O simples facto de estar ali suscitava comparações impossíveis entre planos que não se tocavam: não era uma mulher entre outras. Era o humano a superar a paisagem. Mineral. Sem idade. Desejável, ainda que de uma forma abstracta.

Hoje, vi-a de novo, sentada no mesmo café, mas do lado de dentro. Não estava sozinha. E não era a mesma mulher. Em vez de escamas, trazia umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Algo nela, desfocado, estremecia. O corpo, hirto, mantinha-se recuado mesmo enquanto ela comia. Sentado à sua frente, um homem olhava-a como se olha alguém que adoeceu há muito tempo. Sem culpa. Sem pena. Sem condescendência. E ela, de olhos baixos, alimentava-se. Empenhada naquela relutância.

Perguntei-me: tê-la-ei sonhado ontem? Ou será que ela lhe mente? Talvez lhe esconda que é jovem. Talvez se finja doente. Olho para o homem e reparo. Há um brilho que o torna cúmplice, uma inércia que não sente. Também ele é ilusão, também ele é fingimento. Um pacto houve entre os dois. Que ela seja a enferma, e ele o sobrevivente. O guardião da doença. O porteiro daquela dor. E num teatro sem palco, o casal emudeceu.

No casal que não se toca, que não diz uma palavra, não há antes nem depois. Talvez descubram que ela, misteriosa iguana, vai armazenando o calor. Talvez ignorem que ele, leopardo solitário, já não é um predador. Que o mundo o tornou vulnerável, que a natureza o expulsou, que essa espécie sem destino já está a desaparecer. Talvez não saibam ainda o que quase chegaram a ser.

Nesse quase onde cabemos, fomos felizes a dois. Percorremos os desertos, partilhámos as miragens, juntos aceitámos exilar-nos de tudo o que era selvagem, e nas selvas sufocantes que criámos, entretanto, já nevou.

«A nossa casa é onde nós os dois estamos»

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António e Maria Linhares, casal protestante, emigrou pela segunda vez da Ilha Terceira, nos Açores, para San José, na Califórnia. Da primeira, estiveram 21 anos longe do arquipélago e, quando decidiram voltar a casa, Portugal entrou em crise e deixou de haver trabalho no ramo que os alimentava: o da construção. Ao fim de 13 anos, já à porta dos sessenta, viram-se obrigados a regressar aos EUA, o país para onde já tinham emigrado na juventude. Na ilha, deixaram uma parte da família, assim como os amigos mais chegados e a vivenda que tinham comprado a pronto.

Entramos na residência de António e Maria Linhares, uma mobile home nos Pepper Tree Estates, em San José, CA, e cedo percebemos que esta casa, em teoria desmontável, é uma metáfora para a vida do casal e para o seu entendimento do mundo. António explica-nos que uma mobile home «é uma casa que pode ser mudada. Os alicerces não são fixos. Pode-se pôr rodas de carros e transportar para outro parque. […] A casa é nossa, o terreno não.» O lugar onde vivem é uma construção «móvel», e o carro é um lease. Que nada seja perene não parece atormentá-los.

Queremos explorar o romantismo e perguntamos: «Porquê uma mobile home? A aventura não termina aqui?» A resposta de António não nos deixa perder de vista a realidade:

O preço das casas actualmente, em San José, é muito caro e nós nunca nos iríamos qualificar para comprar uma. As casas estão acima das nossas posses, embora nós os dois ganhemos relativamente bem. Para nos qualificarmos para uma casa, hoje aqui em San José, é muito difícil. Teríamos de ter uma grande quantidade de dinheiro para pôr como down payment, como sinal, e não tínhamos. Quando voltámos para cá viemos sem dinheiro, praticamente – eu trouxe 100 dólares e a Maria trouxe 200. Começámos uma vida de novo outra vez.

Entre a primeira e a segunda emigração dos Linhares, deu-se a bolha imobiliária. Se antes se tinham endividado, porque «havia essa facilidade […] de jogar com os cartões de crédito», agora, guiou-os a preocupação de não viverem acima das suas posses:

Os bancos emprestavam mais facilmente do que emprestam agora, por isso é que em 2008 houve aquela grande quebra na economia que levou muita gente à bancarrota aqui na América. Desta vez não entrámos nesse sistema, entrámos num sistema de não irmos acima das nossas posses: durante dois anos vivemos com a minha cunhada, não temos filhos agora, estamos só nós os dois, podemos controlar melhor as nossas dívidas. Depois de estarmos dois anos com a minha cunhada arrendámos uma casa, sempre de maneira a que tivéssemos hipótese de guardar algum dinheiro para casos de emergência; não comprámos carros novos, comprámos sempre carros usados e acabámos por entrar no sistema do leasing […] Já o disse várias vezes: agora é que estou na América. Sinto-me bem, vivemos à vontade, fazemos as nossas despesas, mas podemos fazê-las porque temos dinheiro para isso.

 

O regresso provisório aos Açores começou por ser uma viagem de sonho, um recomeço limpo, sem dívidas, num lugar «onde sempre foi um sonho voltar», mas cedo se tornou claro que seria apenas a segunda de três etapas:

A minha ideia era não voltar mais aos Estados Unidos, não por não ter gostado de estar cá, mas por causa do traffic, do trabalho, da pressão que tivemos de agarrar dinheiro suficiente para poder pagar dívidas. Quando fomos para [os Açores] comprámos a nossa casa, pagámos na totalidade para não termos dívidas; comprámos o carro, pagámos na totalidade para não termos dívidas… Mas chegámos a um ponto, nos Açores, em que começámos a entrar em dívida. Só eu é que trabalhava e só dava o suficiente para a vida normal, só para comida, gás, roupa, o básico.

No entanto, quando perguntamos se, de alguma forma, sentem que a ilha os rejeitou, Maria é peremptória:

Não foi rejeitar, foi por causa da inflação. Na minha opinião, quando entrou o euro descontrolou tudo: um café custava 50 escudos e foi logo para um euro e um euro não é 50 escudos, são 200. Foi tudo para o dobro, mesmo no supermercado e os ordenados nunca acompanharam.

 António concorda:

Também não achei que tínhamos sido rejeitados – pelo menos pelos nossos familiares e amigos fomos bem recebidos. A gente gostava da ilha, a gente gosta da ilha e gostava de estar lá. Se não tivesse acontecido aquela quebra com Portugal e com a Grécia, que estiveram mal financeiramente, talvez ainda estivéssemos lá – a Maria tinha o seu trabalho, eu tinha o meu e dava para nos mantermos. Quando houve a quebra, quando houve falta de emprego, as construções praticamente pararam e tudo mudou.

 

No parque onde agora vivem, rodeados de outras mobile homes, a população é 99% asiática. A relação que mantêm com os vizinhos é sobretudo cordial, mas «o sistema de vida é cada um para si». Como diz Maria, «é aquele sistema de “olá, bom dia, como é que estão, adeus” e cada um vai para os seus trabalhos». A principal dificuldade é a língua: «muitos deles aqui no bairro não falam inglês».

Longe da família, num bairro de imigrantes asiáticos onde são «estrangeiros», os Linhares poder-se-iam sentir um pouco sós. Mas têm a companhia da irmã viúva de Maria, que visitam com frequência e com quem vão muitas vezes jantar fora, e a comunidade da Igreja Evangélica Baptista, a East Valley Church, onde já tinham sido baptizados da primeira vez que estiveram nos EUA e para onde voltaram.

A igreja acaba por ser, também ela, uma casa «móvel», que tem acompanhado o casal nas suas várias errâncias. Depois do baptismo na Califórnia, continuaram a frequentar a Igreja Baptista em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, quando regressaram aos Açores, e agora voltaram ao ponto de partida. Diz-nos António:

A comunidade da igreja protestante, ou como queiram chamar, é unida. Geralmente, temos vários programas que são feitos durante a semana e que nos juntam uns com os outros. Nós já não frequentávamos muito as festas portuguesas, mas uma vez que nos tornámos protestantes – é a melhor maneira de o dizer, porque todos nós somos cristãos, católicos ou baptistas – afastámo-nos completamente porque não acreditamos naquelas festas. Para além disso, como veio uma nova etapa, como nos afastámos das festas, criámos outros amigos e outros convívios. É completamente diferente. […] É a nossa segunda família.

Conhecendo um pouco dos ideais da Igreja Baptista, ocorre-nos perguntar aos Linhares se esta nova América de Donald Trump é um lugar onde se sentem mais em casa, com as suas crenças e convicções, do que se sentiam na Europa ou no tempo de Barack Obama. António responde sem hesitações.

Felizmente, tivemos o Donald Trump. A Hillary já estava a perseguir os cristãos e a ideia dela era tentar abafar, fazer com que os cristãos tivessem menos e menos poder, menos voz activa no país. Não que Donald Trump seja um santo ou um pastor – ele tem os seus defeitos, tem as suas virtudes, mas veio como uma lufada de ar fresco para os cristãos, porque tirou uma data de pressão. Estávamos a ver-nos ser cada dia mais abafados quando estava o Obama e se tivesse sido a Hillary as coisas, para os cristãos deste país, iam estar mal e mal.

Maria acrescenta: «As crianças não podiam falar de Jesus numa escola, podiam ser expulsas.» E António elabora:

Isto começou a ficar terrível. Não se podia dizer “merry Christmas”, tinha de ser “happy holidays”… Começaram a apertar e a apertar e com a entrada do Donald Trump ele cortou isso tudo, temos a liberdade de expressão cristã que estava a ser muito oprimida. No entanto, nós sabemos que mais tarde ou mais cedo Donald Trump vai sair do governo – o máximo que ele pode estar são oito anos. Se viermos a ter um governo democrata vai voltar a opressão sobre os cristãos. Nós esperamos isso. A bíblia diz-nos isso sobre os últimos tempos, que os cristãos vão ser oprimidos, perseguidos. São profecias que vão ter de se cumprir e nós compreendemos isso.

Quanto à posição do actual Presidente dos EUA relativamente às minorias étnicas e aos imigrantes, António apressa-se a esclarecer:

Não houve presidente nenhum até agora que tivesse mais minorias a trabalhar do que aquelas que ele tem, tanto faz a comunidade preta, como a comunidade hispânica. Há emprego agora como nunca houve antes, o desemprego nos Estados Unidos é de 3.99% e dizem os entendidos que o desemprego nunca esteve tão baixo como agora; a comunidade negra e a comunidade hispânica têm agora mais pessoas empregadas do que nunca. Os gays ele talvez não apoie porque vai mais pela moralidade. O embaixador da Alemanha é gay e ele tem-no como embaixador da Alemanha. Ele não é contra gays, ele não é contra pretos – a media é que tira do contexto. O que ele não faz é o que o Obama fez. O Obama, quando foi o dia da comunidade gay, enfeitou a White House com luzes gay – ele não é para isso.

Nessa América onde agora se sentem mais em casa, António levanta-se muitas vezes às 3 da manhã para ir trabalhar e Maria só tem uma fim-de-semana de folga em dois. Mas fazem as compras no Costco, onde «compram aquilo de que [necessitam] em grandes quantidades», ou no Grocery Outlet, «que é muito mais barato, às vezes metade do preço em muitas coisas» e não dispensam, durante a semana, o papo-seco português, que compram numa padaria popular portuguesa em Allen Road. Quando a saudade aperta, recorrem ao Abel’s Liquor Store, «que vende tudo o que é português – o bacalhau, a morcela, a linguiça, os vinhos…».

Com a família que ficou na Ilha Terceira (o filho Daniel, a nora e um neto) e com a que emigrou para Vancouver, no Canadá (a filha Stacey, o genro e duas crianças), comunicam por video conference, mas também lhes proporcionam algumas visitas à Califórnia. Agora, podem dar-se ao luxo de ajudá-los, mas também não querem «mimá-los» demasiado.

Não. Eles têm de trabalhar pelo que é seu, como nós também trabalhámos por tudo o que temos – ninguém nos deu nada. A nossa família não podia, era muito pobre. Viemos sem nada e voltámos sem nada, começámos a trabalhar para podermos ter. Com muito suor, trabalho e persistência é que a gente tem o que tem. Com muito sacrifício…

Da Ilha Terceira, António guarda a memória de infância dos serões passados com o avô, nos Biscoitos, a vindimar. «Não havia luz, não havia nada, mas vivíamos naquele sistema, com candeeiro ou com velas, e eu adorava aquilo. […] Sim, essa é uma que fica sempre na memória: estar naquela parte da ilha, onde não havia luz, e passar tempos com o meu avô a jogar às cartas, ao burro. Ele ria-se e eu ria-me. Éramos só nós os dois, ele até é que cozinhava para mim. Eu adorei aquela época da infância, do vindimar, ir buscar e acartar uvas, ir para o lagar.»

Já Maria, da infância na Ilha Terceira, recorda a fome:

A memória que tenho é de uma coisa que a minha mãe fazia: todas as vezes que ela cozia o pão – a gente era pobrezinhos, havia dias em que íamos para a cama sem comer, com fome – ela punha um pãozinho na rua, embrulhadinho, para a primeira pessoa que passasse levar.

Na mobile home do casal Linhares, em Pepper Tree Estates, respira-se uma felicidade a que não é alheio um certo desapego das coisas materiais. Queremos saber de onde vem esse desapego, se a sua origem é a adversidade que tão evidentemente marcou a vida de ambos, ou se é algo mais.

Nós não estamos agarrados a nada, isto é tudo temporário. É a maneira de ver do crente: nada disto é nosso, é temporário, Deus dá-nos para usar enquanto estivermos aqui, porque esta vida é curta e a outra é que é eterna. Devemos usá-lo com respeito, no melhor sentido, mas não estamos agarrados a nada. Estou preparado para morrer quando Deus me chamar, a qualquer altura. Gosto muito das minhas coisas, mas se me disserem “tens de te livrar disso, vais para trás, começar de novo noutro lugar” estou pronto para isso.

 Em última instância, o lugar onde vivem deixa de ser relevante.

A nossa nação não é esta, é a nação de Deus. Nada disto nos importa. Somos naturalizados americanos, somos naturalizados portugueses, mas, para nós, isto é temporário.

O que será, então, a casa para António e Maria Linhares? A casa que tanto lhes custou encontrar e pela qual ainda lutam, quase sexagenários, como se a vida de trabalho tivesse mesmo agora começado? É Maria quem nos responde, e a sua resposta não deixa de ser redentora:

A casa é onde nós estamos os dois – se estamos aqui, se estamos em casa da minha irmã, se estamos noutro lugar, se estamos na Terceira. Qualquer lugar onde estamos é a nossa casa.

SEMANA 10

Protagonistas: António e Maria Linhares

Actividade: Indústria da Construção Civil (António); limpezas hospitalares (Maria).

Regresso: San José, Califórnia – Ilha Terceira, Açores.

Anos de ausência: Da primeira vez que emigraram, 21. Da segunda, 5.

O motorista de urbana que dava o herói de um conto infantil (pelo menos)

Crónica de Joel Neto

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Nunca escrevi foi sobre o Roberto, e a razão é a mais simples: conheço-o mal o suficiente para temer não estar à altura. Apesar disso, não há semana em que não me entre em casa uma história do Roberto. Algumas vêm da Catarina, que dia sim dia não anda com ele na urbana, a caminho da biblioteca ou de regresso do ginásio. Mas tenho a impressão de que não há um só lugar nesta ilha onde seja garantido que não me vão falar no Roberto: nem as mesas das pastelarias nem os consultórios dos dentistas – nem os corredores das escolas secundárias, nem os guichés das repartições públicas, nem sequer as cadeiras frias das casas mortuárias durante a madrugada.

Há que tempos que estou para escrever sobre o Roberto. Talvez deva arriscar.

O Roberto, que partilha o nome com o dono do café onde vou mas na verdade conduz a urbana da Terra Chã, deve ser o homem mais popular da ilha. “Urbana” é como na Terceira se chama a um autocarro, uma camioneta da carreira: carreira urbana, por extenso – para sintetizar, “urbana”. E é dali, daquele assento altivo, que o Roberto gere os seus domínios. Cumprimenta cada pessoa com que se cruza, mas isso ainda é dizer muito pouco. Sabe o nome de cada um dos seus passageiros, das velhinhas que vão para o Centro de Saúde aos miúdos que vão para a escola e aos próprios pais de família que, apanhados com o carro na revisão, não andam de urbana mais do que uma vez ao ano. E, sobretudo, quando fala com eles é como se se preocupasse.

Entra uma garota numa daquelas urbanas das oito e meia e, ao dar-se conta de que a manhã está mais fresca do que esperava, faz um arrepio: “Bom dia, Roberto. Ai, que frio…” Então o Roberto leva o pé ao travão hidráulico. “Mas tens frio, Andreia? Queres ir buscar um casaco?” Acto contínuo, carrega no botão luminoso, a abrir a porta de novo: “Vá, vai lá buscar um casaquinho, que eu espero.” E quando, ainda antes do fim dessa viagem, verifica que a greve dos professores vai realmente deixar os miúdos sem aulas, como já temia, tira os óculos escuros e olha o miúdo mais rufia através do espelho retrovisor: “João, a escola está fechada. Como é que queres fazer? Sais aqui e eu vou dar a volta e apanho-te no regresso? Ou vens já comigo até lá acima e voltas?”

Trata toda a gente por tu, o Roberto, e ninguém lho leva a mal. Toda a gente trata toda a gente por tu, aqui na ilha. Mas, principalmente, o Roberto elevou a condução de um autocarro a uma arte pop e a figura do condutor a uma estrela. Melhor: fê-lo por generosidade. As crianças, os adultos, os velhos – ninguém, para ele, merece menos cuidados. Na sua história conjura-se tudo o que ainda reste de rural nesta ilha e de decente na ideia de transporte público. O meu único medo é que um dia venha um partido qualquer e o convide para se candidatar a uma junta de freguesia, ou assim. Homens como o Roberto são atraentes de mais para a política pelintra destas ilhas. Nunca me esqueço daquele carteiro do Corvo de quem deram cabo.

Até lá, porém, há um adolescente muito hormonoso que não se senta quieto na cadeira, sempre aos saltos a importunar as raparigas? O Roberto chega ali à subida do Alto das Covas e, quando o trânsito pára, deixa descair a camioneta dez centímetros e carrega no travão, fazendo-o sentar-se. Vem aí a Páscoa e há duas senhoras sentadas no banco da frente a lamentar-se pela falta de tempo para cozer a massa sovada, contrariamente à tradição familiar? O Roberto promete trazer no dia seguinte um bolo para cada uma, daqueles que o irmão coze na Agualva (acho que é na Agualva). A urbana esvaziou e já só resta a Catarina para transportar até ao ginásio? O Roberto leva o resto da viagem a fazer conversa sobre exercício físico e a contar do pequeno ginásio que se esforçou por instalar em casa, aqui há uns anos, mas nem sempre tem tempo de usar como pensava.

“Estás a ver aquela casinha?”, apontou-lhe há dias. Falava de um casebre poético que há ali em baixo, em frente à Cadeia, brilhando na orla de uma mata elevada ao fundo de uma quinta muito bonita. “Tu és uma pessoa que ali é que estavas bem, não és?” Perguntou-lhe a Catarina: “Porque é que dizes isso, Roberto?” E ele: “Não sei. Podias traduzir os teus livros sem barulho.”

O Roberto é assim: olha realmente para as pessoas, interessa-se realmente por elas. Penso nele e lembro-me dos motoristas de autocarro da minha infância: o Dutra, que fazia o caminho todo em segunda, numa lentidão que nos entediava de morte; o José Pereira, que era do Sporting e andava o tempo todo nos limites do que o autocarro dava, como talvez só fosse possível naqueles anos tontos; o António, que era filho da D. Albertina e não havia nada sobre que não soubesse tudo – ao pé do Roberto, temo bem, eram todos figuras bidimensionais, desprovidas de dimensão literária.

A única vantagem é que, nos casos deles, a urbana andava sempre a horas – mesmo quando era o Dutra a conduzir. Já com o Roberto, tantos são os afazeres, acontece estar atrasada, o que é sempre uma chatice. Quando alguém protesta, porém, ele meneia a cabeça: “Eu sei… Mas eu esforço-me…” Um dia ainda o transformo no herói de um conto infantil. Talvez aí consiga fazer-lhe justiça – aqui, não fiz.

Foto: © António Araújo

Crónica de um desaparecimento

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Crónica

Numa manhã ventosa de novembro, eu vi-os. Eram quatro: três rapazes novos, atléticos, e uma octogenária, paralítica, a descerem a rampa na direcção do cais. Ela, gritando, gesticulava com frenesim, numa espécie de furor endiabrado. Eles, metódicos, içavam-na em peso da cadeira de rodas e mergulhavam-na na água plúmbea, sem piedade.

Em redor, alguns madrugadores observavam a cena com pacatez, de mãos nos bolsos. Os três rapazes inclinaram, então, a cabeça ao mesmo tempo, à beira do cais, e viram a sombra a descer, ondulante, naquele canto de mar sem fundo.

Ao meu lado, um turista assistia, num horror mudo. Devia julgar-se testemunha de um crime inconcebível, num país onde se afogavam octogenárias com um descaramento impune. Não fora um crime, porém, que ele testemunhara – mas um milagre.

Chamava-se Idalina e tinha 83 anos. Há cinquenta que todas as manhãs o seu dia começava ali, na praia da Silveira, com um mergulho indiferente às convenções do calendário ou aos caprichos da meteorologia. Para Idalina, só uma coisa era verdade: o mar gelado, de madrugada. E essa verdade guardou-a ela a vida inteira, escondida no meio das mentiras: que era doente, que não podia, que estava velha, que a gripe (estendiam-lhe o dedo, quando o diziam) ia acabar por apanhá-la um dia. Com uma militância que metia medo (só os bisnetos aguentavam o peso daquela ditadura), mergulhava sem pernas todos os dias.

E ali, no fundo do mar, elas renasciam-lhe.

Idalina morreu muito velha, sentada na sua cadeira de balouço, à lareira, mas estava nesse preciso momento a sonhar com o mar de chumbo no cais da Silveira (não o azul, que era coisa de meninos, mas aquele, mais proceloso, com revérberos de prata). E a morte foi apenas mais um mergulho.

Procuro esse músculo que se chama resiliência. E entro no quarto pouco mobilado de uma residência para estudantes nos subúrbios de outra cidade. Lá fora, a temperatura desce, e não conheço ninguém. O quarto não é aquecido, o que é bom (dizem-me), porque posso usar o parapeito da janela como frigorífico. Nos duches, a água é descontínua (tenho de carregar num botão de vinte em vinte segundos). Acima de tudo, não há um só café à vista, com bolas de Berlim, meias de leite e folhados de salsicha.

Mas há uma estante que me corta o quarto ao meio e que eu, para ganhar espaço, arranco do chão. Há um pano florido, com que cubro a parede, e um candeeiro de mesa que trouxe comigo e que sempre foi o meu. Dali a horas, na cantina, constato que o jantar é um engano. Dali a anos, descubro que o mais difícil foi o recomeço. Voltei diferente, já não cabia no meu quarto de criança.

Hoje, chamo-me Idalina e tenho 83 anos. Entro noutro quarto pouco mobilado, no segundo piso de um lar (também lhe chamam residência sénior, última morada, não lugar). Pouso no chão a minha pequena mala, olho em redor para a mobília que só atrapalha e reprimo um suspiro. Será que a memória me trai, ou já passei por aqui? A tinta amarela das paredes lembra-me outras manhãs, do mesmo tom desmaiado. E da janela, o que se vê? Ponho os óculos. Um mar prateado.

Menina? Bom dia. Pode fazer-me um favor? Traga-me uma pequena lata de tinta branca, uma trincha e um tabuleiro. E já que está aí, com um ar ocioso, traga-me também parafusos e uma chave inglesa. Não sabe o que é uma chave inglesa? Que pecado…

Na minha última morada, há uma cadeira onde me sento descalça, a apanhar sol. Será que aos oitenta as ondas do mar já não rebentam? Já não nos sussurram as nossas paixões? É o corpo que o decide, é a mente que não sente? Aos oitenta, ainda temos ilusões? Procuro, ignorante, o que vai fazer-nos falta. É a ternura. Ou a ficção? Será o toque imaginado de outras mãos?

Neste mundo de beleza inadiável, onde o nada se decide, somos doces e a noite é de veludo. Mas ninguém lá entra brandamente.

As palavras proibidas

Crónica de Joel Neto

Joel Neto

Pelas três da tarde, vou à venda. O mais comum é o Roberto estar sozinho: ele fala-me das suas apostas, eu implico com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-me para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e eu saio de rabo entre as pernas. Às quartas-feiras vou com o Chico, que está cá a tratar do jardim: o Roberto fala-nos das suas apostas, nós implicamos com a música pimba que ele está a ouvir na televisão, ele desafia-nos para dirimirmos a contenda num jogo de matrecos e nós saímos ambos de rabo entre as pernas. Hoje, não sei porquê, havia lá outras pessoas, o Sr. N. e o Ti F. e o vizinho B., que não se interessam por apostas, não ligam a música, acham os matrecos um jogo de garotos mas também não são de sair com o rabo entre as pernas. Foi então que me lembrei de comentar: “Este ano há castanhas como o diabo.” E fez-se silêncio.

Não um daqueles silêncio incipientes, com mais circunstância do que intenção: um silêncio pesado e eloquente, que significava alguma coisa e talvez até pretendesse deixá-lo claro. Levantei o rosto para o Sr. N., a cara tão vermelha como sempre, os olhos deliberadamente afundados na aguardente suspensa no ar. Olhei para o vizinho B,. a engolir em seco, uma vez e outra, e outra ainda, como se não tivesse maneira de se pronunciar. Meneei a cabeça para o Ti F., abri evidentemente as mãos na direcção do Roberto – ninguém me respondeu, e foi preciso que passassem ainda alguns segundos para uma rapariga na televisão fazer uma tolice qualquer e, enfim, as respirações em volta se deixarem retomar.

Estupidez minha, na verdade. Já aqui escrevi bastas vezes sobre a minha relação com as castanhas. Os castanheiros foram as grandes árvores da minha infância, foi a vender castanhas que ganhei o meu primeiro dinheiro e, desde que regressei a casa, há agora seis anos, existe um “antes de o vento ter arrancado o castanheiro grande” e um “depois de o vento ter arrancado o castanheiro grande”. As castanhas são o meu fruto, a suprema fertilidade destas terras, e creio que posso dizer que sei tudo sobre elas. Como é que é possível continuar a cometer erros de palmatória como esse de celebrar uma safra?

Com as castanhas, não se pode baixar a guarda nunca. Há muitos ouriços no castanheiro? Pode vir uma ventania e fazer cair tudo cedo de mais. Há muitos ouriços no castanheiro e estão a cair na altura certa? Pode estar tudo cheio de bicho. As castanhas são, em si, uma metáfora para o Outono, românticas e tristes. Mesmo quando há razões para as festejar, o melhor é partir do princípio de que a sua dimensão trágica acabará por prevalecer. E, se corre tudo bem, se as castanhas são muitas e boas, não nos podemos esquecer de que já foram muitas mais e muito melhores, quando estes homens tinham o vigor e a saúde que os Céus, os mesmos onde se decidem estas coisas, lhes tiraram.

Já foi há duas semanas, aquele silêncio na venda do Roberto, mas pensei nele todos os dias até ontem. Perguntava-me se seria medo ou apenas ingratidão, a recusa dos camponeses da minha terra em reconhecer a qualidade de uma safra de castanhas, e perguntava-me também o que isso poderia significar sobre mim próprio. No dia em que deixa de se esforçar por perceber o lugar e o tempo de onde vem, aquilo que o enforma e as razões por que possa sentir dificuldades em lidar com isso, um homem perde a capacidade de continuar a educar-se. Até que, ontem à noite, dei por mim numa roda de artistas e intelectuais: músicos, actores de teatro, mas sobretudo escritores. Bebeu-se imenso e com gosto. Todos desenvolveram diferentes raciocínios, ao longo da noite, e a certa altura havia mesmo vários raciocínios em desenvolvimento simultâneo, dispersos pelos grupos de ocasião em que se ia dividindo o grupo maior. Foi então que, determinado a esclarecer uma dúvida com que me tenho digladiado, arranjei maneira de proferir as palavras: “Sou feliz.”

Nem sei a que pretexto o disse, ou sequer se foi um pretexto razoável. Sei que, de repente, a sala estalou num silêncio exactamente igual ao que se fizera na venda da minha freguesia: as vozes numa súbita suspensão, aquelas palavras reverberando ainda no ar, “Sou feliz”, como uma prova, senão da minha ignomínia, pelo menos da minha insensatez. Apurei os ouvidos, perscrutei os rostos, e não era apenas o mesmo silêncio: eram também os mesmos semblantes e era, seguramente, o mesmo sentimento. Só então se fez luz. É assim entre os camponeses da minha freguesia como é assim entre os escritores de Lisboa: com a felicidade e as castanhas, nunca se pode dar o flanco. Proclamar a fortuna, reconhecê-la que seja: tudo menos isso. Só não sei, agora, se será por medo ou será por ingratidão: às vezes parece-me apenas hábito. Mas nós não assentaríamos toda uma cultura em tão pouco, pois não?

Foto: © António Araújo

Autópsia sentimental

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Crónica

Na última noite, eu pedi um gin tónico com casca de laranja caramelizada, pau de canela e estrela de anis – e ele uniu as mãos em cima da mesa, fez-me um sorriso e mandou vir uma água das pedras. Não tinha despido o fato de trabalho, ou sequer aliviado o nó da gravata, e ainda ficou uns segundos a olhar para mim, como se eu fosse a última reunião desse dia – e a mais delicada.

Lancei-me num balanço incoerente do tempo que passáramos juntos, na esperança de que, ao fazê-lo, parte do feitiço se dissipasse, e revisitei os momentos de epifania, os insultos requintados, as promessas inspiradas. Falei-lhe do desperdício. Da ironia. Dos infernos que tínhamos visitado, de mãos dadas.

E ele, visivelmente feliz por ter pedido uma água das pedras, arqueou ao de leve as sobrancelhas, descruzou as pernas e inclinou-se para a frente: «Isto é o quê? Um balanço de contas?» Levantei a cabeça e respondi-lhe: «Não. É uma autópsia.» O fantasma de um recomeço brilhou-lhe nos olhos, mas já sabia, tão bem como eu, que o nosso jogo tinha acabado.

Nessa noite, saí do bar, entrei na chuva (se chovesse, teria entrado), e dei um passo na direcção do futuro. Há certos fins que nos aproximam do princípio. Há certos passos que têm um som diferente dos outros, como se, por momentos, nos tivéssemos esquecido de tropeçar. De sermos coxos.

E há paredes nesta casa vivida a dois onde o taxidermista que também somos pendura animais embalsamados. Por vezes, eles espreitam-nos de manhã cedo (quando vamos a caminho do duche), com os seus chifres cor de marfim e os seus olhos incisivos e vazios. E sussurram-nos culpas, humilhações, calamidades. São pequenos demónios, cristalizados, que servem o grande propósito de nos lembrar que a nossa cabeça, por alguma razão, não está ali. Por sorte, alguém nos salvou. Fomos resgatados.

Da parte acidental da vida, e da sua inevitabilidade. Dessa grande floresta de acasos onde não existe o princípio de um caminho. Porque não se quer verdadeiramente partir – e muito menos chegar. Dos lugares onde nos dizem que somos livres, e onde a liberdade não nos responde – porque, afinal, tem outro nome.

Hoje de manhã, o Outono atravessou a nossa casa. Trazia um cheiro a raízes apodrecidas, folhas secas e erva molhada. Abri a porta de rede do jardim – e respirei. Não há nada que hoje em dia me faça desejar a Primavera. Todos nós somos estilhaços, que se recompuseram. Fragmentos de outros tempos, fantasmas de outras estações. Camadas sobre camadas de deslumbramentos e desilusões.

Nos seus silêncios cada vez mais densos, a linguagem conjugal é como um velho vinil que gostamos de ouvir e que inadvertidamente se foi riscando ao longo dos anos – até se tornar inaudível. Guardamos a canção que se esconde sob a superfície arranhada como o Outono a sua folha mais verde.

Porque a cada dia que passa, seja por milagre ou por teimosia, a Primavera acontece.

Os pequenos regressos

Crónica

Joel Neto

O primeiro hotel em que dormi ficava numa cidade de nome Haderslev (lê-se “Haderslow”), no coração da Dinamarca peninsular. Quer dizer, eu já tinha dormido em hoteizinhos portugueses, mas aquela era a primeira vez que o meu jornal me mandava ao estrangeiro. Pagava-me as viagens, pagava-me as refeições, pagava-me subsídios pelas folgas, os feriados e até as noites passadas fora de casa. Mas, sobretudo, pagava-me um hotel dos bons.

Chamava-se Norden Hotel, ficava na Storegade 55 e, como pude conferir esta manhã na Internet, continua igual. De resto, a razão por que conservo tanto sobre ele na memória é a mais simples: gozei cada recanto daquele lugar. Haderslev, no Inverno, parecia-me uma espécie de ‘Twin Peaks’ glaciar: um punhado de edifícios coloridos entre os quais, pontualmente às três da tarde, vogavam automóveis de regresso a casa, muito devagar. Podia ser deprimente. Mas era então que começava verdadeiramente o meu dia.

Durante duas semanas, esquadrinhei os jardins, esquadrinhei a piscina e o spa (acho que na altura ainda não se chamava spa), esquadrinhei os restaurantes e os bares. Saía pela cidade, muito agasalhado no interior do meu casaco de napa, e o som dos meus sapatos no asfalto trazia-me uma nova felicidade. Esquadrinhava a cidade para lá, tornava a esquadrinhá-la para cá e, se ainda não tinha sono, esquadrinhava-a novamente para um lado e para o outro.

Às vezes entrava num pub qualquer – esquadrinhava-o também. Outras vezes voltava para o meu quarto, em cuja televisão havia um canal que todas as noites passava o mesmo porno sueco – também o esquadrinhava, pois claro que esquadrinhava. E outras vezes ainda ia até ao supermercado, que fechava tardíssimo (pelas seis da tarde), e deixava-me a conversar um bocado com a rapariga da caixa, uma garota sul-coreana linda que apetecia mesmo esquadrinhar.

Enfim, eu tinha 22 anos, vinha de uma pequena ilha atlântica e ninguém na minha família, antes de mim, havia estudado. Tudo aquilo em que era ignorante continuava a ser mais possibilidade do que fracasso, e cada gesto em que empreendia revelava-se, em primeiro lugar, uma celebração da vida. Como não gostar de estar ali, a gozar o eco daquela cidade solitária, a namoriscar aquela rapariga chegada do outro lado do mundo, a aconchegar-me naquele hotel confortável onde me serviam snacks de queijos, lentilhas e pão de centeio preto?

Entretanto, macei-me com os hotéis. Percorri a Europa, atravessei a América, fui a África e ao Médio Oriente, corri as ilhas portuguesas e aquelas que já o foram – dormi em tantos tipos de hotel, com tantas condições diferentes, que perdeu a magia. Os hotéis tornaram-se todos iguais, indistintos. Se tinham gente, tinham demasiada gente. Se estavam vazios, estavam demasiado vazios. Às vezes eram sobretudo ruído, outras solidão, frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Andei assim anos: a simples ideia de sair de casa era-me pesada. Restavam-me saudades, necessidades, obrigações. Fazia a mala, a Catarina dizia: “Já vais embora outra vez?” e eu respondia, para a divertir: “Só para poder voltar…” A verdade é que nada me impelia a partir. As noites eram intermináveis. Não me apetecia passear pelas cidades, nem ver os pornos do hotel, nem sequer namoriscar as raparigas. Comia no primeiro restaurante, bebia a primeira bebida e metia-me na cama a olhar o tecto. Chegava a dar por mim falar ao telefone, tal o o abandono.

Não sei exactamente o que mudou, mas talvez tenha sido o número de solicitações. Nestes últimos dois ou três anos, voltei a gostar de hotéis. Ainda há pouco, numa pequena vila de uma ilha vizinha: fui jantar com uns amigos, eles trouxeram-me de volta ao hotel, já algo bebidos todos, e a última coisa que me ocorreu foi ir para a cama. Entrei, vesti um casaco mais resistente, desliguei o telemóvel e tornei a sair para a noite, a ouvir os meus passos sobre o asfalto.

Não encontrei vivalma, umas boas duas horas a caminhar sozinho, com a Montanha de um lado e o Canal do outro. Mesmo assim, em nenhum instante me senti só ou sequer aborrecido.

Agora, é assim. Os turistas vogando em volta, tirando fotografias e selfies. As conversas tontas, bem intencionadas. As línguas que se misturam até não sermos capazes de dizer onde acaba uma e começa a outra. A cidade que acorda buliçosa, e que se espraia pela tarde numa modorra, e que adormece fria e triste. O anonimato. E o hotel, claro. Grande ou pequeno, agora. Confortável ou de ocasião. Ficar a ler até desoras. Assistir a uma série inteira no telemóvel, sem chegar a sair de debaixo dos lençóis. A deferência dos recepcionistas e a descrição dos barmen e a cumplicidade dos taxistas – voltou a encantar-me, tudo isso.

A única coisa que agora me entusiasma mais do que pensar no hotel em que vou ficar, ao sair de casa, é pensar no avião que vou apanhar. Já tive todos os tipos de relação com os aviões. Já me excitei com o destino que me esperava, já tive medo das condições atmosféricas e da perícia do piloto na aterragem. Hoje, não subo a bordo nem entusiasmado com o que me espera do outro lado nem em pânico perante a possibilidade de não chegar lá. Ponho os headphones nos ouvidos e agradeço à vida que me proporcione estar ali cinco horas, duas horas, meia hora que seja, nestes aviõezinhos da SATA com que voamos às cambalhotas entre as ilhas, a ouvir um bom disco e a ler um bom livro sem ter de prestar contas de nada nem de ninguém.

Silêncio. Um momento para respirar – um homem aprende a pedir cada vez menos, ao longo da vida. E o resto, sim, fá-lo isso de ter um lugar para onde deseja realmente voltar.

Foto: © António Araújo

Uma fogueira na escuridão

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Crónica

Numa noite de Outono, convidámos amigos para jantar. Havia pizzas, várias garrafas de vinho e, no fim, uma fogueira acesa à nossa espera no jardim. Cortaram-se os ramos mais baixos da acácia, que há anos ameaça cair (e nunca cai), deitou-se a lenha para dentro de um anel de cimento, criado para isso mesmo, e o milagre aconteceu.

Não o da chama, que é antigo, mas o de estarmos ali. Sem outra agenda que não essa. Não sei quanto tempo a noite durou. Quanto tempo ainda vai durar. Mas sei de conversas começadas que ninguém chegou a terminar. Das vozes sobrepostas. De silêncios reais. A que lugar interior vamos buscar uma verdade, um fragmento de filosofia, que se equipare ao gozo primitivo de estarmos juntos, à beira do fogo? É uma coisa ancestral, anterior à palavra.

E nisso reside a intimidade – no que fica por dizer.

Lembro-me de outras fogueiras, noutros momentos. Eu tinha menos vinte anos e estava no Marvão. No meio de uma praça deserta, um grupo de homens calados, de mãos nos bolsos, reunira-se à volta de um grande tronco em chamas. Era a véspera de ano novo e foi assim que passaram a meia-noite: em silêncio, a ver arder.

Na altura, impressionou-me. Depois, percebi: não havia nada a acrescentar. Só aquele respeito, quase solene, pelos dias que passaram, irrecuperáveis. O tronco ardia e, com ele, o ano que findava. As coisas que tinham feito, o que ficara por fazer. As lutas que haviam travado, as que deixaram morrer. Os dias de pecado, e os de cobardia. As mentiras, e a verdade – tão inútil como a mentira. Os triunfos desse ano moribundo – durante quanto tempo os terão enganado? E essa noite, igual às outras, em que decidiram que tudo ia mudar?

O tronco ardia e era mais um dia que eles recordavam. O tronco ainda ardia, e era mais um dia que os silenciava.

Nesse pequeno éden, tão eterno e perecível, que é o jardim da Terra Chã, jovens citam Camões, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes… «Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure…» E pensamos nós, passados os quarenta, que os clichés da nossa infância ainda os iluminam. Mas hoje, quem tem vinte anos, já nem os heterónimos podem salvar. O Sensacionismo é uma inocência. A Ode Triunfal uma relíquia. Que Deus não exista já não os inquieta.

Porque há uma liberdade que eles perseguem – e que se recusam a herdar.

A escuridão à volta da fogueira leva-nos parte da cara, do corpo, até desistirmos de nos vermos melhor. No fundo, já sabemos tanto. Quase não seria preciso saber mais. Adivinho as encruzilhadas, os caminhos onde ainda nos perdemos, aqueles por onde nos deixamos levar. E há nisto uma lassidão que não chega a ser tédio, como se, por momentos, o mundo nunca tivesse sido tão finito, e a aventura fosse um outro mito apenas.

Resta-me a memória dos vinte, esses que não nos largam, como um fogo que não perdoa, uma vontade abstracta de recomeçar. E, no entanto, nós sabemos. Sabemos que ninguém, de facto, recomeça. A cada dia que passa, somos cada vez mais os mesmos. A adiar.

O alcatrão derretido sob o olival

Crónica

Joel Neto

“Felicidade diferente de alegria?!”, estranhou ele. Riu-se, como se tudo pudesse ser ainda uma piada cúmplice entre nós: “Não ‘tou te entendendo. O que é que você quer dizer com isso, felicidade é uma coisa e alegria é outra?” – e eu fiquei ali, a pensar na possibilidade de também isso ter a ver com o desastre Bolsonaro, talvez como efeito, talvez como causa.

Contei-lhe a minha história também. Muitos dos meus amigos brasileiros iam votar Bolsonaro. Todos os meus amigos brasileiros protestantes, tanto os do protestantismo bom como os do protestantismo mau, iam votar Bolsonaro. E eu não queria fazer juízos morais sobre isso, apesar da tentação. Mas não deixava de me sentir inquieto perante a evidência de que, ao contrário do que sempre quisera acreditar, o humanismo que me esforçava por cultivar, aquele que talvez tivesse persistido em mim mesmo quando eu me empenhara tão determinada e estupidamente em resistir-lhe, não vinha afinal da minha formação protestante.

“De repente”, suspirei, “é como se tivesse estado mais certo na adolescência rebelde e contestatária do que na maturidade serena e conciliadora. Talvez deva mesmo ser assim. Mas, de qualquer maneira, esta eleição, para mim, não é só sobre a fragilidade original da democracia face ao imperativo da segurança, a experiência da corrupção ou o impulso do ódio: é também sobre a verdade e a mentira no modo como, para nosso próprio apaziguamento, forjamos a memória da juventude.”

Ele meneou a cabeça, numa anuência branda. Levou a mão às frontes, mais uma vez. Andava com enxaquecas há semanas, coisa que logo no princípio do jantar anunciara como uma reacção antecipada à vitória do fascismo. Afinal, estávamos a menos de 24 horas da abertura das urnas da primeira volta – o mais natural era que a dor estivesse ao rubro. Mas, inesperadamente, aquilo em que se deteve foi na felicidade e na alegria, como se eu devesse ter mais cuidado com a minha ideia: “Diferentes. Não percebo…”

Isto foi em Óbidos, no fim-de-semana. Quase todos os anos vou ao Fólio, e este não foi diferente. Durante dois dias, percorri o empedrado, revi amigos, discuti literatura. O Luís levou-me uma garrafa de vinho e o pai da Pipa – nunca se esquece – uma ginjinha das dele. Entretanto, revi a Gisele, conheci a Patrícia, acertei pendentes com o João e a Ana Margarida, pedi ao Afonso que me explicasse tudo sobre o Scrivener, agradeci a generosidade indefectível da Maria João, conversei longa e cumplicemente com a Ana Cristina. Mas em nenhum momento voltou a sair-me da cabeça aquele homem que as sortes do jantar tinham colocado à minha frente: aquele brasileiro grande e elegante, intelectual, bem de vida – e, apesar disso, confuso com a hipótese de a infelicidade conviver com a mais retumbante alegria (e vice-versa).

Fez-me lembrar um daqueles nova-iorquinos do Woody Allen, sobretudo os dos anos 80 e 90, tão desejosos de encontrar um problema que acabavam por encontrá-lo realmente. Com a diferença de que a confusão dele não parecia apenas uma auspiciosa perspectiva de depressão, mas uma verdadeira perplexidade, como se se tratasse antes de um filme de ficção científica e houvessem espetado um garfo nas costas do robô, petrificando-o num curto-circuito cheio de luzinhas verdes.

Agora estou em Torres Novas, e é com a alegria de um regresso a casa que aqui volto. Já não passava um dia inteiro nesta cidade há quase 40 anos, mas houve um tempo em que, inclusive, vivi aqui. O meu pai cresceu aqui. Apesar de nascido nas ilhas, algumas das minhas primeiras memórias são deste rio e deste castelo ensolarado e deste cheiro a alcatrão derretido sob o olival. E, embora acabe sempre por ir a onde me convidam, mentiria se dissesse que vou a todo o lado com o mesmo entusiasmo com que venho hoje aqui, visitar os leitores e passear pelos lugares da infância sobre que julgo ainda guardar alguma recordação.

De maneira que o Abílio me leva por eles: a tarambola do Almonda, a rua onde o tio Manuel Jorge tinha a retrosaria, o bairro de Valverde onde vivia o tio Alfredo, a fábrica de álcool onde agora está um centro comercial sobredimensionado, com metade das lojas por alugar. E o Nicho, claro. A casa onde vivemos. A Santa da Ladeira, ali mesmo ao lado. O Ritonicho. O pinhal que já não existe, a curva onde o cabeleireiro se dobrava sobre a carrinha do leite para pedir um iogurte Longa Vida, o campo de argila para onde o vento levou o meu pára-quedista de brincar (e que, aparentemente, também já desapareceu).

Foi um tempo importante para mim, aquele. As pessoas – lembro-me – diziam: “A ‘inha casa é branca”, ou: “O peixe está todo a desaparecer do’ rios.” Creio que foi a primeira vez que pensei nas palavras. Entretanto, o terramoto da Terceira interrompeu a estada, acrescentando-lhe dramatismo a ela e redenção a ele – sabe-me bem lembrar tudo isso, salvo que não me sai da cabeça a estupefacção do meu novo amigo, que tem dores de cabeça porque Bolsonaro vai ser eleito presidente do Brasil, mas nunca tinha pensado na possibilidade de alegria e felicidade serem palavras diferentes, que significam coisas diferentes e até, às vezes, opostas.

Pergunto-me qual das duas ele nunca terá experimentado, e esforço-me por recapitular o nosso jantar, na esperança de não encontrar uma gargalhada.

Foto: © António Araújo

No fundo do copo, amanhece

eu e melville

Crónica

São inesperados os lugares onde nos sentimos em casa. Duzentos metros mais abaixo, do lado esquerdo da rua, o café da freguesia, onde se vende aguardente às sete da manhã e onde ambos os venenos – o álcool que eles bebem, o café que eu peço – se respeitam.

Estamos de acordo quanto a isto: o café, tal como o bagaço, bebe-se de pé. São verticais. E se alguém de fora me puxa para uma mesa e eu, por cortesia, me sento, é como se o dia me entrasse pelo canal errado – e amanhecesse ao contrário. Não me levanto da mesa vencida, não desisti ainda, mas custa-me voltar a subir a rua na direcção da minha secretária e começo a imaginar como seriam as próximas horas – ou o tempo que me resta – se não o fizesse.

Talvez virando à esquerda, em vez de entrar pelo portão, eu fosse dar a uma estrada que ainda não conheço. Um caminho de terra batida que me conduzisse a uma outra casa, a uma outra vida. E talvez essa casa não existisse sequer nesta ilha, e não houvesse mar nenhum à volta. E a vista das janelas mais altas, ao subir uma longa escadaria, fosse a de uma cidade em tons de prata e sépia que se estendesse, como um réptil pré-histórico, até à linha do horizonte.

Talvez eu não fosse uma mulher de quarenta anos, nessa varanda sobre o deserto, mas uma anciã de oitenta. E o meu corpo já nem precisasse da força dos músculos para vencer a geografia. Talvez eu já tivesse feito as pazes com a ideia do meu desaparecimento e a fronteira entre o ser e o não ser se evaporasse no ar que respiro como a idade num copo de aguardente.

Antes das nove, na venda, não discuto outro tema se não a meteorologia. Quero saber se estava calor lá em cima, de madrugada, nos campos cerrados. Se corria alguma aragem na montanha, vinda do mar. Quero ouvir os homens ébrios que lá estiveram, decifrar metade, intuir o resto, procurar nas suas vozes roucas o que não os inquieta. O que os fez voltar.

No meio de uma conversa de circunstância, há alguém que me responde: «tentamos respirar». É cedo para tanto. Pago o meu café, espreito o céu que se adensa. Penso: nestes velhos lavradores que se despedem, há uma chama, um desalento. Há um destino que não cumpriram, um falso tormento. Escondem-me, como fantasmas, que eu, sem o saber, já sou um deles.

Como chamais a isto a que eu chamo viver?

Crónica

Joel Neto

“Mas também é preciso viver…”, insiste ele. Censura-me, a verdade é essa, e não está sozinho. Sentou-se à minha frente com queixas de outros elementos da família – que não apareço, que nem sequer falo ao telefone, que sou (isto não o diz, e talvez também não o pense) um sacana egoísta obcecado com o trabalho –, e eu chego a perguntar-me se devo de facto defender-me.

Devo-lhe muito, mas nem é por isso que o prefiro aos restantes tios. Por um lado, foi o primeiro da família (e o único até à sua geração), a estudar – à noite, de permeio com uma profissão exigente e competitiva, à custa de sacrifícios que nenhum de nós considerou. Por outro, a vida guardou-lhe os mais difíceis testes de força e de carácter, e ele respondeu-lhes com uma integridade quase sobre-humana.

Admiro-o, e, quando fui para Lisboa, nos alvores dos anos 90, enganava-me e chamava-lhe pai. Era natural, porque os dois são gémeos idênticos, aliás com larguras de gestos e tons de voz parecidos. Mas, principalmente, senti-me sob os cuidados de um pai, naquelas semanas em que me acolheu. Não poderei esquecer-me. De maneira que me defendo, realmente, mas com factores circunstanciais: inoportunidades, coincidências infelizes, mal-entendidos.

Estamos no Rocha, a comer uma telha de polvo, e ao nosso lado a Catarina e a Odete esforçam-se por se concentrar uma na outra. Suspiro: quem sabe não consigo ser melhor sobrinho, agora que chego à segunda metade da vida – melhor sobrinho e melhor primo e melhor tio e melhor irmão e melhor filho. E, no entanto, aquelas palavras continuam a reverberar em volta: “Também é preciso viver…”

Porque, aparentemente, não é viver, isto que faço: é trabalhar apenas – de dia e de noite, de semana e ao fim-de-semana, no computador e até na hora da mesa. E a Catarina (isto o meu tio também não diz, é demasiado cavalheiro para isso) não ajuda. Enfia a cabeça nos livros de manhã e só a tira à noite. Às vezes vai ao ginásio e, mesmo assim, volta para o trabalho.

Ocorre-me brincar: não se preocupe, tio, que a reforma já não vem longe – não tarda teremos tempo para tudo. Mas, entretanto, lembro-me de ainda ontem ter visto o A., que foi colega do meu pai, a atravessar a Rua da Sé. Vi-o na passadeira à minha frente e parei diligentemente o automóvel. Ele meneou a cabeça e, olhando para o interior do carro, a perscrutar a identidade do motorista, chegou-se para trás e mandou-me passar a mim.

Nem me reconheceu: fez simplesmente um gesto com o braço, a mandar-me passar, porque tinha toda a prioridade mas nenhum compromisso. Entristeceu-me imenso, e imaginei-me a mim próprio a mandar passar os carros, já velho – sem horas para estar em lado nenhum, sem uma frase para escrever ou um parafuso para apertar ou um apêndice para extrair.

Creio que foi por isso que deixei de fumar: porque gostaria de não ter de viver assim, um dia. E que passei a pôr-me aos saltos ao final da tarde, e que comecei a comer alface: para, se de facto chegar à reforma, haver ao menos uma possibilidade de não ter de atravessá-la a mandar passar os carros – como aquele homem também não tem de fazer, mas faz porque quer, ou porque está deprimido.

Quero uma reforma saudável ou reforma nenhuma. Para que me serviria ela, no fundo, se não para trabalhar melhor?

De maneira que, quanto ao meu tio, me fiquei pelas inoportunidades. Ademais, tenho as pazes feitas com o inevitável. Primeiro, já não vou ser melhor pessoa. Depois, li o suficiente sobre a vida dos escritores, e mesmo que não tivesse lido sobre a vida deles tinha lido os seus livros: nunca um escritor deu um grande homem de família.

O resto não é fácil explicar a alguém que traz tão boas intenções, mas a verdade é que a família está quase sempre na origem das melhores e das piores coisas da vida – de todas as vidas. No fundo, aliás, é aí que o escritor estará sempre: às voltas na família. Ela julgá-lo distante, até alheado, não só faz parte do processo, mas chega a ser necessário. E, entretanto, trabalhemos, que ainda não vi melhor maneira de viver.

Foto: © António Araújo